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Curiosidades

Camões sobreviveu a um naufrágio e salvou Os Lusíadas a nado, segundo o próprio poema

Montagem com retrato em gravura de Luís de Camões, de coroa de louros e armadura, sobre gravura antiga do rio Mekong, onde o poeta naufragou com o manuscrito de Os Lusíadas
Luís de Camões sobre uma paisagem do rio Mekong, onde, segundo a tradição, o poeta salvou Os Lusíadas de um naufrágio (Retrato: François Gérard/domínio público. Gravura: Holt S. Hallett, 1890/domínio público)

Os Lusíadas, o maior poema épico da língua portuguesa, quase acabou no fundo do mar. Segundo a tradição, Luís de Camões sobreviveu a um naufrágio na foz do rio Mekong, no Sudeste Asiático, e chegou à margem nadando com o manuscrito do poema erguido acima da água. A história parece lenda, mas tem uma testemunha de peso: o próprio poeta, que a contou em versos dentro da obra.

O episódio aconteceu no fim da década de 1550, quando Camões voltava de Macau, na China, onde havia trabalhado para a coroa portuguesa. No naufrágio, segundo a tradição, ele perdeu também a mulher que amava, uma jovem chinesa conhecida como Dinamene. O poema foi publicado mais de dez anos depois, em 1572, e se tornou o livro fundador da literatura portuguesa.

Como Camões foi parar no Oriente

Camões nasceu por volta de 1524 ou 1525, em local que nunca foi confirmado. Ainda jovem, serviu como soldado em Ceuta, no norte da África, onde perdeu o olho direito em combate. De volta a Lisboa, levou uma vida boêmia e, em 1552, foi preso depois de uma briga em que feriu um funcionário da corte, de acordo com a Infopédia, enciclopédia da Porto Editora.

Perdoado, embarcou para a Índia em 1553, como era comum entre portugueses que buscavam fortuna ou um recomeço. Passou mais de quinze anos no Oriente. Lutou em expedições militares, viveu em Goa e foi nomeado para um cargo administrativo em Macau: provedor-mor dos defuntos e ausentes, responsável por cuidar dos bens de portugueses mortos ou desaparecidos na região. Foi lá, segundo a tradição, que escreveu parte importante de Os Lusíadas.

O naufrágio na foz do Mekong

Rio Mekong de águas barrentas, com um barco estreito de pescadores, um banco de areia e margens de mata sob céu azul com nuvens, na região do Triângulo Dourado, em 1985
O rio Mekong no Triângulo Dourado, na fronteira entre Tailândia, Laos e Mianmar, em 1985. Camões naufragou bem mais ao sul, perto da foz do rio (Foto: Spielvogel Archiv/Wikimedia Commons, CC0)

Na viagem de volta de Macau, o navio em que Camões viajava naufragou na costa do atual Camboja ou Vietnã, perto da foz do Mekong. O poeta conseguiu chegar à terra, e com ele o manuscrito do poema. A imagem de Camões nadando com um braço e segurando os papéis com o outro virou um dos episódios mais conhecidos da história da literatura em língua portuguesa e foi reproduzida em gravuras e pinturas ao longo dos séculos.

Selo português de 1924 em tom castanho mostrando Camões nadando entre ondas com o braço erguido segurando o manuscrito de Os Lusíadas, com a inscrição sobre o naufrágio
Selo dos Correios de Portugal de 1924, emitido no quarto centenário do nascimento de Camões, mostra o poeta salvando Os Lusíadas do naufrágio (Imagem: Wikimedia Commons/domínio público)

A fonte principal do episódio é o próprio Os Lusíadas. No Canto X, a ninfa Tétis mostra a Vasco da Gama uma visão do mundo e, ao chegar ao rio Mekong, anuncia o que ainda vai acontecer com o autor do poema. Camões fala de si na terceira pessoa:

Este receberá, plácido e brando,
No seu regaço os Cantos que molhados
Vêm do naufrágio triste e miserando,
Dos procelosos baxos escapados,
Das fomes, dos perigos grandes, quando
Será o injusto mando executado
Naquele cuja Lira sonorosa
Será mais afamada que ditosa.

Na estrofe 128 do Canto X, “os Cantos que molhados” são o próprio poema, salvo das águas. O rio “plácido e brando” recebe os papéis do náufrago. Os últimos versos trazem um retrato amargo do poeta: um homem cuja lira seria “mais afamada que ditosa”, ou seja, mais famosa do que feliz.

Dinamene, a amada que não se salvou

Segundo os relatos tradicionais, Camões viajava com uma jovem chinesa que morreu no naufrágio. Ela aparece em seus sonetos com o nome poético de Dinamene. O mais famoso deles começa com um lamento direto:

Ah! minha Dinamene! Assim deixaste
Quem não deixara nunca de querer-te!

Não há documentos que comprovem a existência de Dinamene, e parte dos estudiosos considera que ela pode ser uma figura literária, construída a partir da tradição da poesia amorosa. A ligação entre a amada e o naufrágio, no entanto, se firmou na biografia do poeta e ajudou a criar a imagem de Camões como um homem marcado pela perda. Essa imagem combina com a lírica dele, cheia de reflexões sobre o amor e o sofrimento, como no soneto que define o amor como “fogo que arde sem se ver”.

Pobre em Moçambique, publicado em Lisboa

O naufrágio não foi o fim das dificuldades. Por volta de 1568, o cronista Diogo do Couto encontrou Camões em Moçambique, na costa leste da África, tão pobre que vivia da ajuda dos amigos, mas ainda trabalhando no poema. Foram esses amigos que pagaram as dívidas do poeta e a passagem de volta a Portugal, onde ele chegou em 1569 ou 1570, depois de cerca de dezesseis anos fora.

Os Lusíadas foi publicado em 1572, em Lisboa, pelo impressor António Gonçalves. O rei D. Sebastião concedeu ao poeta uma pensão anual de 15 mil réis, em reconhecimento pelos serviços prestados no Oriente, segundo a Biblioteca Municipal de Coimbra.

O poema narra a viagem de Vasco da Gama à Índia, entre 1497 e 1498, e a usa como fio condutor para contar a história de Portugal, misturando fatos históricos e deuses da mitologia greco-romana. São dez cantos e 1.102 estrofes de oito versos decassílabos, isto é, com dez sílabas poéticas cada.

Camões morreu em Lisboa em 10 de junho de 1580, pobre, e foi enterrado com a ajuda de uma instituição de caridade. A data de sua morte se tornou o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, feriado nacional português. O manuscrito que ele salvou do Mekong não sobreviveu até hoje, mas o poema, sim: Os Lusíadas continua sendo estudado nas escolas de Portugal e do Brasil.

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