A escritora britânica Zadie Smith contou à cantora Dua Lipa que o final de Dentes brancos, seu romance de estreia, é “um caos” (em tradução livre) porque foi escrito com pressa: ela terminou o livro num 14 de fevereiro, Dia dos Namorados no Reino Unido, e saiu correndo para encontrar as amigas numa balada. A conversa aconteceu no fim de semana no London Literature Festival, em Londres, que neste ano tem curadoria de Dua Lipa.
Smith começou a escrever Dentes brancos aos 21 anos e publicou o livro aos 24, em 2000. Segundo o relato do jornal The Guardian, ela terminou o romance depois de um fim de namoro, morando de novo com a mãe. Enquanto as amigas saíam para dançar, ela ficava trancada no quarto para acabar o livro. Quando escreveu a última linha, saiu direto para a balada, e por isso, segundo ela, o desfecho ficou bagunçado. A conclusão, em tom de brincadeira, foi que é por isso que “jovens não deveriam escrever romances”.
O romance acompanha três famílias, os Jones, os Iqbal e os Chalfen, em Willesden e Kilburn, bairros do noroeste de Londres onde a autora cresceu, ao longo das três últimas décadas do século 20. A história gira em torno da amizade entre Archie Jones, um inglês, e Samad Iqbal, um imigrante de Bangladesh, e de seus filhos, nascidos e criados numa Londres multicultural.
Foi esse pano de fundo que levou a conversa para a política. Perguntada por Dua Lipa sobre como as atitudes em relação ao multiculturalismo mudaram desde os anos 1980 e 1990, Smith atribuiu as tensões de hoje à desigualdade e ao desmonte do Estado de bem-estar social britânico. “Quando você mora numa casa razoável e sabe que, se se machucar, pode ir ao hospital e ser tratado como o filho do rico que mora mais adiante, as diferenças se tornam interessantes, às vezes irritantes, mas não existenciais”, afirmou. “Agora elas são existenciais.”
A autora disse que o bairro de sua infância continua com as mesmas escolas, mas que hoje “tudo está mais difícil, todo mundo está mais pobre”. Ela também elogiou a escola pública onde estudou e defendeu o que chamou de “nostalgia da esquerda”: recuperar a saúde e a educação públicas daquela época, sem o preconceito que o próprio livro retrata.
As duas falaram ainda sobre críticas. Dua Lipa disse que aprender a conviver com resenhas, boas e ruins, foi uma das coisas mais difíceis da carreira. Smith afirmou que a crítica literária é “absolutamente essencial” porque ajuda a formar o gosto e confessou: “Mesmo que seja uma resenha negativa sobre mim, se for bem escrita, se for inteligente… eu adoro um bom ataque”.
A conversa fez parte da programação que a cantora organizou com o Service95, o clube do livro que ela mantém e no qual entrevista um autor por mês. O festival acontece no Southbank Centre, que completa 75 anos, e vai até 1º de novembro, com convidados escolhidos por Dua Lipa como Patti Smith, Malorie Blackman e Hisham Matar, segundo o anúncio do Southbank Centre.
No Brasil, Dentes brancos é publicado pela Companhia das Letras, com tradução de José Antonio Arantes, e ganhou uma nova edição. Depois dele, Zadie Smith escreveu mais cinco romances, entre eles O caçador de autógrafos, também lançado aqui pela Companhia das Letras. Seu livro mais recente é a coletânea de ensaios Dead and Alive.
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