Publicado em 2004, Ensaio sobre a Lucidez, de José Saramago, voltou ao debate político brasileiro às vésperas do segundo turno. No romance, cerca de 70% dos eleitores de uma cidade votam em branco; convocada nova eleição, o índice sobe para 83%. A comparação com o Brasil de 2026 aparece em reportagem publicada nesta sexta-feira (9) pela BBC News Brasil, que ouviu professores de antropologia, direito e literatura sobre o livro.
O gancho é a eleição real. Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral divulgados pela Agência Brasil, 33,4 milhões de eleitores (21,08%) não foram votar no primeiro turno, em 4 de outubro. Entre as eleições gerais, a taxa só fica atrás da de 1998, quando a abstenção chegou a 21,49%. Dos que compareceram, 2,3 milhões votaram em branco para presidente e 3,6 milhões anularam o voto. O segundo turno está marcado para 25 de outubro.
Na ficção de Saramago, o governo não aceita o resultado como recado. Trata o voto em branco como conspiração, retira as autoridades da cidade, isola os moradores e passa a procurar líderes de um movimento que não existe: a decisão foi coletiva e espontânea. A investigação recai sobre a mulher do médico, personagem de Ensaio sobre a Cegueira (1995), única pessoa que não perdeu a visão na epidemia contada naquele livro. A volta dela e de outros personagens liga os dois romances, embora o autor nunca os tenha tratado como série.
Para o antropólogo Fred Lucio, professor da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), Saramago não apresenta o voto em branco como solução. “Está trazendo uma situação extrema para ajudar a pensar sobre ela”, disse à BBC News Brasil. Ele vê na reação das autoridades o centro da obra: “Em vez de perguntar o que aquela sociedade estava dizendo, o poder vai tentar descobrir quem está por trás de tal maquinação. Como essas pessoas não são encontradas, trata de produzi-las”.
O professor lembra uma diferença importante. No livro, o voto em branco é um gesto político coletivo; no Brasil, onde o voto é obrigatório, branco e nulo podem indicar outros comportamentos, como desinteresse. Pela legislação brasileira, explicou à mesma reportagem o jurista Carlos Ari Sundfeld, da Fundação Getulio Vargas, brancos e nulos não entram na contagem: só os votos válidos definem o resultado, e por isso uma maioria de votos inválidos não anula a eleição.
O escritor Miguel Sanches Neto, professor da Universidade Estadual de Ponta Grossa, situa o livro na fase alegórica do autor, em que Saramago deixa de falar só de Portugal para falar do mundo. “A recusa à votação tem um sentido profundo, pois mostra uma tomada de poder do cidadão em uma eleição viciada”, afirmou.
A estrutura do romance segue a de outros livros do português: um acontecimento absurdo, apresentado como se fosse comum, serve para observar como uma sociedade reage. Em Ensaio sobre a Cegueira, uma cidade inteira perde a visão; em As Intermitências da Morte (2005), as pessoas param de morrer. Ensaio sobre a Cegueira é o mais conhecido dos três e foi adaptado para o cinema por Fernando Meirelles em 2008.
José Saramago nasceu em 1922, em Azinhaga, Portugal, e morreu em 2010. Recebeu o Nobel de Literatura em 1998 e continua sendo o único autor de língua portuguesa premiado pela Academia Sueca. Ensaio sobre a Lucidez saiu em Portugal pela Caminho e no Brasil pela Companhia das Letras, que mantém o livro em catálogo numa nova edição.
Viu um erro ou tem uma informação que complementa esta matéria? Fale com a redação.