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Curiosidades

Edgar Allan Poe foi encontrado delirando e com roupas de outro homem, e sua morte segue sem explicação

Os últimos dias de Poe em Baltimore, as teorias sobre sua morte e o obituário de Griswold.

Retrato em preto e branco de Edgar Allan Poe, com cabelo escuro e ondulado, bigode fino e olhar direto para a câmera, vestindo colarinho branco e paletó escuro, sobre um fundo cinza. Ampliar a imagem de destaque
Retrato de Edgar Allan Poe. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Na tarde de 3 de outubro de 1849, um homem foi encontrado semiconsciente numa taverna de Baltimore, nos Estados Unidos, usada naquele dia como local de votação. Vestia roupas baratas que não eram suas e não conseguia explicar como tinha chegado ali. Era Edgar Allan Poe, o autor de “O Corvo”. Quatro dias depois, ele morreu num hospital da cidade, aos 40 anos, sem nunca contar o que aconteceu.

Mais de 175 anos depois, a causa da morte de Poe continua desconhecida. Não existe certidão de óbito, os registros do hospital se perderam e o principal relato sobre os últimos dias do escritor foi escrito pelo médico que o atendeu, anos depois e com versões diferentes. Desde então, pesquisadores já propuseram alcoolismo, fraude eleitoral, espancamento, raiva e até um tumor no cérebro.

O mistério combina com a obra de quem ajudou a criar o conto policial e aperfeiçoou o conto de terror. No Brasil, Poe foi lido por gerações a partir de duas traduções célebres de “O Corvo”: a de Machado de Assis, de 1883, e a de Fernando Pessoa, de 1924.

Os últimos dias de Poe

Poe saiu de Richmond, na Virgínia, de barco, em 27 de setembro de 1849, e chegou a Baltimore no dia seguinte. O plano era seguir para a Filadélfia e depois para Nova York, onde buscaria a tia e sogra, Maria Clemm. Ele estava noivo de Sarah Elmira Shelton, uma viúva rica de Richmond que tinha sido sua namorada na adolescência.

Entre 28 de setembro e 3 de outubro, não há nenhum registro confiável de onde Poe esteve. Ele reaparece no Ryan’s 4th Ward Polls, também chamado de Gunner’s Hall, uma taverna que funcionava como seção eleitoral. Um homem chamado Joseph W. Walker o reconheceu e mandou um bilhete ao médico Joseph E. Snodgrass, conhecido do escritor. A nota, preservada pela Edgar Allan Poe Society of Baltimore, dizia:

“Há um cavalheiro, bastante maltratado, nas urnas do 4º distrito de Ryan, que atende pelo nome de Edgar A. Poe e que parece em grande aflição. Ele diz que o conhece, e eu lhe asseguro que precisa de ajuda imediata.”

Poe foi levado ao Washington College Hospital. Segundo o médico John J. Moran, ele alternava momentos de lucidez com delírio e não conseguia dizer o que tinha acontecido com ele nem com suas roupas. Na véspera da morte, chamou repetidamente por um certo “Reynolds”, nome que nenhum pesquisador conseguiu identificar com segurança. Morreu na madrugada de domingo, 7 de outubro de 1849. Pela carta que Moran escreveu em novembro daquele ano, as últimas palavras foram “Senhor, ajude minha pobre alma”.

Jornais de Baltimore registraram a causa como “congestão do cérebro”, expressão genérica da época. Nenhuma certidão de óbito foi encontrada até hoje.

As teorias sobre a morte de Edgar Allan Poe

  • A explicação mais antiga é o álcool. Snodgrass, que era militante da causa contra a bebida, descreveu o escritor como vítima de uma bebedeira. Moran, anos depois, negou que Poe estivesse embriagado. Poe tinha fama de beber, e um médico de Nova York chegou a lhe dizer que uma lesão cerebral explicava suas reações ruins ao álcool.
  • A teoria mais citada é a do “cooping”, uma fraude eleitoral comum em Baltimore no século 19. Gangues sequestravam pessoas, trocavam suas roupas e as obrigavam a votar várias vezes no mesmo candidato, em seções diferentes, muitas vezes embebedando as vítimas. O fato de Poe ter sido achado numa seção eleitoral, em dia de eleição e com roupas de outra pessoa, sustenta essa hipótese, defendida desde a década de 1870.
  • Em 1996, o médico R. Michael Benitez, do Centro Médico da Universidade de Maryland, apresentou numa conferência médica a hipótese de raiva, com base nos sintomas descritos por Moran. A ideia ganhou repercussão nacional, mas não há registro de mordida de animal. Em 1999, o pesquisador Albert Donnay sugeriu intoxicação por monóxido de carbono do gás usado na iluminação; testes em fios de cabelo do escritor foram inconclusivos.
  • O escritor Matthew Pearl, autor de um romance sobre a morte de Poe, levantou a hipótese de tumor cerebral. Quando o corpo foi exumado em 1875 para ser transferido a um novo túmulo, trabalhadores viram uma massa solta dentro do crânio, que os jornais da época chamaram de cérebro. Segundo a Smithsonian Magazine, um patologista forense consultado por Pearl disse que a massa poderia ser um tumor cerebral calcificado, e não o cérebro.
  • Há ainda a hipótese de agressão. No livro Midnight Dreary, o biógrafo John Evangelist Walsh propôs que os irmãos da noiva de Poe, contrários ao casamento, o teriam ameaçado e depois espancado em Baltimore. A revista American Literature classificou a história como “apenas plausível, não totalmente convincente” (em tradução livre). Chris Semtner, curador do Poe Museum, em Richmond, resumiu o impasse à Smithsonian: “Nunca me convenci completamente de nenhuma teoria”.

O obituário que criou o mito

A fama sombria de Poe também nasceu ali. Em 9 de outubro de 1849, o jornal New York Tribune publicou um obituário assinado por “Ludwig” que começava assim: “Edgar Allan Poe está morto. Morreu em Baltimore anteontem. Este anúncio vai surpreender muitos, mas poucos ficarão tristes com ele” (em tradução livre).

O autor era Rufus Griswold, crítico e antigo desafeto de Poe, que acabou como seu executor literário. Nos anos seguintes, Griswold publicou uma biografia que apresentava o escritor como bêbado, louco e sem caráter, com cartas adulteradas. O retrato era em grande parte falso, mas ajudou a vender os livros de Poe e a fundir a imagem do autor com a dos narradores perturbados de seus contos.

O túmulo e o visitante misterioso

Poe foi enterrado no cemitério de Westminster Hall, em Baltimore, numa cerimônia rápida, com poucas pessoas. Em 1875, os restos mortais foram levados para um monumento perto da entrada do cemitério, onde hoje também estão Maria Clemm e Virginia, a mulher do escritor, morta em 1847.

O mistério ganhou um capítulo extra no século 20. Por décadas, um visitante desconhecido, apelidado de “Poe Toaster”, deixou no túmulo, na madrugada do aniversário do escritor (19 de janeiro), uma garrafa de conhaque e três rosas. A tradição terminou em 2009, ano do bicentenário de nascimento de Poe, sem que a identidade do visitante fosse revelada.

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