Flor do Campo, de Auta de Souza – Análise

O poema “Flor do Campo”, de Auta de Souza, retrata uma jovem sertaneja de beleza pura e inocente, traçando o caminho de sua vida desde a juventude até a maturidade.

A poetisa dirige-se diretamente a uma moça do campo, descrevendo sua beleza natural e ingenuidade, e profetizando seu futuro: o casamento, a maternidade e a passagem do tempo. Estão presentes temas como a inocência feminina, a beleza natural, o destino da mulher no casamento, a passagem do tempo e a nostalgia da juventude perdida.

Flor do Campo, de Auta de Souza

Moça ingênua e formosa,
Ó doce filha do sertão agreste!
O teu olhar celeste
Tem o fulgor da Noite luminosa.

Guarda a mesma doçura,
O mesmo encanto feito de esperanças
Dos olhos das crianças,
Ninho de sonho e ninho de ternura.

A luz do Paraíso,
Quando a alegria tua boca enflora,
Resplende como a aurora
Na graça virginal de um teu sorriso.

É’s inocente e boa
Como a Quimera que em teu seio canta
Tens a beleza santa
Da pomba amiga que no Espaço voa.

Jamais alguém te disse
Que tens o rosto branco como o gelo,
A noite no cabelo
E o sorriso tão cheio de meiguice.

Por isso inda é mais bela
A tua fronte cândida e tranqüila,
E o fogo que cintila
No teu olhar é como o de uma estrela.

Angélica e suave,
É tua voz que as almas adormece,
Um ciciar de prece,
Embalando a saudade de algum’ave.

Hoje tu’alma ignora
Toda a magia deste rosto puro;
Mas, olha, no futuro
Lembrar-te-ás do que não vês agora.

E, então, com que saudade
Recordarás esse passado morto
Em triste desconforto,
Chorando os sonhos da primeira idade.

Ó lindo malmequer,
Anjo que vives a sonhar com Deus…
Põe os olhos nos meus
E ouve bem séria o que te vou dizer:

Um dia, talvez cedo,
Teu coração palpitará inquieto
E, transbordando afeto,
Há de afagar um íntimo segredo.

Para tu’alma honesta
O Céu inteiro, iluminado, ó flor!
Com a luz de um puro amor
Há de brilhar como uma Igreja em festa.

E assim, risonha e calma,
Conduzirá ao porto da aliança,
Na barca da Esperança,
Como um troféu, o noivo de tu’alma.

E Deus há de baixar
Sobre estas duas mãos que o padre estreita,
A bênção mais perfeita,
O seu mais doce e mais divino olhar.

Feliz, muito feliz,
A tua vida correrá de manso
No plácido remanso
De quem adora o Céu e o Céu bem-diz.

Depois, do Paraíso,
Jesus há de enviar-te uma filhinha,
Formosa criancinha
Que embalarás cantando n’um sorriso.

E ela há de ser bonita
E boa como tu, anjo terrestre,
Ó linda flor silvestre,
Minha singela e casta margarida!

E após anos e anos,
Quando ela ficar moça e no teu rosto
A sombra do sol posto
For desdobrando o manto dos enganos.

N’um dia de verão,
Sentado à porta, à hora do descanso,
Sorrindo, bem de manso,
Há de dizer, pegando-te na mão.

O velho esposo amigo:
– Repara como é linda a nossa filha!
Seu riso como brilha!
Eras assim quando casei contigo.

E tu hás de evocar,
Entre saudades trêmulas e ais,
Aquele tempo que não volta mais!

E no gracioso olhar
De tua filha os olhos mergulhando,
Deixarás a tu’alma ir flutuando

Sobre a onda bendita
Daquele mar puríssimo e dolente…

E, então, murmurarás saudosamente:
Ah! como fui bonita!

Alto da Saudade.

Análise do poema “Flor do Campo”, de Auta de Souza

Auta de Souza, em “Flor do Campo”, traça um retrato da vida de uma mulher segundo os padrões do final do século XIX, no qual a poetisa estava inserida. O poema começa com uma descrição idealizada da jovem sertaneja, cheia de imagens celestiais e puras: olhar com “fulgor da Noite luminosa”, doçura dos “olhos das crianças”, “graça virginal”, “inocente e boa”. Essa visão romantizada da mulher como ser angelical e puro reflete os valores da época.

Um aspecto interessante é que a moça não tem consciência da própria beleza. “Jamais alguém te disse / Que tens o rosto branco como o gelo, / A noite no cabelo / E o sorriso tão cheio de meiguice”. Essa inocência é apresentada como uma virtude, reforçando a ideia de que a mulher ideal deveria ser modesta e alheia à própria aparência.

O poema então revela sua estrutura mais problemática: Auta de Souza descreve o único futuro possível para essa moça. Não há menção a sonhos pessoais, estudos, ambições ou realizações próprias. O destino da mulher está completamente definido: “Um dia, talvez cedo, / Teu coração palpitará inquieto” – ela vai se apaixonar; depois vem o casamento na igreja; e então a maternidade, quando “Jesus há de enviar-te uma filhinha”.

É importante notar que o poema reflete as limitações impostas às mulheres da época. A trajetória feminina estava restrita ao casamento e à maternidade, e Auta de Souza, ela mesma uma mulher daquele período, reproduz essa visão como se fosse natural e inevitável. A moça é tratada como “troféu” levado ao casamento, uma imagem que hoje reconhecemos como problemática, pois reduz a mulher a um prêmio a ser conquistado.

A parte final do poema é emocionalmente poderosa, mas também melancólica. Anos depois, já velha, a mulher olha para a filha jovem e ouve o marido dizer: “Repara como é linda a nossa filha! / Seu riso como brilha! / Eras assim quando casei contigo”. O único valor reconhecido nela ao longo da vida foi sua beleza física. O último verso, “Ah! como fui bonita!”, é um suspiro carregado de tristeza: a mulher percebe que sua juventude e beleza eram seus maiores atributos, e agora se foram.

Embora o poema seja tecnicamente bem construído e emocionalmente tocante, ele revela uma visão limitada do que significa ser mulher. A “flor do campo” não tem voz própria, não escolhe seu destino, não tem ambições além de ser bonita, casar e ter filhos. Sua maior realização é ver a própria beleza refletida na filha, perpetuando o ciclo.

É importante ler este poema dentro de seu contexto histórico. Auta de Souza escreveu no final do século XIX, quando as mulheres tinham poucas oportunidades de educação, trabalho ou autonomia.

Pintura "Outubro, colheita de batatas" (1878) de Jules Bastien-Lepage mostra camponesa do campo despejando batatas de cesto em saco, evocando a vida sertaneja no poema Flor do Campo de Auta de Souza
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Alexandre Garcia Peres

Criador do site Literatura Online e Redator, Editor e Analista de SEO com três anos de experiência. Formado em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), com foco em literatura e TCC em Paulo Leminski. Fez um ano de especialização em Teoria da Literatura e sua maior área de interesse é a poesia brasileira, principalmente os poetas da segunda e terceira geração do romantismo.

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