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Truman Capote e Harper Lee: os vizinhos de infância que viraram personagens um do outro

Harper Lee e Truman Capote sorriem lado a lado em uma fotografia em preto e branco, ela de suéter claro e ele de suéter escuro com gola branca. Os dois foram amigos de infância em Monroeville, no Alabama.
Harper Lee e Truman Capote: vizinhos de infância, parceiros na pesquisa de A Sangue Frio. Imagem: Truman Capote Literary Trust/New York Public Library/Reprodução.

Truman Capote e Harper Lee cresceram lado a lado, como vizinhos, numa cidadezinha do Alabama. Anos depois, cada um transformou o outro em personagem: Capote inspirou o menino Dill de O Sol é para Todos, e Lee virou a garota Idabel no primeiro romance do amigo.

A amizade atravessou décadas e rendeu uma colaboração decisiva. Lee acompanhou Capote na investigação que deu origem a A Sangue Frio, um dos livros mais influentes do jornalismo literário. Capote nasceu em 30 de setembro de 1924, há 102 anos, e a história dos dois continua sendo uma das parcerias mais curiosas da literatura americana.

Dois vizinhos em Monroeville

Harper Lee e Truman Capote sorriem lado a lado em uma fotografia em preto e branco, ela de suéter claro e ele de suéter escuro com gola branca. Os dois foram amigos de infância em Monroeville, no Alabama.
Harper Lee e Truman Capote: vizinhos de infância, parceiros na pesquisa de A Sangue Frio. Imagem: Truman Capote Literary Trust/New York Public Library/Reprodução.

Truman Capote nasceu em Nova Orleans com o nome de Truman Streckfus Persons. Depois da separação dos pais, foi mandado ainda pequeno para Monroeville, no Alabama, onde passou alguns anos criado por parentes da mãe. O sobrenome Capote veio mais tarde, do padrasto.

A casa dos parentes ficava ao lado da família Lee. Nelle Harper Lee, nascida em 1926 na mesma cidade, era uma menina ousada, que brigava com os garotos e não se encaixava no papel esperado das meninas. Truman era franzino, falante e vestia roupas que chamavam atenção na cidade pequena.

Os dois se tornaram inseparáveis. Capote contou em entrevistas que Lee era sua melhor amiga e que, crianças, os dois costumavam assistir a julgamentos no tribunal da cidade. O pai de Lee, Amasa Coleman Lee, era advogado, e biógrafos contam que ele deu às crianças uma máquina de escrever, na qual inventavam histórias juntos.

Um personagem no livro do outro

Capote publicou primeiro. Em Other Voices, Other Rooms (1948), seu romance de estreia, aparece Idabel, uma garota de jeito masculino, direta e corajosa. A personagem foi diretamente inspirada em Harper Lee.

Doze anos depois, em 1960, Lee lançou O Sol é para Todos (To Kill a Mockingbird). O livro é narrado por Scout, uma menina que vê o pai, o advogado Atticus Finch, defender um homem negro injustamente acusado no Sul segregado dos Estados Unidos.

No verão, Scout e o irmão ganham a companhia de Dill, um menino que passa as férias com a tia, na casa vizinha. Dill é inspirado em Truman Capote: pequeno, cheio de imaginação e com histórias sobre um pai ausente. O próprio Atticus tem muito do pai de Lee.

O Sol é para Todos ganhou o Prêmio Pulitzer em 1961 e se tornou um dos livros mais lidos do século XX, adotado em escolas do mundo inteiro.

A viagem ao Kansas e A Sangue Frio

Em novembro de 1959, uma família de fazendeiros, os Clutter, foi assassinada em Holcomb, no Kansas. Capote leu a notícia no jornal e decidiu escrever sobre o crime. Em dezembro, viajou para a cidade e levou Harper Lee como assistente de pesquisa.

A ajuda dela foi fundamental. Capote, com seu jeito extravagante, causava desconfiança nos moradores do interior. Lee conquistou a confiança da comunidade, fez amizade com as esposas dos entrevistados e tomou notas detalhadas das conversas.

O resultado foi A Sangue Frio, publicado em partes na revista The New Yorker em 1965 e em livro em 1966. Capote chamou a obra de “romance de não ficção”: um relato real contado com técnicas de romance, como cenas, diálogos e mudança de ponto de vista. O livro ajudou a consolidar o chamado jornalismo literário. A dedicatória homenageia duas pessoas: o companheiro de Capote, Jack Dunphy, e Harper Lee.

Por que a amizade esfriou

Depois de 1966, os dois se afastaram. Biógrafos apontam vários motivos. Lee teria ficado magoada por não receber mais crédito pela pesquisa de A Sangue Frio. Capote, por sua vez, nunca ganhou o Pulitzer que a amiga conquistou com seu romance que, por décadas, foi seu único publicado.

Surgiu também um boato persistente: o de que Capote teria escrito ou reescrito O Sol é para Todos. Nunca houve prova disso, e pesquisadores da obra de Lee consideram o boato sem fundamento.

Capote morreu em 25 de agosto de 1984, em Los Angeles, aos 59 anos. Lee passou a maior parte da vida longe da imprensa e morreu em Monroeville, em 19 de fevereiro de 2016, aos 89. Um ano antes, havia publicado Go Set a Watchman, escrito antes de O Sol é para Todos e apresentado como uma espécie de continuação.

A amizade no cinema

A relação dos dois chegou às telas em dois filmes sobre a produção de A Sangue Frio. Em Capote (2005), Philip Seymour Hoffman viveu o escritor e ganhou o Oscar de melhor ator; Catherine Keener interpretou Harper Lee. Um ano depois, Infamous (2006) trouxe Toby Jones como Capote e Sandra Bullock como Lee.

Os dois filmes mostram o que os livros já indicavam: Monroeville deu à literatura americana dois autores muito diferentes. Um se tornou celebridade das festas de Nova York; a outra preferiu o silêncio da cidade natal. Mesmo assim, cada um guardou o outro dentro da própria obra.

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