Pular para o conteúdo

Revista

Poemas

Ao Ator Joaquim Augusto, de Castro Alves

Este poema de Castro Alvos é dedicado a Joaquim Augusto, considerado à época o maior ator brasileiro e um dos pioneiros do teatro realista. Foi recitado pelo poeta ao término do primeiro ato de Gonzaga, no Theatro São José, em 25 de outubro de 1868.

Ao Ator Joaquim Augusto

Um dia Pigmalião — o estatuário
Da oficina no tosco santuário
Pôs-se a pedra a talhar…
Surgem contornos lânguidos, amenos…
E dos flocos de mármore outra Vênus
Surge dest’outro mar.

De orgulho o mestre ri… A estátua é bela!
Da Grécia as filhas por inveja dela
Vão nas grutas gemer…
Mas o artista soluça “O Grande Jove!
“Ela é bela … bem sei— mas não se move!
“E sombra-e não mulher!”

Então do excelso Olimpo o deus-tonante
Manda que desça um raio fulgurante
À tenda do escultor.
Vive a estátua! Nos olhos — treme o pejo,
Vive a estátua!… Na boca-treme um beijo,
Nos seios — treme amor.

O poeta é — o moderno estatuário
Que na vigília cria solitário
Visões de seio nu!
O mármore da Grécia — é o novo drama!
Mas o raio vital quem lá derrama?…
É Júpiter!… És tu!…

Como Gluck nas selvas aprendia
Ao som do violoncelo a melodia
Da santa inspiração,
Assim bebes atento a voz obscura
Do vento das paixões na selva escura
Chamada — multidão.

Gargalhadas, suspiros, beijos, gritos,
Cantos de amor, blasfêmias de precitos
Choro ou reza infantil,
Tudo colhes… e voltas cotas mãos cheias,
—O crânio largo a transbordar de idéias
E de criações mil.

Então começa a luta, a luta enorme,
Desta matéria tosca, áspera, informe,
Que na praça apanhou.
Teu gênio vai forjar novo tesouro…
O cobre escuro vai mudar-se em ouro,
Como Fausto o sonhou!

Glória ao Mestre! Passando por seus dedos
Dói mais a dor… os risos são mais ledos…
O amor é mais do céu…
Rebenta o ouro desta fronte acesa!
O artista corrigiu a natureza! O alquimista venceu!

Então surges, Ator! e do proscênio
Atiras as moedas do teu gênio
As pasmas multidões.
Pródigo enorme! a tua enorme esmola
Cunhada pela efígie tua rola
Nos nossos corações.

Por isso agora, no teu almo dia,
Vieram dando as mãos a Poesia
E o povo, bem o vês;
Como nos tempos dessa Roma antiga
Aos pos desse outro Augusto a plebe amiga
Atirava lauréis…

Augusto! E o nome teu não se desmente…
O diadema real na vasta frente
Cinges… eu bem o sei!
Mandas no povo deste novo Lácio…
E os poetas repetem como Horácio

“Salve! Augusto! Rei!”

Viu um erro ou tem uma informação que complementa esta matéria? Fale com a redação.

Da notícia para a leitura

Leia livros grátis direto no navegador

Escolha uma obra, comece sem cadastro e continue de onde parou em qualquer dispositivo.