“Dom Quixote de La Mancha“, esse nome você provavelmente já ouviu, mas e o autor? Você sabe quem escreveu esse clássico? A pergunta parece simples, mas a resposta envolve bem mais do que apenas um nome. Para responder a logo a pergunta, Dom Quixote de La Mancha foi escrito por Miguel de Cervantes Saavedra, que ainda é extremamente famoso na Espanha, seu país de origem.
O autor de Dom Quixote teve uma vida tão ou mais intensa que seu famoso personagem. E se eu te disser que ele foi soldado, perdeu uma mão, foi prisioneiro, faliu e ainda revolucionou a literatura ocidental? Sim, conhecer o escritor de um dos livros mais famosos do mundo é também conhecer um pedaço fundamental da história da literatura.
Um pouco de contexto histórico
Para entender por que Dom Quixote foi tão inovador, é preciso dar uma olhada na época em que ele surgiu. Estamos falando da Espanha do século XVI e XVII, um período de ouro para as artes e para a literatura.
Era uma época de transformações sociais, descobertas e conflitos, mas também de grande produção intelectual. Os romances de cavalaria, que antes encantavam o público com histórias de heróis perfeitos e aventuras exageradas, já começavam a perder força.
Foi nesse cenário que Miguel de Cervantes decidiu brincar com esse estilo, e mais do que isso: satirizar. Criou um personagem que lia tanto essas histórias que passou a acreditar nelas. Resultado? Um senhor de idade, com armadura improvisada e um cavalo nada nobre, resolve virar cavaleiro andante e corrigir as injustiças do mundo. Uma comédia? Sim. Uma crítica social? Também. Uma virada de chave na literatura? Com certeza.
Pequena biografia Miguel de Cervantes Saavedra
Miguel de Cervantes Saavedra nasceu em 29 de setembro de 1547, em Alcalá de Henares, na Espanha, e faleceu em 22 de abril de 1616, em Madrid. Cervantes é considerado o pai do romance moderno. Ele inovou na forma de contar histórias, misturando realidade com fantasia, com personagens humanos e cheios de contradições. Algo que hoje parece básico, mas que, na época, foi revolucionário.
Serviu como soldado, foi ferido gravemente na batalha de Lepanto e perdeu o movimento da mão esquerda, motivo pelo qual ficou conhecido como “o maneta de Lepanto”. Em 1575, foi capturado por corsários e passou cinco anos preso em Argel até conseguir pagar seu resgate. Trabalhou depois para a Coroa espanhola, viveu dificuldades financeiras, foi preso novamente e foi nesse contexto que surgiu a ideia de Dom Quixote.
Curiosamente, Cervantes passou também um tempo em Lisboa, capital de Portugal, entre 1581 e 1583. Foi encantado pelas mulheres, pelos costumes e pelo clima vibrante da cidade. Chegou a escrever sobre isso: “Para festas, Milão. Para amores, Lusitânia”. Teve também uma certa rivalidade com Lope de Vega, o dramaturgo mais famoso da época, o que dificultou sua carreira no teatro.
Em 2015, seus restos mortais foram encontrados na igreja do convento das Trinitárias, em Madrid. A confirmação veio por uma combinação de pistas, como o local pedido por ele em testamento e as iniciais “M.C.” no caixão. Curiosamente, um dia após a morte de Cervantes, (dia 23), é comemorado o dia do livro na Espanha.
Dom Quixote: mais do que um livro, um marco na literatura
A primeira parte de Dom Quixote de La Mancha foi publicada em 1605. A segunda, em 1615. Ao todo, são 126 capítulos. Antes da segunda parte oficial, foi publicada uma falsa continuação por Alonso Fernández de Avellaneda, o que incomodou Cervantes profundamente e influenciou o tom da parte final da obra original.
Embora seja uma sátira, o livro vai mais além do que apenas isso. Ao contar a história de um homem que perdeu o juízo por ler demais, Cervantes cria uma reflexão sobre a linha tênue entre realidade e fantasia, razão e loucura.
Dom Quixote ri dos exageros, mas também emociona. Ele vive num mundo que já não tem espaço para cavaleiros, mas segue acreditando no seu propósito. É aí que a genialidade do autor aparece, transformando o riso fácil em uma crítica de fundo existencial e social. E é justamente essa complexidade que faz a obra ser considerada o primeiro romance moderno.
A influência de Cervantes vai muito além da Espanha
Cervantes não só revolucionou a forma de contar histórias. Ele também deixou sua marca na língua espanhola, que até hoje existem pessoas que a chamam de “la lengua de Cervantes” (a língua de Cervantes), em sua homenagem.
Em 2002, Dom Quixote foi eleito a melhor obra de ficção de todos os tempos em uma votação internacional organizada pelos Clubes do Livro da Noruega, que contou com a participação de escritores de todo o mundo. Além disso, a obra influenciou autores de todas as épocas e lugares, da literatura russa à americana, do realismo ao surrealismo.
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