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Revista Literatura Online

Florbela Espanca deixa uma reflexão sobre o direito de amar de novo: “Eu quero amar, amar perdidamente!”

Frase do dia: o soneto Amar!, de Florbela Espanca, e o direito de amar de novo.

Fotografia antiga em preto e branco da poeta Florbela Espanca. Ela tem cabelo escuro curto e ondulado, com franja, usa um colar de contas e uma gola escura de pele, e olha para a frente com expressão séria. A foto tem marcas de desgaste, como um risco fino que atravessa o rosto. Ampliar a imagem de destaque
Florbela Espanca, autora do soneto “Amar!”, do verso “Eu quero amar, amar perdidamente!”. Foto: autor desconhecido/Wikimedia Commons

“Eu quero amar, amar perdidamente!” é o primeiro verso de “Amar!”, soneto da poeta portuguesa Florbela Espanca publicado em Charneca em Flor, livro que saiu em janeiro de 1931, um mês depois da morte da autora. Quem fala é o eu lírico do poema, uma voz feminina que reivindica o direito de amar sem medida e sem pedir desculpas por isso.

A reflexão que o soneto propõe é que o amor não precisa ser único nem eterno para ser verdadeiro. Para a voz do poema, cada vida tem a sua primavera, e quem já sofreu por amor tem todo o direito de amar de novo: perder-se, diz o último verso, pode ser o caminho para se encontrar.

O soneto completo, na grafia da edição de 1931 de Charneca em Flor (Coimbra, Livraria Gonçalves, página 30), é este:

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui… além…
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente…
Amar! Amar! E não amar ninguem!

Recordar? Esquecer? Indiferente!…
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguem
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma primavera em cada vida:
É preciso canta-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi p’ra cantar!

E se um dia hei de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder… p’ra me encontrar.

Onde o verso aparece

“Amar!” está em Charneca em Flor, o último livro preparado por Florbela Espanca. A poeta nasceu em Vila Viçosa, no Alentejo, em 8 de dezembro de 1894, e morreu em Matosinhos, perto do Porto, exatamente no dia em que completava 36 anos, em 1930. Antes, tinha publicado o Livro de Mágoas (1919) e o Livro de Sóror Saudade (1923), que tiveram pouca repercussão em vida.

Charneca em Flor foi organizado para publicação pelo professor italiano Guido Battelli, admirador da poeta, que lecionava em Coimbra. O livro reúne sonetos mais sensuais que os anteriores, nos quais a mulher deixa de apenas lamentar o amor perdido e passa a desejar, escolher e afirmar o próprio corpo.

No poema, os dois quartetos são uma declaração de liberdade. A voz amaria “Este e Aquele, o Outro e toda a gente”, e as perguntas do segundo quarteto (recordar ou esquecer? prender ou soltar?) recebem uma resposta seca: “Indiferente!”. Os dois tercetos mudam de tom. Falam da primavera que existe em cada vida e, por fim, da morte, que a voz do poema espera transformar em “alvorada”.

O sentido do verso

“Amar perdidamente” quer dizer amar com entrega total, sem cálculo e sem garantias. Mas o soneto vai além da paixão por uma pessoa. O amor de que ele fala é uma forma de estar no mundo: amar “só por amar”, amar todos e, por isso mesmo, não pertencer a ninguém.

Em 1931, era uma afirmação ousada para uma mulher. Um estudo publicado na revista Cadernos de Semiótica Aplicada, da Unesp, analisa justamente a tensão entre a forma tradicional do soneto, a mais clássica da poesia em língua portuguesa desde Camões, e o conteúdo transgressor do poema, ligado à ideia de amor livre. Os versos “Quem disser que se pode amar alguem / Durante a vida inteira é porque mente!” contrariam a promessa de amor eterno que a própria tradição do soneto amoroso costumava celebrar.

O último verso fecha o círculo. “Que me saiba perder… p’ra me encontrar” sugere que se entregar ao amor, mesmo com o risco de se perder, é o que permite descobrir quem se é.

O que o verso diz a quem lê hoje

Muita gente sai de um fim de relacionamento com a sensação de que o amor acabou para sempre, ou de que gostar de outra pessoa seria trair o que viveu antes. O soneto de Florbela oferece outra leitura: ter amado e deixado de amar não torna nenhum amor falso, e cada fase da vida pode ter a sua primavera. Recordar ou esquecer, para a voz do poema, importa menos do que continuar disposto a sentir.

Não é uma promessa de final feliz. A própria vida de Florbela, marcada por casamentos desfeitos e perdas, mostra que amar perdidamente cobra um preço. O que o poema defende é o direito de tentar, e de não pedir licença para isso. Que me saiba perder, diz ela, para me encontrar.

Por que o verso continua citado

“Eu quero amar, amar perdidamente!” é um dos versos mais conhecidos da poesia portuguesa do século 20, repetido em antologias, aulas de literatura e redes sociais, muitas vezes sem o resto do soneto. Florbela também chegou ao público brasileiro pela música: Raimundo Fagner gravou poemas dela, como “Fanatismo”, no disco Traduzir-se, de 1981.

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