5 Poemas Portugueses sobre o Outono

O outono sempre foi mais do que uma simples estação. Ele carrega a beleza das folhas caindo e também o peso do que vai embora com elas. É a época do ano em que o tempo desacelera, a luz muda, os ciclos se fecham. Não é de surpreender que o outono sempre serviu de inspiração para poemas e outros temas da literatura.

A ideia é simples: destacar cinco poemas que captam, cada um à sua maneira, a essência do outono. São versos que atravessam o silêncio das folhas, tocam em sentimentos difíceis de nomear e deixam marcas como pegadas em chão molhado.

1. Canção de Outono — Fernando Pessoa

No entardecer da terra,
O sopro do longo outono
Amareleceu o chão.
Um vago vento erra,
Como um sonho mau num sono,
Na lívida solidão.

Soergue as folhas, e pousa
As folhas volve e revolve
Esvai-se ainda outra vez.
Mas a folha não repousa
E o vento lívido volve
E expira na lividez.

Eu já não sou quem era;
O que eu sonhei, morri-o;
E mesmo o que hoje sou
Amanhã direi: quem dera
Volver a sê-lo! mais frio.
O vento vago voltou.

Neste poema, o outono é apresentado como um sopro de melancolia que cobre a terra e o próprio sujeito poético. O clima é introspectivo e frio, como se tudo estivesse prestes a se dissolver. A natureza, o vento, as folhas, o chão, tudo parece estar em sintonia com a identidade do eu lírico, que já não se reconhece mais.

O último terceto é um soco silencioso: “Eu já não sou quem era…”. Pessoa fala sobre a mudança que o tempo impõe a todos, sobre o desejo impossível de voltar a ser o que se foi. A imagem do “vento vago” que “expira na lividez” resume a atmosfera: tudo escoa, tudo cansa, tudo muda.

2. Esqueço-me das horas transviadas… — Fernando Pessoa

Esqueço-me das horas transviadas
O Outono mora mágoas nos outeiros
E põe um roxo vago nos ribeiros…
Hóstia de assombro a alma, e toda estradas…

Aconteceu-me esta paisagem, fadas
De sepulcros a orgíaco… Trigueiros
Os céus da tua face, e os derradeiros
Tons do poente segredam nas arcadas…

No claustro sequestrando a lucidez
Um espasmo apagado em ódio à ânsia
Põe dias de ilhas vistas do convés

No meu cansaço perdido entre os gelos
E a cor do outono é um funeral de apelos
Pela estrada da minha dissonância…

Aqui o outono assume uma forma ainda mais simbólica: é confusão, é perda de si. A linguagem do poema é carregada de imagens complexas e sensações turvas, quase um sonho (ou pesadelo). A paisagem que aparece diante dos olhos do eu lírico não é apenas externa; é também emocional.

A escolha de termos como “sepulcros”, “ódio à ânsia” e “funeral de apelos” reforça a ideia de uma alma que perdeu o caminho, sufocada pela própria percepção do mundo e do tempo. Há também uma mistura interessante de sensações: o roxo nos ribeiros, o cansaço entre os gelos e a dissonância interna.

3. Quando, Lídia, Vier o Nosso Outono — Fernando Pessoa

Quando, Lídia, vier o nosso Outono
Com o Inverno que há nele, reservemos
Um pensamento, não para a futura
Primavera, que é de outrem,
Nem para o Estio, de quem somos mortos,
Senão para o que fica do que passa —
O amarelo atual que as folhas vivem
E as torna diferentes.

Aqui, há outra mudança de tom. Ainda é outono, ainda há perda, mas agora com certa serenidade. O eu lírico não lamenta o fim, ele o observa com cuidado. Em vez de desejar voltar ao que passou, o poema propõe focar no que ainda resta, no que resiste ao tempo.

O verso “Senão para o que fica do que passa” resume bem a proposta: valorizar o que permanece, mesmo que seja só o amarelo das folhas. É uma forma mais madura de encarar a passagem da vida com menos lamento e mais aceitação.

4. Ruínas — Florbela Espanca

Se é sempre Outono o rir das primaveras,
Castelos, um a um, deixa-os cair…
Que a vida é um constante derruir
De palácios do Reino das Quimeras!

E deixa sobre as ruínas crescer heras.
Deixa-as beijar as pedras e florir!
Que a vida é um contínuo destruir
De palácios do Reino de Quimeras!

Deixa tombar meus rútilos castelos!
Tenho ainda mais sonhos para erguê-los
Mais altos do que as águias pelo ar!

Sonhos que tombam! Derrocada louca!
São como os beijos duma linda boca!
Sonhos!… Deixa-os tombar… deixa-os tombar…

Com Florbela Espanca, o outono ganha um tom trágico e quase teatral. Para a autora, o riso da primavera já carrega o peso do outono, ou seja, tudo nasce fadado a ruir. Os “palácios do Reino das Quimeras” são os sonhos que desabam, as ilusões que se esfarelam com o tempo.

Mas apesar da queda constante, o poema não se entrega totalmente à desesperança. Há uma força em seguir sonhando, em construir castelos mesmo sabendo que vão cair. E mais: há beleza na ruína, nas heras que crescem entre as pedras, na poesia que brota do que desaba.

5. A um Moribundo — Florbela Espanca

Não tenhas medo, não! Tranquilamente,
Como adormece a noite pelo Outono,
Fecha os teus olhos, simples, docemente,
Como, à tarde, uma pomba que tem sono…

A cabeça reclina levemente
E os braços deixa-os ir ao abandono,
Como tombam, arfando, ao sol poente,
As asas de uma pomba que tem sono…
O que há depois? Depois?… O azul dos céus?

Um outro mundo? O eterno nada? Deus?
Um abismo? Um castigo? Uma guarida?
Que importa? Que te importa, ó moribundo?
– Seja o que for, será melhor que o mundo!
Tudo será melhor do que esta vida!…

Por fim, o outono é a metáfora do fim da vida. Mas o tom não é de desespero, é de consolo. A morte é tratada como um adormecer tranquilo, como o fim suave de uma tarde fria. A comparação com a pomba que tem sono e com a noite que se recolhe é delicada e serena.

A grande força do poema está na reflexão filosófica que ele propõe: o que vem depois da morte? Não importa. O último verso é direto, duro, libertador: “Tudo será melhor do que esta vida!”.

Leia também: Poema de Sete Faces, de Carlos Drummond de Andrade – Análise

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