João Guimarães Rosa presenteou o mundo literário com a obra “Grande Sertão: Veredas“, lançado em 1956, um marco modernista que até hoje desafia e fascina leitores.
Além de escritor, Rosa foi médico e diplomata, um autodidata brilhante cujo legado inclui um singular concurso poético que o consagrou, publicações de contos notáveis e uma eleição para a Academia Brasileira de Letras em 1963.
Com sua morte prematura em 1967, aos 59 anos, pouco após assumir a cadeira na ABL, Guimarães Rosa deixou uma obra que continuaria a reverberar como uma das mais significativas da língua portuguesa.
“O que a vida quer da gente é coragem”
Guimarães Rosa em “Grande Sertão: Veredas” oferece uma visão filosófica da existência através dos olhos experimentados de Riobaldo, ex-jagunço que narra o cotidiano de lutas do sertão, sua relação com a morte, a moralidade e o amor reprimido. Em um dos trechos mais emblemáticos, o protagonista convida à reflexão de alguns versos:
Trouxe tanto este dinheiro
o quanto, no meu surrão,
p’ra comprar o fim do mundo
no meio do Chapadão.
Urucuia – rio bravo
cantando à minha feição:
é o dizer das claras águas
que turvam na perdição.
Vida é sorte perigosa
passada na obrigação:
toda noite é rio-abaixo,
todo dia é escuridão
Nesse trecho, Riobaldo está falando sobre a vida. Ele acha que a vida é como um rio – às vezes calmo e tranquilo, outras vezes cheio de surpresas e desafios. Ele usa essa comparação para mostrar como a vida é imprevisível e cheia de coisas que precisamos enfrentar.
Introspectivo, em sua jornada solitária, ele diz que não cantou estes versos para ninguém e em seguida traz a uma das reflexões mais famosas da obra de Guimarães Rosa:
“Mas estes versos não cantei para ninguém ouvir, não valesse a pena. Nem eles me deram refrigério. […] O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem. O que Deus quer é ver a gente aprendendo a ser capaz de ficar alegre a mais, no meio da alegria, e inda mais alegre ainda no meio da tristeza! Só assim de repente, na horinha em que se quer, de propósito – por coragem. Será? Era o que eu às vezes achava. Ao clarear do dia“
A vida é descrita de maneira crua e poética: oscila entre extremos, trazendo às vezes calor e frio, às vezes pressão e alívio, às vezes tranquilidade e agitação. Nesse turbilhão de sentimentos e experiências, Riobaldo revela uma verdade da existência que não podemos negar: a vida exige coragem.
Além disso, traz uma reflexão mais religiosa: Deus deseja ver o homem aprendendo a ser capaz de se alegrar, mesmo que a vida seja uma montanha-russa de altos e baixos. Deus deseja que ele encontre contentamento na alegria, e ainda mais alegria nos momentos de tristeza.
A mensagem é a seguinte: apesar do caos, das dores e das dificuldades que podem nos cercar em nosso dia a dia, o ser humano tem a capacidade de encontrar forças para enfrentar as marés da vida — essa é a coragem que a vida exige de cada indivíduo!
Sobre a obra Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa
“Grande Sertão: Veredas” é uma obra ambientada no sertão do Brasil, com uma trama repleta de simbolismos, falando de bem e mal e da própria existência do Diabo. A jornada de Riobaldo reflete metamorfoses profundas e coloca o leitor num caminho de autoquestionamento acerca da própria vida, do amor e da morte.
Além disso, Guimarães Rosa reinventa o idioma com um olhar regionalista, trazendo na narrativa uma identidade linguística e cultural bastante forte.
A obra Grande Sertão Veredas foi escrita a partir de uma comitiva pelo sertão mineiro iniciado em Três Marias(Fazenda Sirga), e finalizado em Araçai (Fazenda São Francisco) que Rosa participou. Logo, o regionalismo da linguagem é mineiro, não nordestino, como o autor cita na última linha deste texto.
Obrigado pela correção, Rodrigo!