A exposição Retábulos de Santa Joana Carolina, em cartaz na Biblioteca Florestan Fernandes da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, celebra os 60 anos de Nove, Novena, livro de narrativas do pernambucano Osman Lins (1924-1978) publicado em 1966. A mostra reúne gravuras e pinturas inspiradas no conto mais conhecido do volume e fica aberta até 15 de outubro, com entrada gratuita.
A curadoria é da professora Sandra Margarida Nitrini, do Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da FFLCH, segundo o Jornal da USP. A exposição traz duas séries de 12 obras, o mesmo número de partes do conto.
A primeira série reúne 12 gravuras da artista alemã Marianne Jolowicz (1912-1995), publicadas originalmente em 1991. Jolowicz viveu 20 anos no Brasil e traduziu livros de Osman Lins para o alemão. As cartas que ela trocou com o escritor durante o trabalho também estão expostas. “Havia uma riqueza de linguagem visual das inscrições que impressionou Marianne Jolowicz”, disse a curadora ao Jornal da USP. “Não sabemos se Lins chegou a ver essas gravuras.”

A segunda série, O Retábulo de Lins, foi criada em 2024 por iniciativa da professora Elizabeth Hazin, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Ela convidou 12 pintores pernambucanos a retratar, cada um, uma cena do conto. As pinturas seguem estilos que se afastam do realismo e vêm acompanhadas de um trecho do texto, do nome e da foto do artista. A sala mostra ainda edições de Nove, Novena em cinco línguas (francês, italiano, inglês, húngaro e alemão). Em duas delas, o livro saiu com o título do conto, Retábulo de Santa Joana Carolina.
Sobre Nove, Novena, de Osman Lins

O conto acompanha a vida de Joana Carolina, uma mulher pobre do Nordeste, professora e mãe de cinco filhos, do nascimento à morte. O título explica a forma: retábulo é o painel com várias cenas da vida de um santo, comum nas igrejas medievais. O texto é dividido em 12 cenas chamadas Mistérios, que remetem aos passos da Paixão de Cristo, aos meses do ano e aos signos do zodíaco. A história começa com o nascimento da personagem, em outubro, e termina com sua morte, em setembro.
Cada Mistério é narrado em primeira pessoa por um ou mais personagens, com vozes e pontos de vista diferentes, e abre com um prólogo poético. “A narrativa de Osman Lins conta a história de uma mulher simples do Nordeste pobre, desde o nascimento até a morte, como uma santa laica”, resumiu Sandra Nitrini. Sobre o conjunto da obra, ela acrescentou: “A maioria de seus personagens estaria incluída no que hoje nós chamamos de excluídos do Brasil”.
Osman da Costa Lins nasceu em Vitória de Santo Antão (PE), em 1924, e morreu em São Paulo, em 1978, aos 54 anos. Estreou no romance com O Visitante, em 1955, e também escreveu para o teatro: a peça Lisbela e o Prisioneiro virou filme de Guel Arraes em 2003, com Selton Mello e Débora Falabella.
A crítica costuma tratar Nove, Novena como o ponto de virada da obra do autor, o livro em que ele passa a experimentar com a forma: vários narradores na mesma história, divisões simbólicas e sinais gráficos no meio do texto. Esse caminho levou a Avalovara (1973), romance construído a partir do palíndromo latino sator arepo tenet opera rotas (frase que pode ser lida nos dois sentidos), e a A Rainha dos Cárceres da Grécia (1976), seu último romance. O arquivo pessoal do escritor está dividido entre a Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro, e o Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP.
A relação da curadora com o autor é antiga: Sandra Nitrini organizou o livro de ensaios Nove, Novena, Noventa, lançado num colóquio sobre Osman Lins realizado na FFLCH.
A exposição fica na Biblioteca Florestan Fernandes da FFLCH, na Avenida Professor Lineu Prestes, 350 (travessa 12), na Cidade Universitária, em São Paulo.
Viu um erro ou tem uma informação que complementa esta matéria? Fale com a redação.