“A Mulher que Passa” é um dos poemas mais intensos de Vinicius de Moraes. O poema explora a experiência de desejar algo (ou alguém) que não se pode ter e, talvez por isso, deseja-se ainda mais.
Vinicius de Moraes é conhecido por seus versos que misturam paixão, religiosidade e drama amoroso. E aqui ele faz isso de forma direta, quase súplica. O eu lírico se vê diante de uma mulher que simplesmente… passa. E esse simples gesto desencadeia um turbilhão de emoções que atravessa o poema de ponta a ponta.
O Poema “A Mulher que Passa”
Meu Deus, eu quero a mulher que passa.
Seu dorso frio é um campo de lírios
Tem sete cores nos seus cabelos
Sete esperanças na boca fresca!
Oh! como és linda, mulher que passas
Que me sacias e suplicias
Dentro das noites, dentro dos dias!
Teus sentimentos são poesia
Teus sofrimentos, melancolia.
Teus pelos leves são relva boa
Fresca e macia.
Teus belos braços são cisnes mansos
Longe das vozes da ventania.
Meu Deus, eu quero a mulher que passa!
Como te adoro, mulher que passas
Que vens e passas, que me sacias
Dentro das noites, dentro dos dias!
Por que me faltas, se te procuro?
Por que me odeias quando te juro
Que te perdia se me encontravas
E me encontrava se te perdias?
Por que não voltas, mulher que passas?
Por que não enches a minha vida?
Por que não voltas, mulher querida
Sempre perdida, nunca encontrada?
Por que não voltas à minha vida?
Para o que sofro não ser desgraça?
Meu Deus, eu quero a mulher que passa!
Eu quero-a agora, sem mais demora
A minha amada mulher que passa!
No santo nome do teu martírio
Do teu martírio que nunca cessa
Meu Deus, eu quero, quero depressa
A minha amada mulher que passa!
Que fica e passa, que pacifica
Que é tanto pura como devassa
Que boia leve como a cortiça
E tem raízes como a fumaça.
2. Análise estrofe por estrofe
Vamos agora destrinchar cada estrofe separadamente, entendendo como a idealização e os conflitos internos do eu lírico moldam o poema.
Estrofe 1 – O primeiro impacto
Meu Deus, eu quero a mulher que passa.
Seu dorso frio é um campo de lírios
Tem sete cores nos seus cabelos
Sete esperanças na boca fresca!
O poema já começa com um clamor. O “Meu Deus” não é só um grito de espanto, é também uma oração. O eu lírico está diante de algo sagrado: uma mulher que passa e deixa nele uma necessidade urgente. As imagens são carregadas de simbolismo: lírios, cores, esperança, frescor. Tudo nela remete ao belo, ao vital, ao sagrado. E tudo isso é captado no exato momento em que ela passa.
Estrofe 2 – Beleza que fascina e atormenta
Oh! como és linda, mulher que passas
Que me sacias e suplicias
Dentro das noites, dentro dos dias!
Aqui o desejo se aprofunda. O eu lírico não apenas admira: ele se consome. A mulher é uma figura contraditória, sendo ao mesmo tempo fonte de prazer e de dor. Ele é saciado por sua beleza, mas também torturado por sua ausência. O uso de “noites” e “dias” mostra que ela o invade o tempo inteiro. Não importa a hora, a imagem dela está ali, presente, insistente, inalcançável.
Estrofe 3 – Corpo e alma como poesia
Teus sentimentos são poesia
Teus sofrimentos, melancolia.
Teus pelos leves são relva boa
Fresca e macia.
Teus belos braços são cisnes mansos
Longe das vozes da ventania.
A linguagem se suaviza. O corpo da mulher vira natureza: relva, cisnes, frescor. Tudo é delicado, etéreo. Mas também há sofrimento, sugerindo que essa mulher idealizada carrega dores próprias. Vinícius cria aqui um equilíbrio delicado entre beleza e tristeza. O caos (“ventania”) está distante dela, que aparece como uma figura serena, quase mística. O erotismo sutil se mistura com poesia pura.
Estrofe 4 – A ausência como conflito
Como te adoro, mulher que passas
Que vens e passas, que me sacias
Dentro das noites, dentro dos dias!
Por que me faltas, se te procuro?
Por que me odeias quando te juro
Que te perdia se me encontravas
E me encontrava se te perdias?
A partir daqui, o encantamento vira conflito. O eu lírico se pergunta: por que ela o falta? Por que o rejeita? Os versos finais dessa estrofe são um dos pontos altos do poema: paradoxais, intensos, dolorosos. Ele está preso num ciclo em que o encontro e a perda são inseparáveis. A mulher é, ao mesmo tempo, solução e problema. E talvez nunca tenha sido real, sendo só uma produção.
Estrofe 5 – O vazio da espera
Por que não voltas, mulher que passas?
Por que não enches a minha vida?
Por que não voltas, mulher querida
Sempre perdida, nunca encontrada?
Por que não voltas à minha vida?
Para o que sofro não ser desgraça?
Essa estrofe é puro lamento. A repetição de perguntas mostra a frustração crescente. A mulher desejada nunca volta. Nunca é plenamente conhecida. Está sempre “perdida”. A presença dela é sentida justamente na ausência. O eu lírico se desespera por algo que talvez nunca tenha de fato existido. Mas a dor que sente é concreta e quer ser aliviada.
Estrofe 6 – Desejo urgente
Meu Deus, eu quero a mulher que passa!
Eu quero-a agora, sem mais demora
A minha amada mulher que passa!
Voltamos ao início, porém com mais intensidade. A súplica se torna exigência. Ele quer a mulher agora. Sem espera. Sem rodeios. É o ápice do desejo, que se transforma em urgência. Mas o tom ainda é o mesmo: ele fala de algo inatingível, como quem implora por um milagre.
Estrofe 7 – Dualidade e contradição
No santo nome do teu martírio
Do teu martírio que nunca cessa
Meu Deus, eu quero, quero depressa
A minha amada mulher que passa!
Que fica e passa, que pacifica
Que é tanto pura como devassa
Que boia leve como a cortiça
E tem raízes como a fumaça.
A estrofe final é um resumo de tudo: desejo, dor, urgência, contradição. A mulher é mártir, é amada, é santa e profana. Ela “fica e passa”, é leve e densa ao mesmo tempo. A imagem final, “raízes como a fumaça”, é especialmente poderosa: parece contraditória, mas faz todo sentido no universo do poema. A mulher que passa deixa marcas, mesmo que etéreas. Ela some, mas permanece.
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