O poema “Flores”, de Auta de Souza, celebra a beleza delicada das flores ao amanhecer e as associa a imagens de pureza, inocência e espiritualidade.
A poetisa contempla diferentes flores (rosa, jasmim e violetas) comparando-as a anjos, crianças e sentimentos puros. Estão presentes temas como a espiritualidade na natureza, a inocência infantil, a contemplação e a relação entre o mundo natural e o divino.
Flores, de Auta de Souza
Quando começa a raiar
O dia cheio de amor,
Eu gosto de contemplar
O coração de uma flor,
Desmaiada e tremulante,
Pendendo triste no galho,
Tendo o pistilo brilhante
Embalsamado de orvalho:
A rosa só me parece,
Assim tão casta e sem véu,
Um anjo rezando a prece
Um’alma voando ao Céu.
Do jasmim puro e mimoso,
A corola embranquecida,
É como um seio formoso
De criança adormecida.
Esqueço-me, então, das horas
A contemplar estas flores,
As violetas, auroras,
Saudades, lindos amores.
1894
Análise do poema “Flores”, de Auta de Souza
Auta de Souza, em “Flores”, descreve um momento simples mas muito especial: observar flores logo pela manhã. Ela começa falando do amanhecer, aquele momento em que o sol está nascendo e tudo parece mais bonito e cheio de paz. É nessa hora que ela gosta de olhar bem de perto “o coração de uma flor”, ou seja, o centro ou a essência dela.
A imagem que ela cria é muito delicada. A flor está “desmaiada e tremulante”, como se estivesse cansada ou frágil, com gotinhas de orvalho brilhando. O orvalho é aquela água que aparece nas plantas de manhã cedo, quando ainda está frio. A poetisa usa a palavra “embalsamado”, que significa perfumado, mostrando que não é só a beleza visual que ela percebe, mas também o cheiro das flores.
Depois, Auta de Souza começa a fazer comparações que mostram como ela vê as flores. A rosa, toda molhada de orvalho e ainda fechada, parece para ela “um anjo rezando a prece” ou “um’alma voando ao Céu”. Essa comparação religiosa mostra que ela enxerga algo sagrado nas flores, como se elas fossem puras e inocentes como os anjos. A expressão “casta e sem véu” reforça essa ideia de pureza completa.
Na quarta estrofe, ela fala do jasmim, flor branca e perfumada. Para ela, o jasmim se parece com “um seio formoso / De criança adormecida”. Pode parecer uma comparação estranha, mas o que ela está fazendo é mostrar que o jasmim tem a mesma delicadeza, inocência e suavidade de uma criança dormindo. É uma imagem muito terna e carinhosa.
O poema termina revelando que Auta de Souza fica tão encantada observando as flores que até esquece do tempo passar. Ela menciona as violetas e usa palavras muito bonitas: “auroras, / Saudades, lindos amores”. Essas palavras não descrevem apenas as flores, mas também os sentimentos que elas despertam. “Auroras” faz pensar no amanhecer e em coisas novas; “saudades” traz a ideia de que as flores fazem lembrar de algo ou alguém querido; “lindos amores” mostra todo o afeto que ela sente por essas flores.
O mais interessante deste poema é como algo tão comum, nesse caso olhar flores de manhã, se transforma em uma experiência quase mágica. Para Auta de Souza, as flores não são só bonitas: elas são anjos, crianças dormindo, memórias e amor. Ela nos ensina que quando paramos para realmente observar a natureza com atenção e carinho, podemos encontrar beleza e significado profundo nas coisas mais simples.
