O livro Repressão Sociedade Anônima, dos jornalistas Eduardo Reina e Maria Angélica Ferrasoli, reconstitui como cinco montadoras do ABC Paulista colaboraram com a repressão durante a ditadura militar (1964 a 1985). Lançada nesta semana em São Paulo pela Editora Alameda, a obra é resultado de três anos de pesquisa em arquivos e de entrevistas com ex-trabalhadores.
As empresas investigadas são Mercedes-Benz, Volkswagen, General Motors, Scania e Ford. Segundo os autores, a cooperação ia do dinheiro entregue à polícia política à presença de militares e informantes dentro das fábricas. Para os operários, o resultado era vigilância, fichamento, demissão, prisão e, em alguns casos, tortura.
O subtítulo, O papel de banqueiros e industriais na ditadura militar, mostra que a pesquisa também passa por bancos e metalúrgicas. O foco, porém, está no Grande ABC, que na época era o principal polo metalúrgico do país.

Uma das descobertas saiu dos livros de registro do Dops (Departamento de Ordem Política e Social, a polícia política do regime), na antiga sede do Largo General Osório, no centro de São Paulo. Numa lista de ramais telefônicos, os autores encontraram o de um estande de tiro e, a partir dele, os pagamentos das empresas. “E descobrimos que algumas empresas financiavam equipamentos para esse estande de tiro tais como munições e até compra de protetor auricular. O protetor auricular era a GM quem financiava”, disse Reina em entrevista à Agência Brasil.
Ferrasoli descreve outro mecanismo: os arapongas, informantes que se misturavam aos operários para identificar quem fazia reivindicações. Bastava participar de uma greve, mesmo sem ligação com partidos de oposição, para entrar numa lista compartilhada entre as empresas. “Essa lista, que hoje a gente chama de lista suja, era espalhada para várias outras empresas, então ele nunca mais conseguia emprego”, contou a pesquisadora.
O livro também localiza um braço do Dops em São Bernardo do Campo, a três ou quatro quadras da sede do sindicato, que os autores chamam de “Dopinho do ABC”. Segundo Reina, trabalhadores, integrantes de movimentos eclesiais de base e de associações de bairro foram presos e torturados ali, entre eles um menor de idade.
Outros capítulos tratam das condições de trabalho. Reina afirma que, em 1975, houve dia com mais de cinco mil acidentes de trabalho registrados no Brasil, número que considera subestimado porque a fiscalização estava nas mãos do regime. Ferrasoli entrevistou mulheres que começaram nas fábricas aos 12 ou 13 anos e relataram tempo cronometrado no banheiro e cotas de papel higiênico controladas pelos chefes.
O caso da Volkswagen já tinha sido documentado antes. Em 2015, com base em depoimentos reunidos pela Comissão Nacional da Verdade, o Ministério Público de São Paulo abriu procedimento para investigar a colaboração de empresas com a ditadura. Em 2017, a própria montadora contratou o historiador alemão Christopher Kopper, da Universidade de Bielefeld, cujo relatório concluiu que a VW do Brasil foi “irrestritamente leal ao governo militar”. Em setembro de 2020, a empresa assinou com os Ministérios Públicos Federal, de São Paulo e do Trabalho um termo de ajustamento de conduta de R$ 36,3 milhões, com R$ 16,8 milhões destinados a ex-funcionários e o restante a projetos de memória e pesquisa.
Procuradas pela Agência Brasil, as cinco montadoras não se manifestaram até a publicação da reportagem. Em notas enviadas aos autores, a Volkswagen citou o acordo com o Ministério Público e afirmou ter sido a primeira empresa estrangeira a reavaliar sua história no período; a Scania disse repudiar qualquer violação de direitos humanos e informou não guardar documentos da época; a Mercedes-Benz declarou não ter identificado evidências de apoio à ditadura; e a GM negou envolvimento com ações repressivas. A Ford não respondeu aos autores.
Para os pesquisadores, ainda há muito a investigar, principalmente sobre a participação de empresas públicas. “Eu acredito que a ditadura sobreviveria [sem a participação empresarial]. Mas ela sobreviveu de uma forma muito mais escalonada com a participação dessas empresas”, disse Ferrasoli.
Eduardo Reina já havia investigado o período em Cativeiro sem fim (Alameda, 2019), sobre crianças sequestradas e adotadas ilegalmente durante a ditadura. Maria Angélica Ferrasoli, jornalista que atua no ABC, publicou em 2025 o livro de contos Rexistências.
Repressão Sociedade Anônima está à venda na loja da Editora Alameda, com preço de capa de R$ 109.
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