Gregório de Matos não ganhou o apelido de “Boca do Inferno” à toa. Dono de uma língua afiada e de uma coragem rara, o poeta baiano do século XVII não poupava ninguém: políticos, padres, juízes, comerciantes, plebe ou nobreza. Suas sátiras eram tiros certeiros contra a hipocrisia e a corrupção da época, e continuam soando estranhamente atuais.
Mais de 300 anos depois, suas palavras ainda provocam risos, incômodo e reflexão. Venha e veja 5 poemas satíricos de Gregório de Matos que mostram o motivo de ele ser um dos poetas mais famosos da literatura brasileira e portuguesa. Além de ler cada um, você vai entender o contexto e a “alfinetada” escondida nos versos.
Quem foi Gregório de Matos e por que “Boca do Inferno”
Nascido em Salvador, em 1636, Gregório de Matos estudou em Portugal e fez carreira como advogado. Mas foi com a poesia, e principalmente com a sátira, que entrou para a história. Sua obra transita por temas religiosos, líricos e, claro, críticos, sempre com domínio técnico e intensidade.
O apelido “Boca do Inferno” veio justamente da ousadia: ele não tinha medo de expor abusos, vícios e contradições da sociedade colonial. No Brasil do século XVII, criticar autoridades políticas e religiosas era praticamente assinar a própria sentença de exílio. E foi exatamente isso que aconteceu: acabou expulso da Bahia por incomodar demais.
Sua sátira foi um registro histórico não oficial, uma espécie de “jornal alternativo” da época, mas com rima, ironia e veneno literário.
Os 5 poemas satíricos selecionados
Gregório de Matos escreveu vários poemas satíricos, mas alguns dos mais conhecidos são esses abaixo.
O poeta descreve a Bahia
A cada canto um grande conselheiro,
Que nos quer governar cabana e vinha;
Não sabem governar sua cozinha.
E podem governar o mundo inteiro.Em cada porta um bem frequente olheiro,
Que a vida do vizinho e da vizinha.
Pesquisa, escuta, espreita e esquadrinha,
Para o levar à praça e ao terreiro.Muitos mulatos desavergonhados,
Trazidos sob os pés os homens nobres,
Posta nas palmas toda a picardia,Estupendas usuras nos mercados,
Todos os que não furtam muito
pobres: E eis aqui a cidade da Bahia.
Gregório pinta um retrato nada lisonjeiro da Salvador colonial: corrupção nos mercados, falsos moralistas, olheiros de porta em porta cuidando mais da vida alheia do que da própria. A ironia é a principal arma aqui. Ao listar “conselheiros” que não conseguem nem governar a própria cozinha, ele expõe a hipocrisia e a desigualdade que reinavam na cidade. É como se dissesse: “se é assim que administram suas casas, imagina o resto”.
Conselhos a qualquer tolo para parecer fidalgo, rico e discreto
Bote a sua casaca de veludo,
E seja capitão sequer dois dias,
Converse à porta de Domingos Dias,
Que pega fidalguia mais que tudo.Seja um magano, um pícaro, um cornudo,
Vá a palácio, e após das cortesias.
Perca quanto ganhar nas mercancias,
E em que perca o alheio, esteja mudo.Sempre se ande na caça e montaria,
Dê nova solução, novo epíteto,
E diga-o, sem propósito, à porfia;Que em dizendo: “facção, pretexto, efecto”.
Será no entendimento da Bahia.
Mui fidalgo, mui rico e mui discreto.
O poema é um manual irônico para quem quer “posar de nobre”: vestir veludo, frequentar certas portas e falar palavras difíceis sem saber o significado correto. Gregório exagera de propósito para ridicularizar a elite que vivia de aparência e ostentação, servindo como um retrato do esnobismo vazio.
Sátira a um desembargador que prendeu um inocente e soltou um ladrão
Senhor Doutor, muito bem-vindo seja
A esta mofina e mísera cidade,
Sua justiça agora e equidade,
E letras com que a todos causa inveja.Seja muito bem-vindo, porque veja
O maior disparate e iniquidade,
Que se tem feito em uma e outra idade
Desde que há tribunais e quem os reja.Que me há de suceder nestas montanhas.
Com um ministro em leis tão pouco visto,
Como previsto em trampas e maranhas?É ministro de império, mero e misto,
Tão Pilatos no corpo e nas entranhas,
Que solta a um Barrabás e prende a um Cristo.
Indignado com a injustiça, o poeta compara o magistrado a Pilatos, que lavou as mãos, e a quem libertou Barrabás enquanto condenava Cristo. Aqui, o tom é mais ácido. As referências bíblicas aumentam o peso da crítica, reforçando o absurdo da decisão judicial.
Queixa da plebe ignorante e perseguidora das virtudes
Que me quer o Brasil, que me persegue?
Que me querem pasguates, que me invejam?
Não veem que os entendidos me cortejam,
E que os nobres é gente que me segue?Com o seu ódio, a canalha o que consegue?
Com sua inveja os néscios que motejam?
Se quando dos néscios por meu mal mourejam,
Fazem os sábios que a meu mal me entregue.Isto posto, ignorantes e canalha,
Se ficam por canalha, e ignorantes.
No rol das bestas a roerem palha.E se os senhores nobres e elegantes
Não querem que o soneto vá de valha,
Não vá, que tem terríveis consoantes.
Aqui o poeta se defende dos ataques que recebia, culpando a inveja e a ignorância popular. Ao mesmo tempo, destaca que os sábios o respeitavam. É uma mistura de autodefesa e desprezo. Gregório constrói um contraste entre o aplauso dos cultos e o desprezo da “canalha”, reafirmando seu lugar ao lado da inteligência e não da massa hostil.
À Bahia
Tristes sucessos, casos lastimosos,
Desgraças nunca vistas nem faladas,
São, ó Bahia! Vésperas choradas.
De outros que estão por vir mais estranhosos.Sentimo-nos confusos e teimosos,
Pois não damos remédios às já passadas,
Nem prevemos tampouco as esperadas,
Como que estamos delas desejosos.Levou-vos o dinheiro a má fortuna,
Ficamos sem tostão, real nem branca,
Macutas, correão, novelos, molhos.Ninguém vê, ninguém fala, nem impugna,
E é que, quem o dinheiro nos arranca,
Nos arrancam as mãos, a língua , os olhos.
Um lamento pelo estado da cidade: crise econômica, dinheiro escasso e uma população que assiste passivamente aos problemas. O tom é quase profético. Ele não só critica a perda das riquezas, mas também a apatia coletiva. É um alerta que poderia muito bem se aplicar a qualquer momento de crise na história do Brasil.
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