À Alma de Minha Mãe, de Auta de Souza – Análise

O poema “À Alma de Minha Mãe”, de Auta de Souza, expressa a dor profunda da perda materna e a sensação de vazio que essa ausência deixa na alma da poetisa.

Escrito em março de 1895, o poema revela uma jovem sensibilidade devastada pelo luto. Estão presentes temas como a fragmentação dos sonhos, a impossibilidade de recuperar a felicidade perdida e a constatação de que a mãe levou consigo todas as lembranças de alegria.

À Alma de Minha Mãe, de Auta de Souza

Partiu-se o fio branco e delicado
Dos sonhos de minh’alma desditosa…
E as contas do rosário assim quebrado
Caíram como folhas de uma rosa.

Debalde eu as procuro lacrimosa,
Estas doces relíquias do Passado,
Para guardá-las na urna perfumosa,
Do meu seio no cofre imaculado.

Aí! se eu ao menos uma só pudesse
D’estas contas achar que me fizesse
Lembrar um mundo de alegrias doidas…

Feliz seria… Mas minh’alma atenta
Em vão procura uma continha benta:
Quando partiste m’as levaste todas!

Natal – Março de 1895.

Análise do poema “À Alma de Minha Mãe”, de Auta de Souza

Auta de Souza, em “À Alma de Minha Mãe”, usa uma comparação muito bonita para falar sobre sua dor: o rosário quebrado. Logo no começo, ela fala que o “fio branco e delicado / Dos sonhos de minh’alma desditosa” se partiu. Isso significa que quando a mãe morreu, não foi só a perda de uma pessoa querida, mas todos os seus sonhos e esperanças também se quebraram. O rosário, que é um objeto religioso usado para rezar, vira aqui a imagem de uma vida que se despedaçou.

Quando ela compara as contas do rosário com “folhas de uma rosa” que caem, mostra como as lembranças são frágeis e passam rápido, como algo bonito que escorrega pelos dedos. É quase possível imaginar essas memórias felizes se espalhando pelo chão, impossíveis de juntar de novo. A tristeza é grande, mas ao mesmo tempo há um carinho ao falar dessas “doces relíquias do Passado”.

Na segunda estrofe, Auta de Souza mostra que está tentando desesperadamente guardar pelo menos algumas dessas lembranças. Ela busca as “contas” chorando, querendo colocá-las em um lugar especial e protegido dentro de si mesma, como se fossem tesouros guardados em um cofre. Mas não consegue encontrar nada.

Nos últimos versos, a dor fica ainda mais forte. Quando ela diz “se eu ao menos uma só pudesse / D’estas contas achar que me fizesse / Lembrar um mundo de alegrias doidas”, está pedindo muito pouco: só uma lembrança feliz já bastaria para diminuir seu sofrimento. A palavra “doidas” para falar das alegrias mostra aqueles momentos de felicidade completa e sem preocupações, como quando a gente é criança ou está muito feliz sem pensar em nada de ruim.

O final do poema é devastador: “Quando partiste m’as levaste todas!”. Auta de Souza percebe que a mãe, ao morrer, levou junto todas as memórias de felicidade, todas as “contas” do rosário da vida. Não sobrou nenhuma lembrança capaz de aliviar a dor. É como se a morte da mãe tivesse apagado também todas as coisas boas que ela viveu, deixando apenas um vazio enorme e impossível de preencher. É um grito de dor de uma garota de apenas 16 anos que perdeu não só a mãe, mas junto com ela, toda a alegria que conhecia.

Quadro impressionista de Mary Cassatt retrata mulher de blusa azul costurando ao lado de janela com flores laranjas enquanto menina loira repousa em seu colo, simbolizando o amor materno e as lembranças perdidas descritas por Auta de Souza em À Alma de Minha Mãe
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Alexandre Garcia Peres

Criador do site Literatura Online e Redator, Editor e Analista de SEO com três anos de experiência. Formado em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), com foco em literatura e TCC em Paulo Leminski. Fez um ano de especialização em Teoria da Literatura e sua maior área de interesse é a poesia brasileira, principalmente os poetas da segunda e terceira geração do romantismo.

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