Em dezembro de 1922, Ernest Hemingway tinha 23 anos, morava em Paris e ainda não havia publicado nenhum livro. Quase toda a ficção que ele tinha escrito até ali cabia numa única mala. No dia 2 daquele mês, essa mala desapareceu na estação Gare de Lyon, em Paris, e nunca mais foi encontrada.
Quem carregava a bagagem era Hadley Richardson, a primeira mulher do escritor. Ela tinha posto ali os manuscritos originais e também as cópias em papel carbono, a forma de backup da época. A perda foi quase total. O episódio virou uma das histórias mais contadas da literatura americana do século 20 e ajuda a explicar o estilo que tornaria Hemingway famoso.
Um jovem escritor em Paris

Hemingway e Hadley se casaram em 3 de setembro de 1921, em Michigan, nos Estados Unidos. Ela era de St. Louis e oito anos mais velha que ele. Durante o namoro, feito em boa parte por cartas, Hadley prometeu dar a ele uma máquina de escrever Corona. O casal pensava em morar em Roma, mas o escritor Sherwood Anderson os convenceu a ir para Paris, onde a vida era barata, e escreveu cartas de apresentação para o jovem colega.
Dois meses depois do casamento, Hemingway foi contratado como correspondente do Toronto Star na Europa, e os dois se mudaram para a capital francesa. Com as cartas de Anderson, ele conheceu Gertrude Stein, Ezra Pound e James Joyce, nomes que podiam ajudar um escritor iniciante. Nos meses seguintes, escreveu os contos que seriam perdidos.
Por que os manuscritos estavam numa mala
No fim de 1922, o jornal canadense mandou Hemingway à Suíça para cobrir a Conferência de Lausanne, a negociação de paz entre os Aliados e a Turquia depois da guerra greco-turca. Hadley, que estava gripada, ficou em Paris. Em Lausanne, ele passava os dias na conferência e as noites bebendo com o jornalista americano Lincoln Steffens, conhecido por suas reportagens de denúncia.

Quando Hadley se recuperou e decidiu encontrar o marido, achou que ele ia querer mostrar seus textos a Steffens. Por isso, juntou os manuscritos numa valise, sem esquecer as cópias. Segundo o relato mais repetido pelos biógrafos, ela deixou a bagagem na cabine do trem e desceu para comprar água. Quando voltou, a mala tinha sumido.
O que se perdeu e o que sobrou
Na mala estavam os primeiros contos de Hemingway, escritos ao longo de meses em Paris. Num trecho de suas memórias, ele descreveu a reação da mulher ao contar o que tinha acontecido: “Eu nunca tinha visto ninguém tão ferido por alguma coisa que não fosse a morte ou um sofrimento insuportável, exceto Hadley quando me contou que as coisas tinham sumido” (em tradução livre). Biógrafos registram que ele ficou furioso e culpou a mulher pela perda.
Duas histórias escaparam. “Up in Michigan” estava esquecida numa gaveta porque Gertrude Stein, escritora americana que orientava o jovem Hemingway em Paris, tinha dito que o conto era impublicável, em parte por causa de uma cena de sedução. Já “My Old Man” estava fora de casa, com um editor de revista. As duas entraram em Three Stories and Ten Poems (“Três contos e dez poemas”), primeiro livro do autor, publicado em Paris em 1923 pela Contact Publishing, de Robert McAlmon, numa tiragem de apenas 300 exemplares.
A primeira menção conhecida ao caso aparece numa carta de 23 de janeiro de 1923 ao poeta Ezra Pound, escrita em Chamby, na Suíça, onde o casal tinha ido esquiar. Hemingway chama o material perdido de “my Juvenilia” (minha obra de juventude) e conta que Hadley tinha juntado na mala todas as cópias. E se antecipa à resposta do amigo: “Você, naturalmente, diria ‘ótimo’ etc. Mas não diga isso para mim. Ainda não cheguei a esse estado de espírito” (em tradução livre).

O conselho de Ezra Pound
Pound respondeu com uma lição de ofício. Para ele, Hemingway só tinha perdido o tempo necessário para reescrever o que conseguisse lembrar. Se a forma da história estivesse certa, seria possível reconstruí-la de memória; se ela não se sustentasse na lembrança, é porque nunca tinha estado boa.
Os estudiosos não sabem dizer se Hemingway seguiu o conselho e reescreveu contos antigos ou se tudo o que produziu depois da perda era novo. O que se sabe é que, a partir de 1923, ele passou a escrever os contos curtos e secos que marcariam sua obra. Em 1925, saiu nos Estados Unidos, pela editora Boni & Liveright, In Our Time, a coletânea que apresentou Nick Adams, personagem que reaparece em vários contos do autor. Em 1926 veio O Sol Também se Levanta, o romance que o tornou conhecido.
Como a história chegou até nós
O relato mais conhecido do episódio está em Paris é uma Festa, livro de memórias sobre os anos 1920 em Paris que Hemingway escreveu no fim da vida. Ele morreu em 1961, e o livro foi publicado postumamente em 1964, organizado por sua quarta mulher, Mary Hemingway. No Brasil, a obra sai pela Bertrand Brasil, com tradução de Ênio Silveira.
O casamento com Hadley terminou em 1927, depois que ela descobriu o caso do marido com Pauline Pfeiffer, amiga do casal; Hemingway ganharia o Nobel de Literatura em 1954. A mala, por sua vez, nunca reapareceu. Não se sabe se o ladrão percebeu o que tinha nas mãos ou se simplesmente jogou fora um maço de papéis datilografados em inglês. Os primeiros contos de um dos escritores mais influentes do século 20 podem ter terminado no lixo de uma estação de trem.
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