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O jovem desconhecido que visitou Machado de Assis na noite em que o escritor morreu

Na noite da morte de Machado de Assis, um jovem de 17 anos apareceu sem apresentação na casa do escritor, no Cosme Velho. Era Astrojildo Pereira, futuro jornalista, crítico literário e fundador do Partido Comunista do Brasil.

Montagem em preto e branco com retratos de Machado de Assis, à esquerda, já idoso, de barba branca e óculos, e de Astrojildo Pereira, à direita, ainda jovem, usando terno, gravata e chapéu. Aos 17 anos, Astrojildo visitou Machado na casa do escritor, no Cosme Velho, na noite em que ele morreu, em 1908.

Na noite em que Machado de Assis morreu, um adolescente desconhecido bateu à porta da casa do escritor no Cosme Velho. Ele não conhecia Machado nem os amigos reunidos ali: tinha ido porque lera seus livros e soubera pelos jornais que o estado do autor era grave. Anos depois, o jovem seria identificado como Astrojildo Pereira.

O encontro foi registrado por Euclides da Cunha em “A última visita”, texto publicado no Jornal do Commercio em 30 de setembro de 1908. O relato mostra como um leitor de 17 anos chegou sem apresentação à casa de um dos escritores mais conhecidos do país e conseguiu vê-lo na noite em que ele morreu.

Uma visita sem apresentação

Machado estava em sua casa na Rua Cosme Velho, no Rio de Janeiro, cercado por amigos como José Veríssimo, Coelho Neto, Graça Aranha, Mário de Alencar, Raimundo Correia e o próprio Euclides da Cunha. Segundo o relato de Euclides, o grupo estranhava que a cidade seguisse sua rotina enquanto o estado de saúde do escritor se agravava.

Foi nesse momento que o adolescente apareceu. Perguntado sobre quem era, explicou que ninguém ali o conhecia e que ele próprio só conhecia Machado pela leitura. Havia visto nos jornais da tarde a notícia sobre a doença e fora até a casa na esperança de visitar o escritor ou, pelo menos, receber informações seguras sobre seu estado.

O rapaz foi conduzido ao quarto. Não fez discurso nem tentou prolongar o encontro: ajoelhou-se, tomou a mão de Machado, beijou-a, aproximou-a do peito por alguns instantes e saiu em silêncio. Euclides escolheu não publicar seu nome e transformou a cena no centro de seu texto sobre a despedida do autor.

Quem era o jovem que visitou Machado de Assis?

O visitante era Astrojildo Pereira, então com 17 anos. A edição de “A última visita” publicada pelo projeto Machado de Assis — Vida e Obra, do Ministério da Educação, informa que a identificação foi feita por Lúcia Miguel Pereira em sua biografia do escritor, publicada em 1936.

Astrojildo se tornou jornalista e crítico literário e dedicou estudos à obra de Machado nas décadas seguintes. Também participou da fundação do Partido Comunista do Brasil, em 1922. A Academia Brasileira de Letras registra sua trajetória e o encontro ocorrido quando ele ainda era estudante.

As últimas horas de Machado de Assis

Machado de Assis morreu às 3h20 de 29 de setembro de 1908, aos 69 anos, de acordo com a Academia Brasileira de Letras. Naquele mesmo ano, havia publicado Memorial de Aires, seu último romance, e entrado em licença para tratamento de saúde em junho.

O escritor foi sepultado no Cemitério de São João Batista, na sepultura de Carolina Augusta Xavier de Novais, sua mulher, morta em 1904. Fundador e primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras, Machado deixou romances, contos, crônicas, poemas e peças de teatro.

A visita de Astrojildo não resume essa trajetória, mas registra uma forma direta de relação entre autor e leitor. O adolescente foi até a casa porque os livros de Machado tinham importância para ele; Euclides da Cunha preservou o gesto em um texto publicado no dia seguinte à morte do escritor.

Onde ler Machado de Assis

A Literatura Online reúne o perfil de Machado de Assis e nove obras disponíveis para leitura. Entre elas está Memórias Póstumas de Brás Cubas, romance narrado por um morto que comenta a própria vida, suas ambições e seus fracassos.

Fontes consultadas: “A última visita”, de Euclides da Cunha, em edição do MEC; Academia Brasileira de Letras — O adeus ao primeiro e único imortal; Academia Brasileira de Letras — Astrojildo, um brasileiro; e cronologia de Machado de Assis mantida pelo MEC.

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