A Editora Machado lança Conheço meu lugar: paulistanidade e estigmatização nordestina nas eleições presidenciais, livro da socióloga Marina Macedo Rego que analisa como a imprensa paulista retratou o Nordeste e o eleitor nordestino em nove eleições presidenciais, de 1989 a 2022. A obra já aparece na loja virtual da editora, por R$ 60.
O lançamento chega na véspera do primeiro turno das eleições de 2026, marcado para domingo, 4 de outubro. O livro é a versão editorial de uma tese de doutorado defendida na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP.
Sobre Conheço meu lugar: paulistanidade e estigmatização nordestina nas eleições presidenciais
A pesquisa examinou 1.080 notícias publicadas pela Folha de S.Paulo e por O Estado de S. Paulo durante as campanhas presidenciais, com o Diário de Pernambuco como termo de comparação. Segundo o Jornal da USP, que noticiou a defesa da tese em março, em metade das vezes em que os dois jornais paulistas citaram o Nordeste a região apareceu ligada a estereótipos como a seca e a falta de instrução. Em 69% das notícias, o Nordeste foi associado ao PT, quase sempre em tom depreciativo.
Essa associação é anterior às vitórias do partido. Em 1989, Lula não venceu no Nordeste, mas a imprensa já identificava a região com o candidato. “Mesmo quando o Nordeste não votava majoritariamente no PT, por exemplo, já se tentava associar o Nordeste ao PT”, afirmou a pesquisadora ao Jornal da USP. Para ela, o rótulo serve para desqualificar uma escolha política: “Simbolizar um exercício político como nordestino é capaz de diminuir esse exercício político, de tentar deslegitimá-lo em movimentos conservadores.”
O conceito central do livro é a paulistanidade, nome que a autora dá à construção histórica que apresenta São Paulo como território do trabalho, da modernidade e do voto racional. Segundo a descrição da obra divulgada pela agência Alma Preta, essa imagem só se sustenta em oposição a outra: a de um Nordeste atrasado, pobre e incapaz de escolhas políticas conscientes.
Para explicar essa oposição, Marina recua ao fim do século 19, com a decadência da economia açucareira, a ascensão do café no Sudeste e a política de imigração europeia voltada ao branqueamento da população. O livro também passa por mitos paulistas, como o do bandeirante e o da “locomotiva do Brasil”, e por imagens que se fixaram sobre o Nordeste: as multidões de Canudos tratadas como irracionais, o cangaceiro, o retirante e, mais recentemente, o eleitor que votaria movido apenas por programas sociais.
Parte dessas imagens passou pela literatura. Canudos entrou na história do país por Os Sertões (1902), de Euclides da Cunha, livro que criou a frase “o sertanejo é, antes de tudo, um forte”. O retirante ganhou forma em romances como O Quinze (1930), de Rachel de Queiroz, e Vidas Secas (1938), de Graciliano Ramos. A ideia de que o Nordeste é uma invenção discursiva, e não apenas um dado geográfico, já tinha sido estudada pelo historiador Durval Muniz de Albuquerque Júnior em A Invenção do Nordeste e Outras Artes (1999).
A autora conta que o tema atravessa a própria biografia. Filha de mãe pernambucana e criada em São Paulo, ela diz ter conhecido o preconceito regional ainda na infância e entrou no curso de Ciências Sociais da USP aos 17 anos já interessada no assunto. Marina é doutora em Humanidades, Direitos e Outras Legitimidades e mestra em Sociologia pela USP.
Conheço meu lugar está à venda no site da Editora Machado, que ainda não divulgou o número de páginas nem a data de chegada às livrarias físicas.
Viu um erro ou tem uma informação que complementa esta matéria? Fale com a redação.