Em 1859, uma professora do interior do Maranhão publicou um romance que dava voz a pessoas escravizadas numa época em que quase ninguém fazia isso. O livro era Úrsula, e a autora, Maria Firmina dos Reis. Pouco depois, o romance sumiu das estantes e da memória literária do país. Só voltou a circular mais de cem anos depois, graças a um exemplar encontrado por acaso num sebo do Rio de Janeiro.
A história de Úrsula e de Maria Firmina dos Reis é um retrato de como a literatura brasileira apagou, por muito tempo, autoras mulheres e negras. E também de como esse apagamento começou a ser corrigido.
Quem foi Maria Firmina dos Reis
Maria Firmina dos Reis nasceu em São Luís, no Maranhão, em 11 de março de 1822. Por muitos anos, livros e homenagens citaram 1825 como o ano de nascimento. A data mais antiga foi confirmada em 2017 pela pesquisadora Dilercy Aragão Adler, com base em documentos do Arquivo Público do Maranhão.
Ela cresceu na vila de Guimarães, no interior do estado, e foi em grande parte autodidata. Em 1847, aos 25 anos, foi aprovada em concurso público para professora de primeiras letras, algo raro para uma mulher negra no Brasil escravista. Lecionou por mais de três décadas.
Um romance assinado por “Uma Maranhense”
Úrsula saiu em 1859, pela Typographia Progresso, em São Luís. A capa não trazia o nome da autora, apenas a assinatura “Uma Maranhense”. No prólogo, ela apresenta a obra com modéstia, como era comum entre escritoras da época: “Mesquinho e humilde livro é este que vos apresento, leitor”.
À primeira vista, o enredo segue o modelo do Romantismo brasileiro: um amor impossível entre o jovem Tancredo e Úrsula, ameaçado por um vilão cruel. O que torna o livro diferente são os personagens negros. Túlio, homem escravizado que salva a vida de Tancredo, é descrito com dignidade e consciência de sua condição. E a velha Susana, num capítulo que leva seu nome, narra em primeira pessoa como foi capturada na África e trazida ao Brasil num navio negreiro.
Por isso, Úrsula é considerado por muitos pesquisadores o primeiro romance abolicionista do Brasil. Ele saiu 16 anos antes de A Escrava Isaura, de Bernardo Guimarães, e numa perspectiva bem diferente: em vez de uma heroína branca escravizada, apresenta a escravidão pelos olhos de quem a viveu.
Por que o livro foi esquecido
O esquecimento de Úrsula tem várias causas. A obra saiu numa gráfica provinciana, longe da Corte, e a autora assinou com pseudônimo. Os críticos que organizaram a história da literatura brasileira no fim do século XIX e no início do XX não deram atenção ao romance.
Maria Firmina continuou escrevendo. Publicou em jornais maranhenses o conto indianista Gupeva, lançou o livro de poemas Cantos à Beira-Mar, em 1871, e em 1887 publicou o conto A Escrava, outro texto abertamente contra a escravidão. Também compôs músicas.
Já perto do fim da carreira, fundou em Maçaricó, povoado de Guimarães, uma escola mista e gratuita, que reunia meninos e meninas na mesma sala. A escola funcionou por cerca de dois anos e meio. Maria Firmina dos Reis morreu em Guimarães em 11 de novembro de 1917, aos 95 anos, cega e pobre, na casa de uma mulher que havia sido escravizada.
O exemplar do sebo
A virada aconteceu em 1962. O historiador paraibano Horácio de Almeida encontrou um exemplar de Úrsula num sebo do Rio de Janeiro. Intrigado com o livro de uma autora desconhecida, ele passou a investigar sua origem.
Em 1975, o romance ganhou uma edição fac-similar, isto é, uma reprodução fotográfica da edição original, com prefácio de Horácio de Almeida. No mesmo ano, o pesquisador maranhense José Nascimento Morais Filho publicou Maria Firmina: fragmentos de uma vida, reunindo textos dispersos da autora em jornais e depoimentos de quem a conheceu. Foi o início da recuperação de sua obra.
O retrato que não é dela

Um detalhe curioso mostra como a memória de Maria Firmina ainda é frágil. Não se conhece nenhuma fotografia da escritora. Mesmo assim, durante anos circulou em livros, sites e até homenagens oficiais o retrato de uma mulher branca, identificada como Maria Firmina. A imagem, na verdade, é da escritora gaúcha Maria Benedita Bormann, sua contemporânea.
O erro passou a ser apontado por pesquisadores e leitores, e hoje muitas instituições usam ilustrações ou deixam claro que não existe retrato conhecido da autora.
Do esquecimento às homenagens
Nas últimas décadas, Úrsula passou a ser reeditado por várias editoras e estudado em universidades. Em 2019, Maria Firmina ganhou um Doodle do Google. Em 2020, o romance chegou aos leitores de língua inglesa, numa tradução publicada nos Estados Unidos pela Tagus Press. Em 2021, o Google batizou de Firmina um cabo submarino de internet que liga as Américas. No Maranhão, 11 de março, dia do nascimento da autora, virou o Dia da Mulher Maranhense.
Hoje, a autora aparece com frequência em listas de leituras essenciais, como a nossa seleção de autoras e autores negros que você deve conhecer. Úrsula também figura entre os clássicos curtos para começar a ler.
Mais de 160 anos depois da primeira edição, o livro que quase desapareceu está em domínio público e pode ser lido gratuitamente, na íntegra, na plataforma do Literatura Online.
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