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A morte de Euclides da Cunha: o autor de Os Sertões e a Tragédia da Piedade

Montagem com retratos em preto e branco de Euclides da Cunha, de bigode e terno, e Dilermando de Assis, de óculos e farda militar, protagonistas da Tragédia da Piedade
Euclides da Cunha (à esquerda) e Dilermando de Assis, já em farda de oficial do Exército, os dois homens da Tragédia da Piedade, em 1909 (Reprodução)

A morte de Euclides da Cunha aconteceu na manhã de 15 de agosto de 1909. Naquele dia, o autor de Os Sertões e membro da Academia Brasileira de Letras entrou armado numa casa no bairro da Piedade, no subúrbio do Rio de Janeiro. Queria matar o homem com quem sua mulher, Ana, mantinha um caso. Saiu de lá morto, aos 43 anos.

O episódio ficou conhecido como a Tragédia da Piedade. Foi um dos crimes mais comentados da Primeira República e teve um segundo ato sete anos depois, quando um filho do escritor tentou vingar o pai e também morreu.

A história mistura literatura, Exército, tribunais e um triângulo amoroso que o Rio acompanhou pelos jornais durante anos.

Quem era Euclides da Cunha em 1909

Euclides da Cunha nasceu em 1866, em Cantagalo, no estado do Rio de Janeiro. Com formação militar e em engenharia, trabalhou como engenheiro e jornalista. Em 1897, foi enviado pelo jornal O Estado de S. Paulo para cobrir a Guerra de Canudos, no sertão da Bahia.

Dessa experiência nasceu Os Sertões, publicado em 1902. O livro mistura geografia, história e reportagem para contar o massacre do arraial de Antônio Conselheiro pelo Exército. Fez de Euclides um dos intelectuais mais respeitados do país e o levou à Academia Brasileira de Letras, para a qual foi eleito em 1903.

Em 1890, ele havia se casado com Ana Emília Ribeiro, filha de um militar. Entre 1904 e 1906, passou longos meses longe de casa, chefiando uma expedição de reconhecimento do Alto Purus, na Amazônia. Foi nesse período que Ana se envolveu com Dilermando de Assis, um jovem cadete do Exército nascido em 1888, em Porto Alegre.

O que aconteceu na casa da Piedade

Montagem com retratos em preto e branco de Euclides da Cunha, de bigode e terno, e Dilermando de Assis, de óculos e farda militar, protagonistas da Tragédia da Piedade
Euclides da Cunha (à esquerda) e Dilermando de Assis, já em farda de oficial do Exército, os dois homens da Tragédia da Piedade, em 1909 (Reprodução)

Em agosto de 1909, Ana estava na casa onde Dilermando morava com o irmão, Dinorah de Assis, na Estrada Real de Santa Cruz, no bairro da Piedade. Na manhã do dia 15, um domingo, Euclides foi até lá com um revólver.

Segundo os relatos do processo, o escritor entrou atirando. Acertou Dilermando três vezes e feriu Dinorah, que era jogador do Botafogo. Dilermando, que tinha treinamento militar, reagiu com dois disparos e matou Euclides ali mesmo.

Dilermando tinha 21 anos. Dinorah ficou com sequelas graves dos ferimentos.

O julgamento e a absolvição

O caso foi a júri e dividiu a opinião pública. De um lado, a morte de um dos maiores escritores do país. Do outro, a prova de que Euclides havia chegado armado e atirado primeiro.

Ainda em 1909, o inquérito policial concluiu que Dilermando havia agido para se defender. Os jornais, porém, trataram o caso como um escândalo nacional. A imprensa acompanhou cada etapa da investigação e do processo.

Dilermando foi absolvido por legítima defesa, ou seja, o tribunal entendeu que ele matou para não morrer. Poucos dias depois da absolvição, em maio de 1911, ele se casou com Ana. O casal teve filhos e ficou junto até 1926, quando se separou.

O segundo ato: o filho de Euclides

A tragédia não terminou em 1909. Em 4 de julho de 1916, Euclides da Cunha Filho, conhecido como Quidinho, então com 22 anos e aspirante da Marinha, encontrou Dilermando no fórum do Rio de Janeiro e atirou nele pelas costas.

Ferido, Dilermando reagiu de novo e matou o rapaz. Mais uma vez, foi julgado e absolvido por legítima defesa, como mostra a reconstituição do caso publicada pelo Jornal Opção. Ana perdeu o marido e o filho para o mesmo homem, com quem estava casada.

O que aconteceu com Dilermando de Assis

Dilermando seguiu carreira no Exército e chegou a general. Também trabalhou como engenheiro e dirigiu órgãos técnicos do governo de São Paulo, como o departamento de estradas de rodagem.

Passou o resto da vida tentando se defender da fama de assassino de Euclides da Cunha. Em 1951, ano de sua morte, publicou o livro A Tragédia da Piedade, em que reúne documentos do processo para sustentar a tese de legítima defesa.

Por que a história ainda desperta interesse

A morte de Euclides da Cunha virou tema de livros, reportagens, peças de teatro e produções para TV. Parte do fascínio vem do contraste: o homem que escreveu a obra mais famosa sobre a violência no sertão morreu num crime passional, no subúrbio da capital.

A versão mais conhecida do público chegou pela televisão em 1990, com a minissérie Desejo, da TV Globo, escrita por Glória Perez. Tarcísio Meira interpretou Euclides da Cunha, e Vera Fischer viveu Ana. A produção levou a história a uma geração que só conhecia o escritor pelos livros didáticos.

O caso também mostra como a sociedade da época tratava honra, adultério e reputação. Para muitos contemporâneos, Euclides era vítima. Para a Justiça, foi o agressor. Mais de um século depois, Os Sertões continua presente nas listas de leitura de vestibulares, e o nome do autor segue ligado tanto à obra quanto ao drama da casa da Piedade.

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