A canadense Anne Carson, anunciada na quinta-feira (8) como vencedora do Nobel de Literatura 2026, disse que já pensa em como doar o dinheiro do prêmio. A declaração foi dada na primeira entrevista após o anúncio, por telefone, à jornalista Jenny Rydén, da organização do Nobel. A transcrição foi publicada no site oficial do prêmio.
Perguntada sobre o que o Nobel significava para ela, a poeta respondeu que ainda não tinha pensado nisso. “Estamos só pensando em formas de doar o dinheiro. Temos um amigo que precisa de uma casa, e sempre doamos bastante para os Médicos Sem Fronteiras”, afirmou (em tradução livre). O prêmio vale 12 milhões de coroas suecas, cerca de R$ 6 milhões, e será entregue em cerimônia em Estocolmo, em dezembro. Carson não deu o nome do amigo nem detalhou como pretende dividir o valor.
A entrevista também mostra como a escritora recebeu a notícia. Ela estava em casa, em Reykjavík, na Islândia, numa casa de frente para o mar, comendo biscoitos, tomando chá e lendo a London Review of Books. Contou que levantou para varrer o chão da cozinha e que ignorou as primeiras ligações, porque costuma desligar o telefone quando ele toca. Foi o marido, Robert Currie, quem atendeu e a convenceu a retornar. “Parece um pouco insano”, resumiu.
Para comemorar, disse que o casal ia caminhar no bosque para não ter de atender o telefone. Quando a entrevistadora pediu uma sugestão para quem quer conhecer sua obra, Carson lembrou que a maioria dos leitores começa por Autobiografia do Vermelho, e completou com o conselho que repetiu ao longo da conversa: “Comece pelo meio. É a única regra que eu tenho”. A mesma frase serviu de resposta sobre seu processo de escrita e de recado para aspirantes a escritor.
Questionada sobre suas fontes de inspiração, respondeu com uma palavra: Homero. Professora de estudos clássicos por mais de 30 anos, Carson construiu a obra em diálogo com a literatura grega antiga, o ponto destacado pela Academia Sueca ao premiá-la “por sua obra ousada e inventiva que, em diálogo lúdico com a tradição clássica, criou novas formas para a literatura contemporânea”. Ela disse ainda que não se interessa em tornar os gregos relevantes para hoje, e sim em tornar os leitores de hoje relevantes para eles.
Autobiografia do Vermelho, o título que ela mesma aponta como porta de entrada, é um romance em versos que transforma Gerião, monstro do mito grego morto por Héracles, num garoto sensível que vive um relacionamento amoroso turbulento. No Brasil, o livro sai pela Editora 34, com tradução de Ismar Tirelli Neto. A autora tem outros seis títulos publicados no país, pela própria Editora 34, pela Bazar do Tempo e pela Relicário, entre eles Eros, o Doce-Amargo, A Beleza do Marido e Falas Curtas.
A repercussão do prêmio segue nos jornais estrangeiros. No britânico The Guardian, a escritora Yiyun Li publicou nesta sexta-feira (9) um texto sobre a importância de Carson em sua vida: depois da morte dos filhos, ela recorreu a Grief Lessons, as traduções de Carson para quatro peças de Eurípides, leitura que descreve como essencial para seguir vivendo.
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