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Autora de Mata Doce, Luciany Aparecida conclui Tinta da Bahia, novo romance previsto para 2027

Em entrevista à BBC News Brasil, Luciany Aparecida conta que concluiu Tinta da Bahia, previsto para 2027 pela Alfaguara.

Luciany Aparecida sorri enquanto segura um exemplar de Mata Doce, romance publicado pela Alfaguara.
Luciany Aparecida, autora de Mata Doce, concluiu Tinta da Bahia, novo romance previsto para 2027 pela Alfaguara. Reprodução/Instagram.

A escritora baiana Luciany Aparecida concluiu Tinta da Bahia, seu novo romance, que tem publicação prevista para 2027 pela Alfaguara. A informação foi dada pela autora em entrevista à BBC News Brasil publicada neste domingo (11). O livro é o sucessor de Mata Doce, romance que venceu o Prêmio São Paulo de Literatura e hoje é leitura obrigatória no vestibular da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB).

Tinta da Bahia se passa na primeira metade do século 19 e tem como protagonista Chica D’Água, uma mulher negra marcada pelo trauma da travessia do Atlântico. A autora contou que passou anos no livro e só conseguiu terminá-lo quando entendeu a personagem.

“Eu fiquei anos escrevendo e só consegui concluir esse livro quando entendi que a personagem, Chica D’Água, era uma heroína frágil, uma mulher que tinha problemas emocionais fortíssimos. Ela ouvia vozes, ela tinha uma dificuldade muito grande em se manter conectada ao que estava acontecendo no agora”, disse à BBC News Brasil. Segundo ela, essa crise está ligada ao sequestro e à viagem forçada da África para o Brasil, um trauma que “não se encerrou em uma geração”.

O novo livro continua o projeto que a escritora chama de reimaginar a história brasileira com mulheres negras no centro. Na entrevista, ela lembrou que, por muito tempo, as mulheres negras foram imaginadas por outros autores, e citou dois exemplos conhecidos dos leitores: Bertoleza, a escravizada explorada por João Romão em O Cortiço, de Aluísio Azevedo, e Tia Nastácia, a cozinheira do Sítio do Picapau Amarelo, de Monteiro Lobato. “Quando falo em reimaginar, estou falando em mobilizar essas imagens fixas”, afirmou.

Mata Doce, lançado em 2023 também pela Alfaguara, foi o primeiro romance assinado com o nome Luciany Aparecida. A história se passa num vilarejo fictício do interior da Bahia, na primeira metade do século 20, e acompanha um casal formado por uma mulher cis e uma travesti e a filha adotiva das duas. O livro trata de luto, saúde mental, religiosidade afro-brasileira e violência contra mulheres, e dá destaque a personagens mais velhas, como as ialorixás (sacerdotisas do candomblé) Maximiliana dos Santos e Carminha.

O romance foi finalista do Prêmio Jabuti em 2024 e, no mesmo ano, venceu o Prêmio São Paulo de Literatura como melhor romance de 2023. A UESB incluiu o livro na lista de obras do vestibular pelo segundo ano consecutivo: no processo seletivo de 2027, ele aparece ao lado de Sagarana, de Guimarães Rosa, e do disco Raça Humana, de Gilberto Gil, conforme a lista divulgada pela universidade e publicada pela Tribuna do Sertão.

A escolha tem um peso pessoal. Nascida em 1982 em Jaguaquara, a cerca de 240 km dos câmpus da UESB, a autora já prestou vestibular para história na própria universidade. “Me trouxe a ideia de que o caminho da vida tem outros traçados e a gente acaba se encontrando com os lugares e as coisas, mesmo que de outro jeito, diferente do planejado”, disse à BBC.

Antes de Mata Doce, Luciany publicou livros com o que chama de assinaturas estéticas, nomes diferentes para cada tipo de obra: Ruth Ducaso na prosa, com Contos Ordinários de Melancolia (2019) e Florim (2020), Margô Paraíso na poesia e Antônio Peixôtro na ilustração. Com o próprio nome, lançou ainda o livro de poemas Macala (2022). Doutora em Letras pela Universidade Federal da Paraíba, ela é professora do programa de pós-graduação em Literatura e Crítica Literária da PUC-SP.

A entrevista também cita um dado que ajuda a dimensionar o público dessa literatura: segundo estudo encomendado pela Câmara Brasileira do Livro, mulheres pretas e pardas representam 49% dos consumidores de livros no país, e as mulheres em geral respondem por 61% desse consumo.

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