Pular para o conteúdo
❦ Literatura Online
–
Música para focar

Deslize para virar a página

Hamlet

Tradução de D. Luís I

INTERLOCUTORES

CLÁUDIO
Rei de Dinamarca.
HAMLET
Filho do defunto Rei e sobrinho do Rei reinante.
POLÓNIO
Camareiro-mor.
HORÁCIO
Amigo de Hamlet.
LAERTES
Filho de Polónio.

Cortesãos dinamarqueses:

- VOLTIMANDO

- CORNÉLIO

- ROSENCRANTZ

- GUILDENSTERN

- *OSRICO

- UM OUTRO CORTESÃO

- UM PADRE

- REINALDO — Criado de Polónio.

- MARCELO e BERNARDO — Oficiais.

- FRANCISCO — Soldado.

- UM EMBAIXADOR.

- UM OUTRO CORTESÃO.

- FORTINBRAS — Príncipe de Noruega.

- GERTRUDES — Rainha de Dinamarca, mãe de Hamlet.

- OFÉLIA — Filha de Polónio

ACTO PRIMEIRO

CENA I

Elsenor, a esplanada do castelo. FRANCISCO de sentinela, BERNARDO vem encontrar-se com ele.

BERNARDO

Quem vem lá? viva quem?

FRANCISCO

Responde tu primeiro, faze alto, deixa-te reconhecer.

BERNARDO

Viva o rei.

FRANCISCO

Bernardo?

BERNARDO

Eu mesmo.

FRANCISCO

És pontual.

BERNARDO

Acaba de dar meia-noite; vai descansar, Francisco.

FRANCISCO

Agradeço-te de me teres vindo render; faz um frio glacial, e começava a sentir-me incomodado.

BERNARDO

Não houve novidade enquanto estiveste de sentinela?

FRANCISCO

Nem sequer ouvi correr um rato.

BERNARDO

Então boas noites; se vires Horácio e Marcelo, que também estão de guarda, dize-lhes que se aviem.

Chegam HORÁCIO e MARCELO.

FRANCISCO

Creio ouvi-los, façam alto, quem vem lá?

HORÁCIO

Amigos da pátria.

MARCELO

Súbditos do rei de Dinamarca.

FRANCISCO

Santas noites.

MARCELO

Viva meu valente soldado, quem te rendeu?

FRANCISCO

Bernardo está agora de sentinela. Boa noite. (Retira-se.)

MARCELO

Olá, Bernardo?

BERNARDO

Não é Horácio que eu vejo?

HORÁCIO

Ele mesmo em corpo e alma.

BERNARDO

Bem-vindo sejas, Horácio, e tu também, amigo Marcelo.

MARCELO

Dize-me, já viste a aparição esta noite?

BERNARDO

Ainda nada vi.

MARCELO

Horácio diz que é efeito da minha imaginação, e nega-se a acreditar na visão temerosa, de que já por duas vezes fomos testemunhas; pedi-lhe portanto que viesse connosco, para que se o fantasma de novo aparecer, ele possa testemunhar a verdade do que afiançámos e dirigir-lhe a palavra.

HORÁCIO

Histórias, qual aparecer!

BERNARDO

Sentemo-nos um instante, e vamos repetir-te a narração do que temos presenciado duas noites consecutivas e a que prestas tão pouco crédito.

HORÁCIO

Com todo o gosto, e deixemos falar Bernardo.

BERNARDO

A noite passada, à hora em que esta estrela que vêem ao poente do pólo descreve o seu giro e vem iluminar esta parte do firmamento, em que ora brilha, no momento em que na torre soava uma hora, Marcelo e eu...

MARCELO

Silêncio, ei-lo que aparece.

Aparece a sombra do REI.

BERNARDO

Assemelha-se ao defunto rei.

MARCELO

Tu que estudaste, Horácio, fala-lhe.

BERNARDO

Não é verdade que se parece com o defunto rei? Observa bem, Horácio.

HORÁCIO

A semelhança é espantosa; a surpresa e o terror paralisaram-me.

BERNARDO

Parece esperar que lhe falem.

MARCELO

Fala-lhe, Horácio.

HORÁCIO

Quem quer que és, que a esta hora da noite usurpas a forma majestosa e guerreira, debaixo da qual se mostrava o meu defunto soberano, em nome do Céu, fala, ordeno-to eu!

MARCELO

Parece descontente.

BERNARDO

Ei-lo que se afasta, caminhando lenta e gravemente.

HORÁCIO

Detém-te, fala, fala, intimo-te a que fales. (A sombra afasta-se.)

MARCELO

Foi-se sem responder.

BERNARDO

Então, Horácio, que é essa tremura e palidez; não haverá alguma cousa mais do que um efeito de imaginação, que dizes agora?

HORÁCIO

Pelo Deus do Céu, não o acreditava sem o testemunho positivo e irrecusável dos meus próprios olhos.

MARCELO

Não se parece com o rei?

HORÁCIO

Como tu te pareces contigo mesmo, era a armadura que usava quando combateu o ambicioso norueguês; tinha aquele ar ameaçador, no dia em que no seu próprio carro, atacou, por causa de uma acalorada porfia, o guerreiro polaco, e o prostrou no gelo para nunca mais se levantar. É assombroso!

MARCELO

Assim é que ele já duas vezes passou pelo nosso posto de observação com o seu caminhar grave e marcial.

HORÁCIO

Com que desígnio, ignoro-o, mas em minha opinião é um presságio para o estado de alguma grande catástrofe.

MARCELO

Pois bem, sentemo-nos, e aquele dentre vós todos que o souber, diga porque fatigam, com guardas vigilantes e rigorosas, os súbditos deste reino; para que esta fundição diária de canhões de bronze, estas compras de armamentos e munições no estrangeiro; para que se enchem de operários os nossos arsenais marítimos; por que este aumento de trabalho, que nem os dias santos são respeitados; para que esta actividade de dia e de noite? O que será? Qual de vós mo poderá dizer?

HORÁCIO

Posso eu, ao menos, referir os boatos. Nosso último rei, cuja imagem ainda há pouco vimos, foi, segundo dizem, convocado a campo fechado por Fortinbras de Noruega, que um cioso orgulho tinha levado a esse acto. Nesse combate o nosso valente Hamlet, e era justa a sua reputação, matou a Fortinbras. Ora em virtude de uma declaração autêntica, sancionada pelas leis da cavalaria, se Fortinbras sucumbisse, todos os seus estados pertenceriam ao vencedor. Por sua parte o nosso rei tinha empenhado da mesma forma a sua palavra; e no caso de ele ser vencido, uma igual porção de território pertenceria a Fortinbras. Assim, em virtude deste pacto recíproco, a sucessão do vencido pertencia de direito a Hamlet. Contudo o jovem Fortinbras, ardente e sem experiência, reuniu nas fronteiras de Noruega um exército de aventureiros, prontos e resolvidos pela soldada aos mais audaciosos cometimentos. O seu projecto, segundo o nosso governo está informado, é nada menos do que retomar à viva força e de mão armada esse território que seu pai perdeu com a vida: eis aqui, na minha fraca opinião, a razão principal dos preparativos que fazemos, das guardas a que somos obrigados, e desta actividade tumultuosa que se nota em todo o país.

BERNARDO

Também eu julgo ser esse o motivo; isto explica-nos porque vemos passar diante dos postos de guarda a sombra do rei, com a sua armadura e com o seu porte majestoso, desse rei que foi e é o causador desta guerra.

HORÁCIO

É um argueiro nos olhos da inteligência para lhes perturbar a vista. Nos tempos mais gloriosos e florescentes de Roma, pouco antes da morte do grande Júlio, abriram-se os túmulos, e os mortos, nas suas mortalhas, divagaram pela cidade, soltando gritos ameaçadores; viram-se estrelas deixar após si rastos luminosos, choveu sangue, desastrosos sinais apareceram no céu, e o astro húmido, sob cuja influência está o império de Neptuno, eclipsou-se; todos julgavam ser o fim do mundo. Estes mesmos sinais precursores de acontecimentos terríveis, correios de maus destinos, prelúdios de grandes catástrofes, o Céu e a Terra os fizeram aparecer nos nossos climas, aos olhos impressionáveis dos nossos compatriotas.

A sombra reaparece.

HORÁCIO (continuando)

Mas silêncio, olhem, ei-lo que volta. Vou interpelá-lo, embora ele me fulmine. Pára. Ilusão. Se tens o dom da palavra, se podes articular sons, fala; se há alguma boa acção cujo cumprimento te possa aliviar e contribuir para a minha salvação, responde-me: se és sabedor de alguma desgraça que ameace a tua pátria, e que um aviso oportuno possa desviar... Oh fala! ou se em tua vida confiaste às entranhas da terra riquezas mal adquiridas; e a maior parte das vezes é por isso que vós, os espíritos, divagais depois da morte, di-lo. (O galo canta.) Detém-te e fala. Veda-lhe o caminho, Marcelo.

MARCELO

Devo servir-me da minha partasana?

HORÁCIO

Serve-te se não parar.

BERNARDO

Para cá?

HORÁCIO

Por acolá.

(A sombra afasta-se.)

MARCELO

Partiu! — que presença majestosa! — são desacertadas estas demonstrações violentas! é invulnerável como o ar, e os nossos golpes não são senão o ridículo esforço de uma cólera impotente.

BERNARDO

Ia falar quando cantou o galo.

HORÁCIO

Estremeceu como um culpado que uma intimação súbita aterra. Ouvi dizer que o galo, que é o clarim da aurora, acorda o Deus da manhã com a sua voz sonora e penetrante, e que a esse sinal todos os espíritos errantes no mar, no fogo, na terra ou no ar se apressam em voltar aos seus respectivos domínios. A prova está no que acabámos de presenciar.

MARCELO

O galo cantou, e ele desapareceu. Algumas pessoas dizem que na véspera do dia em que se celebra a natividade do Salvador do mundo, o arauto da manhã canta toda a noite sem interrupção; pretendem então que nenhum espírito ousa sair da sua mansão, que as noites são salubres, que nenhuma estrela exerce influência maligna, nenhum malefício surte efeito, que nenhuma feiticeira exercita os seus feitiços, tanto esse dia é bento, e está sob o império de uma graça celeste.

HORÁCIO

Assim o ouvi dizer, e acredito-o. Mas eis que no oriente, acolá no fundo, por detrás dos outeiros, surge a manhã, vestida de púrpura por entre o orvalho. Dêmos fim à nossa vigília, e vamos dar parte ao jovem Hamlet do que vimos esta noite; porque, por vida minha, creio que este espírito, mudo para todos, lhe falará. Aprovam esta confidência, que nos impõe o nosso dever e a nossa afeição?

MARCELO

Vamos sem detença; sei onde o acharemos, e onde lhe poderemos falar sem constrangimento. (Retiram-se.)

CENA II

Uma sala aparatosa no castelo. Entram o REI e a sua comitiva, a RAINHA, HAMLET, POLÓNIO,

LAERTES, VOLTIMANDO, CORNÉLIO e CORTESÃOS

O REI

A morte de Hamlet, nosso amado irmão, ainda é tão recente, que pareceria justo que nossos corações estivessem imersos na tristeza e saudade, e que uma nuvem de dor cobrisse o solo deste reino; contudo, a razão combateu os impulsos da natureza, tanto que enfreámos a nossa dor, e embora ainda esteja bem viva a recordação, pensamos também em nós. Portanto, com um prazer incompleto, confundindo os sorrisos com as lágrimas, a alegria com o luto; unindo o dobrar dos sinos aos cânticos nupciais, tomámos por esposa aquela que outrora era nossa irmã, e fizemo-la compartir connosco a coroa deste belicoso país. Nesta conjuntura ouvimos primeiro os vossos ilustrados conselhos, livremente enunciados. Somos-lhes gratos. Quanto ao jovem Fortinbras, fazendo seguramente uma fraca ideia do nosso poder, ou imaginando que a morte de nosso chorado irmão lançasse o Estado na dissolução e na anarquia, embalando-se em quimérica esperança, ousou mandar-nos mensagem após mensagem, intimando-nos a restituir-lhe o território perdido por seu pai, e legalmente adquirido por nosso valoroso irmão; isto por o que lhe respeita. Falemos agora de nós e do motivo desta reunião. O motivo é este. Pelas presentes escrevemos ao rei de Noruega, tio do jovem Fortinbras, que jazendo enfermo num leito, mal conhece os projectos de seu sobrinho, pedindo-lhe que ponha o seu veto à empresa, porque é de entre os seus súbditos que se fazem as levas de soldados e os alistamentos. Encarregámo-vos, Cornélio e Voltimando, de apresentar as nossas saudações ao idoso monarca norueguês, e é nossa vontade, que nas negociações vos conformeis adstritamente às instruções que junto com a nossa carta recebereis. Adeus; a celeridade do resultado prove a dedicação dos negociadores.

CORNÉLIO e VOLTIMANDO

Senhor, a nossa dedicação e obediência não têm limites.

O REI (continuando)

Nem o duvidamos. Recebam um cordial adeus. (Cornélio e Voltimandosaem.) Agora, tu, Laertes, que pretendes? Disseram-nos que nos querias fazer uma súplica? Qual é? Tu não podes fazer ao monarca dinamarquês um pedido que não seja razoável, e não recorres a ele em vão. Que poderias desejar, Laertes, a que não estejamos prontos a anuir, mesmo antes de conhecer a pretensão. A cabeça não é mais simpática ao coração, a mão não é mais pronta em servir a boca do que o trono de Dinamarca é dedicado a teu pai. Que desejas, pois, Laertes?

LAERTES

Meu augusto soberano, a vossa licença e o vosso consentimento, para voltar a França. Gostosamente vim a Dinamarca para assistir à vossa coroação, mas, cumprido esse dever, confesso-o, os meus desejos e a minha vontade me chamam a França, e suplico a Vossa Majestade que me conceda partir.

O REI

Já alcançaste o consentimento de teu pai? o que diz Polónio?

A RAINHA

Arrancou-me o meu consentimento, tanto me importunou; acabei por ceder, mau grado meu, aos seus desejos. Suplico-lhe, pois, senhor, que lhe conceda a licença pedida.

O REI

Podes partir quando te aprouver, Laertes; deixo-te a liberdade de dispores do teu tempo e da tua pessoa. Então, Hamlet, meu primo, meu filho?

HAMLET (à parte)

Ainda que mui próximos parentes não somos primos.

O REI

Porquê essas nuvens que pesam sobre a tua fronte?

HAMLET

Engana-se, senhor, como pode haver nuvens, quando brilha o Sol.

A RAINHA

Querido Hamlet, despe essas roupas de dó, e lança um olhar amigável para o rei de Dinamarca. Descrava os teus olhos do chão; pareces procurar as pegadas do teu glorioso pai. Sabes bem que é um destino invariável; tudo quanto vive há-de morrer, e este mundo é uma ponte para a eternidade.

HAMLET

Sim, senhora, é um destino comum.

A RAINHA

Se é assim, o que te parece a ti tão extraordinário?

HAMLET

Senhora, não me parece, é-o na verdade. O parecer para mim nada vale. Minha mãe, não são nem esta capa negra, nem estas vestes obrigadas nos lutos solenes, nem os suspiros que mal pode soltar um peito oprimido, nem torrentes de lágrimas, nem o semblante macerado, nem todas as manifestações de uma dor pungente, que podem exprimir e revelar o que eu sinto. Todos estes sinais podem parecer dor; é um papel fácil de representar, mas não são verdadeira dor, são como o fato para o comediante; mas eu (pondo a mão sobre o coração) sinto aqui, o que não há palavras que o expressem.

O REI

Nada há na verdade, Hamlet, mais comovente e louvável do que os deveres fúnebres prestados à memória de um pai. Mas lembra-te que teu pai já perdera o seu, e que esse também já perdera o pai. É para o sobrevivente um dever de piedade filial, dar durante um certo prazo provas de uma dor respeitosa; mas perseverar numa aflição obstinada, é mostrar uma teima ímpia; é uma dor cobarde, é a prova de uma vontade rebelde aos decretos da Providência, de um coração sem energia, de uma alma incapaz de resignação, de uma inteligência pobre e limitada. Porque nos deve impressionar a tal ponto um acontecimento, que sabemos ser uma necessidade, e que se repete tão frequente, quanto as ocorrências mais vulgares; é uma triste indocilidade. Quê! É uma ofensa a Deus, uma ofensa aos finados, uma absurda ofensa à natureza, que não tem em seus fastos mais vulgar acontecimento, que a morte de um pai; a qual, desde o primeiro cadáver até ao homem que hoje se finou, nunca deixou de nos clamar: Assim estava escrito. Suplico-te, portanto, abandona essa aflição impotente, e vê em nós um segundo pai; porque queremos que todos saibam que tu és o mais próximo ao nosso trono, e que a afeição mais terna que um pai tem a seu filho, tenho-a eu a ti. Quanto à tua intenção de voltar a Wittemberg, para continuares os teus estudos, nada há mais oposto aos nossos desejos; conjuramos-te que fiques aqui, sê o prazer de nossos olhos, o primeiro da nossa corte, nosso sobrinho, nosso filho.

A RAINHA

Hamlet, far-te-á tua mãe uma súplica baldada? peço-te fica connosco, não vás para Wittemberg.

HAMLET

Farei o que puder, para em tudo vos provar obediência.

O REI

Eis enfim uma resposta afectuosa e comedida. Serás na Dinamarca um segundo Eu. (À rainha.) Venha, senhora, este acto de deferência de Hamlet, cumprido tão naturalmente e sem esforço, enche de júbilo o meu coração. Para o celebrar o rei de Dinamarca não libará uma taça, sem que a voz do canhão o transmita às nuvens. A cada taça quero que o céu o anuncie, repercutindo o estrondo dos raios da terra. Vamos agora. (Todos saem

excepto Hamlet.)

HAMLET (só)

Ah! porque não poderá esta carne tão sólida fundir-se e tornar-se orvalho. Ah, que se o Eterno não tivesse fulminado como réprobo o suicida... Senhor Deus, meu Deus, como são insípidos, fastidiosos e vãos os gozos do mundo. Que pena! Ele é um jardim inculto que só tem plantas grosseiras e maléficas. Pois será possível que ousassem tanto? Morto há dois meses! que digo? Nem dois meses ainda. Um rei tão bom, que tanta semelhança tinha com este como Hipérion com um Sátiro, todo ternura para minha mãe, a ponto de não querer que uma brisa mais fresca açoutasse o seu rosto! Céus e Terra! e deverei eu recordar-me? Parecia que a vida de um era a vida do outro! Contudo, passado apenas um mês — não posso nem quero pensá-lo —, fragilidade é sinónimo de mulher. Só um mês, sem ainda ter gasto o calçado que usava acompanhando o féretro do marido, banhada em lágrimas como uma Níobe, ela mesma, essa mulher, oh Céus! um animal privado do socorro da razão teria prolongado o seu luto; essa mulher desposou meu tio, o irmão de meu pai, mas que tem tanto de meu pai como eu de Hércules. No fim de um mês, antes que secassem as suas hipócritas lágrimas, casou. Oh criminosa precipitação! Voar com tanto afã a um leito incestuoso, é horrível! E será possível que o Céu o tolere? Despedaça-te coração, já que forçoso é calar.

Chegam BERNADO, HORÁCIO e MARCELO.

HORÁCIO

Deus guarde a Vossa Alteza.

HAMLET

Quanto folgo de te ver de boa saúde. És tu, Horácio, não me engano.

HORÁCIO

Eu mesmo, o vosso servo fiel até à morte.

HAMLET

Queres dizer amigo; de hoje em diante dar-te-ei este nome. Mas que fazes tu longe de Wittemberg, Horácio? Marcelo!

MARCELO

Meu príncipe!

HAMLET

Alegro-me de te ver, bons dias. (A Horácio.) Mas, francamente, que motivo te obrigou a voltar de Wittemberg?

HORÁCIO

Tudo dissipei.

HAMLET

Nunca consentiria que um teu inimigo assim falasse a teu respeito; e não me obrigarás a forçar a minha razão a crer no que o meu coração se nega a acreditar. Acusares-te desta maneira a ti mesmo... tu não és dissipador. Que motivo tão forte te pôde pois trazer a Elsenor, tu mo contarás mais tarde, entre dois copos de vinho generoso, antes da tua partida.

HORÁCIO

Senhor, vim prestar a última homenagem a seu augusto pai.

HAMLET

Peço-te, meu camarada de estudos, que não zombes; creio antes que vieste assistir ao casamento de minha mãe.

HORÁCIO

Verdade é que não houve quase intervalo.

HAMLET

Por alvitre económico, Horácio. O banquete funerário ainda subministrou as iguarias e as viandas para o festim nupcial. Antes quisera encontrar no Céu o meu mais encarniçado inimigo, do que ter visto despontar um tal dia, Horácio. Meu pobre pai, parece-me que o estou vendo!

HORÁCIO

Onde, senhor?

HAMLET

Na minha imaginação, Horácio.

HORÁCIO

Recordo-me de o ter visto, era um grande rei.

HAMLET

Era um homem que, bem considerado, não tinha rival na terra.

HORÁCIO

Julgo tê-lo visto a noite passada.

HAMLET

Viste, quem?

HORÁCIO

Alteza, vi o rei seu pai.

HAMLET

O rei meu pai?

HORÁCIO

Senhor, acalme esta agitação e espanto, e preste atenção, enquanto eu, fundado no testemunho ocular destes senhores, vou relatar esse prodígio.

HAMLET

Fala, pelo amor de Deus, sou todo ouvidos.

HORÁCIO

Durante duas noites consecutivas, no meio das trevas e do silêncio, enquanto estes senhores estavam de sentinela, eis o que lhes aconteceu. Uma figura parecida com seu pai, armada da cabeça aos pés, lhes apareceu caminhando lenta e majestosamente. Três vezes, atemorizados e atónitos, o viram passar à distância do bastão de comando que empunhava, enquanto eles, fulminados pelo terror, ficaram mudos, nem ousaram falar. Confiaram-me, debaixo de segredo, trémulos ainda, o que tinham presenciado. Na noite seguinte entrei com eles de sentinela, e confirmando a verdade das suas palavras, à hora por eles indicada, debaixo da forma por eles descrita, voltou a aparição. Reconheci seu pai; as minhas duas mãos não são mais parecidas.

HAMLET

Mas em que sítio apareceu?

MARCELO

Senhor, na esplanada, onde estávamos de sentinela.

HAMLET

Falaram-lhe.

HORÁCIO

Falámos, mas não respondeu. Contudo uma vez pareceu-me que movia a cabeça, como quem quer falar; mas nesse momento cantou o galo matinal; ao som do canto afastou-se o espectro apressadamente, e nós perdemo-lo de vista.

HAMLET

Na verdade é incompreensível.

HORÁCIO

Senhor, juro-lhe pela minha vida que é verdade, e julgámos nosso dever informar Vossa Alteza.

HAMLET

Não posso dissimular a minha inquietação! Estão de guarda esta noite?

TODOS

Sim, Alteza.

HAMLET

Armado, disseram?

TODOS

Armado, meu senhor.

HAMLET

Da cabeça aos pés?

TODOS

Tal qual.

HAMLET

Viram-lhe as feições?

TODOS

Vimos, tinha a viseira levantada.

HAMLET

Tinha fisionomia carregada?

TODOS

A expressão era antes triste que colérica.

HAMLET

Pálido ou corado?

TODOS

Muito pálido.

HAMLET

O seu olhar fixou-se em algum de vós?

TODOS

Constantemente.

HAMLET

Queria lá ter estado.

HORÁCIO

O seu espanto teria sido igual ao nosso.

HAMLET

É mais que provável. Demorou-se muito?

HORÁCIO

O tempo necessário para contar até um cento, sem parar.

MARCELO e BERNARDO

Muito mais, muito mais.

HORÁCIO

Não a vez que o vi.

HAMLET

A barba era grisalha, não é verdade?

HORÁCIO

Era, como em sua vida, de um negro prateado.

HAMLET

Velarei também esta noite, talvez que volte.

HORÁCIO

Sem dúvida alguma.

HAMLET

Se se me apresentar debaixo da figura de meu pai, falar-lhe-ei, embora o Inferno me ordenasse o silêncio, pelas suas horrendas fauces. Peço-vos, portanto, que se até hoje tendes guardado um segredo tal a respeito da aparição, de hoje em diante sejais ainda mais cautelosos em conservar o sigilo, e aconteça o que acontecer esta noite, reflexão e silêncio: serei grato a esta prova de afeição. Assim, pois, adeus, encontrar-me-ei convosco na esplanada entre as onze horas e a meia-noite.

TODOS

Os nossos respeitos, príncipe.

HAMLET

Sempre amigos, adeus. (Horácio, Marcelo e Bernardo saem.)*(Continuando.)* A sombra de meu pai, porque aparece armada? Haverá algum perigo. Suspeito alguma traição. Espero impacientemente a noite. Até então, sossega coração. Não há crimes tão ocultos, que o homem não possa descobrir. (Sai.)

CENA III

Um quarto em casa de Polónio. Entram LAERTES e OFÉLIA.

LAERTES

Já embarcaram os meus criados e roupas. Adeus, minha irmã; quando ventos propícios encherem as velas ao navio que me leva, espero que com a minha ausência não esfriará a tua amizade, e que me darás novas tuas.

OFÉLIA

Duvidas porventura, irmão?

LAERTES

Quanto ao que respeita a Hamlet e à sua frívola amizade, considera-a como uma moda efémera, um capricho dos sentidos, uma violeta da Primavera, precoce mas passageira, suave mas fenecendo ao desabrochar, e cujo perfume dura um minuto apenas.

OFÉLIA

Só um minuto?

LAERTES

Só, acredita-me, porque o teu desenvolvimento não é só nos músculos e no corpo; à medida que o templo toma proporções mais vastas, também se expande o espírito e a alma. É possível que te ame agora, que nenhuma mácula, nenhuma deslealdade ofusque a pureza dos seus sentimentos; mas acautela-te, porque na posição que ocupa é-lhe vedada a própria vontade, é escravo do seu nascimento. Não pode, como os outros homens, escolher só por afeição, porque à sua escolha estão ligados o bem-estar e a salvação do Estado; por isso deve subordiná-la ao voto e à aprovação da nação de que é chefe. Se, pois, te falar de amor, assisadamente usarás, não acreditando senão o que a sua posição lhe permite oferecer, visto que a sua vontade deve ser a vontade da nação. Pensa bem, que mancha para a tua reputação, se prestasses ouvidos por demais crédulos, ao encanto das suas falas, se envenenasses tua alma, se abrisses o cofre da castidade às suas audaciosas instâncias. Acautela-te, Ofélia, acautela-te, querida irmã, luta com a tua afeição para vencer as setas e os perigos dos desejos. A virgem prudente já é assaz pródiga se patenteia a sua beleza aos raios lunares; a própria virtude não escapa aos golpes da calúnia; o verme rói as filhas predilectas da Primavera, antes das flores desabrocharem, e é na aurora da vida, regada pelo puro e límpido orvalho, que há mais perigo para a flor da castidade. Sê, pois, circunspecta, a melhor protecção é o receio do perigo; a juventude é para si mesma um perigo, se não trava luta com outros maiores.

OFÉLIA

Em meu coração encerrarei, como um preservativo, a tua salutar lição. Mas, querido irmão, não sejas tu, como certos pastores sem virtude, que indicam às suas ovelhas o caminho escarpado e espinhoso que conduz ao Céu, enquanto eles, libertinos, fogosos e sem pudor, trilham o caminho das flores, da licença, e são a antítese das suas palavras.

LAERTES

De mim não te arreceies: já devia ter partido; eis meu pai.

Entra POLÓNIO.

Uma dupla bênção é um benefício duplo; abençoo a ocasião de me despedir segunda vez de ti.

POLÓNIO

Ainda aqui, Laertes? para bordo, para bordo. Não te envergonhas? Teu navio só te espera para velejar. Recebe a minha bênção, e grava na tua memória os seguintes preceitos. Guarda para ti o pensamento, e não dês execução apressadamente aos teus projectos; medita-os maduramente. Sê lhano sem te esqueceres de quem és. Quando tomares um amigo cuja afeição tenhas experimentado, liga-o a ti por vínculos de aço; mas não dês confiança irreflectidamente. Faze por evitar questões; mas se o não puderes conseguir, conduz-te de maneira que fiques sempre superior ao teu adversário. Ouve a todos, mas sê avaro de palavras; escuta o conselho que te derem, forma depois o teu juízo. No teu trajar sê tão sumptuoso, quanto to permitam os teus meios, mas nunca afectado; rico, mas não ofuscante; o porte dá a conhecer o homem, e nesse ponto, as pessoas de qualidade em França revelam um gosto primoroso, e o mais fino tacto. Não emprestes, nem peças emprestado: quem empresta perde o dinheiro e o amigo, e o pedir emprestado é o primeiro passo para a ruína. Mas sobretudo sê verdadeiro para a tua consciência, e assim como a noite se segue ao dia, seguir-se-á também, que o teu coração jamais abrigará falsidade. Adeus, que a minha bênção sele em teu coração os meus conselhos.

LAERTES

Despedindo-me, humildemente vos beijo a mão, meu pai.

POLÓNIO

Não tens tempo que perder, teus criados esperam-te.

LAERTES

Adeus, Ofélia, recorda-te das minhas palavras.

OFÉLIA

Fechei-as no meu coração; dou-te a chave, guarda-a.

LAERTES

Adeus. (Sai.)

POLÓNIO

Que te disse ele, Ofélia?

OFÉLIA

Com licença de meu pai, falou-me a respeito de Hamlet.

POLÓNIO

Folgo que o fizesse. Disseram-me que ultimamente Hamlet tem tido contigo frequentes entrevistas, e que tu não te esquivas às suas frequentes visitas. Se assim é, e creio na informação que me deram, devo dizer-te que não encaras a tua posição com a lucidez que convém a minha filha, e que a tua honra exige. Diz-me a verdade, o que há?

OFÉLIA

Protestos de amor.

POLÓNIO

De amor! como inexperiente falas, conservas as ilusões todas. Dás tu porventura crédito aos seus protestos, como tu lhe chamas?

OFÉLIA

Nem sei, senhor, o que devo pensar.

POLÓNIO

Pois bem, eu to digo. É necessário que sejas bem criança para crer uma realidade os seus protestos, de cuja sinceridade deveras duvido. Não te deprecies assim; seria uma loucura.

OFÉLIA

O seu respeito foi inseparável das suas frases de amor.

POLÓNIO

E tu acreditas, pobre louca.

OFÉLIA

Firmou as suas palavras com os juramentos mais sagrados.

POLÓNIO

Assim arma o caçador os laços à avezinha inocente e incauta. Sei que, quando o sangue ferve, a nossa boca nunca se nega a protestos e juramentos. Minha filha, estes lampejos que dão mais luz que calor, e cujo brilho é efémero, nunca os tomes por verdadeira chama de amor. A datar de hoje, não malbarates tanto a tua presença virginal; dificulta mais as entrevistas, que não baste pedir para as obter. Quanto ao sr. Hamlet e à confiança que nele podes ter, considera que é jovem, e que pode tomar liberdades de que depois tenhas que te arrepender. Numa palavra, Ofélia, descrê dos seus juramentos, porque não são verdadeiros; intérpretes de desejos profanos, revestem-se da linguagem da mais santa sinceridade. Uma vez por todas, e franqueza, filha, proíbo-te toda e qualquer conversa com o sr. Hamlet. Pensa bem. Ordeno-to.

OFÉLIA

Obedecerei, meu pai. (Saem.)

CENA IV

A esplanada do castelo de Elsenor. Chegam HAMLET, HORÁCIO e MARCELO.

HAMLET

Que frio horrível, gelo.

HORÁCIO

O ar está deveras glacial.

HAMLET

Que horas são?

HORÁCIO

Não deve tardar a meia-noite.

MARCELO

Está dando meia-noite.

HORÁCIO

Já! não ouvi, em todo o caso aproximamo-nos da hora a que costuma aparecer o fantasma. (Ouvem-se ao longe tangeres de instrumentos, e o troar de artilharia.) Que rumor é este?

HAMLET

O rei consagra esta noite ao prazer, está bebendo, e a cada copo de vinho do Reno, os timbales e clarins proclamam o brinde que levantou.

HORÁCIO

Isso é costume?

HAMLET

Sim é, mas apesar de eu ter nascido neste país, e estar acostumado a estes usos, há enquanto a mim mais glória em infringi-los, do que em observá-los. Estas orgias abjectas trazem-nos, do Oriente ao Ocidente, o desprezo das outras nações, que nos qualificam de ébrios, e juntam aos nossos nomes os epítetos mais grosseiros. Este defeito embaça as nossas mais brilhantes qualidades, e tira-lhes todo o valor. O mesmo acontece aos indivíduos. Se ao nascerem, receberam da natureza alguma mácula original, de que não são culpados, pois que o nascimento é independente da nossa vontade; se os aflige algum vício de temperamento contra o qual todos os esforços da razão são impotentes, algum costume que desagrade nos seus modos destruindo-lhes o encanto; acontece a esses homens, tendo o estigma de um defeito único, libré da natureza, selo da sua estrela, acontece, digo, que todas as suas virtudes, fossem elas puras como a graça celeste, infinitas quanto comporta à humanidade, ficariam manchadas na opinião pública por esse defeito único. Basta uma molécula de liga para depreciar esse metal.

Aparece a sombra.

HORÁCIO

Senhor, ei-lo.

HAMLET

Anjos do Céu, poderes misericordiosos, protegei-nos. Génio benfazejo, ou demónio infernal, que exalas os perfumes celestes, ou as emanações do Averno; que sejam sinistras ou caridosas as tuas intenções, apareces-me debaixo de uma forma tão grata que te quero falar. Interrogo-te, Hamlet, senhor, meu pai, rei de Dinamarca, oh! responde-me, não me deixes, na ignorância, morrer de emoção; mas dize-me, porque teus bentos ossos encerrados no ataúde romperam os selos; porque te levantaste do túmulo em que te havíamos depositado; porque se ergueu a lápide sepulcral para te lançar a este mundo? Como, cadáver inanimado, vestindo a tua armadura de aço, vagueias tu à duvidosa claridade da Lua, imprimindo à noite um carácter de horror, lançando-nos, fracos ludíbrios da natureza, nas ânsias do terror; e fazendo surgir em nossas almas pensamentos que excedem o nosso alcance? Responde. Porquê? Com que fim? Que exiges?

HORÁCIO

Faz-vos sinal de o seguir, como se quisesse falar-vos a sós.

MARCELO

Veja, príncipe, o gesto cheio de cortesia e dignidade, com que o convida a segui-lo a lugar mais remoto; mas não vá.

HORÁCIO

Senhor, pelo amor de Deus.

HAMLET

Quer-me falar, pois bem, segui-lo-ei.

HORÁCIO

Não faça tal, senhor.

HAMLET

Porquê? que tenho eu a recear, importa-me tanto a vida, como se fosse um alfinete; quanto à minha alma, nada pode contra ela, porque é imortal, como ele é. Repete o sinal, vou segui-lo.

HORÁCIO

E se ele vos atraísse ao Oceano ou ao píncaro escarpado de algum rochedo saliente e sobranceiro ao mar; e se tomasse alguma forma horrível, cuja vista vos varresse a razão tornando-vos demente? Pensai bem, senhor, não receais alguma vertigem ao contemplar de alto a imensidade debaixo de vossos pés?

HAMLET

Continua a fazer-me sinal. Caminha, sigo-te.

MARCELO

Não há-de ir, senhor.

HAMLET

Ninguém me detenha.

HORÁCIO

Seja razoável, príncipe, não vá.

HAMLET

Ouço a voz do meu destino; brada alto, e cada um dos meus músculos adquiriu o vigor dos do leão de Nemeia. (A sombra faz-lhe sinal de a seguir.) Chama-me outra vez, deixem-me, senhores (escapa-se-lhes dos braços). Por Deus, que não viverá, quem ousar opor-se-me. Afastem-se, já disse. (À sombra.) Caminha, sigo-te. (A Sombra e Hamlet afastam-se.)

HORÁCIO

Apoderou-se dele o delírio.

MARCELO

Sigamo-lo; desobedecer-lhe é forçoso nestas circunstâncias.

HORÁCIO

Não o abandonemos. Qual será o resultado!

MARCELO

Algum vício há na constituição da Dinamarca.

HORÁCIO

O Céu proverá o que for melhor.

MARCELO

Sigamos o príncipe. (Saem todos.)

CENA V

Uma parte mais afastada da esplanada. Chegam HAMLET e a SOMBRA.

HAMLET

Onde pretendes conduzir-me; mais adiante não irei.

A SOMBRA

Encara-me, Hamlet.

HAMLET

Que queres?

A SOMBRA

Aproxima-se a hora em que me devo recolher às chamas sulfúreas e ardentes.

HAMLET

Pobre alma!

A SOMBRA

Não me lastimes, mas presta atenção ao segredo que te vou revelar.

HAMLET

Fala, é meu dever escutar-te.

A SOMBRA

Dever também é vingar-me depois de me teres ouvido.

HAMLET

Que ouço!

A SOMBRA

Sou a alma de teu pai, condenada a penar durante um tempo certo, a jejuar num cárcere de chamas, até que as culpas que mancharam a minha vida estejam completamente expiadas e purificadas pelo fogo. Se não me fosse defeso revelar os segredos do meu cárcere, far-te-ia uma narrativa de que cada palavra encheria de terror a tua alma, gelaria o teu sangue, os olhos quais estrelas brilhantes sairiam das suas órbitas, os anéis do teu cabelo desfazer-se-iam em completa desordem, e cada cabelo ficaria hirto como as cerdas do javali; mas estes mistérios eternos não são para ouvidos profanos de carne e de sangue. Escuta, escuta, oh escuta-me! se alguma vez amaste teu carinhoso pai...

HAMLET

Oh Céus!

A SOMBRA

Vinga a sua morte, causada por um assassínio, cobarde, infame e nefando.

HAMLET

Um assassínio?

A SOMBRA

Infame! todos os assassínios o são, mas nunca houve nenhum mais infame, inaudito e horrendo do que este.

HAMLET

Apressa-te em desvelar-mo, para que pronto, como a meditação, ou como o pensamento de amor, possa saciar a minha vingança.

A SOMBRA

Grato sou ao teu empenho, Hamlet; era preciso que fosses mais apático do que a planta grossa e crassa que imóvel e inerte apodrece nas margens do Lete, se não sentisses neste momento comoção alguma. Agora, ouve-me. Espalhou-se que enquanto dormia no meu jardim, uma serpente me mordera; é assim que uma falaz narrativa enganou a Dinamarca sobre a causa da minha morte. Sabe tu pois a verdadeira, nobre mancebo: a serpente cujo dardo matou teu pai, cinge hoje a coroa deste reino.

HAMLET

Oh meus proféticos pressentimentos, meu tio!

A SOMBRA

Sim, esse monstro, incestuoso, adúltero pela magia das palavras, pelos dotes insidiosos. Oh loquela perversa, oh dotes nefários, pois que tem tal poder de sedução, e conseguiu inspirar essa vergonhosa paixão a minha mulher, aparentemente tão virtuosa. Oh! Hamlet, que degradação! Descer de mim, cujo amor nobre e digno não tinha desmentido um instante o juramento prestado junto ao altar, a um miserável, entre cujas qualidades naturais e as minhas havia um abismo! Mas assim como a virtude resiste inabalável às tentações do vício, ainda que debaixo da forma da Divindade lhe aparecesse, assim também a impudicícia, embora associada a um anjo celeste de luz, cansa-se da santidade do leito conjugal, para ir habitar o mais desprezível prostíbulo. Mas já sinto a frescura da aurora, forçoso é que eu termine. Enquanto dormia no meu jardim, era esse o meu costume todas as tardes; teu tio, aproveitando a minha inconsciência, aproximou-se de mim, munido de um frasco de meimendro, e lançou-me num ouvido o conteúdo. É um veneno tão activo para o sangue humano, que com a subtileza do mercúrio corre e se infiltra em todos os canais, em todas as veias, coalhando e alterando o sangue pela sua acção enérgica: o mais puro e límpido não lhe resiste, é como uma gota de qualquer ácido numa taça de leite. Tal foi o seu efeito, que uma lepra instantânea cobriu meu corpo de uma crosta impura e infecta. Eis como durante o meu sono, tudo me foi arrebatado de uma vez, e pela mão de um irmão, vida, coroa e consorte. A morte surpreendeu-me em estado flagrante de pecado; sem sacramentos, sem me reconciliar, nem com Deus, nem com a minha consciência, tinha que comparecer perante o Juiz Supremo vergando sob o peso das minhas iniquidades. Horror, horror, cúmulo de horror! Se em teu coração vibra a fibra da sensibilidade, não o toleres. Não consintas que o leito do rei de Dinamarca se transforme em mansão da luxúria e do incesto. Mas seja qual for a tua vingança, conserva-te moral e puro, e poupa tua mãe. Entrega o seu castigo ao Céu, e aos espinhos do remorso que lhe dilaceram o coração. Adeus, cumpre-me deixar-te, a luz do pirilampo, cujo fogo sem calor começa a esmorecer, anuncia a aproximação da aurora. Adeus, adeus, adeus, recorda-te sempre de mim. (A sombra retira-se.)

HAMLET

Oh! santas legiões do Céu, oh! terra, que mais? Invocarei o Inferno? Oh! opróbrio; contém-te, ah! contém-te, meu coração, e vós, meus músculos, não percais o vigor, e redobrai de força e energia para me suster. Recordar-me de ti? Sim, sombra infeliz, enquanto a memória não abandonar este meu cérebro desordenado. Recorda-te de mim; sempre! quero varrer da minha memória todas as recordações frívolas, todas as máximas colhidas nos livros, todos os vestígios, todas as impressões do passado, tudo quanto a juventude e a observação coordenaram, e em sua vez dar só lugar, sem rivais, juro-o pelo Céu, aos teus preceitos. Oh! mulher perversa, oh infame e danado monstro! oh memória, grava bem o seguinte, que nos sorrisos do homem se pode ocultar um crime; assim é na Dinamarca (escreve numa carteira). Meu tio, espere-me. A minha senha será de hoje em diante. Adeus, adeus, adeus. Recorda-te de mim. Jurei-o.

HORÁCIO (ao longe)

Senhor, senhor?

MARCELO (ao longe)

Senhor Hamlet?

HORÁCIO

Que o Céu o proteja.

HAMLET

Assim seja.

MARCELO (ao longe)

Olá, olá, senhor!

HAMLET

Pousa meu falcão, pousa. (Imita o canto do falcão e o chamamento do falcoeiro.)

Chegam HORÁCIO e MARCELO.

MARCELO

O que se passou, senhor?

HORÁCIO

Que novas, senhor?

HAMLET

As mais extraordinárias.

HORÁCIO

Conte-no-las, príncipe.

HAMLET

É um segredo.

HORÁCIO

E não sou eu capaz de o guardar? O príncipe conhece-me.

MARCELO

E eu?

HAMLET

Que me dirão quando o souberem; que coração humano o teria pensado. Juram-me segredo?

HORÁCIO e MARCELO

Juramos.

HAMLET

Não há em toda a Dinamarca um celerado igual.

HORÁCIO

Era necessário que um espectro saísse do túmulo para no-lo dizer?

HAMLET

É verdade, têm razão. Basta de palavras, um aperto de mão, e cada um volte onde o chamam os negócios e as suas inclinações, porque todos têm inclinações e negócios, sejam quais forem: eu, pobre pária do mundo, vou orar.

HORÁCIO

São palavras incoerentes e sem sentido, alteza.

HAMLET

Pesa-me que te ofendesses, pesa-me deveras.

HORÁCIO

Em quê, senhor?

HAMLET

Por S. Patrício, que te ofendi e gravemente. Quanto à aparição de inda agora, é um fantasma honesto, digo-to eu. Quanto ao desejo de conhecerem, senhores, o que entre nós se passou, reprimam-no. E agora, meus bons amigos, em nome da nossa amizade, da nossa camaradagem de estudos e de armas, façam-me um favor.

HORÁCIO

Qual é? Não hesitamos.

HAMLET

Nunca digam o que viram esta noite.

AMBOS

Conte com a nossa palavra, príncipe.

HAMLET

Quero um juramento.

HORÁCIO

Prometi o segredo.

MARCELO

Já jurámos.

HAMLET

Mas jurem sobre a minha espada.

A SOMBRA (debaixo da terra)

Jurem.

HAMLET

Ah! ah! meu camarada, és tu que falas; estás aí, meu valente, aproxima-te; ouvem a sua voz, prestem o juramento.

HORÁCIO

Diga-nos a fórmula, príncipe.

HAMLET (afastando-se um pouco com eles)

Jurem sobre a minha espada, que guardarão sigilo do que viram e ouviram.

A SOMBRA (debaixo da terra)

Jurem.

HAMLET

Hic et ubique. Vamos para mais longe. (Afastam-se um pouco.)

Aproximem-se, e estendendo a dextra sobre a minha espada, jurem por este gládio nunca revelar o que viram e ouviram.

A SOMBRA (debaixo da terra)

Jurem pela sua espada.

HAMLET

Bravo, velha toupeira, como caminhas depressa subterraneamente, que belo mineiro! Afastemo-nos mais uma vez, meus bons amigos.

HORÁCIO

Por vida minha, é prodigioso!

HAMLET

Acolhamo-lo como se acolhe um estrangeiro. O Céu e a Terra encerram mais mistérios, que os conhecidos pelos filósofos; mas venham. Notem o que notarem nos meus modos, se eu julgar necessário afectar maneiras extravagantes, jurem-me pela sua salvação que nunca cruzarão os braços, meneando a cabeça, nem lhes escaparão palavras ambíguas, como por exemplo: Muito bem, muito bem — já sabemos — ou — se quiséssemos falar — ou — ainda há pessoas que se ousassem — ou outras expressões equívocas, dando a perceber que estão na confidência; jurem que nada farão; e possa, quando mais precisarem, não lhes faltar a graça divina.

A SOMBRA (debaixo da terra)

Jurem.

HAMLET

Acalma-te, alma penada. Assim, senhores, recomendo-me à vossa afeição, e tudo quanto um homem tão débil como Hamlet possa fazer para lhes provar o seu afecto, fá-lo-á com a ajuda de Deus. Retiremo-nos juntos, e silêncio; peço-lho eu. Há no mundo alguma grande perturbação. Maldição. Porque serei eu o eleito para a terminar? Vamos, partamos juntos.

Fim do acto primeiro

ACTO SEGUNDO

CENA I

Uma sala em casa de POLÓNIO. Entram POLÓNIO e REINALDO.

POLÓNIO

Reinaldo, entrega a meu filho este dinheiro e estas letras.

REINALDO

Sim, meu senhor.

POLÓNIO

Mas antes de o procurar, obrarás assisadamente, tomando informações a seu respeito.

REINALDO

Era essa a minha intenção.

POLÓNIO

Bem, muito bem; toma antes todas as informações pelos dinamarqueses que estão em Paris, vê as suas relações, e com quem se dão, quais os seus gastos; depois de te assegurares pelas tuas perguntas que conhecem meu filho, procura colher informações mais exactas, sem contudo o dar a entender. Dissimula que o conheces perfeitamente, dizendo, por exemplo: Conheço o pai e a família, mas dele não tenho conhecimento algum. Entendes, Reinaldo?

REINALDO

Perfeitamente, senhor.

POLÓNIO

De todo não me é desconhecido, podes acrescentar. Conheço-o pouco é verdade, contudo aquele de quem falo é um dissipador com todos os seus defeitos; imputa-lhe então todos os vícios que te parecer, excepto aqueles que podem desonrar um homem, toma conta nisso; só as loucuras e imprudências próprias de um jovem que se sente livre de todo o constrangimento paterno.

REINALDO

O jogo, talvez?

POLÓNIO

Bem, e as bebidas, a esgrima, as pragas, o génio buliçoso, a convivência do prostíbulo, é até onde te autorizo que chegues.

REINALDO

Actos são, na verdade, que não desonram.

POLÓNIO

Sabes bem como te deves haver fazendo estas imputações. Não agraves os factos acusando-o de devassidão contínua e habitual; não pretendo tal; censura-o mas com discrição; exprime-te como se atribuísses as suas faltas aos defeitos inerentes à mocidade, ao abuso da liberdade, ao arrebatamento de um espírito fogoso, à efervescência de um sangue ardente.

REINALDO

Mas, senhor?

POLÓNIO

Porque será conveniente obrar assim.

REINALDO

Para lho perguntar estava eu.

POLÓNIO

É onde eu queria chegar, e na minha opinião é um ardil sem igual. Depois de teres imputado a meu filho esses ligeiros defeitos, que se podem considerar quando muito como imperfeições numa bela obra; se o teu interlocutor, aquele que queres sondar, notou no jovem a que te referes algum dos vícios mencionados, está certo que responderá imediatamente: Meu caro senhor, ou meu amigo — ou meu cavalheiro — segundo o costume do indivíduo, ou o uso do país...

REINALDO

Prossiga, senhor.

POLÓNIO

Então... que estava eu dizendo? pela santa missa — que queria eu dizer? o que era?

REINALDO

Falava da resposta...

POLÓNIO

Que te darão, é isso, e não deixarão de responder: Conheço esse mancebo, vi-o ainda ontem, ou outro qualquer dia, em tal época, com estes ou com aqueles, surpreendi-o jogando, ou numa orgia ou numa rixa, ou ainda, vi-o entrar numa casa suspeita; ou outras cousas semelhantes: agora vês como com a mentira se colhe a verdade. É assim que nós, as pessoas entendidas, empregamos a miúdo o embuste e a falsidade para descobrir a verdade. Aí está o caminho que seguirás para saber o comportamento de meu filho. Percebes agora?

REINALDO

Sim, meu senhor.

POLÓNIO

O Senhor seja contigo, boa viagem.

REINALDO

Meu amo!

POLÓNIO

Observa tu mesmo as suas inclinações.

REINALDO

Fá-lo-ei, senhor.

POLÓNIO

Mas não o distraias da sua vida.

REINALDO

Bem entendo.

POLÓNIO

Adeus. (Reinaldo sai.)

Entra OFÉLIA.

POLÓNIO

Que te traz por aqui, Ofélia?

OFÉLIA

Meu pai, meu pai, ainda tremo.

POLÓNIO

Porquê? Fala por piedade.

OFÉLIA

Querido pai, estava no meu quarto trabalhando em costura, quando de repente deparo com o sr. Hamlet, mas em que estado! as vestes em desordem, o cabelo em desalinho, as meias caídas arrastavam pelo chão, pálido e branco como uma mortalha, tremiam-lhe as pernas, o rosto tinha a expressão do desespero, qual prófugo do Inferno mensageiro de novas horríveis.

POLÓNIO

Enlouqueceria por tua causa?

OFÉLIA

Não sei, meu pai, mas receio-o deveras.

POLÓNIO

Que te disse ele, Ofélia?

OFÉLIA

Tomou-me os pulsos, apertando-os convulsivamente, depois afastando-se à distância do seu braço, levando a mão à testa, fitou os olhos no meu rosto, como se me quisesse retratar. Assim se demorou por largo tempo, por fim sacudindo-me levemente o braço, levantando e baixando por três vezes a cabeça, suspirou tão profundamente, que todo o seu corpo estremeceu, parecia o prenúncio da morte. Feito isto, deixou-me, partiu e desviando a cabeça, como um homem que para achar caminho não precisa o auxílio da vista, transpôs a porta; mas então o seu olhar estava fito em mim.

POLÓNIO

Segue-me, filha, vou procurar o rei. É o delírio do amor; a sua violência mata-o, e impõe à sua vontade actos de desespero, que nenhuma outra paixão humana excitaria. Pesa-me sinceramente. Dize-me, ter-lhe-ias tu dirigido ultimamente alguma palavra cruel.

OFÉLIA

Não, meu pai; mas obedecendo às suas ordens, recusei as suas cartas e evitei a sua presença.

POLÓNIO

Eis o que perturbou a sua razão. Dói-me de o não ter conhecido melhor: receei que as suas intenções não fossem sérias, e que só pretendesse consumar a tua ruína. Arrependo-me do fundo de alma das minhas desconfianças. Parece que o confiar cegamente na previdência é o apanágio da minha idade, como o contrário é o defeito da mocidade. Vem, dirijamo-nos ao rei, convém que ele nada ignore; porque o sigilo deste amor poderia acarretar mais desgraças do que a sua revelação ressentimentos. (Saem ambos.)

CENA II

Uma sala no castelo de Elsenor. Entram o REI, a RAINHA, as suas comitivas, ROSENCRANTZ e GUILDENSTERN

O REI

Sejam bem-vindos, caros Rosencrantz e Guildenstern. Independentemente do gosto de os ver, a necessidade do seu préstimo me obrigou a chamá-los a esta corte sem demora. Ouviram seguramente falar da transformação de Hamlet; digo transformação, porque já não é o mesmo homem, nem moral nem fisicamente. Só a morte do pai pode ser a causa do transtorno da sua razão, não posso conceber outra. Educados com ele desde a infância, simpatizando entre si pela idade e pelo carácter, peço-lhes que permaneçam algum tempo na corte, procurem inspirar-lhe o gosto e prazer da sua convivência, aproveitem todas as ocasiões para descobrir se a sua aflição não tem alguma causa desconhecida, cuja revelação nos permitisse dar-lhe remédio.

A RAINHA

Bastante tem falado nos senhores, e estou convencida que ninguém no mundo lhes é mais afeiçoado. A liberalidade do rei compensará largamente os seus serviços e os seus incómodos. Esperamos dos senhores esta prova de afeição.

ROSENCRANTZ

Vossas majestades são nossos soberanos, e os reis não pedem, mandam.

GUILDENSTERN

Estamos prontos a obedecer; disponham de nós, senhores. Depondo aos pés dos reis os nossos serviços e a nossa dedicação, pedimos-lhes só que ordenem.

O REI

Obrigado, senhores.

A RAINHA

Obrigada também eu; vão ter com meu filho: infelizmente mal o reconhecerão. (À sua comitiva.) Alguns destes senhores conduzam estes cavalheiros junto de Hamlet.

GUILDENSTERN

Praza a Deus, que a nossa presença lhe seja agradável e os nossos cuidados um lenitivo.

A RAINHA

Deus queira.

(Rosencrantz e Guildenstern saem seguidos de alguns cortesãos.)

Entra POLÓNIO.

POLÓNIO

Senhor, regressaram de Noruega os embaixadores, satisfeitos com o resultado da sua missão.

O REI

És sempre correio de boas novas.

POLÓNIO

Senhor! esteja Vossa Majestade certo que a minha alma põe a par a dedicação ao meu rei e o respeito e amor ao meu Deus. A menos que a minha sagacidade habitual me enganasse, descobri a verdadeira causa da loucura do senhor Hamlet.

O REI

Estou ansioso por conhecê-la.

POLÓNIO

Primeiro os embaixadores, depois eu.

O REI

Recebe-os, e encarrego-te de os introduzir à nossa presença. (POLÓNIO sai.) (À rainha.) Anunciou-me, querida Gertrudes, que conhece a causa da doença de seu filho.

A RAINHA

Receio bem que a morte de seu pai e o nosso precipitado consórcio sejam as causas únicas.

O REI

Sabe-lo-emos em breve.

Entram POLÓNIO, VOLTIMANDO e CORNÉLIO.

O REI

Bem-vindos sejam, amigos. Fala tu, Voltimando; que novas trazes de nosso irmão de Noruega?

VOLTIMANDO

Envia-vos seus cumprimentos e saúda-vos cordialmente. Mal nos ouviu, ordenou ao sobrinho que pusesse fim aos seus preparativos guerreiros. Julgava-os dirigidos contra a Polónia; mas convencido por um detido exame que eram contra Vossa Majestade, e indignado por Fortinbras se prevalecer do estado precário, a que a idade e a doença o tinham reduzido, ordenou-lhe que comparecesse na sua presença. Fortinbras obedeceu à ordem intimada, e depois de severamente repreendido pelo rei de Noruega, prestou nas mãos de seu tio o juramento de nada empreender contra vossas majestades. O idoso monarca, para provar o seu júbilo, concedeu-lhe uma pensão anual de três mil escudos, e licença para combater os polacos com as tropas alistadas. Ao mesmo tempo pede-vos pelas presentes (entrega as cartas), que concedais às suas tropas livre passagem pelo vosso território nas condições estipuladas neste escrito.

O REI

Este resultado enche-nos de satisfação; quanto ao pedido, lê-lo-emos, e depois de maduramente examinado, responderemos. Agradecemos-lhes os seus valiosos serviços. Descansem agora; juntos cearemos logo.

(Voltimando e Cornélio saem.)

POLÓNIO

Felizmente está terminado este negócio. Senhor e senhora; discutir o que constitui a autoridade, e em que consiste a obediência dos súbditos, porque a noite é noite, o dia é dia, e o tempo é tempo, seria perder sem proveito a noite, o dia e o tempo; por isso, visto que a concisão é a alma do espírito, enquanto que a prolixidade é só o corpo ou o invólucro exterior, serei breve: Vosso nobre filho está louco, digo louco, porque haveria falta de razão em querer definir o que constitui verdadeiramente loucura. Passemos adiante...

A RAINHA

Menos estilo, Polónio.

POLÓNIO

Senhora, não faço estilo, juro-o. Seu filho está louco; é triste, mas é verdade. É verdade que é uma lástima, mas é uma lástima que seja verdade; é uma estulta antítese, mas tal qual é aceite-a; não emprego arte. Está louco; resta-nos procurar a causa desse efeito, ou antes defeito, porque forçosamente a deve ter. Siga bem o meu raciocínio: Tenho uma filha, tanto a tenho, que me pertence. Minha filha, fiel ao dever e à obediência que me deve, note bem, entregou-me este escrito. (Mostra um papel.) Reflicta e depois tire a conclusão. (Lê.) Ao ídolo da minha alma, à celeste Ofélia, à beleza personificada... É uma desgraçada e estulta expressão. Conserva preciosamente estas linhas, no teu seio alabastrino...

A RAINHA

É de Hamlet a Ofélia.

POLÓNIO

Espere um momento, senhora, cito textualmente. (Lê)

Duvida que do céu a abóbada azulada Tenha esferas de luz de um mágico esplendor, Duvida seja o Sol o facho da alvorada, Duvida da verdade em tua alma gravada, Mas não duvides nunca, oh! nunca, d’este amor.

Querida Ofélia, não sou poeta, não sei modular suspiros com arte, mas podes acreditar que te amo, mais que tudo neste mundo. Adeus, a ti, para sempre minha vida, a ti enquanto esta máquina mortal me pertencer. HAMLET.

Eis aí o que, por obediência, minha filha me entregou. Já antes ela me tinha confiado as tentativas de Hamlet, à proporção que renovava as suas instâncias amorosas.

O REI

Como pôde ela acolher este amor?

POLÓNIO

Em que conta me tem, senhor?

O REI

Na de um homem leal e honrado.

POLÓNIO

Farei por sempre merecer esse conceito a Vossa Majestade; mas que pensaria o rei de mim, se vendo despontar esse amor, e já o tinha adivinhado antes da confissão de minha filha, que pensariam o rei e a rainha, se me calasse, e me tornasse mudo confidente do seu amor; se, testemunha da sua paixão, tivesse imposto silêncio ao meu coração, ou se a considerasse com indiferença? má ideia por certo fariam de mim. Não perdi um momento, disse a minha filha: O senhor Hamlet é um príncipe colocado fora da tua esfera; isto não pode ser. — Ordenei-lhe então que evitasse a sua convivência, e que nunca mais recebesse nem mensagens nem dádivas. Seguiu o meu conselho, e para abreviar a minha narração, o príncipe, vendo-se assim repelido, caiu primeiro numa profunda tristeza, em seguida repugnaram-lhe os alimentos, mais tarde teve insónias, depois abatimentos e fraqueza intelectual, finalmente, e sempre gradualmente, chegou à demência e ao delírio. Deploramo-lo todos.

O REI

E pensas ser essa a causa?

A RAINHA

É muito provável.

POLÓNIO

Quisera me dissessem, se aconteceu alguma vez afirmar eu alguma cousa que não fosse certa.

O REI

Nunca que eu saiba.

POLÓNIO

Se não é verdade o que disse (mostrando a cabeça), que esta role a seus pés. Basta-me a mais simples circunstância para descobrir a verdade, ainda que estivesse oculta nas entranhas da terra.

O REI

Por que modo no-lo poderás tu provar.

POLÓNIO

Vossa Majestade não ignora que o sr. Hamlet algumas vezes passeia quatro horas consecutivas nesta galeria.

A RAINHA

É certo.

POLÓNIO

Quando ali estiver, enviar-lhe-ei minha filha, e nós, ocultos por detrás desta cortina, seremos testemunhas da entrevista. Se não a ama, se não foi o amor a causa da sua loucura, deixe eu de pertencer aos conselhos de Vossa Majestade, e faça de mim um quinteiro, um hortelão ou um abegão.

O REI

Tentemos a experiência.

HAMLET entra lendo.

A RAINHA

A leitura é a única distracção deste infeliz.

POLÓNIO

Retirem-se ambos por piedade. Vou falar-lhe. Confiem em mim. (O rei e a rainha saem.) Como se sente o sr. Hamlet?

HAMLET

Bem, Deus louvado.

POLÓNIO

Conhece-me, príncipe?

HAMLET

Se conheço, és um vendilhão de peixe.

POLÓNIO

Engana-se, senhor.

HAMLET

Nesse caso, queria que ao menos fosses tão honrado.

POLÓNIO

Honrado?

HAMLET

Sim; pelo caminho em que vai o mundo, custa achar um homem honrado entre dez mil.

POLÓNIO

É uma triste verdade.

HAMLET

Ora o Sol gera vermes no animal putrefacto, e embora divindade, acaricia o cadáver. Tens uma filha, não é verdade?

POLÓNIO

Sim, meu senhor.

HAMLET

Não a deixes caminhar ao sol, a concepção é um benefício do Céu, mas como tua filha pode conceber, cuidado... meu caro.

POLÓNIO

Que quer dizer, príncipe? (à parte) minha filha é a sua constante ocupação, mas não me reconheceu logo, tomou-me por um vendilhão de peixe. O seu cérebro está gravemente atacado; verdade é, que na minha mocidade o amor algumas vezes me reduziu a um estado semelhante a este. Dirijamos-lhe de novo a palavra. Que está lendo, senhor?

HAMLET

Palavras e mais palavras, só palavras.

POLÓNIO

De que se trata, senhor?

HAMLET

Quem, o quê?

POLÓNIO

Pergunto o que contém o livro que está lendo.

HAMLET

Calúnias, nada mais. O satírico autor tem a impudência de dizer que nos velhos a barba é grisalha, a pele rugosa, e que seus olhos distilam âmbar e goma em fusão; que o espírito está caduco, as pernas não os sustêm; tudo cousas que creio em minha consciência, mas que se não devem escrever. Quanto ao senhor, poderia ter a minha idade, se pudesse andar para trás como os caranguejos.

POLÓNIO (à parte)

Ainda que louco pode coordenar as ideias. (Alto.) Quer vir tomar ar, meu senhor?

HAMLET

Que ar? o do túmulo?

POLÓNIO (à parte)

Que agudeza e que verdade na réplica. Às vezes as palavras dos loucos têm mais conceito que as dos sãos. Vou deixá-lo, e preparar a sua entrevista com minha filha. Senhor, tomo a liberdade de me retirar.

HAMLET

Nada podia tomar, que eu desse com mais gosto; excepto a vida, excepto a vida, excepto a vida.

POLÓNIO

Adeus, meu senhor.

HAMLET (à parte)

Que imbecil e fastidioso velho.

Entram ROSENCRANTZ e GUILDENSTERN.

POLÓNIO

Procuram o sr. Hamlet, ei-lo.

ROSENCRANTZ (a Hamlet)

Deus seja convosco, senhor. (Polónio sai.)

GUILDENSTERN

Meu nobre senhor.

ROSENCRANTZ

Querido príncipe.

HAMLET

Meus bons e queridos amigos, como estão, tu Guildenstern e tu também Rosencrantz, meus caros, como passam.

ROSENCRANTZ

Nem bem, nem mal.

GUILDENSTERN

Não nos pesa demasiado a nossa felicidade, e não tocamos o ponto culminante da fortuna.

ROSENCRANTZ

Nem temos também razões de queixa.

HAMLET

No meio está a virtude, é quando chovem as graças.

GUILDENSTERN

Vivemos familiarmente com ela.

HAMLET

Estão pois na intimidade da fortuna; não me admira, é uma cortesã. Que novas há?

ROSENCRANTZ

Nenhumas, senhor, a não ser que este mundo se tornou virtuoso.

HAMLET

Em tal caso o seu fim está mui próximo, mas o que dizes é falso. Permitam-me uma pergunta que lhes diz respeito. Digam-me, que mal fizeram à fortuna para ela os enviar para este cárcere?

GUILDENSTERN

Cárcere, senhor?

HAMLET

A Dinamarca também é cárcere.

ROSENCRANTZ

Então é-o o mundo todo.

HAMLET

Sim, uma vasta prisão que em si encerra um grande número de cárceres, dos quais o pior é decerto a Dinamarca.

ROSENCRANTZ

Não somos da mesma opinião, príncipe.

HAMLET

Para os senhores não será uma prisão a Dinamarca, porque o bem ou o mal não existem senão quando assim o julgamos. Para mim é.

ROSENCRANTZ

A ambição faz parecer a Dinamarca uma prisão a Vossa Alteza, não cabe nela a sua alma.

HAMLET

Acharia vasto reino uma casca de noz, se não fossem os meus terríveis sonhos.

ROSENCRANTZ

São justamente esses sonhos que constituem a ambição, porque toda a substância do ambicioso é a sombra de um sonho.

HAMLET

Assim os mendigos são corpos, e os monarcas e os heróis ambiciosos não são senão a sua sombra. Querem que vamos à corte? porque sinceramente não me sinto disposto a discutir.

AMBOS

Estamos às suas ordens, príncipe.

HAMLET

Não o compreendo eu assim, não o quero confundir com o resto dos meus criados; porque, para lhes dizer a verdade, sou pessimamente servido. Mas com franqueza, amigos, o que os trouxe a Elsenor.

ROSENCRANTZ

Unicamente visitar a vossa alteza, nenhum outro motivo.

HAMLET

Estou tão pobre, tão alheio ao reconhecimento! mas recebam os meus agradecimentos pelo preço que valem. Não os mandaram chamar? Foi por motu proprio que vieram? É a afeição que aqui os trouxe? Vamos, sejam francos, vamos, falem.

ROSENCRANTZ

Que quer que digamos, senhor?

HAMLET

Tudo quanto lhes aprouver, mas respondam à minha pergunta. Mandaram-nos chamar? Leio nos seus olhos uma confissão, que a sua candura não sabe dissimular. Sei que o nosso bom rei e a nossa excelente rainha os mandaram chamar.

ROSENCRANTZ

Com que fim, senhor?

HAMLET

Os senhores é que o poderão dizer; mas imploro-lhes, pelos direitos da nossa amizade, pelas simpatias da nossa idade, pelos deveres que nos impõe a nossa verdadeira afeição, enfim por todas as razões as mais convincentes que pudesse alegar o mais hábil orador, sejam francos e sinceros comigo; mandaram-nos chamar? Sim ou não.

ROSENCRANTZ (a Guildenstern)

Que devemos responder?

HAMLET (à parte)

Não os perderei de vista. (Alto.) Se deveras me têm afeição, expliquem-se com franqueza.

GUILDENSTERN

Pois bem, senhor, mandaram-nos chamar.

HAMLET

E eu dir-lhes-ei porquê; dest’arte a minha confissão precederá as suas investigações, e o segredo prometido ao rei e à rainha, não será nem de leve violado. Ultimamente, nem sei porquê, perdi toda a minha alegria, renunciei a toda a espécie de exercício; e sinto na alma uma tal tristeza, que esta maravilhosa máquina, a terra, me parece um estéril promontório, este esplêndido dossel, o céu, esse magnífico firmamento suspenso sobre nossas cabeças, essa abóbada sumptuosa, onde brilha o oiro de inúmeras estrelas, tudo me parece um infecto monturo de vapores pestilentes. Que obra-prima dos homens! que elevação na sua inteligência! quanto são infinitas as suas faculdades! como a sua forma é imponente e admirável, como os seus actos aproximam os homens dos anjos, e a sua razão os aproxima de Deus! são a maravilha do mundo, os reis da criação animada, e contudo o que vale a meus olhos essa quinta essência do pó? Aborreço os homens e as mulheres, embora os seus sorrisos incrédulos, senhores, digam o contrário.

ROSENCRANTZ

Não tínhamos em nosso pensamento tal intenção.

HAMLET

Então porque se riram quando disse que aborrecia os homens?

ROSENCRANTZ

É que eu pensava que, se os homens lhe são odiosos, triste acolhimento receberiam os actores que encontrámos no caminho e que vêm oferecer a Vossa Alteza os seus serviços.

HAMLET

Bem-vindo será o que representa os reis; tributarei a Sua Majestade as minhas homenagens; o cavaleiro andante manejará adaga e escudo, debalde não suspirará o namorado, o cómico declamará em paz a sua parte; o bobo provocará o riso aos mais hipocondríacos, enfim a namorada estropiará os versos para não deixar de dizer o que cumpre sinta no coração. Que actores são?

ROSENCRANTZ

São os trágicos da cidade, que lhe agradavam tanto.

HAMLET

Porque se tornaram actores ambulantes? Com a permanência na cidade, auferiam decerto maior honra e lucros.

ROSENCRANTZ

Inovações recentes foram a causa disso.

HAMLET

Ainda gozam da mesma reputação que tinham quando eu habitava a cidade? As suas representações ainda são muito concorridas?

ROSENCRANTZ

Pouco, senhor.

HAMLET

Porque será? Terão eles desmerecido no seu modo de representar?

ROSENCRANTZ

Não, meu senhor; o seu zelo não arrefece: mas Vossa Alteza decerto saberá, que apareceu um enxame de crianças, apenas saídas da primeira infância, que declamam o diálogo o mais simples, no tom o mais elevado, e por isso são calorosamente aplaudidas. São moda, e lançaram um tal desfavor sobre os actores ordinários, como elas lhe chamam, que muitos homens valentes no campo da batalha, mas que temem as penas aguçadas, não ousam frequentar o verdadeiro teatro.

HAMLET

Como? pois são crianças? Quem as protege? quem lhes paga? quererão unicamente seguir a sua profissão enquanto conservarem a sua voz aflautada? E se um dia pela força das circunstâncias se tornarem actores ordinários, não terão direito então de se arrependerem, de terem aceitado os encómios das penas que bem mau serviço lhes prestaram, quando se voltarem contra eles as armas de que se serviram para mal dos outros.

ROSENCRANTZ

Não lutaram pouco entre si, e a nação inteira animou a contenda. Houve um momento em que a receita do empresário dependia de brigarem os actores e autores.

HAMLET

Será crível?

ROSENCRANTZ

Houve mais de uma cabeça quebrada.

HAMLET

E foram as crianças que venceram?

ROSENCRANTZ

Sim, meu senhor. Venceram o próprio Hércules com o seu globo.

HAMLET

Nada me admira, sendo meu tio rei de Dinamarca. Os que o evitavam em vida de meu pai, pagam agora o seu retrato em miniatura, por vinte, cinquenta e cem ducados. Por vida minha que há alguma cousa sobrenatural em tudo quanto presenciamos, e que em verdade a filosofia devia esmerar-se por descobrir. (Ouve-se o som de uma música de clarins ao longe.)

GUILDENSTERN

Chegam os actores.

HAMLET

Senhores, bem-vindos sejam em Elsenor. As suas mãos que eu as aperte. O que distingue um bom acolhimento são os cuidados e as atenções polidas; deixem-me recebê-los assim para não parecer que a cortesia para com os actores, com os quais é minha intenção ter a maior, ultrapassa a que lhes testemunho pessoalmente aos senhores. Bem-vindos sejam, mas o tio que tenho por padrasto, e a mãe que tenho por tia estão completamente enganados a meu respeito.

GUILDENSTERN

Em que se enganam eles?

HAMLET

Só estou louco quando o vento sopra do Nor-Noroeste, em soprando do Sul, distingo uma garça de um falcão.

Entra POLÓNIO.

POLÓNIO

Saúdo os senhores.

HAMLET

Escuta, Guildenstern, (a Rosencrantz) e tu também: a bom entendedor meia palavra basta; esta criança que vêem ainda usa cueiros.

ROSENCRANTZ

Talvez que os torne a usar; a velhice é, segundo dizem, uma segunda infância.

HAMLET

Aposto que me vem falar nos actores; vão ver. Tem razão, senhor, foi efectivamente na manhã de segunda-feira.

POLÓNIO

Trago uma nova para vossa alteza.

HAMLET

Tenho também uma para o senhor. Quando Roscio era actor em Roma...

POLÓNIO

Os actores acabam de chegar.

HAMLET

Não é verdade.

POLÓNIO

Palavra de honra.

HAMLET

Cada actor virá montado num jumento.

POLÓNIO

São os melhores actores do mundo para a tragédia, comédia, drama histórico e pastoril, pastoral cómica e histórica, pastoral trágico-cómicohistórica, com ou sem unidade do lugar da acção. Para eles não há dificuldades, são tristes com Séneca, folgazões com Plauto. Não têm rivais quanto ao estilo e à expressão.

HAMLET

Ó Jefté, juiz em Israel, que tesouro possuías.

POLÓNIO

Que tesouro possuía ele, senhor?

HAMLET

Mas... Uma filha, uma só, mas essa encantadora, Que era da noite sua a celestial aurora.

POLÓNIO (à parte)

Ainda minha filha.

HAMLET

Não tenho eu razão, velho Jefté?

POLÓNIO

Se me chama Jefté, é porque tenho uma filha que estremeço.

HAMLET

Não é consequência.

POLÓNIO

Então qual é a consequência?

HAMLET

Ei-lo.

Mas Deus sabe porque o conto é memorável!

Conhece o seguimento?

Um dia aconteceu... o que era mais provável.

Para o final recorde-se da primeira parte destas trovas, porque eis quem me obriga a terminar.

Entram três ou quatro ACTORES.

HAMLET (continuando)

Bem-vindos todos, bem-vindos sejam. Estou encantado de te ver de boa saúde, bem-vindos sejam, amigos. Ah, meu amigo, que mudança! já com barba! Quererás tu fazer-me sombra em Dinamarca? Ah, eis-vos também aqui, minha menina! Por nosso senhor, depois que vos vi, subistes apenas um degrau para o Céu. Deus queira que a vossa voz, moeda de liga mutável, não se deprecie de mais com o tempo. Senhores, para mim são todos bemvindos; mas vamos direitos ao assunto, como os falcoeiros franceses, que largam o falcão à primeira peça de caça que se apresenta, mostrem-me a sua perícia; vamos, um trecho bem patético.

PRIMEIRO ACTOR

Que trecho preferis, senhor?

HAMLET

Ouvi-te um dia declamar um trecho de uma peça nunca representada em cena, ou quando muito uma única vez, porque, se bem me lembro, a peça não agradou a todos; era caviar para o geral do público: mas, segundo a minha opinião e das pessoas que neste assunto têm voz mais autorizada do que a minha, era uma peça excelente, bem conduzida e escrita com tanta decência como arte. Pelo que me lembro, diziam que os versos não eram bastante picantes para compensar a insipidez da acção, seu estilo na verdade nada tinha de afectado, mas que quanto ao resto a peça, escrita com tanta simplicidade como método, era natural, agradável e sem pretensão. Havia sobretudo um trecho que me agradou, era, na fala de Eneias a Dido, o ponto em que lhe refere a morte de Príamo. Se ainda te recordas, começa nesta frase, espera, deixa-me ver se me lembro.

Pirro, Pirro feroz como o tigre da Hircânia.

Não é isso — começa por Pirro.

Este ouriçado Pirro havia uma armadura Que, bem como a alma, tinha a cor da noite escura Quando ele era a dormir no cavalo sinistro. Mensageiro do mal, de Belzebu ministro, No corpo traz agora, em rubros caracteres, Mais sinistro brasão; da fronte aos pés o cora O sangue d’anciãos, d’infantes, de mulheres, E por mil bocas, mata a sede que o devora No sangue recozido aos raios dessa chama Que Tróia, em fogo ardendo, em torno a si derrama. Tisnado pelo fogo e pela raiva ardente Após Príamo corre...

Continua tu agora.

POLÓNIO

Boa declamação na verdade, com as medidas e intonações próprias.

PRIMEIRO ACTOR

O velho, já cansado, Mal vibra um frouxo golpe; aquela espada, outrora Como o raio veloz, lá onde cai descansa, Indócil à vontade, e à mão rebelde agora, Oh luta desigual! luta sem esperança, Pirro de raiva aceso, investe em frente e ao lado! E, só do gládio ao sopro ei-lo no chão prostrado O guerreiro senil! Então, Tróia abatida Parece haver sentido, os golpes derradeiros: Ao ver prostrado o rei exaure-se-lhe a vida, Desabam sobre a base em chamas os outeiros, E o som cavo e profundo a Pirro fere o ouvido. Eis de repente o gládio, a grande altura erguido, Já prestes a imolar a fronte alva, nevada, Do venerando rei, detém-se lá na altura: E Pirro assim parece um tirano em pintura, Suspenso entre a vontade e a obra começada! Mas como, muita vez, pouco antes da procela Se faz como que ouvir um silêncio que gela, Pára a nuvem no céu, o vento não retumba, E a terra a nossos pés é muda como a tumba; Subitamente após se vê no fundo baço Um raio que ilumina e rasga o imenso espaço, Assim de Pirro a fúria, instantes mal contida, Irrompe a completar a obra interrompida. Dos Ciclopes jamais caíram retumbantes Com remorso menor os malhos flamejantes Para forjar de Marte a grávida armadura, Que sobre o nobre velho, ensanguentada, impura, De Pirro a espada ardente!... É finda a horrenda luta! Atrás, fortuna, atrás, atrás, vil prostituta! Vós, deuses imortais, em sínodo sagrado, Roubai-lhe o audaz poder, quebrai todos os raios Às rodas do seu carro, e lá do céu lançai-os Tão baixo que o demónio os veja sempre ao lado.

POLÓNIO

Parece-me demasiado longo.

HAMLET

Para o encurtar manda-se a um barbeiro ao mesmo tempo que a tua barba. (Ao actor.) Continua, peço-to eu; se não lhe apresentam um bailado grotesco, ou uma cena imoral adormece logo. Continua, pois, chegámos a Hécuba.

PRIMEIRO ACTOR

Mas quem visse, oh, quem visse a rainha embuçada!

HAMLET

A rainha embuçada.

POLÓNIO

Óptimo, embuçada é bom.

PRIMEIRO ACTOR

Correndo, nus os pés; com lágrimas que chora As chamas apagando; a fronte coroada Por um farrapo vil, a fronte onde ainda agora Brilhava um diadema; apenas mal vestida Por coberta alcançada à pressa na fugida; Quem visse tanto horror, acaso concebera Que a fortuna só tem entranhas de uma fera; Mas se os deuses do Olimpo houvessem escutado, Quando ela vira Pirro entregue ao estranho gozo De cortar membro a membro, o corpo ao morto esposo, De seu peito fremente, o grito amargurado A não ser que da terra ao céu não suba a mágoa Sentiriam como ela os olhos rasos d’água!

POLÓNIO

Vejam, empalidece, o pranto inunda-lhe os olhos. Basta, peço-to.

HAMLET

Está bem, o resto mo recitarás noutra ocasião; (a Polónio) queira prover que estes actores sejam bem tratados, percebeu? que nada lhes falte, porque são a crónica resumida e viva da época. Mais lhe valeria, Polónio, um mau epitáfio depois da sua morte, do que o seu vitupério em vida.

POLÓNIO

Tratá-los-ei segundo os seus merecimentos.

HAMLET

Melhor, meu caro, melhor; se se tratasse cada um segundo os seus merecimentos, de poucos se faria caso. Trate-os, como o deve à jerarquia e à sua própria dignidade. Quantos menos títulos tiverem à sua benevolência, mais se deve esmerar no seu tratamento. Agora pode-se retirar com eles.

POLÓNIO

Venham, senhores.

HAMLET

Sigam-no, meus amigos, amanhã teremos a representação. (Polónio sai com os actores, menos um a quem Hamlet faz sinal que fique.)

HAMLET (continuando)

Dize-me, meu caro amigo, poderias representar a morte de Gonzaga?

PRIMEIRO ACTOR

Com mil vontades, senhor.

HAMLET

Então amanhã. Dize-me mais, poderias tu aprender de cor, sendo preciso, doze ou dezasseis linhas que eu desejava intercalar na peça? podes, não é verdade?

PRIMEIRO ACTOR

Posso perfeitamente, meu senhor.

HAMLET

Fica pois ajustado, segue aquele senhor, e só te peço que não zombes dele. (O actor sai.)

HAMLET (a Rosencrantz e Guildenstern)

Meus bons amigos, até à noite, estimei vê-los em Elsenor.

ROSENCRANTZ

Meu senhor. (Sai com Guildenstern.)

HAMLET

Finalmente estou só. Que miserável eu sou! Pois não será monstruoso que este actor, numa ficção, na expressão de uma dor simulada, pudesse elevar a sua alma, identificando-se com a sua parte, exaltando-se a ponto de empalidecer, de lhe borbulhar o pranto nos olhos, de se lhe pintar o desespero nas feições, entrecortada está a sua voz, e o seu todo faz uma verdade, do que não é senão uma situação fingida! E tudo, por quem? por Hécuba; que é Hécuba para ele, ou ele para Hécuba, para que a sua memória lhe arranque lágrimas tão sentidas? Que faria ele no meu lugar, se tivesse tantos motivos de dor, quantos eu tenho. Inundava de pranto a cena, aterrava os espectadores pela sua expressão terrível, fulminava o culpado, atemorizava o inocente; atónitas ficavam as almas simples, e a comoção aos sentidos da vista e do ouvido seria geral. E eu, alma tíbia, inteligência confusa, fico numa estúpida inacção, indiferente à minha própria causa, e nada acho que dizer, nada, mesmo nada a favor de um rei que perdeu a coroa e a vida pelo mais inaudito atentado! Ah, como sou cobarde! Infame me deveriam chamar, esbofetear-me, arrancar-me as barbas, lançar-mas ao rosto com o desprezo; insultar-me deveriam todos, dizer-me que pela gorja menti, e obrigar-me a sofrer calado todos os vilipêndios possíveis. Quem quer fazê-lo. Por vida minha que era justo; é forçoso que eu seja inofensivo como uma pomba sem fel, para levantar uma ofensa, para não ter feito pasto dos abutres as entranhas desse miserável, sanguinário e impudico celerado. Monstro de perfídia, juntas ao assassínio o adultério! Como sou estúpido! É belo na verdade ver-me, a mim, o filho de um rei e pai assassinado, a quem Céus e Terra instigam à vingança, gastar a minha indignação em palavras e vãs imprecações, como a mais vil e desprezível prostituta. Que vergonha! Procuremos uma ideia... (depois de uma pausa prolongada) Ei-la, achei. Ouvi dizer que criminosos, assistindo a representações dramáticas, de tal modo se perturbaram vendo a sua culpa em cena, que espontânea e imediatamente fizeram confissão do seu crime, porque o assassino embora mudo trai-se e fala. Quero que os actores representem, na presença de meu tio, a morte de meu pai, observarei as suas feições, sondarei as suas impressões; se se perturbar, sei o que me cumpre fazer. O espírito que me apareceu talvez seja um demónio, porque pode revestir-se da forma de um objecto amado, tem poder sobre as almas melancólicas, e quem sabe se na minha fraqueza e dor acha os meios para me perder, condenando-me para sempre. Quero ter a certeza completa; o drama em questão será o laço armado à consciência do rei. (Sai.)

Fim do acto segundo

ACTO TERCEIRO

CENA I

Uma sala no castelo de Elsenor. Entram o REI, a RAINHA, POLÓNIO, OFÉLIA, ROSENCRANTZ e GUILDENSTERN

O REI

Então ainda não puderam, nas suas conversas com ele, descobrir a causa da desordem da sua inteligência; daquela perigosa e turbulenta demência que se apoderou do seu espírito e lhe rouba o descanso?

ROSENCRANTZ

Confessa sentir esvair-se-lhe a razão; mas não conseguimos que ele nos revelasse a causa.

GUILDENSTERN

Parece pouco disposto a deixar sondar os seus sentimentos. Na sua loucura não o abandona um resto de sagacidade; conserva-se na defensiva todas as vezes que tentamos encaminhá-lo a uma confissão tocante ao seu estado.

A RAINHA

Recebeu-os bem ao menos?

ROSENCRANTZ

Com toda a afabilidade de um homem bem-educado.

GUILDENSTERN

Mas evidentemente constrangido.

ROSENCRANTZ

Perguntando pouco, mas respondendo às nossas perguntas com a maior naturalidade.

A RAINHA

E experimentaram algum divertimento para o distrair?

ROSENCRANTZ

O acaso fez-nos encontrar no caminho alguns actores; falámos-lhe neles, esta nova pareceu agradar-lhe. Estão aqui no palácio, e creio já terem recebido ordem para representarem esta noite na sua presença.

POLÓNIO

É verdade, e pede a Vossas Majestades que assistam à representação.

O REI

Com o maior prazer; estimo vê-lo assim disposto. Queiram estimulá-lo, senhores, e dirigir a actividade do seu espírito para estes divertimentos.

ROSENCRANTZ

Assim o faremos. (Sai com Guildenstern.)

O REI

Deixa-nos também, querida Gertrudes. Mandámos chamar secretamente a Hamlet, para como por acaso o pôr na presença de Ofélia. Seu pai e eu, legítimos espias, colocar-nos-emos de maneira que, sem sermos vistos, assistamos à entrevista e possamos julgar pelas suas palavras, se é um amor infeliz que assim o faz padecer.

A RAINHA

Obedeço retirando-me. Quanto a ti, Ofélia, desejo ardentemente que os teus encantos sejam a feliz causa da demência de Hamlet; porque terei então esperança que as tuas virtudes o restituirão, a contento de ambos, ao primitivo estado.

OFÉLIA

Quanto o desejo, senhora.

POLÓNIO

Ofélia, passeia aqui nesta sala; (ao rei) vamo-nos colocar, senhor; (a Ofélia) lê neste livro; esta leitura simulada servirá de pretexto à tua solidão. Enganamo-nos tantas vezes, e quão frequentemente acontece, com uma capa de santidade e atitude reservada conseguirmos fazer um santo do próprio demónio!

O REI

Oh, é bem verdade; que pungente dor esta observação inflige à minha consciência! O rosto da prostituta não é mais asqueroso debaixo da máscara do seu arrebique, do que o é o meu crime debaixo do falso verniz do meu discurso. Oh peso terrível!

POLÓNIO

Hamlet aproxima-se, retiremo-nos, senhor. (O rei e Polónio ocultam-se atrás da cortina.)

Entra HAMLET.

HAMLET

Ser ou não ser, eis o problema. Uma alma valorosa, deve ela suportar os golpes pungentes da fortuna adversa, ou armar-se contra um dilúvio de dores, ou pôr-lhes fim, combatendo-as? Morrer, dormir, mais nada, e dizer que por esse sono pomos termo aos sofrimentos do coração e às mil dores legadas pela natureza à nossa carne mortal; e será esse o resultado que mais devamos ambicionar? Morrer, dormir, dormir, sonhar talvez; terrível perplexidade. Sabemos nós porventura que sonhos teremos, com o sono da morte, depois de expulsarmos de nós uma existência agitada? E não deverei eu reflectir? É este pensamento que torna tão longa a vida do infeliz! Quem ousaria suportar os flagelos e ultrajes do mundo, as injúrias do opressor, as afrontas do orgulhoso, as ânsias de um amor desprezado, as lentezas da lei, a insolência dos imperantes, e o desprezo que o ignorante inflige ao mérito paciente, quando basta a ponta de um punhal para alcançar o descanso eterno? Quem se resignaria a suportar gemendo o peso de uma vida importuna, se não fosse o receio de alguma cousa além da morte, esse ignoto país, do qual jamais viajante regressou? Eis o que entibia e perturba a nossa vontade; eis o que nos faz antes suportar as nossas dores presentes do que procurar outros males que não conhecemos. Assim, somos cobardes todos, mas pela consciência; assim a brilhante cor da resolução se transforma pela reflexão em pálida e lívida penumbra, e basta esta consideração para desviar o curso das empresas mais importantes, e fazer-lhes perder até o nome de acção. Mas silêncio, vejo a linda Ofélia. Jovem beldade, lembra-te dos meus pecados nas tuas orações.

OFÉLIA

Como tem vossa alteza passado estes dias últimos?

HAMLET

Bem, agradeço-te do coração.

OFÉLIA

Senhor, tenho dádivas e lembranças suas que há muito lhe desejava restituir. Permita-me que lhas devolva.

HAMLET

Eu! decerto que não, nunca te dei nada.

OFÉLIA

O príncipe sabe perfeitamente que me fez essas dádivas, e as doces palavras que as acompanharam ainda lhes realçaram o valor; agora que perderam todo o seu perfume, tome-as, príncipe, porque para uma alma nobre, as mais ricas dádivas perdem o seu valor, no momento em que aquele que no-las fez só nos mostra indiferença. Receba-as pois, senhor.

HAMLET

Ah, ah, és virtuosa.

OFÉLIA

Meu senhor.

HAMLET

És bela.

OFÉLIA

Que diz vossa alteza?

HAMLET

Digo que se és virtuosa e bela, deves evitar toda a comunicação entre a tua virtude e a tua beleza.

OFÉLIA

Que melhor comércio há para a beleza que o da virtude?

HAMLET

A influência da beleza será mais pronta em metamorfosear a virtude em vil cortesã, do que a força da virtude em transformar a beleza à sua imagem. Antigamente seria paradoxo, hoje é um facto provado. Amei-te noutro tempo, é verdade.

OFÉLIA

Vossa Alteza bem mo fez acreditar.

HAMLET

Fizeste mal em acreditar. Porque embora a virtude se inocule na nossa primitiva natureza, sempre nos ficam restos dela. Nunca te amei.

OFÉLIA

Maior foi o meu engano.

HAMLET

Professa, Ofélia, encerra-te num claustro. Para que queres continuar uma raça de pecadores; quanto a mim julgo-me ainda assaz honesto; e contudo podia formular contra mim tais acusações, que melhor teria valido, que minha mãe me não tivesse dado à luz. Sou orgulhoso, vingativo e ambicioso; gero no meu cérebro tantas acções más, que o meu pensamento não basta para as distinguir, nem a minha imaginação para lhes dar uma forma, e falta-me o tempo para as executar. Que vantagem haverá pois que seres como eu se rojem como répteis entre o Céu e a Terra? Todos somos infames, não te fies em nenhum homem; vai, recolhe-te a um claustro. Onde está teu pai?

OFÉLIA

Em casa, meu senhor.

HAMLET

Que lhe fechem as portas para impedir que represente de louco fora de casa. Adeus.

OFÉLIA

Deus misericordioso, tende piedade de Hamlet.

HAMLET

Se alguma vez te casares, dar-te-ei como dote esta triste verdade. Sê tu fria como o gelo; se fores pura como a neve a calúnia não te poupará. Entra para um claustro, professa, adeus. Mas se absolutamente precisas um marido, então escolhe um louco, porque os homens assisados sabem em que monstros vós as mulheres os tornais. Professa, recolhe-te a um convento, mas avia-te. Adeus.

OFÉLIA

Poderes celestes, restituí-lhe a razão!

HAMLET

Também ouvi falar da vossa loquacidade. Deus deu-vos um porte e vós o transformais por vossa culpa. Saltitais, requebrai-vos; gestos e afabilidade são artifício, zombais das criaturas de Deus, e fazeis passar por ignorância o que é simples e pura afectação. Nem quero pensar em vós mulheres; foi o que me enlouqueceu. Digo que não teremos mais casamentos, todos que estão casados viverão, excepto um, os outros ficarão como estão. Professa, entra para um convento, vai. Adeus. (Hamlet sai.)

OFÉLIA (só)

Oh que nobre inteligência está ali destronada. A perspicácia do homem de corte, a espada do guerreiro, a palavra do sábio, o futuro deste reino, o espelho do bom-tom, o tipo dos modos nobres, o modelo em que todos fitavam os olhos, tudo destruído e destruído sem esperança; e eu, a mais aflita e infeliz das mulheres, eu que saboreei a inebriante ambrósia dos seus juramentos de amor, estou condenada a ver essa potente e elevada razão, semelhante ao bronze fendido, não dar senão sons falhos e dissonantes; e tanta beleza e juventude crestadas pelo sopro da demência! Oh infeliz, oh desgraçada, que vi o que vi, e vejo o que vejo!

Saem de trás da cortina o REI e POLÓNIO.

O REI

O amor! não é a ela que ele dedica a sua afeição; além disso o seu falar, ainda que um pouco falto de lógica, não tem cunho de loucura. Há na sua alma alguma dor secreta. Receio algum perigo que nos seja fatal. Para prevenir esse resultado, eis o plano que formei e no qual assentei. Quero que Hamlet parta sem demora para Inglaterra, para reclamar o tributo a que esse país se nega e a que é obrigado. Talvez que o mar, a mudança de clima, a vista de objectos novos, lhe restituam a razão, expulsando do seu coração aquela obstinada preocupação. Que lhe parece?

POLÓNIO

Parece-me acertado. Contudo persisto na minha ideia, que um amor desprezado é a causa única da sua dor. (A Ofélia) Não precisas referir-nos o que te disse o sr. Hamlet. Tudo ouvimos. (Ao rei) Senhor, faça o que lhe parecer conveniente, mas se me quer dar ouvidos, diga à rainha, que, depois da representação, o chame a sós e inste para conhecer dele a causa da sua mágoa; porém cumpre que lhe fale severamente: com o vosso assentimento ouvirei escondido toda a conversação. Se a rainha não puder penetrar aquele espírito rebelde a toda a confidência, ordene-lhe então a partida, e desterre-o, senhor, para o lugar que a prudência lhe ditar.

O REI

Concordo plenamente contigo; nos grandes é que a demência deve ser mais vigiada. (Saem todos.)

CENA II

Uma sala no castelo de Elsenor. Entram HAMLET e diferentes ACTORES.

HAMLET (a um dos actores)

Não esqueças de dizer aquele trecho, tal qual o declamei na tua presença; mais que tudo fogo e energia; mas se o recitares como a maior parte dos actores, mais me valeria ouvir a minha prosa na boca de um pregoeiro. Não movas descompassadamente os braços, acciona moderadamente; no meio mesmo da torrente, da tempestade, do tufão, da paixão, procura ser comedido. Nada impressiona mais desfavoravelmente, do que ver homens robustos reduzirem a pó uma paixão e escorchar os ouvidos dos assistentes, que, pela maior parte, não merecem senão uma declamação absurdamente arrebatada e uma acção desordenada. Açoutados mereciam esses actores, cujo accionado mais parece renhida batalha, e que mais cruéis se fingem que um Herodes de comédia. Peço-te que evites esses defeitos.

PRIMEIRO ACTOR

Pela minha parte, prometo-lho, senhor.

HAMLET

Não vás também cair no excesso contrário, sirva-te de guia a tua inteligência. Acomoda a acção às palavras, as palavras à acção, tendo sempre em vista a naturalidade; só é próprio da cena inteligente, que foi e é o espelho em que se deve reflectir a natureza, mostrar a virtude tal qual é, a vaidade sem véu, e cada tempo e cada idade com a sua fisionomia própria e com o cunho de verdade. Se se excede, ou se fica aquém do fim proposto, poderá excitar-se a hilaridade do homem ignorante, mas aflige-se o sensato, cujo juízo vale mais que o sufrágio de uma sala inteira. Oh! vi representar e ouvi elogiar actores, que, Deus me perdoe, nada tinham de cristão na voz, nada de cristão, pagão ou mesmo humano no porte, e que se estorciam e bramavam de tal modo, que sempre os julguei obra de algum aprendiz da natureza, que, querendo fabricar homens, errou a vocação, e não tinha produzido senão uma desgraçada imitação da humanidade.

PRIMEIRO ACTOR

Espero em Deus, que Vossa Alteza não nos poderá notar tais defeitos; entre nós, senhor, estão banidas de todo as exagerações.

HAMLET

Mas que o estejam na verdade; que os bobos não digam mais do que ao que são obrigados pela sua parte; alguns há que introduzem alguma facécia para excitar o riso dos espectadores ignaros no ponto em que mais atenção se reclama da parte do público. É um desacerto, e o bobo que recorre a esses expedientes, mostra uma pretensão desgraçada. Vão-se agora preparar. (Os actores saem.) Entram POLÓNIO, ROSENCRANTZ e GUILDENSTERN.

HAMLET (a Polónio)

Então o rei está decidido à nossa peça?

POLÓNIO

Com certeza, e a rainha também. Não tardam.

HAMLET

Diga então aos actores que se aviem. (Polónio sai.)

HAMLET (continuando, a Rosencrantz e Guildenstern)

Querem fazer-me o favor de também ir apressar os preparativos.

AMBOS

Sim, meu senhor. (Saem.)

Entra HORÁCIO.

HAMLET

Ah, és tu, Horácio?

HORÁCIO

Estou sempre às suas ordens, meu senhor.

HAMLET

Meu caro Horácio, és a flor dos homens, cujo trato tenho cultivado.

HORÁCIO

Meu querido senhor.

HAMLET

Não julgues que te lisonjeio; que posso eu esperar de ti, cujas únicas rendas são a jovialidade e a honestidade. Quem lisonjeia um pobre? Não, que a lisonja roja-se aos pés da opulência estúpida, e o servilismo curva o joelho, à espera do comprador. Escuta, depois que a minha alma pôde livremente escolher e soube distinguir os homens, marcou-te com o selo da predilecção, porque reconheceu em ti um homem que não se abate pelos revezes; um homem que aceita com a mesma indiferença os favores e os rigores da fortuna; felizes os mortais em quem o juízo e as paixões têm igual império, e não são um joguete nas mãos da fortuna. Mostrem-me um homem que não seja escravo das paixões, e terá conquistado, como tu, o meu coração, e abrir-lhe-ei o santuário da afeição mais íntima. Basta sobre o assunto. Deve-se hoje representar na presença do rei um drama, no qual há uma cena, que é a história da morte de meu pai, cujos pormenores já em tempo te contei. Quando se aproximar a cena, observa meu tio, com toda a vigilância que autorizam as minhas suspeitas; se o segredo do seu crime se não revelar por alguma palavra, então era a aparição obra do demónio, e as minhas imaginações são mais negras que as lavas e cinzas de um vulcão. Tu observa-o atentamente, eu não o perderei de vista; depois, juntando os nossos juízos, concluiremos conforme ao que virmos.

HORÁCIO

Muito bem, senhor, tão firme estarei no meu posto de observação, que juro por Deus, que me não escapará um movimento, uma impressão da sua alma.

HAMLET

Ei-los que chegam para a representação; agora cumpre-me ser espectador indiferente. (Ouve-se a marcha real e clarins.) Entram o REI, a RAINHA, POLÓNIO, OFÉLIA, ROSENCRANTZ,

GUILDENSTERN e a CORTE

O REI

Como passa nosso sobrinho Hamlet?

HAMLET

Melhor não pode ser; em verdade passei a viver como os camaleões, nutro-me só de ar, e alimento-me de promessas, as iguarias mais finas não me satisfariam melhor.

O REI

A tua resposta é-me ininteligível; não é decerto a mim que ela é dirigida.

HAMLET

Pois nem a mim. (A Polónio.) Não me disse que já tinha representado uma vez, quando cursava a universidade?

POLÓNIO

É verdade, senhor, e era reputado um hábil actor.

HAMLET

Que parte representou?

POLÓNIO

A de Júlio César; assassinaram-me no capitólio; Bruto apunhalava-me.

HAMLET

Que brutalidade apunhalar, e naquele lugar, um tão excelente bezerro. Os actores já estão prontos?

ROSENCRANTZ

Sim, meu senhor, esperam só as ordens.

A RAINHA

Vem, meu Hamlet, sentar-te a meu lado.

HAMLET

Não, minha mãe; (mostrando Ofélia) este metal tem mais força de atracção.

POLÓNIO

Que me diz agora, senhor?

HAMLET

Ser-me-á permitido estar a vossos pés, senhora? (Senta-se no chão aos pés de Ofélia.)

OFÉLIA

Não, meu senhor.

HAMLET

Queria dizer, recostar a cabeça sobre vossos joelhos.

OFÉLIA

Sim, meu senhor.

HAMLET

Pensáveis talvez que tivesse outra ideia?

OFÉLIA

Nada pensava.

HAMLET

É um pensamento este digno de um coração de donzela.

OFÉLIA

O quê, senhor?

HAMLET

Nada.

OFÉLIA

Vejo-o hoje alegre, senhor.

HAMLET

Quem, eu?

OFÉLIA

Sim, Vossa Alteza.

HAMLET

Sou o seu bobo e nada mais. Cousa alguma há melhor para o homem do que a alegria. Repare, veja como minha mãe está hoje muito alegre, e ainda não há duas horas que meu pai morreu.

OFÉLIA

Vossa Alteza engana-se por certo; há mais de duas vezes dois meses.

HAMLET

Tanto tempo! nesse caso use o demónio o luto, eu quero vestir-me de arminhos. Oh Céus, morto há dois meses, e ainda não esquecido, não é então de estranhar que a recordação de um grande homem dure mais de seis meses; mas, pela Virgem Santa, deve então ter edificado igrejas, aliás arriscava-se a que o esquecessem, como aquele a quem lavraram este epitáfio:

Aqui jaz esquecido um cavalo de pau.

Soam os clarins, começa a pantomima.

(Um rei e uma rainha entram em cena, o seu aspecto é de namorados, abraçam-se. A rainha ajoelha aos pés do rei, mostrando pelos seus gestos que lhe protesta o mais vivo amor. O rei levanta-a, e inclina a cabeça sobre o seu ombro; depois deita-se num banco coberto de flores. A rainha, vendo-o adormecido, sai. Aparece um personagem que lhe tira a coroa e a leva aos lábios, lança veneno num ouvido do rei, e sai em seguida. Volta a rainha, acha o rei morto, e dá mil sinais de desespero. O envenenador seguido por duas ou três pessoas, chega e parece lamentar-se com a rainha. O cadáver é levado da cena. O envenenador requesta a rainha, dá-lhe presentes. Ela mostra a princípio repugnância, mas acaba por aceitar o amor oferecido. Saem.)

OFÉLIA

Que significa esta cena, senhor?

HAMLET

Nada que seja bom, é um laço armado ao crime.

OFÉLIA

Esta pantomima indica sem dúvida o entrecho da peça?

Entra O PRÓLOGO.

HAMLET

Vamos sabê-lo, os comediantes não podem guardar um segredo, têm por costume falar sempre.

OFÉLIA

Explicará ele o que significa a pantomima?

HAMLET

Sem dúvida, não só essa, mas todas as que lhe quiser apresentar, qualquer que seja a sua espécie, e terá a explicação pronta.

OFÉLIA

O príncipe é mau, deixe-me seguir a peça.

O PRÓLOGO

Pedimos, para nós, toda a vossa indulgência; Para a nossa tragédia, atenta paciência.

HAMLET

Parece antes divisa de anel do que prólogo.

OFÉLIA

Tão curto, senhor.

HAMLET

Como o amor de uma mulher.

Entram um REI e uma RAINHA.

O REI DA PEÇA

Trinta vezes de Febo o carro luminoso De Telus e Neptuno, o largo giro há feito, E trinta vezes doze a Lua, astro saudoso, De refrangida luz, à terra há dado o preito, Desde que as nossas mãos, com mútuo amor se deram, E as bênçãos d’Himeneu o sacro nó teceram.

A RAINHA DA PEÇA

Possamos, Lua e Sol, ver outras tantas vezes, Antes que deste amor se rompa o doce laço; Mas seguem-se à ventura as mágoas, os revezes, E vejo-vos caído, há pouco, em tal cansaço, Tão triste, meu senhor, tão triste e tão mudado, Que não posso esconder mais tempo o meu cuidado. Mas que não se perturbe o vosso ânimo forte Porque inquieta eu sou, e ousei pensar na morte. De afecto e de ansiedade igual medida temos, Ou nulos um e o outro, ou um e o outro extremos. Se é grande o meu amor, demais senhor o vedes, Que a par anda o receio, em minha fronte o ledes. Sempre que o amor é grande, as apreensões mais breves Transformam-se de pronto em máximos temores; Quando é grande o receio, os afectos mais leves Ascendem de repente aos mais grandes amores.

O REI DA PEÇA

Bem cedo é força, amor, que deste mundo eu parta, Bem vês, desta alma a luz já quase que se aparta. Tu viverás sem mim, sob este céu formoso, Querida, idolatrada e sempre honesta e casta. Depois, talvez depois, quem sabe? um novo esposo... Um homem justo e bom...

A RAINHA DA PEÇA

Oh! basta, senhor, basta! Seria um novo amor perfídia negra e infame. Amaldiçoado seja o dia em que outro eu ame! Embora justo e bom, segundo companheiro Não no aceita ninguém, sem ter morto o primeiro. Isto é absinto, e que absinto!

A RAINHA DA PEÇA

Pois que motivo arrasta a viúva ao casamento? Acaso um novo amor? um nobre sentimento? Um sórdido interesse: e eu cravara no peito De meu morto senhor a ponta de uma espada, Cada vez que, olvidando a antiga fé jurada, Compartisse outro ser comigo o mesmo leito.

O REI DA PEÇA

Creio bem, que pensais o que dizeis, se creio?! Mas quanta, oh! quanta vez, se quebra a acção no meio, Nasce a resolução escrava da memória, Produto da violência, é curta a sua história. A fruta enquanto verde em qualquer ramo atura Mas, sem abalo algum, tomba apenas madura. Fatalmente olvidando o que a nós nos devemos Não pagamos jamais, a dívida esquecemos. O que durante a dor parece a eternidade, Mal extinta a paixão, cessa de ser vontade. O júbilo e o martírio, ainda os mais completos, Destruindo-se a si, destroem seus decretos. Onde o prazer mais ri, mais chora a dor pungente; Entristece a alegria, alegra-se a tristeza, À causa mais subtil, ao mais leve acidente, É este um dom fatal da vária natureza. Passamos pelo mundo, e nada aqui tem dura Que até o próprio amor muda com a ventura; Porque é problema ainda oculto aos pensadores Se dá o amor fortuna, ou se a fortuna amores. Um príncipe decai? somem-se os que os adulam; Um mendigo se eleva? os amigos pululam. Até aqui o amor seguiu sempre a fortuna; Quem não precisa encontra em toda a parte amigos, E quem precisa e pede, é lepra que importuna, Todos transforma e muda em feros inimigos, Mas para concluir, escuta o corolário: A vontade e o destino, andam tanto ao contrário Que o mais leve projecto é sempre letra morta. Assim crês, não terás jamais outro marido; Pois abra-me o sepulcro a sua eterna porta E tudo irá sumir-se em um perpétuo olvido.

A RAINHA DA PEÇA

Negue-me a terra o pão, e a luz o firmamento! O meu gozo maior transforme-se em tormento! Minha esperança e fé tornem-se em negro inferno! Seja a fome em prisão o meu futuro eterno! Não tenha eu, viva ou morta, o mais curto repouso, Se, viúva uma vez, tomar um outro esposo!

HAMLET

E se lhe acontecer violar o juramento?

O REI DA PEÇA

Solene juramento!... Amor, deixa-me agora; Exausta sinto a fronte, e bom grado entregara Os restos deste dia à paz consoladora Dos braços de Morfeu. Adeus! Oh! sempre cara. (Adormece.)

A RAINHA DA PEÇA

Que um sono brando e doce embale a tua mente E a desgraça jamais entre nós dois se assente!... (Sai a rainha.)

HAMLET

Senhora, como acha esta peça?

A RAINHA

A rainha parece-me que faz demasiados protestos.

HAMLET

Mas dada a palavra, não pode faltar.

O REI

Conhece a peça? não contém nada repreensível?

HAMLET

Absolutamente nada; tudo quanto contém é só gracejo, até se envenena por gracejo. É a peça mais inofensiva que pode haver.

O REI

Que título tem?

HAMLET

O Laço, já se sabe, por metáfora. O assunto da peça é um assassínio cometido em Viena. O rei chama-se Gonzaga, sua mulher Baptista. Vai ver, um crime horrível. Mas que importa a Vossa Majestade e a mim, que temos a consciência pura e que nada temos a recear! O pior é para aqueles a quem punge algum espinho, a nós nada nos pesa na consciência.

Entra LUCIANO.

HAMLET (continuando)

É este um chamado Luciano, sobrinho do rei.

OFÉLIA

Vossa Alteza faz o serviço do coro.

HAMLET

Podia até servir de ponto numa conversa sua com o seu amante; o caso era eu ver manobrar os dois títeres.

OFÉLIA

Sois na verdade mordaz, príncipe; sois bem mordaz.

HAMLET

A sua pena seria que eu deixasse de o ser.

OFÉLIA

De bem para melhor, de mal para pior.

HAMLET

É a sorte que a espera na escolha de um marido! Começa, assassino. Põe de parte esses horríveis trejeitos, avia-te, começa. Eis o corvo que avança, Chamando em seu grasnar a lúgubre vingança.

LUCIANO

O pensamento negro, o braço bem disposto, A droga preparada, a hora favorável, Cúmplice a ocasião, a ver nem um só rosto. Mistura infecta e imunda, extracto abominável De peçonhenta sarça à meia-noite achada, Três vezes poluída e três envenenada D’Hecate à maldição, possa a tua virtude Fechar uma existência, e abrir um ataúde.

(Deita veneno num ouvido do rei adormecido.)

HAMLET

Envenena-o no jardim, para se apoderar da coroa. O nome do rei é Gonzaga; é uma história autêntica escrita no mais elegante italiano. Verão como logo o assassino obtém o amor da mulher de Gonzaga.

OFÉLIA

O rei levantou-se.

HAMLET

Quê! um pequeno clarão apenas, já o assusta?

A RAINHA

Que tem, senhor?

POLÓNIO

Cesse a peça.

O REI

Tragam luzes. Saiamos.

POLÓNIO

Luzes, venham luzes, luzes. (Todos saem, excepto Hamlet e Horácio.)

HAMLET

Sim! que fuja e que chore o cervo mal ferido, E o que ao golpe escapou, goze um prazer profundo. Quando um chora, outro ri. Oh! sempre assim há sido, E assim é feito o mundo. Se alguma vez a fortuna me maltratar, não bastaria uma cena de efeito como esta, acrescentando-lhe um chapéu ornado de penas, e duas rosas de Provença nos laços dos sapatos, para que me admitissem numa companhia dramática.

HORÁCIO

Talvez o admitissem, mas com meia paga.

HAMLET

Ou inteira.

Porque sabes, Damon, bem sabes tu que outrora Mandava neste reino, que vês hoje aviltado, Qual Júpiter no Olimpo, um grande rei... agora

Governa aqui... um chavo.

HORÁCIO

Foi pena não rimar.

HAMLET

Meu querido Horácio, aposto mil libras esterlinas, em como a sombra falou só a verdade. Reparaste?

HORÁCIO

Em tudo reparei, senhor.

HAMLET

Quando se tratava do envenenamento?

HORÁCIO

Tudo observei.

HAMLET

Ah! ah! ah! quero música, tanjam as charamelas.

Porque, se dá comédia o rei não gosta nada, Sei eu dar a razão... não gosta, está dada.

Venha a música, quero muita música. (Entram Rosencrantz e Guildenstern.)

GUILDENSTERN

Senhor, permita-me que lhe dê uma palavra.

HAMLET

Mil até, se nisso fizer gosto.

GUILDENSTERN

Senhor... o rei...

HAMLET

Que é?... que me vem dizer dele?

GUILDENSTERN

Retirou-se aos seus aposentos, estranhamente indisposto.

HAMLET

Pelo vinho?

GUILDENSTERN

Não, senhor, mas pela cólera.

HAMLET

Mais assisado seria terem chamado um médico. Eu não faria senão exacerbar a sua cólera com a minha presença.

GUILDENSTERN

Queira, senhor, ter mais nexo nos seus discursos, e não se afastar assim tão bruscamente da questão.

HAMLET

Escutá-lo-ei tranquilamente. Fale.

GUILDENSTERN

A sua rainha e mãe me envia a Vossa Alteza.

HAMLET

Bem-vindo seja.

GUILDENSTERN

Senhor, essa polidez é mal cabida nesta ocasião. Se me promete responder razoavelmente, executarei então as ordens de sua mãe, quando não, retiro-me pedindo desculpa a Vossa Alteza.

HAMLET

Não posso.

GUILDENSTERN

O quê, meu senhor?

HAMLET

Responder razoavelmente; a minha inteligência enfermou, no entanto dar-lhe-ei uma resposta, ou antes como ordena a minha mãe, a melhor que puder. Diga-me agora, que pretende de mim a rainha?

ROSENCRANTZ

Encarregou-nos de lhe dizer, príncipe, que o seu comportamento lhe causou espanto e dor.

HAMLET

Ah! sou pois um filho tão extraordinário que causo espanto e dor a minha mãe! Nada mais lhe disse? Falem.

ROSENCRANTZ

Deseja falar-lhe, Alteza, no seu quarto, antes de o príncipe se deitar.

HAMLET

Obedecer-lhe-emos, ainda que fosse dez vezes nossa mãe. Tem mais alguma cousa a dizer?

ROSENCRANTZ

Houve tempo em que o príncipe era meu amigo.

HAMLET

Ainda hoje o sou, juro-o por estes dez dedos.

ROSENCRANTZ

Senhor, qual é a causa da sua dor profunda? É impor-se um constrangimento inútil, guardar esse segredo para connosco, que somos tão seus amigos.

HAMLET

Inquieta-me o meu futuro!

ROSENCRANTZ

Como pode isso ser, pois o rei já o escolheu para sucessor ao trono de Dinamarca?

HAMLET

É verdade; mas guardado está o bocado... o provérbio é antigo.

Entram diferentes actores cada um com uma charamela.

HAMLET

Ah! chegam as charamelas, dá-me uma. (Tira a charamela a um dos actores.) Quer que o acompanhe? então deixe de me perseguir como o caçador persegue a caça.

GUILDENSTERN

Se o meu zelo, senhor, me faz obstinado, é porque a afeição me torna importuno.

HAMLET

Não o posso compreender, faz-me favor de tocar nesta charamela.

GUILDENSTERN

Senhor, eu não sei!

HAMLET

Peço-lhe.

GUILDENSTERN

Creia-me, senhor, não posso.

HAMLET

Suplico-lhe.

GUILDENSTERN

Se nunca soube tocar tal instrumento!

HAMLET

Pois mais difícil é mentir. Com os quatro dedos e o polegar tapam-se e destapam-se por sua vez os orifícios; sopre, e verá que encantadora harmonia produz. Vamos.

GUILDENSTERN

Mas, senhor, eu não posso nem sequer tirar um som deste instrumento; falta-me o talento.

HAMLET

Que espécie de imbecil me julga então? Sou a seus olhos um instrumento de que pretende tirar sons, e que parece conhecer tão bem. Pretende sondar até ao fundo da minha alma, para descobrir o meu segredo; queria então fazer vibrar todas as cordas do meu sentimento. Deste pequeno instrumento (mostrando-lhe a charamela) tiram-se sons e notas as mais melodiosas; e contudo nas suas mãos não pode falar. Pela Virgem Santa, sou então mais fácil de tocar do que uma flauta? O que lhe asseguro é que se me julga um instrumento nas suas mãos, nunca conseguirá fazê-lo falar. Está muito enganado comigo.

Entra POLÓNIO.

HAMLET (continuando)

Guarde-o Deus.

POLÓNIO

Senhor, a rainha deseja falar-lhe imediatamente.

HAMLET (aproximando-se de uma janela)

Vê acolá aquela nuvem que tem quase a forma de um camelo?

POLÓNIO

Não há dúvida, dir-se-ia efectivamente um camelo.

HAMLET

Parece-se mais com uma doninha.

POLÓNIO

É verdade! tem o feitio da doninha.

HAMLET

Ou de uma baleia?

POLÓNIO

Realmente, com o que se parece é com uma baleia.

HAMLET

Agora vou ter com minha mãe, hão-de acabar por enlouquecer-me deveras. Vou já.

POLÓNIO

Vou comunicá-lo à rainha. (Polónio sai.)

HAMLET

Já! É fácil dizê-lo. Deixem-me sós, meus amigos. (Saem todos excepto

Hamlet.)

HAMLET (só)

É esta a hora da noite própria dos mistérios da magia, a hora em que os túmulos se abrem, em que o Inferno exala sobre a terra o seu sopro contagioso; agora sinto-me capaz de beber sangue ainda fumegante, e cometer actos que o dia consternado não poderia presenciar sem terror! Prudência! Vamos ao quarto de minha mãe. Oh! meu coração, não dispas o teu vigor; firmeza agora, mas que o coração de Nero nunca entre em meu peito. Sejamos inflexíveis, mas não filho desnaturado; seja a minha língua um punhal, mas minha mão esteja desarmada; e nesta ocasião sejam a minha boca e o meu coração obrigados pela razão a dissimular. Por mais violentas que sejam as minhas palavras, dai-me força, meu Deus, para que sejam sempre comedidas, assim como os meus actos. (Sai.)

CENA III

Um quarto no castelo de Elsenor. Entram o REI, ROSENCRANTZ e GUILDENSTERN.

O REI

Há nele alguma cousa que me desagrada, e creio que haveria perigo para nós em não vigiar a sua loucura; façam pois todos os preparativos de viagem. Vou dar as ordens, e quero que parta sem demora para Inglaterra acompanhado pelos senhores. O interesse da nossa coroa me veda o expor-me aos contínuos perigos com que a sua demência me ameaça.

GUILDENSTERN

Vamo-nos preparar. É um receio santo e salutar o que tem por objecto assegurar a salvação de inúmeras existências, que depende da vida de Vossa Majestade.

ROSENCRANTZ

É um dever que toca a cada um na sua esfera individual, o aplicar todas as suas forças e toda a energia para defender a própria vida contra qualquer ataque; quanto mais obrigado a fazê-lo é aquele de cuja vida dependem tantas existências! Quando um rei morre, não morre só, é um turbilhão que atrai tudo quanto encontra no caminho, ou lhe fica próximo: roda colossal fixada no cume de uma elevada montanha, cujos gigantescos raios estão carregados de inúmeros acessórios, e cuja queda os impele forçosamente a um desastre comum. Quando o rei padece, padecem todos.

O REI

Preparem-se, peço-lho, para uma partida imediata, porque estamos resolvidos a pôr um termo às causas de inquietação que demasiado livremente se dão neste país.

AMBOS

Não nos faremos esperar. (Saem.)

Entra POLÓNIO.

POLÓNIO

Senhor, Hamlet entrou agora para o quarto de sua mãe; ocultar-me-ei cuidadosamente para ouvir a sua conversa. Asseguro a Vossa Majestade que a rainha o vai repreender severamente. É conveniente, como el-rei muito bem disse, que outros ouvidos que não sejam os de mãe, naturalmente propensos à indulgência, ouçam o que se disserem mutuamente. Adeus, meu senhor; virei aos seus quartos antes que Vossa Majestade se recolha, e o rei será sabedor de tudo quanto se passou.

O REI

Obrigado, Polónio. (Polónio sai.)

O REI (só)

O meu crime já não tem perdão no Céu, está marcado pelo estigma da maldição divina, como o foi o primeiro fratricida. Apesar de todos os meus desejos, não posso orar; pareço um homem que duas ocupações reclamam, e que, não sabendo por qual optar, não escolhe nenhuma. Pois que, quando sobre esta mão maldita se formasse uma crosta de sangue mais espessa que a própria mão, não teria o Céu bastante misericórdia para que a onda da sua graça a purificasse e a tornasse branca como a neve? Para que serve a bondade divina, senão para remir as nossas culpas? De que vale a oração, se não tem a dupla virtude de prevenir a nossa queda, ou obter o perdão depois dela? Dirijamos as nossas súplicas ao Céu, já que não podemos evitar o crime consumado. Mas, infeliz, como hei-de orar? Perdoai-me, Senhor, o meu crime nefando. Não posso, pois que possuo os objectos que me induziram ao assassínio, coroa, trono e consorte. Poder-se-á obter o perdão, quando se conservam os frutos do crime? Neste mundo corrompido, a iniquidade pode a preço de oiro desviar o curso da justiça, e com o produto do crime comprar a impunidade; mas o Céu é justo, todo o subterfúgio é inútil; ali os nossos actos são justamente avaliados e os nossos crimes conhecidos. Que devo fazer? Nada me resta. Tentemos o arrependimento. Grande é a sua eficácia; mas que pode naquele a quem mesmo o arrepender-se é vedado? Oh! Deplorável condição, oh! consciência negra como a morte, oh! minha alma, não tens perdão, e quanto mais te esforçares por obtê-lo, mais agravas a tua situação. Anjos do Céu, vinde em meu auxílio, tentai um esforço supremo. Dobrai-vos, joelhos rebeldes. E tu, meu coração, que as tuas fibras de aço voltem ao estado primitivo das do recém-nascido. Ainda me resta esta última esperança. (Retira-se a um lado da cena, ajoelha e ora.) Entra HAMLET.

HAMLET (vendo o rei)

A ocasião é propícia, está orando. Coragem, Hamlet. Sim, mas salvar-seia a sua alma, e não é essa a minha vingança desejada. Reflictamos; um celerado assassina meu pai, e eu, seu filho único, abro as portas do Céu a esse infame! Seria uma recompensa e não um castigo. Assassinou meu pai, entregue às preocupações da carne, quando seus pecados mais vivazes estavam, como as flores na Primavera; e quem sabe, a não ser o Céu, que contas daria ao Criador? as penas eternas, decerto, não o pouparam. Seria uma vingança imolar este celerado, quando a sua alma deve estar pura, quando está preparado para a sua última viagem? Não! Entra na tua bainha, minha espada, e espera para ferir, golpe mais terrível e justo. Quando estiver ébrio ou adormecido, ou encolerizado, ou imerso nos prazeres de um leito incestuoso, ou absorvido pelo jogo, ou blasfemando, ou praticando algum acto contrário à salvação da sua alma, então fere, que as penas do Inferno serão poucas para um tal crime. (Olhando para o rei.) Prolonga ainda os teus dias enfermos: adiar não é desistir. (Sai.)

O REI

Sobem as minhas palavras, o pensamento não, e as palavras sem o pensamento não chegam ao Céu. (Sai.)

CENA IV

Um quarto no castelo. Entram a RAINHA e POLÓNIO.

POLÓNIO

O sr. Hamlet não tarda. Repreenda-o asperamente; diga-lhe que os seus atrevimentos excedem os limites da paciência, e que Vossa Majestade já teve que se interpor entre ele e a cólera do rei. Nada mais digo, senhora, peço só que fale com firmeza.

A RAINHA

Falar-lhe-ei com firmeza, esteja descansado. Afaste-se, ouço os seus passos. (Polónio esconde-se.) Entra HAMLET.

HAMLET

Que me quer, minha mãe?

A RAINHA

Hamlet, ofendeste gravemente teu pai.

HAMLET

Minha mãe ofendeu gravemente meu pai!

A RAINHA

Como insensato falas.

HAMLET

A rainha fala como culpada!

A RAINHA

Que queres tu dizer, Hamlet?

HAMLET

O que é, senhora?

A RAINHA

Esqueces quem eu sou?

HAMLET

Pela cruz do Redentor, que não. Rainha é, foi esposa do irmão de seu marido, e prouvera a Deus que não o fosse, mas é minha mãe!

A RAINHA

Mandar-te-ei alguém que melhor do que eu te saiba falar.

HAMLET

Vamos, sente-se, minha mãe. Não se moverá, não sairá daqui enquanto eu não tiver posto diante dos seus olhos um espelho em que possa ver até às profundidades da sua alma.

A RAINHA

Que pretendes de mim? queres tu porventura assassinar-me? Acudam à rainha, acudam!

POLÓNIO (por detrás do reposteiro)

O que é! olá, socorro!

HAMLET (desembainhando a espada)

Que é isso? Um rato? (Dando-lhe uma estocada.) Aposto um ducado em como o matei!

POLÓNIO (atrás do reposteiro)

Mataram-me, eu morro. (Cai para fora do reposteiro e morre.)

A RAINHA

Que fizeste, infeliz?

HAMLET

Ignoro-o; seria o rei? (Levanta o reposteiro e puxa pelo cadáver de Polónio.)

A RAINHA

Que acto de crueldade e de sangue!

HAMLET

De sangue; quase tão repreensível, minha mãe, como assassinar um rei e desposar o irmão!

A RAINHA

Assassinar um rei?

HAMLET

Sim, um rei, foi o que eu disse. (A Polónio.) Quanto a ti, pobre diabo, louco, temerário e indiscreto, as nossas contas estão ajustadas, aprendeste à tua custa o perigo que corre quem se intromete nos negócios dos outros. (À rainha.) Cesse de estorcer-se. Silêncio, sente-se, quero torturar o seu coração, e fá-lo-ei, se ainda possui alguma sensibilidade, e o hábito do crime não a bronzeou a ponto de ser insensível a toda a espécie de emoção.

A RAINHA

Que fiz eu, Hamlet, para que me fales nesse tom ameaçador?

HAMLET

Uma acção que mancha o rubor e a graça do pudor; que transforma a virtude em hipocrisia; que arranca à fronte inocente do amor a sua coroa de rosas, e a substitui por uma chaga asquerosa; que torna os juramentos do himeneu tão falsos como os do jogador! Oh! uma acção que rouba ao corpo dos contratos a santidade, que é a sua alma, e faz da religião uma rapsódia de palavras. Indigna-se o Céu, contrista-se o globo sólido e compacto, lê-se-lhe nas faces a consternação como se fosse o último dia do mundo.

A RAINHA

Qual é pois a acção que denunciam este ameaçador prelúdio e esta expressão fulminante?

HAMLET (mostrando dois retratos em pé que ornam as paredes)

Veja bem esses dois retratos, são as imagens de dois irmãos. Veja que graça impressa nestas feições: o cabelo anelado de Apolo; a fronte do próprio Júpiter; o olhar de Marte, onde se lê o comando e a ameaça; o porte de Mercúrio, o mensageiro celeste, quando apenas pousa o alado pé sobre o cimo das nuvens; uma tão feliz reunião das formas perfeitas, que cada um dos deuses parecia ter contribuído com o seu quinhão, como se quisessem mostrar ao mundo o modelo do verdadeiro homem! Esse era o seu primeiro esposo. Volva agora os olhares para este lado. Eis o que é o seu segundo esposo! que, semelhante à espiga mangrada, pelo seu contacto causa a morte a sua irmã a espiga sã. E saberá ver? Como pôde então abandonar as férteis e salubres colinas, para se imergir neste imundo paul!! Se ainda tem olhos, senhora, não pode imputar ao amor o seu comportamento; na sua idade já se acalmou a efervescência do sangue, e a paixão obedece à razão. E qual seria a criatura racional, que ousasse trocar o seu primeiro marido por este segundo? É sem dúvida dotada de sensibilidade, aliás não seria um ser animado; mas na senhora estão paralisados todos os sentimentos, porque não há demência que não deixe ao que verga sob o seu peso uma porção bastante de discernimento, para saber escolher entre objectos tão dissemelhantes. Que demónio a perturbou a ponto de lhe vendar os olhos? A vista sem o tacto, o tacto sem o auxílio da vista, o ouvido sem o uso das mãos e dos olhos, o olfacto só por si, uma porção mesmo alterada de um verdadeiro sentido, não podiam ter-se enganado tão estultamente. Oh! vergonha! onde está o teu rubor? Inferno rebelde, que assim podes atear a revolta nos sentidos de uma mulher, há muito esposa e mãe. Que admira que, para a ardente juventude, a virtude seja como a cera, que se derrete à chama que alimenta; que não seja vergonha ceder quando nos arrasta a paixão, pois que o próprio cristal se funde e a razão prostitui aos desejos os seus vergonhosos serviços.

A RAINHA

Oh! Hamlet, cessa por piedade, obrigas o meu olhar a volver-se todo para a minha alma, e nela descubro máculas tão negras e tão profundamente impressas, que nada já as pode lavar.

HAMLET

Viver no suor impuro de um leito infecto, sobre o esterco da corrupção, revolver-se no lodaçal de um asqueroso amor.

A RAINHA

Cala-te, Hamlet, as tuas palavras são outras tantas punhaladas. Piedade! querido filho!

HAMLET

Um assassino, um celerado, um miserável, que não vale a centésima parte do seu primeiro marido, um rei de comédia, um ladrão, que empalmou o poder, e que achando a coroa debaixo de mão, a roubou e a meteu no bolso!

A RAINHA

Hamlet!

HAMLET

Um palhaço!

(Entra a Sombra.)

HAMLET

Protegei-me e abrigai-me sob vossas asas, anjos do Céu. (À Sombra.) Que pretendes de mim, sombra querida?

A RAINHA

Infeliz! enlouqueceu.

HAMLET (à sombra)

Vens tu repreender a tibieza de teu filho, que, deixando passar o tempo, arrefecer a sua indignação, não se apressou em cumprir os teus terríveis preceitos? Fala!

A SOMBRA

Recorda-te que o único fim desta minha aparição é atear em ti o fogo da resolução. Mas vê, tua mãe está sucumbida, interpõe-te entre ela e os seus remorsos; é nas mais débeis organizações que mais estragos causa a imaginação. Fala-lhe tu, Hamlet.

HAMLET

Como se sente, minha mãe?

A RAINHA

Eu é que te devia fazer essa pergunta! Por que está teu olhar fito no espaço? por que conversas com seres imateriais? Teu olhar indefinido revela a luta da tua alma; como um soldado acordado em sobressalto; teus cabelos, como se a vida os animasse, levantam-se e ouriçam-se sobre a tua fronte. Oh! meu querido filho, apaga a chama da tua cólera, com as tranquilas e límpidas águas da paciência! Mas para onde olhas tu?

HAMLET

É ele! Ele! Como está pálido! O seu aspecto, e o motivo que aqui o traz, comoveriam as próprias pedras. (À sombra.) Descrava de mim os teus olhos, receio que me feneça a resolução, vendo teu triste e comovente olhar; que se transforme o carácter dos meus actos talvez em lágrimas em vez de sangue.

A RAINHA

Mas, filho, a quem falas assim?

HAMLET

Não vê nada, minha mãe?

A RAINHA

Nada, senão tudo quanto existe nesta câmara.

HAMLET

E nada ouviu?

A RAINHA

Cousa alguma, a não ser as tuas palavras.

HAMLET

Mas olhe, minha mãe, não vê como ele se afasta triste e pensativo? É meu pai, vestido como trajava em sua vida. Ei-lo, transpõe agora mesmo a porta. Saiu. (A sombra sai.)

A RAINHA

É à exaltação da tua imaginação e ao delírio que de ti se apoderou, que são devidas estas criações fantásticas.

HAMLET

O delírio! Senhora, apalpe o meu pulso, e conhecerá que não está menos tranquilo que o seu. Não falei influenciado pelo delírio. Interrogue-me; em vez de divagar, repetir-lhe-ei textualmente as minhas palavras; não estou louco; engana-se, minha mãe. Por Deus, não se embale, no pensamento falso, que é o meu delírio e não a sua culpa que me faz falar! Seria cicatrizar exteriormente a chaga, que a consciência nunca deixaria de aumentar interiormente. Confesse-se ao Céu, arrependa-se do passado, premuna-se para o futuro, e não dê pasto ao verme do remorso, que acabará por totalmente corroer o seu coração e obliterar a sua consciência. Perdoe à minha virtude, porque neste mundo sórdido e venal a virtude deve implorar o perdão do vício e pedir o favor de poder fazer o bem.

A RAINHA

Oh! Hamlet! Dilaceras-me o coração.

HAMLET

Expulse a parte corrompida, e com a outra metade viva tranquila e pura. Boa noite; evite meu tio, e se não puder ser virtuosa, ao menos pareça-o. O hábito, esse monstro, que destrói e neutraliza em nós toda a sensibilidade, esse demónio do hábito, é anjo nisto, porque consente à virtude e às boas acções as suas vestes próprias. Não veja hoje o seu esposo, tornar-lhe-á mais fácil a abstenção futura; o hábito tudo pode, muda a natureza individual, doma o demónio, e expulsa-o com o seu maravilhoso poder. Boas noites mais uma vez! e quando sentir a necessidade da bênção divina, então pedir-lhe-ei a sua. (Mostrando Polónio.) Quanto a este homem, arrependo-me do que fiz; mas obedeci ao Céu; assim o quis tornando-me instrumento das suas vinganças, punindo-o por mim, a mim por ele. Sepultem-no, eu responderei pela morte que lhe dei! Adeus, pois. Cumpre-me ser cruel por humanidade; o primeiro mal está feito, o maior ainda há-de vir. Uma palavra ainda.

A RAINHA

Que devo fazer?

HAMLET

Nada do que eu lhe disse! Receba as carícias do avinhado monarca, preste as suas faces aos seus ósculos, ouça-lhes as palavras de amor; então num dilúvio de ardentes ósculos, entre as mais lúbricas carícias, confesse-lhe, revele-lhe tudo, diga-lhe que nunca estive louco, que o fingi, faça-lhe essa confidência. Qual seria a rainha, bela, sensata e honesta, que hesitasse em confiar àquele animal imundo e repelente, asqueroso réptil, tão importantes segredos? Quem guardaria silêncio? Ninguém. Depois, olvidando o bom senso e a discrição, abra a gaiola e deixe voar as avezinhas, e seguindo o exemplo do bugio da legenda, por simples experiência, introduza-se na gaiola e rompa o pescoço caindo!

A RAINHA

Acredita, Hamlet, que se as palavras se compusessem de fôlego e o fôlego de vida, eu não teria vida para articular as que tu me disseste.

HAMLET

Devo partir para Inglaterra; sabe-o sem dúvida, minha mãe?

A RAINHA

Infeliz! Tinha-me esquecido; pois isso está definitivamente determinado?

Há cartas seladas, e os meus dois companheiros de estudos, nos quais me fio tanto como na inocência dos envenenados dardos das víboras, são os portadores da ordem! São eles que me hão-de aplanar o caminho, e se encarregarão de me conduzir ao laço armado pela mais negra traição. Deixemos caminhar os acontecimentos. Causa deveras prazer ver rebentar nas mãos do próprio artífice a bomba que para outrem preparava. Nada há, senhora, que nos dê mais gosto do que combater a traição, contraminando-a pela sagacidade. A morte de Polónio apressará a minha partida. Levemos o seu cadáver para a câmara vizinha. Boas noites, minha mãe. Este conselheiro está agora verdadeiramente a sangue frio, discreto e grave; em vida era dotado de estúpida garrulice. Agora basta, acabemos por uma vez. Boas noites. Adeus, minha mãe. (A rainha sai por um lado, Hamlet pelo outro, arrastando o cadáver de Polónio.)

Fim do acto terceiro

ACTO QUARTO

CENA I

Um quarto no castelo de Elsenor. Entram o REI, a RAINHA, ROSENCRANTZ e GUILDENSTERN.

O REI

Esses suspiros, esse difícil arfar do peito, tudo deve ter uma causa. Queremos conhecê-la e pelos senhores. Onde está nosso filho?

A RAINHA (a Rosencrantz e Guildenstern)

Deixem-nos sós um momento. (Os dois saem.) (Ao Rei.) Ah! senhor, que noite esta!

O REI

Que há de novo, Gertrudes; em que estado achaste Hamlet?

A RAINHA

Tão revolta está a sua razão, como o mar e o vento, quando entre si lutam, disputando a sua força. Num dos seus arrebatamentos do delírio, ouvindo mexer atrás de uma cortina, exclamou: Um rato, um rato, e desembainhando a espada, cravou-a no peito daquele excelente ancião.

O REI

Oh! triste acontecimento! Igual sorte teria tido se ali me achasse; livre, corremos o maior risco, mesmo tu; todos, enfim. Que razões daremos para explicar este acto sanguinário? Taxar-nos-ão de imprevidentes, a responsabilidade toda cairá sobre nós; dirão que devíamos ter isolado esse insensato, mas era tão grande a nossa afeição, que não compreendemos o que a prudência nos aconselhava. Obrámos como um homem atacado de um mal vergonhoso, que para guardar segredo deixa enraizar-se esse mal e destruir toda a seiva vital. Onde está Hamlet?

A RAINHA

Pondo em lugar seguro o cadáver daquele a quem deu a morte. No meio mesmo da sua demência, conserva-se pura e intacta a sua inteligência, como um metal precioso encravado em rocha bruta. Rebenta-lhe o pranto ao lembrar-se da acção que cometeu.

O REI

Saiamos, Gertrudes. Quando o Sol tocar o cume das montanhas, já Hamlet deverá ter embarcado; logo em seguida partirá para Inglaterra. Quanto a esta odiosa acção precisamos achar na nossa autoridade e no nosso engenho alguma desculpa, que a releve aos olhos do mundo. Olá, Guildenstern? (Entram outra vez Guildenstern e Rosencrantz.)

O REI (continuando)

Meus amigos, procurem pessoas que os ajudem e auxiliem. Hamlet, na sua demência, matou Polónio, cujo cadáver levou para fora da câmara de sua mãe. Tratem de descobrir onde o ocultou, encarrego-os desta missão. Nada digam que possa irritar Hamlet, e levem o corpo do infeliz Polónio para a capela; peço-lhes só que se aviem. (Saem Rosencrantz e Guildenstern.)

O REI (continuando)

Vamos, Gertrudes, convoquemos os nossos mais doutos amigos, dêmos-lhe a conhecer o nosso desígnio e a desgraça acontecida. Precavendo-nos deste modo, talvez a calúnia, que arremessa o seu dardo envenenado de uma extremidade do mundo à outra, e cujos tiros são tão certeiros, como os do mais perfeito canhão, poupe o nosso nome, perdendo-se na imensidade do espaço. Saiamos daqui. Na minha alma não sinto senão perturbação e terror! (Saem.)

CENA II

Outro quarto no castelo. Entra HAMLET.

HAMLET

Duvido que o encontrem.

VOZES DE FORA

Hamlet? senhor Hamlet?

HAMLET

Devagar. Que rumor é este? Quem ousa chamar Hamlet? Ah! ei-los que chegam. (Entram Rosencrantz e Guildenstern.)

ROSENCRANTZ

Senhor? que fez Vossa Alteza do cadáver?

HAMLET

Entreguei-o ao pó de que saiu.

ROSENCRANTZ

Mas em que lugar para o podermos levantar e depositar na capela?

*HAMLET

Não pensem em tal.

ROSENCRANTZ

Que devemos, pois, pensar?

HAMLET

Que pouco me importo com a sua cabeça, mas muito com a minha. Interrogado de mais a mais por uma esponja! Que resposta lhe pode dar o filho de um rei?

ROSENCRANTZ

É a mim que chama esponja?

HAMLET

A quem havia de ser? sim a ti, que bebes os favores, as recompensas e o poder real. Mas, no fim de contas, tais oficiais prestam ao monarca relevantes serviços, são para ele como o fruto que o bugio conserva na boca para depois o engolir; quando necessitar do que tem arrecadado, espreme-os como uma esponja, e ficarão completamente enxutos.

ROSENCRANTZ

Não compreendo, senhor!

HAMLET

Estimo muito. As palavras do traficante só têm por domicílio os ouvidos do tonto.

ROSENCRANTZ

Diga-nos onde está o cadáver, e siga-nos à presença do rei.

HAMLET

Onde está o rei existe um corpo, mas o rei não está nesse corpo. O rei é uma criatura.

ROSENCRANTZ

Uma criatura, senhor?

HAMLET

Uma criatura que nada vale! Conduzam-me à sua presença. Vamos jogar as escondidas. (Saem todos.)

CENA III

Uma sala no castelo. Entra o REI com a sua comitiva.

O REI

Mandei chamar Hamlet e procurar o cadáver. Que perigo deixar livre um tal homem; mas não podemos fazer pesar sobre ele todo o rigor das leis. A multidão insensata estima-o, decidindo-se mais pela vista do que pela razão; nestas circunstâncias o que devemos pensar é o castigo dos culpados, nunca o crime só por si. Para prevenir qualquer descontentamento é forçoso que este precipitado exílio pareça consequência de madura reflexão. Para males desesperados remédios enérgicos, ou nenhuns. (Entra Rosencrantz.) Então que aconteceu?

ROSENCRANTZ

Nada pudemos saber da sua boca relativamente ao cadáver.

O REI

Onde está Hamlet?

ROSENCRANTZ

No quarto vizinho, esperando debaixo de segura guarda as ordens de Vossa Majestade.

O REI

Que venha à nossa presença.

ROSENCRANTZ

Olá, Guildenstern. Conduz Hamlet a este aposento. (Entram Hamlet e Guildenstern.)

O REI

Hamlet, onde está Polónio?

HAMLET

Num banquete.

O REI

Num banquete?! onde?

HAMLET

Onde não come, mas é devorado. Uma multidão de vermes políticos disputa o seu cadáver. O verme é o monarca dos comedores. Engordamos todas as criaturas para nos engordarmos, e engordamo-nos para pasto dos vermes. Um rei gordo e um mendigo magro, são duas iguarias diferentes, contudo hão-de ser servidas à mesma mesa. Esta é a verdade.

O REI

Infelizmente assim é!

HAMLET

É possível que se pesque, com um verme criado em cadáver real, um peixe, e que se coma depois o peixe que engoliu o verme.

O REI

Que significam as tuas palavras?

HAMLET

Nada; apenas as transformações pelas quais pode passar um rei para penetrar nos intestinos do pobre.

O REI

Onde está Polónio?

HAMLET

No Céu. Mande ali o seu mensageiro procurá-lo, e se não o achar, procure-o então o rei no sítio oposto. Em todo o caso se não o acharem até daqui a um mês, o olfacto o denunciará junto à escada da galeria.

O REI (à sua comitiva)

Procurem-no já.

HAMLET

Espera-los-á com certeza. (Sai a comitiva do rei.)

O REI

Hamlet, no interesse da tua saúde, que nos é tão cara, quanto dolorosa a acção que cometeste, é forçoso que partas com a maior brevidade; vai, pois, preparar-te. O navio está pronto e o vento sopra propício; os teus companheiros esperam-te, e tudo está disposto para a tua viagem a Inglaterra.

HAMLET

A Inglaterra?

O REI

Sim, Hamlet.

HAMLET

Está bem.

O REI

O mesmo dirias conhecendo todos os meus projectos.

HAMLET

Descubro um anjo que os vê. Mas partamos para Inglaterra. Adeus, minha querida mãe.

A RAINHA

E teu pai que te estremece?

HAMLET

Não, minha mãe; pai e mãe são marido e mulher, marido e mulher são uma e mesma carne. Assim, pois, adeus, minha mãe. Vamos para Inglaterra. (Sai.)

O REI (a Rosencrantz e Guildenstern)

Sigam-no passo a passo, façam-no embarcar prontamente, não há tempo que perder. Quero que já esta tarde esteja afastado destes sítios. Vão! Tudo quanto respeita a este negócio foi já expedido e selado com as nossas armas. Aviem-se, peço-lho. (Saem. Continuando.) Rei de Inglaterra, sabes até onde chega o meu poder; as feridas infligidas pelo ferro dinamarquês ainda sangram, e teu respeito nos presta livre homenagem. Se, pois, prezas a minha benevolência, não receberás friamente as ordens soberanas contidas nas minhas cartas e que exigem a morte de Hamlet. Obedece-me, rei de Inglaterra, porque Hamlet é febre que requeima o meu sangue, e tu é que me deves curar dela. Não terei um dia de prazer e descanso enquanto não souber a completa execução das minhas ordens, aconteça o que acontecer. (Sai.)

CENA IV

Uma planície na Dinamarca. Chega Fortinbras à frente das suas tropas.

FORTINBRAS (a um dos seus oficiais)

Capitão, saúde da minha parte o rei de Dinamarca e diga-lhe, que, em conformidade com a sua promessa, Fortinbras lhe pede livre passagem pelo seu território; sabe o ponto em que nos devemos encontrar. Se Sua Majestade desejar falar-me, irei prestar-lhe as minhas homenagens. Digalho da minha parte.

O OFICIAL

As suas ordens serão cumpridas, meu senhor!

FORTINBRAS (às suas tropas)

Avancemos em atitude pacífica. (Fortinbras e as suas tropas afastam-se. O oficial fica.)

Chegam HAMLET, ROSENCRANTZ, GUILDENSTERN e mais pessoas.

HAMLET (ao oficial)

Que tropas são essas, meu amigo?

O OFICIAL

É o exército norueguês, senhor!

HAMLET

Qual é o seu destino?

O OFICIAL

Um ponto do território da Polónia.

HAMLET

Quem o comanda?

O OFICIAL

Fortinbras, sobrinho do rei de Noruega.

HAMLET

É contra a Polónia toda, ou só contra um ponto determinado da fronteira que marcham?

O OFICIAL

Se quer que lhe diga a verdade, marchamos contra uma parte da Polónia, cuja conquista será para nós glória, sem proveito algum. Estou certo que a sua renda não vale cinco ducados, e se se vendesse ninguém daria mais.

HAMLET

Se assim é, os polacos não devem oferecer resistência?

O OFICIAL

Pelo contrário, até já o guarneceram.

HAMLET

Duas mil almas e vinte mil ducados chegarão apenas para tão fútil empresa; é um destes abcessos que resultam de uma demasiada e prolongada prosperidade que rebenta internamente, sem que nada indique exteriormente a sua acção mortal. Obrigado, amigo.

O OFICIAL

Deus seja convosco, senhor. (Afasta-se.)

ROSENCRANTZ

O príncipe quer que continuemos o nosso caminho?

HAMLET

Pode ir indo, em breve o alcançarei. (Saem Rosencrantz e Guildenstern.) (Continuando.) Como sempre tudo me acusa e me excita à tardia vingança. O que é o homem, se o seu primeiro bem, o maior negócio da sua vida, consiste em comer e dormir! É um ânimo brutal, nada mais. Seguramente, que aquele que nos dotou com essa vasta compreensão, capaz de abraçar o passado e o futuro, não nos deu essa inteligência, esse admirável raciocínio, para que ficássemos ociosos e sem emprego. Quer seja estulto esquecimento, quer cobarde escrúpulo, medito demasiado na acção que tenho que cometer, pensamento composto de uma quarta parte de siso e três quartas partes de cobardia. Como me espanto a mim mesmo quando repito: Eis o que devo fazer, já que me sobram os motivos, tenha eu ao menos vontade, força e energia para o executar. Incitam-me os mais irrecusáveis exemplos; testemunho este numeroso exército, capitaneado pelo seu jovem príncipe, cujo génio intrépido, soprado por uma ambição divina, afronta, rindo, as eventualidades de um porvir invisível, expondo uma vida mortal e incerta, a tudo quanto podem ousar a fortuna, a morte e os perigos, e tudo por nada, por uma bagatela. A verdadeira grandeza consiste, não só em comover-se com grandes e poderosas razões, mas também em achar numa bagatela razões de conflito, cuja verdadeira causa é o pundonor. Que posição pois a minha, eu que tenho um pai assassinado, uma mãe desonrada; eu que tenho tantos motivos de cólera e que tudo deixo adormecer, enquanto que para minha vergonha vejo vinte mil homens, por uma louca esperança de glória exporem-se à morte, caminharem para o túmulo, como caminhariam para o leito; irem combater para conquistar um quinhão de terra insuficiente para caberem nele, e cujo terreno seria uma sepultura acanhada para os mortos. Ah! quanto se revelam sanguinários os meus pensamentos, ou então nada. (Afasta-se.)

CENA V

Uma sala no castelo de Elsenor. Entram HORÁCIO e a RAINHA.

A RAINHA

Não lhe quero falar.

HORÁCIO

Pede-o encarecidamente. Verdade é que ela perdeu a razão; o seu estado é digno de compaixão.

A RAINHA

O que pretende ela?

HORÁCIO

Fala sempre no pai, pretende terem-lhe dito que neste mundo se cometem bem más acções, suspira, bate no peito, exaspera-se sem motivo. Profere palavras equívocas e sem sentido. Nada diz, contudo quem ao ouvi-la não teria vontade de a compreender. Aqueles que a ouvem procuram adivinhar o sentido, e preenchendo as lacunas, tentam completar o sentido das suas falas. Vendo os movimentos que faz, acompanhando as palavras, todos lhe supõem um pensamento, um sentido, e provavelmente tem-no, mas decerto bem sinistro.

A RAINHA

É conveniente falar-lhe, porque poderia impressionar malévola e perigosamente os espíritos. Que venha. (Horácio sai.) (Continuando.) Ah! minha alma enferma! Será uma condição do crime, que a menor bagatela pareça sempre a precursora de alguma grande calamidade? Tal é a desconfiança em uma consciência culpada, que se trai a si mesma com o receio de se trair.

HORÁCIO entra com OFÉLIA.

OFÉLIA

Onde está a bela rainha de Dinamarca?

A RAINHA

Ofélia?

OFÉLIA

Como hei-de eu conhecer o bem-amado

Por entre a multidão?

Pelo chapéu de conchas enfeitado

E pelo seu bordão.

A RAINHA

Infeliz Ofélia! Que significam esses versos?

OFÉLIA

Pergunta-mo? Escute então...

Levaram-no bem morto ao cemitério!

O que tu foste e és!...

Sob a fronte senil mirto funéreo,

E fria pedra aos pés!

Ai de mim! (Chora.)

A RAINHA

Ofélia, querida Ofélia?

OFÉLIA

Ouça mais, peço-lho...

Branca de neve a frígida mortalha...

Entra o REI.

A RAINHA

Veja, senhor!

OFÉLIA

É como um prado em flor

Baixou à campa a fronte e não a orvalha

Com lágrimas o amor!

O REI

Como está, bela Ofélia?

OFÉLIA

Bem, louvado Deus, dizem que a coruja fora outrora filha de um padeiro. Meu Deus, nós sabemos o que somos, mas nunca o que poderemos vir a ser. Que Deus abençoe a sua mesa.

O REI

Recorda-se do pai?

OFÉLIA

Não falemos mais nisso, mas se me perguntam o que significa, dir-lhesei o que é. Respondam.

São Valentim! dizes-me a minha sina?

A pé já todos são.

Queres que eu seja a tua Valentina?

Sou virgem, sim ou não?

Ergueu-se ele e vestiu-se; mansamente

Do quarto a porta abriu;

E virgem ela entrou... mas tão somente

Mulher quando saiu.

O REI

Encantadora Ofélia!

OFÉLIA

Em verdade vou terminar sem juramento.

Por Jesus! pela santa caridade!

Quem vale à infeliz?!

Ai! são todos assim na mocidade,

A sorte é quem no quis!

Antes da minha queda prometeste

Conduzir-me ao altar:

Por Deus o houvera feito... não quiseste.

Quem te mandou entrar?

O REI

Há quanto tempo é que este infeliz estado se apoderou dela?

OFÉLIA

Tudo vai bem! É preciso ter paciência; não posso reter o pranto, pensando que está debaixo da terra fria e húmida. Meu irmão há-de sabê-lo, obrigada pelo conselho. Chegue a minha carruagem. Boa noite, minhas senhoras, boa noite, belas senhoras, Adeus, boas noites! (Sai correndo.)

O REI (a Horácio)

Siga-a, não a perca de vista, vigie-a cautelosamente, peço-lho eu! (Horácio sai.) (Continuando.) Oh! é aquele o veneno de uma dor profunda, causada pela morte do pai. Ah! Gertrudes, Gertrudes, quando as dores nos assaltam, nunca é isoladamente, é como se viessem em tropel. Primeiro a morte do pai, depois a partida de Hamlet, que tão violentamente decretou o próprio exílio; o povo alvoroçado e descontente, comenta malévola e insidiosamente a morte de Polónio, e nós obrámos pouco assisadamente ordenando o pronto enterro; a infeliz Ofélia, inconsciente do seu estado, está privada da razão, sem a qual somos simples estátuas, criaturas brutas. Para cúmulo de desgraça esta vale todas as outras, seu irmão voltou secretamente de França, embrenha-se no labirinto de notícias, e mantém-se oculto. Não deixará por certo de haver bocas malévolas, que por ocasião da morte de seu pai, envenenem seus ouvidos com insinuações pérfidas, e a calúnia, na carência de outro assunto, não nos poupará com os seus dardos envenenados e mortíferos. Ah! querida Gertrudes; tudo isto, semelhante a um instrumento de morte, vibra-me mais golpes que os necessários para pôr termo à minha vida. (Ouve-se um grande rumor fora da sala.)

A RAINHA

Que rumor é esse?

O REI

Olá, venha alguém. (Entra um oficial do palácio.)

O REI (continuando)

Onde estão os meus suíços? Que defendam as portas. Dize-me já o que há.

O OFICIAL

Fuja, senhor; o oceano, rompendo os diques, não invade com mais violência a campina, do que o jovem Laertes, à frente da rebelião, derruba a resistência dos vossos oficiais. O povo chama-lhe soberano, e como se fosse no começo do mundo, sem tradições, nem passado, nem usos, sobre que tudo se firma, ou as tivesse esquecido, exclama: Elejamos um rei! Laertes será o nosso rei? Todos se descobrem e agitam os gorros, todas as mãos aplaudem, todas as vozes repetem: Laertes será rei. Viva o rei Laertes!

A RAINHA

Com que prazer esta matilha segue uma pista falsa! Enganam-se! Dinamarqueses ingratos!

O REI

Entraram à força. (Redobra o rumor. Entra Laertes seguido por muito povo dinamarquês.)

LAERTES

Onde está esse rei? Senhores, retirem-se para fora.

O POVO

Nada! Queremos todos entrar.

LAERTES

Façam o que lhes peço.

O POVO

É justo! é justo! (Saem.)

LAERTES

Obrigado, senhores; guardem as portas. (Ao rei.) Infame! entrega-me meu pai.

O REI

Sossegue, meu caro Laertes.

LAERTES

Se uma só gota do meu sangue não fervesse, essa gota proclamar-me-ia bastardo, atestaria a desonra de meu pai, e imprimiria na casta fronte de minha adorada mãe um estigma indelével de infâmia.

O REI

O que deu azo, Laertes, a uma rebelião, que assumiu proporções tão colossais? Está tranquila, Gertrudes, por nós nada receies; graças ao carácter sagrado que protege os reis, a traição não lança senão um olhar tímido e incerto para o resultado que anelam os seus desejos, e os efeitos estão longe de corresponder à sua esperança. Diz-me, Laertes, o motivo desta irritação violenta. Nada receies, Gertrudes. Fala, Laertes.

LAERTES

Onde está meu pai?

O REI

Morreu.

A RAINHA

Mas o rei está inocente.

O REI

Deixa-me interrogá-lo à minha vontade.

LAERTES

Como morreu ele? Não admito dúvidas, dispenso juramentos; leve o demónio a fé jurada, sepultem-se no abismo a consciência e a fidelidade. Afrontarei a condenação, declaro-o formalmente; renuncio a tudo neste e no outro mundo, aconteça o que acontecer, contanto que vingue de um modo bem patente a morte de meu pai.

O REI

E quem to impede?

LAERTES

A minha vontade só e não a do universo inteiro; quanto aos meios de que disponho, empregá-los-ei de modo que com recursos limitados tire deles o maior proveito.

O REI

Compreendo, querido Laertes, que queiras saber a verdade toda a respeito da morte de teu estremecido pai. Mas estás tu resolvido a confundir amigos e inimigos, aqueles que perderam e aqueles que ganharam com a sua morte?

LAERTES

Unicamente os inimigos quero punir.

O REI

E queres conhecê-los?

LAERTES

Quanto aos seus amigos, abro-lhes os braços com alvoroço; e semelhante ao pelicano, que rasga o seio para com o sangue alimentar os filhos, estou pronto a por eles dar o meu sangue todo.

O REI

Ainda bem; falas agora como bom filho e homem honrado. Sou inocente na morte de teu pai, e deploro-a amargamente; demonstrá-lo-ei à tua razão com provas tão claras como a luz do dia.

O POVO (de fora)

Deixem-na entrar.

LAERTES

O que é? Que rumor é esse? (Entra Ofélia estranhamente enfeitada com flores na cabeça e palhas entrançadas nos cabelos.) (Continuando.) Meu pobre cérebro! Sequem-se as minhas lágrimas, que, sete vezes corrosivas, queimam meus olhos e afastam deles o sentido da vista! Por Deus! A tua demência será paga com usura, até que o nosso peso faça baixar uma das conchas da balança. Rosa de Primavera, filha querida, carinhosa irmã, boa Ofélia! Oh! Céus! pois será possível que a razão de uma jovem mulher seja tão frágil como a vida do ancião! A natureza tem no seu amor um perfume subtil e raro, cujas emanações se infiltram no objecto amado.

OFÉLIA

Levaram-no em mesquinha padiola

E foram-no enterrar!

Mas chove-lhe na tumba, ai! grata esmola

De lágrimas um mar.

LAERTES

Possuísses tu toda a tua razão, animasses-me tu à vingança, não conseguias criar em mim uma emoção.

OFÉLIA

Forçoso é que eu cante e tu também:

Abaixo! Abaixo!

Lançai-o abaixo!

Devias ouvir cantar às fiadeiras; é a canção do intendente desleal, que raptou a filha de seu amo.

LAERTES

Estes nadas tudo me dizem.

OFÉLIA (a Laertes, dando-lhe uma flor)

Toma, é rosmaninho a flor da lembrança. Lembra-te de mim, peço-to, meu querido; estes são amores-perfeitos, é para que sempre viva no teu coração de irmão.

LAERTES

Há sentido no seu delírio. Acaba de distinguir acertadamente a lembrança e o pensamento.

OFÉLIA (ao rei)

Aqui tendes, senhor, estas simbólicas flores. (À rainha.) Para vós, senhora, é arruda e também para mim; para vós será a erva da ventura, para mim a da dor. Eis um malmequer. Queria dar-vos violetas, mas feneceram todas quando meu pai morreu; dizem que teve o fim do justo.

Porque era o bom Robim minha alegria

LAERTES

A melancolia, a aflição, a cólera, o próprio Inferno, tudo é divino proferido por ela.

OFÉLIA

E nunca mais virá?!

Morreu! morreu! morreu! ai! que agonia!

Não mais! não voltará!

Era a barba tão branca como a neve:

Partiu! foi para os Céus.

Perdida, inútil dor! Breve, até breve,

Tem dó dele, meu Deus!...

Assim como de todas as almas cristãs, assim o peço a Deus, e ele seja convosco. (Sai.)

LAERTES

Vêem? Meu Deus!...

O REI

Deixa-me, Laertes, falar-te no teu infortúnio; é um direito que me pertence e que me não podes negar sem injustiça. Reúne em particular os teus amigos mais assisados; eles nos ouçam, e depois julguem entre nós dois. Se culpado me acharem, directa ou indirectamente, entrego-te, em expiação da minha culpa, reino, coroa e vida, e tudo quanto possa dizer meu; no caso contrário, peço-te só paciência, e de acordo obraremos para te alcançar uma completa satisfação.

LAERTES

Consinto. As circunstâncias da sua morte, o seu funeral obscuro, em que nem troféus, nem espada, nem brasão figuraram, a ausência de toda a cerimónia fúnebre no saimento do seu corpo, são como um aviso do Céu, que me clama pela voz celeste: Indaga como foi.

O REI

Faça-se pois um inquérito, e o cutelo do algoz puna o culpado. Agora peço-te, Laertes, que me sigas. (Saem ambos.)

CENA VI

Um quarto no castelo de Elsenor. Entram HORÁCIO e um CRIADO.

HORÁCIO

Quem é que me pretende falar?

O CRIADO

Marinheiros... e dizem que têm cartas que lhe são dirigidas.

HORÁCIO

Que entrem pois. (O criado sai.) (Só.) Não percebo de que canto do mundo se lembraram de me escrever. Só se for Hamlet.

Entram os MARINHEIROS.

PRIMEIRO MARINHEIRO

Guarde-o Deus, senhor!

HORÁCIO

Igualmente a ti!

PRIMEIRO MARINHEIRO

Fa-lo-á, se for da sua vontade. (Entrega uma carta.) Aqui tem esta carta, é do embaixador que foi mandado a Inglaterra; o senhor, segundo me asseguraram, chama-se Horácio, não é verdade? (Dá-lhe outra carta.)

HORÁCIO (abrindo a carta, lendo)

«Horácio, quando receberes esta carta, proporciona a estes homens o falarem ao rei; têm cartas para lhe entregar. Mal tínhamos dois dias de viagem, um corsário armado até aos dentes deu-nos caça; vendo nós que ele era mais veleiro, fizemos das fraquezas forças, e encetámos combate. Na abordagem, saltei-lhe na tolda, mas naquele momento afastaram-se os dois navios, e eu achei-me só e prisioneiro. Comportaram-se comigo como corsários humanos, mas sabiam o que faziam, porque contam pedir avultado resgate. Faze chegar às mãos do rei a carta que lhe envio, depois vem ter comigo, com a celeridade que porias em evitar a morte. Tenho que confiar aos teus ouvidos palavras que te emudecerão de espanto, e contudo ainda são fracas para a gravidade do assunto que devem exprimir. Estes marinheiros te conduzirão ao sítio onde me acho. Rosencrantz e Guildenstern navegam para a Inglaterra. Tenho muito que te contar a esse respeito. Adeus. Aquele que sabes ser teu do coração. HAMLET.»

Venham, vou facilitar-lhes a entrega das cartas, depois conduzam-me o mais pronto que puderem junto daquele que lhas entregou. (Saem todos.)

CENA VII

Outro quarto no castelo.

Entram o REI e LAERTES.

O REI

Devo estar ilibado aos teus olhos, e deves ver em mim um amigo sincero, agora que já deves ter percebido que o assassino de teu pai também queria a minha morte.

LAERTES

Parece-me evidente! Mas diga-me por que, depois de actos tão graves e criminosos por sua natureza, não perseguiu o autor, como era obrigado a fazê-lo, por sua dignidade, pela sua salvação, pela sua prudência, por tudo enfim?

O REI

Ah! por duas razões, que provavelmente acharás sem valia, mas que a meus olhos têm toda a gravidade. A rainha sua mãe idolatra-o, é a existência dela esse filho; eu por minha parte não sei se deva considerar isto como virtude ou como desgraça; mas ela está tão intimamente ligada à minha alma, qual satélite ao seu planeta, que só por ela e para ela vivo. O outro motivo que me impede de formular contra ele uma acusação pública, é a imensa afeição que o povo lhe consagra; afeição que desculpa todas as suas faltas, e semelhante a essas fontes que transformam em pedra a madeira, converteria as suas cadeias em auréola de glória. Nestas circunstâncias, pois, as minhas frechas demasiado ténues para romperem tão forte vento, em vez de tocarem no alvo, voltando-se, feririam só o que as despediu.

LAERTES

Assim perdi meu nobre pai, e vejo minha estremecida irmã na mais desordenada demência! Mas se é permitido elogiar o que já passou, ela excedia em perfeições as criaturas da sua idade; e não me hei-de eu vingar?

O REI

Essa mágoa não te perturbe o sono; não me julgues de um carácter tão pusilânime e estulto, que um perigo, que tanto me impressionou, seja por mim tratado de bagatela. Brevemente saberás ainda mais. Eu estremecia o teu pai; nós somos deveras amigos, agora deves acreditar que...

Entra um MENSAGEIRO.

O REI

Que queres? que há de novo?

O MENSAGEIRO

Senhor, cartas de Hamlet; esta para Vossa Majestade, estoutra para a rainha.

O REI

De Hamlet!! quem as trouxe?

O MENSAGEIRO

Disseram-me que uns marinheiros, eu não os vi. Estas cartas foram-me entregues por Cláudio, que as recebeu do portador.

O REI (pegando na carta)

Ouvirás, Laertes, o seu conteúdo. (Ao mensageiro.) Retira-te. (O

mensageiro sai.) (Abre a carta e lê): «Alto e poderoso monarca, depuseram-me em território vosso, nu; amanhã solicitarei o comparecer na vossa presença, e então se me for permitido referir-vos-ei o que deu causa ao meu estranho e inesperado regresso. HAMLET.»

Que significa isto? voltariam todos, será engano, será tudo falso?

LAERTES

Conhece a sua letra?

O REI

É a letra de Hamlet. Nu, e num post-scriptum acrescenta, só. Poderás tu dizer-me o que tudo isto significa?

LAERTES

Nada sei responder; mas que venha. Sinto renascer a chama no meu coração abatido, pensando que lhe poderei dizer cara a cara: Foste tu o assassino de meu pai.

O REI

Se assim é, Laertes, não pode nem poderia ser de outra maneira; queres tu seguir um meu conselho?

LAERTES

Sim, contanto que não me aconselhe a paz.

O REI

Pois que faças pazes com o teu coração é que eu quero: se é verdade que regressou, o que indica que Hamlet recua diante da viagem e renuncia a ela, sugerir-lhe-ei uma aventura, cujo plano está maduro no meu espírito, e em que não poderá deixar de sucumbir, e sem que a sua morte possa ser atribuída a pessoa alguma intencionalmente; tanto que sua própria mãe limitar-se-á a lastimar o ocorrido, vendo só uma fatalidade.

LAERTES

Seguirei gostosamente os seus conselhos, e ainda de melhor vontade, se puder combinar de modo que eu seja o agente principal.

O REI

Vejo que os nossos desejos se combinam completamente. Frequentemente, desde as tuas viagens, têm-te gabado por excederes a todos no exercício de uma arte. Todas as tuas qualidades reunidas excitaram em Hamlet menos ciúmes do que esta só; é contudo talvez a menos importante.

LAERTES

E qual é essa qualidade?

O REI

Um laço de fitas no chapéu da juventude, mas um enfeite necessário; porque não lhe fica menos bem um ornamento um pouco frívolo mesmo, do que convém à idade madura as vestes encorpadas e sérias que lhe impõem a saúde e a gravidade. Há dois meses esteve aqui um cavaleiro normando; tenho visto franceses e combatido com eles, e são deveras hábeis, mas a habilidade desse homem parecia ter o poder da magia. Parecia enroscado à sela, e guiava o cavalo tão prodigiosamente, que pareciam um só e o mesmo animal inteligente. Excedeu tudo quanto se pode imaginar na arte de cavalaria e volteio, tão perfeita era a execução.

LAERTES

Um cavaleiro normando, disse?

O REI

Um normando.

LAERTES

Então era Lamond; não pode ser outro.

O REI

Ele mesmo.

LAERTES

Bem o conheço, é a fénix, a pérola da sua pátria.

O REI

Falou de ti vantajosamente, fez os maiores elogios da tua perícia no manejo das armas, sobretudo da espada, declarando ser impossível achar outro igual, e jurando que os jogadores de espada franceses perderam agilidade, posição e golpe de vista depois que contigo se mediram. Estes elogios que ele te dispensava, de tal modo exasperaram o ciúme de Hamlet, que anelava só pelo teu regresso para contigo combater, e transformaram o ciúme em fúria. Tirando pois partido destas circunstâncias...

LAERTES

Que partido poderemos nós tirar?

O REI

Laertes, amavas tu realmente teu pai, ou não era a tua dor senão um simulacro, toda exterior e nada interior?

LAERTES

Porquê esta pergunta?

O REI

Longe de mim o pensar que não amavas teu pai; mas a afeição é um sentimento que se gera em nós, e a experiência de todos os dias nos faz ver que o tempo destempera a sua vivacidade e o seu ardor. Mesmo na chama do amor há às vezes uma mancha que a amortece, e cousa alguma se conserva permanentemente bela, porque o bom, pelo crescimento degenera em pletora, e parece abafado pela demasiada nutrição. O que pretendemos fazer, devemos fazê-lo na ocasião própria, porque a vontade também muda; tantas são as suas mudanças, quantas as línguas, mãos e outros acessórios que se cruzam no seu caminho, e então a execução não é mais que um dever, cujo cumprimento, semelhante aos demasiado frequentes suspiros, nos magoa, aliviando-nos. Mas entremos francamente na questão. Hamlet regressa. Que estás tu disposto a fazer, para te mostrares digno filho de teu pai, não com palavras, mas com obras?

LAERTES

Assassiná-lo-ia mesmo no templo do Senhor.

O REI

Efectivamente o assassino não recai perante o santuário, quando pretende saciar a vingança. Mas, querido Laertes, queres seguir o meu conselho? Encerra-te nos teus aposentos. Hamlet, regressando, saberá da tua estada nestes lugares; farei com que exaltem na sua presença os teus talentos, e que encareçam os elogios mais que os franceses o fizeram; por este meio seguir-se-ão um desafio e apostas sobre a perícia dos contendores. Ele que está desprevenido e é generoso e de nada desconfia, não examinará os floretes; de modo que, com alguma habilidade da tua parte, poderás escolher um florete sem botão, e por meio de uma bem dirigida estocada fazer-lhe pagar a morte de teu pai.

LAERTES

Como o rei disse, Laertes o fará; mesmo envenenarei a ponta do meu florete. Comprei a um empírico uma droga mortal. Por pouco que a ponta de um punhal esteja nela banhada, por leve que seja o ferimento, não há bálsamo precioso, embora composto dos mais enérgicos contravenenos, que possa salvar da morte inevitável e rápida o ferido. Assim, prepararei a ponta do meu florete, para que mesmo leve arranhadura lhe seja fatal.

O REI

Tornaremos ao assunto, e combinaremos o momento e maneira mais fácil e favorável para a sua execução. Se tivesse que falhar este nosso plano, mais valeria nada tentar. Mas é necessário que esta primeira combinação se firme numa segunda, que a substitua no caso da arma se quebrar no primeiro encontro. Um momento... Vejamos. Faremos apostas importantes sobre a respectiva perícia de ambos. Quando, no calor do combate, estiverem afogueados e sedentos, para conseguir o intento não poupes o teu adversário, ataca-o com vigor. Hamlet, sem dúvida, pedirá uma bebida; ser-lhe-á então apresentada uma, de antemão preparada, e uma só gota bastará, se a tua espada te trair, para conseguirmos o fim desejado. Mas silêncio! Que rumor é este? (Entra a rainha.) Que há de novo, querida Gertrudes?

A RAINHA

Acumulam-se as desgraças, e repetem-se com assustadora rapidez. Laertes, tua irmã suicidou-se, afogando-se.

LAERTES

Onde?

A RAINHA

Na margem da vizinha ribeira cresce um salgueiro, cuja prateada folhagem se reflecte nas águas cristalinas. Tua irmã aproximou-se daquele sítio, sempre tecendo grinaldas de ranúnculos, ortigas, malmequeres, e dessas flores a que os nossos pastores dão um nome bem grosseiro, mas que as nossas castas donzelas denominam poeticamente dedo da morte. Quando procurava ornar com as suas inocentes grinaldas as argênteas frondes do salgueiro, oh! desgraça! descuidosa foi envolvida na corrente, cercada dos ornatos que lhe serviam como de coroa virginal. Algum tempo suspensa pelas vestes sobre a corrente, assemelhava-se à sereia, cantando incoerentes trechos, inconsciente do próprio risco, como se estivesse no seu nativo elemento. Mas tudo tem um fim, e em breve, soçobrando pelo peso das encharcadas vestes, cessou de cantar, e tornou-se cadáver levado pela corrente.

LAERTES

Oh! desgraçada! afogada!

A RAINHA

Sim, Laertes!

LAERTES

Sequem-se as minhas lágrimas; já tiveste água em demasia, infeliz Ofélia! Mas porquê? Mais força tem a natureza do que a vontade; todos lhe devemos obediência. Para que uma falsa vergonha? Rolem, pois, pelas faces lágrimas santas, e arrebatem na sua corrente a minha última fraqueza. Adeus, senhor! As minhas palavras de fogo tornar-se-iam embravecido vulcão, se as lágrimas do coração o não apagassem. (Sai.)

O REI

Sigamo-lo, Gertrudes. Quanto me custou a serenar a sua cólera! Receio bem que estas novas desgraças lhe despertem em toda a sua plenitude a sanha da vingança. Sigamo-lo, pois.

Fim do acto quarto.

ACTO QUINTO

CENA I

Um cemitério. Entram DOIS COVEIROS com enxadas.

PRIMEIRO COVEIRO

Dever-se-á enterrar em chão sagrado aquele que voluntariamente procurou a sua salvação no suicídio?

SEGUNDO COVEIRO

Eu cá digo que sim; avia-te em cavar a cova, o magistrado viu e decidiu que aqui fosse sepultada.

PRIMEIRO COVEIRO

Isso não pode ser, a menos que não se afogasse involuntariamente.

SEGUNDO COVEIRO

Já está reconhecido e decidido.

PRIMEIRO COVEIRO

As probabilidades todas são que pereceu se ofendendo. Ninguém é capaz persuadir do contrário. Vê tu como eu o provo. Se me afogar voluntariamente existe um acto; ora, um acto subdivide-se em três ramos: a acção, o cumprimento e a execução; ergo, afogou-se voluntariamente.

SEGUNDO COVEIRO

Assim será, mas escuta-me ao menos.

PRIMEIRO COVEIRO

Ouve-me ainda; a água está aqui, o homem está acolá; muito bem, o homem vai encontrar a água e se afoga; forçosamente morre por seu motu proprio; nota isto bem. Mas se, pelo contrário, é a água que vem encontrar o homem, e ele se afoga, então já não é ele que procura a morte; ergo, aquele que não é culpado na sua morte, não pôs termo voluntariamente à vida.

SEGUNDO COVEIRO

Mas será lei?

PRIMEIRO COVEIRO

É a lei que preside ao inquérito do magistrado.

SEGUNDO COVEIRO

Queres que te diga o que penso? Se a defunta não fosse senhora de qualidade, decerto não a enterravam em chão sagrado.

PRIMEIRO COVEIRO

É bem verdade o que dizes; é triste que as pessoas de qualidade tenham, a mais dos outros cristãos seus iguais, o direito de se afogarem e de se enforcarem. Vamos sempre cavando! Não há nobreza mais antiga que a dos jardineiros, lavradores e coveiros; seguem a profissão de Adão!

SEGUNDO COVEIRO

Pois Adão era nobre?

PRIMEIRO COVEIRO

O primeiro que usou armas!

SEGUNDO COVEIRO

Deixa-te disso, não consta que as tivesse!

PRIMEIRO COVEIRO

Sempre és um pagão! como compreendes tu então a escritura sagrada? A escritura diz que Adão trabalhava o solo; como poderia ele trabalhar sem pá ou enxada? Essas eram as suas armas. Vou fazer-te outra pergunta, se não me responderes com acerto, não és mais que um....

SEGUNDO COVEIRO

Asno! continua.

PRIMEIRO COVEIRO

Quem é que construiu mais solidamente que o pedreiro, carpinteiro e construtor de navios?

SEGUNDO COVEIRO

O construtor do cadafalso, porque sobrevive a inúmeros hóspedes.

PRIMEIRO COVEIRO

Boa resposta, palavra de honra. Cadafalso é bem achado; mas para quem se fez o cadafalso? para os que fazem o mal; ora, tu fizeste mal em dizer que o cadafalso é mais sólido que a igreja, logo merecias o cadafalso. Vamos, procura e responde.

SEGUNDO COVEIRO

Agora eu! Quem é que construiu mais solidamente do que o pedreiro, carpinteiro e construtor de navios?

PRIMEIRO COVEIRO

Diz tu primeiro, eu cá já sei.

SEGUNDO COVEIRO

Também eu.

PRIMEIRO COVEIRO

Vejamos.

SEGUNDO COVEIRO

Nada, não atino.

HAMLET e HORÁCIO aparecem ao fundo.

PRIMEIRO COVEIRO

Basta de tratos ao teu cérebro; escusas de pensar mais, ficas sempre na mesma. Quando alguma vez te fizerem essa pergunta, responde: «É o coveiro; as moradas que constrói duram até ao dia de juízo.» Agora vai a casa de Vaughan e traze-me um copo de licor. (O segundo coveiro sai, cantando.)

Quando eu era mancebo e quando amava

Tudo era para mim rápido gozo,

Somente noite e dia andava ansioso

Por o tempo matar que me matava.

HAMLET

Pois este homem não terá consciência do que está fazendo, cantando assim, quando cava uma sepultura?

HORÁCIO

O hábito tudo pode.

HAMLET

É verdade, a mão pouco afeita ao trabalho tem o tacto mais delicado!

PRIMEIRO COVEIRO (cantando)

Mas a idade chegou, passo furtivo

Nas gastadoras garras me há tomado,

E assim, mau grado meu, me há condenado

A viver entre a morte, morto-vivo. (Desenterra uma caveira.)

HAMLET (apontando para uma caveira)

Houve tempo em que esta cabeça tinha uma língua e cantava; agora este rústico fá-la rolar pelo solo, como se fosse a mandíbula de Caim, o primeiro homicida. O crânio que este imbecil trata com tão pouco respeito, era talvez de algum profundo político, que se julgava até capaz de impor a sua opinião ao próprio Deus, não é verdade?

HORÁCIO

Tudo pode ser, senhor.

HAMLET

Ou talvez de algum cortesão cujo préstimo único fosse repetir: «Deus seja convosco, como está, meu senhor?» É talvez o crânio do sr. fulano, que gabava o cavalo do sr. sicrano, com a ideia que este lho desse, não é verdade, Horácio?

HORÁCIO

Sim, meu senhor!

HAMLET

Deve assim ser! Agora pertence aos vermes; não tem nem pele, nem sangue, nem carne, e este coveiro fende-o com a sua enxada. Eis uma estranha revolução, assim a compreendêssemos bem. Joga-se a bola com esses ossos, como se nada tivessem custado a formar. Sinto estalar os meus só pensando-o.

PRIMEIRO COVEIRO (cantando)

Uma enxada e uma pá logo em seguida, Um lençol que amortalha o corpo todo, Um buraco depois feito no lodo, Eis ao que se reduz a humana vida. (Desenterra outra caveira.)

HAMLET

Eis um outro crânio; quem sabe se não seria de um jurisconsulto. Agora acabaram as trapaças, as distinções subtis, as causas, as autoridades legais e as finuras. Em vida, decerto não consentia sem um processo que este imbecil lhe percutisse o crânio com a enxada. Porque não lhe intenta agora uma acção por vias de facto e sevícias? Quem sabe, talvez fosse um nédio comprador de bens imóveis, com os seus direitos, rendas, privilégios, hipotecas e contratos. Ei-lo agora ele mesmo hipotecado, tem o privilégio comum a todos os mortais, de ver a sua cabeça coberta de pó e terra. Pois quê! todas as aquisições tão bem garantidas, não terão outro complemento senão assegurar-lhe um espaço apenas igual à superfície de dois contratos de venda? Todos os seus títulos mal caberiam neste cofre, e contudo é hoje a sua única propriedade. Ah!

HORÁCIO

Única, senhor!

HAMLET

Horácio, o pergaminho faz-se de peles de carneiro, não é verdade?

HORÁCIO

Também de bezerro.

HAMLET

São pois os carneiros e bezerros que fazem fé em tais títulos. Vou interrogar este rústico. A quem pertence essa cova?

PRIMEIRO COVEIRO

A mim!

(Cantando)

Um buraco depois feito no lodo, Eis ao que se reduz a humana vida.

HAMLET

Efectivamente, creio ser tua, pois que estás dentro dela.

PRIMEIRO COVEIRO

O senhor está fora, logo não é sua; mas apesar dela não me ser destinada, é contudo minha.

HAMLET

Mentes, é para um morto, e não para um vivo.

PRIMEIRO COVEIRO

Eis um desmentido pronto e que não admite réplica.

HAMLET

Para que homem cavas essa cova?

PRIMEIRO COVEIRO

Senhor, não é para um homem!

HAMLET

Para que mulher então?

PRIMEIRO COVEIRO

Nem tão pouco para uma mulher!

HAMLET

Quem será pois depositado nesta cova?

PRIMEIRO COVEIRO

Uma pessoa que foi mulher, hoje é defunta; Deus se compadeça da sua alma.

HAMLET

Que agudeza no seu positivismo! é preciso falar-lhe com toda a clareza, para não ser por ele enredado. Por Deus, Horácio, que noto há três anos que o mundo se torna retrógrado, e o rústico se aproxima tanto do cortesão, que quase se confundem. Há quanto tempo és coveiro?

O COVEIRO

Dei-me a este ofício desde o dia em que o defunto rei Hamlet venceu a Fortinbras.

HAMLET

Quanto tempo haverá?

O COVEIRO

Não o sabe? Pois não há imbecil que lho não diga. Foi no mesmo dia em que nasceu o jovem Hamlet, aquele que enlouqueceu, e foi mandado para Inglaterra.

HAMLET

É isso; e porque o mandaram para Inglaterra?

O COVEIRO

Ora, porquê? porque estava louco; talvez lá recupere a razão, e se não a recuperar, também não se perde muito.

HAMLET

E porquê?

O COVEIRO

Não será visto aqui, e lá todos são tão loucos como ele.

HAMLET

Como enlouqueceu ele?

O COVEIRO

De um modo bem estranho, segundo dizem.

HAMLET

Mas de que modo?

O COVEIRO

É claro, perdendo a razão.

HAMLET

E qual foi o motivo?

O COVEIRO

Um motivo dinamarquês, um motivo deste país em que sou coveiro desde a infância, há trinta anos.

HAMLET

Dize-me, quanto tempo pode um homem estar enterrado, antes de apodrecer?

O COVEIRO

Se não está já podre antes de morrer (porque temos nesta época muito corpo gangrenado, que mal suporta a inumação), pode conservar-se de oito a nove anos; um surrador conserva-se nove anos.

HAMLET

Por que mais tempo que os outros?

O COVEIRO

O exercício da sua profissão curtiu-lhe de tal modo a pele, que fica impermeável por muito tempo, e decerto sabe que a água é o mais activo destruidor dos cadáveres. Vê esta caveira? Ficou vinte e três anos debaixo da terra.

HAMLET

De quem era?

O COVEIRO

De um tipo original; ora, quem lhe parece que seria?

HAMLET

Como posso eu sabê-lo?

O COVEIRO

Leve-o o diabo. Lembro-me ainda do dia em que me vazou sobre a cabeça um frasco de vinho do Reno. Esta caveira, senhor, era de Yorick, o bobo do rei.

HAMLET

Este crânio?

O COVEIRO

Sim, este mesmo.

HAMLET (pegando na caveira)

Dá-mo, deixa-me vê-lo. Pobre Yorick! Conheci-o, Horácio, era uma mina inesgotável de ditos engraçados; tinha uma imaginação viva e fecunda! quantas vezes me levou aos ombros! agora ao pensá-lo anuvia-se-me o coração. Aqui estavam os seus lábios, em que tantos ósculos depus. Onde estão agora os teus sarcasmos, as tuas réplicas, as tuas canções, esses rasgos de alegria, que promoviam a hilaridade de todos os convivas? Quê! pois ninguém já pode rir com as tuas facécias? Descarnadas estão as faces. Vai, entra como agora estás, na alcova de alguma beldade da moda; diz-lhe então que arrebique e enfeites nada lhe valem, porque um dia será igual a ti. Fá-la rir, dizendo-lho. Dize-me tu, Horácio...

HORÁCIO

O quê, meu senhor?

HAMLET

Julgas tu que Alexandre, depois de enterrado, se parecesse com Yorick?

HORÁCIO

Decerto!

HAMLET

E que tivesse tão mau cheiro? Fora! (Deita fora o crânio.)

HORÁCIO

Sem dúvida alguma, senhor.

HAMLET

A que destinos grosseiros é possível baixarmos, Horácio? Quem sabe se, prosseguindo nas suas sucessivas transformações, as cinzas de Alexandre não estão hoje empregadas em tapar um barril?

HORÁCIO

Seria entrar num exame demasiado minucioso.

HAMLET

Não concordo. Podemos seguir seriamente esse exame, e com probabilidades de obter um resultado. Por exemplo, Alexandre está morto, Alexandre está sepultado, Alexandre tornou-se pó; o pó é terra, da terra tira-se argila, e quem impede que esta argila, última metamorfose de Alexandre, seja empregada como batoque num barril de cerveja? O imperial César, morto, tornou-se pó, e serve talvez para vedar uma fenda e interceptar a passagem do ar; e essa argila, que espalhava o terror sobre o universo, vai calafetar um muro para impedir que o vento passe. Mas, silêncio: afastemo-nos, chega o rei; (entram processionalmente padres, levando à mão o caixão de Ofélia; segue-se Laertes e o cortejo fúnebre, mais atrás o rei, a rainha e a corte) e também a rainha! toda a corte! A quem prestarão os últimos deveres? De quem será este funeral incompleto? Tudo denuncia um suicídio. Deve porém ser pessoa de categoria! Ocultemo-nos e observemos, Horácio. (Afastam-se um pouco Hamlet e Horácio.)

LAERTES

Que cerimónias falta cumprir?

HAMLET

Olha, é Laertes, um nobre mancebo.

LAERTES

Há mais alguma cousa que fazer?

PRIMEIRO PADRE

Fizemos já para o seu funeral tudo quanto nos era lícito fazer; a sua morte tinha um carácter suspeito, e se ordens superiores não tivessem imposto silêncio aos cânones da Igreja, teria sido sepultada em chão profano, onde teria ficado até que a acordasse o clarim do juízo final. Em vez de orar por ela, teríamos lançado sobre o seu corpo tições, entulho e pedras; e contudo coroaram-na como virgem, e flores cobriram a sua campa, e o tanger do bronze sagrado acompanhou-a à sua última morada.

LAERTES

Então nada mais se pode fazer?

PRIMEIRO PADRE

Mais nada; profanaríamos o rito sagrado se entoássemos um requiem, ou se implorássemos para ela o repouso destinado às almas que voaram ao Céu santamente.

LAERTES

Seja pois o seu corpo depositado na campa, e possam dele e da sua carne, pura e sem manha, desabrochar violetas! Sou eu que to digo, padre sem alma, minha irmã gozará no Céu a bem-aventurança eterna, enquanto que tu estorcer-te-ás no Inferno nas convulsões do suplício dos condenados.

HAMLET

Quê? É pois a bela Ofélia?

A RAINHA (lançando flores sobre a campa)

Flores para esta jovem flor. Adeus! Esperava ver-te esposa do meu Hamlet; contava, encantadora donzela, enfeitar o teu leito nupcial; nunca pensei espargir flores sobre a tua sepultura.

LAERTES

Oh! que uma tríplice e dez vezes tríplice maldição caia sobre a cabeça do celerado que cometeu tão negra acção, e provocou a perda da sua razão. Esperem que, antes que a terra a cubra, a estreite mais uma vez nos meus braços (salta para dentro da cova). Agora enterrem conjuntamente vivos e mortos, elevem sobre nós uma montanha que exceda em altura o antigo Pélion, ou o azulado Olimpo, cujo cimo vem beijar as nuvens.

HAMLET (adiantando-se)

Quem é que na sua dor se exprime com tanta ênfase; cuja voz detém os astros no seu giro, atónitos de o ouvirem? Sou Hamlet, o dinamarquês!

(Arremessa-se à cova.)

LAERTES (lançando-se a ele)

O Inferno se apodere da tua alma!

HAMLET

É um abominável desejo: larga-me a garganta, retira as mãos, abaixo, aconselho-to eu; não sou nem mau, nem arrebatado, mas é perigoso excitar-me, e obrarás assisadamente pensando assim. Abaixo as mãos!

O REI

Separem-nos.

A RAINHA

Hamlet! Hamlet!

TODOS

Senhores!

HORÁCIO

Contenham-se.

HAMLET

Por um tal motivo sinto-me capaz de combater com ele até ao último alento.

A RAINHA

Meu filho, qual é o motivo?

HAMLET

Amava Ofélia, e as afeições juntas de quarenta mil irmãos não poderiam igualar a minha; (a Laertes) e que serias tu capaz de fazer por ela?

O REI

Deixa-o, Laertes, está louco.

A RAINHA

Pelo amor de Deus, não faça caso das suas palavras.

HAMLET

Vamos, dize-me, que tencionas tu fazer? Prantear, combater, jejuar, rasgar tuas próprias carnes, beber o Issel todo, devorar um crocodilo? Tudo farei. Vieste aqui para te lamentar, para me desafiar, precipitando-te dentro da sua cova; enterra-te vivo com ela, outro tanto farei; e já que falaste em montanhas, acumulem elas sobre nós tanta terra, que o cume da nossa pirâmide tumular toque a zona ardente, e ao pé dela o monte Ossa não pareça mais que uma verruga. Podes encolerizar-te, que não me assustam os teus furores.

A RAINHA

É um acesso de loucura que durará algum tempo; depois, semelhante à meiga pomba acalentando os filhinhos, ficará silencioso e imóvel.

HAMLET (a Laertes)

Dize-me, porque me tratas assim? Sempre fui teu amigo. Mas não importa. Ainda que Hércules se opusesse, se o gato miasse, o cão havia de ladrar. (Afasta-se).

O REI

Siga-o, peço-lhe, meu caro Horácio. (Horácio segue Hamlet.) (A Laertes.) Tem paciência, lembra-te da nossa conversação de ontem. (À rainha) Querida Gertrudes, faça com que velem sobre Hamlet; (à parte) é preciso dar como monumento a este túmulo uma vítima humana. Cedo estarei descansado; até então, paciência!

(Saem todos.)

CENA II

Uma sala no castelo. Entram HAMLET e HORÁCIO.

HAMLET

Basta sobre esse assunto; passemos ao outro, recordas-te bem de todas as circunstâncias?

HORÁCIO

Se me lembro, meu senhor!

HAMLET

Uma espécie de luta apoderara-se do meu coração, vedava-me o sono, sentia-me pior que um facínora acorrentado! Adoptando contudo uma resolução temerária, achei na temeridade a minha força; lembremo-nos sempre, Horácio, que a imprudência é muitas vezes o nosso prestante auxiliar, quando os nossos mais profundos cálculos são impotentes, e isto deve-nos ensinar que há uma Providência que aperfeiçoa e completa os projectos que imperfeitamente esboçamos.

HORÁCIO

Não há cousa mais certa!

HAMLET

Saí pois do meu camarote a bordo, e coberto com as roupas de viagem procurei e encontrei pelo tacto, às escuras, a sua mala; abri-a e revolvi-a toda, em seguida recolhi-me ao meu aposento; então o perigo baniu todo o escrúpulo, abri o despacho rompendo o selo real! Escuta o que li, Horácio. Oh! perfídia real! Apoiando-se em diferentes motivos, a salvação da Dinamarca e da Inglaterra, e o perigo que para ele havia em eu continuar a viver, o rei ordenava expressamente, que depois da leitura dessa carta, sem demora alguma, nem mesmo a necessária para afiar o cutelo, eu fosse decapitado.

HORÁCIO

Será possível?

HAMLET

Aqui tens a carta, lê-a à tua vontade. Mas queres tu saber o que eu então fiz?

HORÁCIO

Diga, senhor; que foi?

HAMLET

Para sair salvo dos laços desta infame traição, apelei para a minha inteligência, e depressa formei o meu plano. Sentei-me, e redigi um despacho com a melhor letra que pude fazer. Antigamente, assim como os nossos homens de Estado, considerava uma vergonha ter boa letra; e se soubesses quanto eu desejei perdê-la! mas nesta ocasião foi-me maravilhosamente útil. Queres saber o que escrevi?

HORÁCIO

Com todo o gosto, senhor.

HAMLET

Dirigindo-se ao monarca inglês como seu fiel tributário, dizia-lhe o rei de Dinamarca, se queria que se conservasse virente a palma da amizade, a paz se coroasse de espigas e se estreitassem os laços de uma união duradoura, lhe ordenava que, finda a leitura da sua carta, sem outro exame, sem lhes dar tempo de se confessarem, fizesse supliciar os portadores do despacho.

HORÁCIO

Mas com que selo fechou esse escrito?

HAMLET

A Providência não me desamparou ainda nessa ocasião; tinha na minha bolsa o selo de meu pai, reprodução exacta do selo do Estado. Dobrei pois o meu despacho na forma do estilo, subscritei-o e selei-o, depois coloquei-o no lugar em que estava o outro: o engano não foi descoberto. No dia seguinte, em vez de combate sabes o que houve.

HORÁCIO

Assim, Rosencrantz e Guildenstern vão receber o seu justo castigo?

HAMLET

Procuraram-no por suas próprias mãos; não me pesa na consciência. Só de si se podem queixar. É sempre uma desgraça para vis subalternos acharem-se envolvidos nas contendas de dois poderosos adversários.

HORÁCIO

E é rei? meu Deus!

HAMLET

O meu dever está agora claramente indicado. Àquele que assassinou meu pai, desonrou minha mãe, que se interpôs entre a escolha da nação e as minhas esperanças, que atentou contra a minha vida traiçoeira e perfidamente, é justiça que o meu braço o puna. E não seria um crime digno da condenação eterna, deixar continuar esta úlcera no seu trabalho corrosivo?

HORÁCIO

Mas dentro em pouco saberá de Inglaterra o desenlace de todo este negócio?

HAMLET

Em breve o saberá, é verdade, mas o tempo que até então decorrer, pertence-me, e o fio da vida do homem corta-se em menos tempo do que o preciso para contar até dois. O que me pesa, meu caro Horácio, é ter desatendido Laertes, porque eu também sinto o que ele deve sentir. Sempre prezei a sua estima; mas a enfática exaltação da sua dor exacerbou-me.

HORÁCIO

Silêncio, príncipe; aproxima-se alguém. Entra OSRICO.

OSRICO

Alegro-me, príncipe, que tenha regressado à Dinamarca.

HAMLET

Obrigado, senhor. (A Horácio.) Conheces tu esse insecto?

HORÁCIO

Não, meu senhor.

HAMLET

És pois um homem moral, é um vício conhecê-lo. É verdade que possui muitas e férteis propriedades, mas é um estúpido animal, que tem mando sobre os outros, seguro de achar a sua manjedoura na mesa real; é um ente desprezível, mas, como disse, é senhor de vastos domínios.

OSRICO

Meu bom senhor, se não incomodo Vossa Alteza, alguma cousa tinha que lhe comunicar da parte de Sua Majestade.

HAMLET

Escutá-lo-ei com prazer. Mas cubra-se já, que o chapéu foi feito para estar na cabeça.

OSRICO

Obrigado, senhor, mas faz muita calma.

HAMLET

Faz muito frio, não acha? O vento está norte.

OSRICO

Efectivamente, faz bastante frio.

HAMLET

Não sei se é efeito de uma predisposição particular, mas acho um calor abrasador.

OSRICO

Não há dúvida, faz tanto calor, que nem posso quase respirar. Mas, meu senhor, Sua Majestade encarregou-me de lhe dizer que fez uma aposta considerável, de que Vossa Alteza é o motivo.

HAMLET (fazendo-lhe sinal de se cobrir)

Faz favor.

OSRICO

Perdão, senhor, mas não me incomoda. Vossa Alteza decerto é sabedor que chegou a esta corte Laertes, um jovem mui destro, dotado das mais raras qualidades, agradável no trato, um perfeito moço. Para falar dele como merece, pode-se dizer que é o espelho e o almanaque do bom tom, porque nele estão reunidas todas as qualidades que deve possuir um perfeito cavalheiro.

HAMLET

Senhor, não encareceu o retrato que dele fez; não é suficiente toda a aritmética da memória para redigir o inventário especificado de todas as suas perfeições, e ainda assim o juízo ficaria aquém da verdade. Falando conscienciosamente, tenho-o na conta de um cavalheiro distinto e de raro merecimento; digo-o sinceramente; para achar outro igual, forçoso é que se olhe no seu espelho: os outros não seriam senão a sua sombra.

OSRICO

O príncipe fala dele com a convicção da estima.

HAMLET

De que se trata, pois? Escusamos embaçar as suas qualidades com o nosso juízo.

OSRICO

Senhor!

HORÁCIO

Não seria possível falar uma língua mais inteligível? É-o por certo, senhor.

HAMLET

Com que fim pronunciou o nome daquele cavalheiro?

OSRICO

De Laertes?

HORÁCIO

Acabou-se-lhe o cabedal; ignora completamente o que há-de responder.

HAMLET

É verdade.

OSRICO

Sei que não ignora...

HAMLET

Queria que assim pensasse a meu respeito; e se assim fosse, fraco elogio para mim seria. Continue agora.

OSRICO

Vossa Alteza não ignora a superioridade de Laertes?

HAMLET

É o que não afirmo, com o receio de me comparar a ele. Para conhecer um homem a fundo era necessário vestir a sua pele.

OSRICO

Quero falar da sua superioridade em manejar as armas; goza da reputação de não ter rival.

HAMLET

Quais são as suas armas de predilecção?

OSRICO

Florete e adaga.

HAMLET

São só duas! prossiga.

OSRICO

O rei apostou seis belos cavalos da melhor raça, contra seis espadas e seis adagas francesas de Laertes, sem contar os cinturões, talabartes e tudo o mais. Três dos acessórios sobretudo são dignos da aposta e de um trabalho maravilhoso, no estilo mesmo das armas.

HAMLET

Que chama acessórios?

HORÁCIO

Bem sabia eu que antes de terminar era infalível algum reparo do príncipe.

OSRICO

Os acessórios, senhor, são os enfeites dos cintos e talabartes em que se suspendem as espadas.

HAMLET

A expressão seria mais exacta se em vez de espada usássemos um canhão; sirvamo-nos pois do termo cinto na generalidade. Prossiga. Seis belos cavalos contra seis espadas e seus pertences, incluindo três cintos, obra-prima da arte francesa; é pois a França contra a Dinamarca. Mas qual é o motivo desta aposta?

OSRICO

O rei apostou que em doze golpes, Laertes não tocaria o príncipe senão três vezes. Laertes apostou que seriam nove em doze. A questão será prontamente decidida se Vossa Alteza se dignar responder.

HAMLET

E se eu responder negativamente?

OSRICO

Quer dizer, se o príncipe convier em combater.

HAMLET

Senhor, vou agora passear nesta sala; costumo todos os dias a esta hora entregar-me a esses exercícios: depois estou às ordens do rei. Tragam floretes com a anuência de Laertes; e se o rei persistir no seu empenho far-lhe-ei ganhar a aposta se puder; no caso contrário restam-me os golpes recebidos e a vergonha.

OSRICO

Deverei dar ao rei a sua resposta?

HAMLET

Disse-lhe o meu pensamento: o seu talento saberá completar a resposta.

OSRICO

Um servo dedicado de vossa alteza. (Sai.)

HAMLET

Muito agradecido, obrigado; (a Horácio) fez bem de o dizer ele mesmo, ninguém se encarregava por certo de tal missão.

HORÁCIO

Finalmente, estamos sós!

HAMLET

Estou certo que ao colo da ama, antes de o sugar, elogiava a alvura do seu seio; semelhante a tantas pessoas da sua têmpera, que são o encanto dos ignorantes, abraçam as modas do dia, e revestem-se de um falso verniz de polidez, e, graças a essa máscara, são escutados pelos sensatos; mas experimentem-nos, são como bolas de sabão, que se desvanecem ao menor sopro.

Entra UM SENHOR.

O SENHOR

Senhor! o rei mandou o jovem Osrico cumprimentar Vossa Alteza da sua parte, o qual lhe disse que o príncipe esperava nesta sala. El-rei envia-me para saber se é intenção de Vossa Alteza combater já, ou adiar o combate.

HAMLET

Tomei já a minha resolução, e concorda com os desejos de Sua Majestade. Se Laertes está pronto, também eu o estou; imediatamente, ou quando quiser, contanto que me sinta sempre tão bem disposto como agora o estou.

O SENHOR

Em breve chegarão o rei e a rainha, e toda a corte.

HAMLET

Bem-vindos sejam!

O SENHOR

É pedido da rainha que receba cordialmente Laertes, antes de dar princípio à contenda.

HAMLET

É justo o seu conselho. (O senhor sai.)

HORÁCIO

Receio que o príncipe perca a aposta.

HAMLET

Não creias tal; depois que ele partiu, tenho-me continuamente exercitado no jogo das armas: com a vantagem concedida, a vitória é certa. Se tu soubesses que dor sinto no coração! Não importa.

HORÁCIO

Contudo, senhor!

HAMLET

É uma loucura, uma leve apreensão, que apenas poderia influenciar uma fraca mulher.

HORÁCIO

Se sente alguma repugnância no seu espírito, obedeça-lhe. Vou preveni-los que não venham, que o príncipe se sente indisposto.

HAMLET

De modo nenhum! Lutarei com os meus pressentimentos; a Providência tem já escrito o meu destino. Se tenho de morrer, nada o evitará, forçoso é obedecer aos seus decretos; que seja hoje ou amanhã, estou pronto; tenho dito. Pois que o homem não é senhor do seu destino, que importa que seja mais tarde ou mais cedo? Será o que Deus quiser.

Entram o REI, a RAINHA, LAERTES, OSRICO, SENHORES e CRIADOS trazendo floretes e luvas e uma mesa com frascos e taças.

HAMLET (a Laertes)

Perdoe-me, se o ofendi, mas perdoe-me como cavalheiro. Os que nos cercam, sabem-no, e creio que também deve saber, que um terrível desvairamento se apossou de mim. Se alguma cousa fiz que pudesse irritar o seu carácter e a sua honra e melindre, proclamo-o bem alto: «Loucura!» Seria ainda Hamlet que ofendeu Laertes? Nunca, nunca poderia ser Hamlet. Então não era ele, e não sendo ele, como ofenderia Hamlet a Laertes? É claro, não era ele; renego todos esses actos. Quem foi então? a loucura. Sendo assim, Hamlet abraça o ofendido; o verdadeiro inimigo do desditoso Hamlet é a sua loucura. Senhor, depois desta confissão, em que perante todos renego toda a má intenção, poderá ainda a sua generosidade condenar-me? É como se inconscientemente despedisse por cima de uma casa um dardo, e fosse ferir um irmão.

LAERTES

Meu coração está satisfeito; era ele que mais me excitava à vingança; mas no campo da honra recuso-me a toda a conciliação, até que árbitros mais idosos e de provada lealdade, me imponham, fundados em precedentes, uma sentença de paz, que ponha o meu nome ao abrigo de toda a suspeita. Até então aceito a amizade que me oferece, e nada farei em seu detrimento.

HAMLET

Aceito francamente essa promessa, e a luta fraternal que vamos encetar. Venham os floretes, comecemos.

LAERTES

Dêem-me um florete!

HAMLET

Vou ser o seu alvo, Laertes; ao pé da minha inexperiência vai sobressair a sua perícia, como um astro brilhante em noite escura.

LAERTES

Zomba de mim?

HAMLET

Juro que não!

O REI

Dá-lhes floretes, Osrico. Primo Hamlet, conheces a aposta?

HAMLET

Perfeitamente, senhor; aposta demasiado vantajosa para o mais fraco.

O REI

Nada receio; já os conheço ambos, e pois que Hamlet é quem mais avantajado está, a sorte está pelo nosso lado.

LAERTES (examinando um florete)

Este não, que é muito pesado; outro!

HAMLET

Este convém-me; os floretes são todos iguais, não é verdade?

OSRICO

Sim, meu bom senhor. (Colocam-se.)

O REI

Ponham os frascos sobre a mesa. Se Hamlet o tocar a primeira e segunda vez, ou se ele aparar o terceiro golpe, que as baterias rompam uma salva geral; beberei à saúde de Hamlet, e lançarei na taça uma pérola mais preciosa que as que usavam nos seus diademas os quatro reis meus predecessores. Venham as taças. Que os timbales anunciem aos clarins, os clarins aos canhões, os canhões aos céus, os céus à terra que o rei brinda por Hamlet. Vamos, senhores, podem começar, e vós juízes, atenção!

HAMLET

Em guarda!

LAERTES

Em guarda, príncipe! (Começam.)

HAMLET

Uma!

LAERTES

Não tocou.

HAMLET

Os juízes que decidam!

OSRICO

Tocou, não há duvida.

LAERTES

Recomecemos.

O REI

Esperem, encham as taças. Hamlet, dou-te esta pérola, brindo por ti. Ofereçam-lhe a taça. (Clarins e salvas.)

HAMLET

Prefiro acabar a contenda, esperem; depois beberei. Vamos, Laertes. Uma! que diz agora?

LAERTES

Fui tocado, confesso-o.

O REI

Hamlet ganha.

A RAINHA

Estás fatigado, falta-te o fôlego. Limpa a fronte com o meu lenço. A rainha bebe à tua vitória, Hamlet.

HAMLET

Minha senhora!

O REI

Não bebas, Gertrudes.

A RAINHA

Bebo, senhor, desculpe-me, desejo-o.

O REI (à parte)

Era a taça envenenada, já não há remédio.

HAMLET

Ainda não bebo, mais tarde, senhora.

A RAINHA

Deixa-me limpar tua fronte, filho!

LAERTES (ao rei, à parte)

Senhor, agora verá.

O REI

Já não creio.

LAERTES (à parte)

E, contudo, diz-me a consciência que não.

HAMLET

Vamos, Laertes, a terceira prova; não me poupe, peço-lho; desenvolva toda a sua perícia, não me trate como criança.

LAERTES

Que diz? em guarda, pois.

OSRICO

Ainda nada.

LAERTES

Agora toquei. (No encarniçado da luta trocam os floretes, e Hamlet é ferido e fere Laertes.)

O REI

Separem-nos, estão desesperados.

HAMLET

Não, recomecemos. (A rainha cai.)

OSRICO

Acudam à rainha; acudam!

HORÁCIO

Feridos ambos! que é isto, senhor?

OSRICO

Como está Laertes?

LAERTES

Colhido no meu próprio laço, morro pela minha traição.

HAMLET

Que tem a rainha?

O REI

Desmaiou à vista do sangue.

A RAINHA

Não, não! a bebida, a bebida! meu Hamlet, a bebida! a bebida! envenenada... (Morre.)

HAMLET

Oh! infâmia! fechem as portas, traição! quero conhecê-la.

LAERTES

Eu to digo, é esta: Hamlet, morres assassinado, nada te pode salvar; meia hora, quando muito, te resta de vida, na tua mão ainda conservas a arma da traição afiada e envenenada; também sou vítima da minha perfídia. Escuta, já sinto a morte, tua mãe envenenada... morro, Hamlet! o rei... só o rei culpado... (Desfalecendo.)

HAMLET

A ponta envenenada! veneno, cumpre o teu dever. (Fere o rei.)

OSRICO e SENHOR

Traição! traição!

O REI

Defendam-me, é apenas leve ferimento.

HAMLET

Bebe os restos desta taça, incestuoso assassino, danado dinamarquês. Procura a pérola, achá-la-ás seguindo minha mãe. (Vaza à força o resto da taça pela boca do rei, que cai e morre.)

LAERTES (num último alento de vida)

É justo o castigo; morre pelo veneno que prepararas. Hamlet, perdoemo-nos mutuamente, e livres de qualquer recíproco remorso subam nossas almas abraçadas ao Céu. (Morre.)

HAMLET

Absolva-te o Céu, como eu te perdoo; sigo-te, Laertes; (a Horácio) morro, Horácio. Rainha desgraçada, adeus. A vós todos, que ao ver esta catástrofe empalideceis, mudos espectadores deste drama, se tivesse tempo ainda, se esta ânsia terrível não mo vedasse, poderia dizer... agora, resignação. Eu morro, Horácio, tu viverás, justifica-me, explica o meu ódio aos que o ignoram.

HORÁCIO

Isso nunca! sou mais romano que dinamarquês, e nesta taça ainda há líquido.

HAMLET

Se és homem, dá-ma; larga-a, por Deus, quero-a. Vive para revelar um tão infame crime. Se alguma vez foste meu amigo, não apresses a tua felicidade celeste e permanece neste mundo odioso, conta a minha história. (Ouve-se uma marcha.) Que rumor marcial é este?

HORÁCIO

É o jovem Fortinbras, que regressa vitorioso da Polónia, e que saúda os embaixadores de Inglaterra com esta salva guerreira. (Ouvem-se tiros.)

HAMLET

Morro, Horácio, triunfa o veneno poderoso; nem já as notícias de Inglaterra me é dado saber, mas predigo que Fortinbras há-de reinar; morrendo, voto por ele; conta-lhe mais ou menos os pormenores da causa da minha morte. O resto... é... silêncio... (Morre.)

HORÁCIO

Que nobre alma! Adeus, meu adorado príncipe, os anjos do Céu o embalem com os seus cânticos divinos. Mas por que é esta marcha? (Ouve-se uma marcha militar.) Entram FORTINBRAS, os EMBAIXADORES e outras pessoas.

FORTINBRAS

Que vejo?

HORÁCIO

Vai sabê-lo. Desgraça ou prodígio, está patente a seus olhos.

FORTINBRAS

Que hecatombe, que horror! Oh! morte, que festim cruento preparavas tu, para precisar de uma só vez tanto sangue real?

PRIMEIRO EMBAIXADOR

Que horrível espectáculo! tarde chegamos de Inglaterra. Já não nos pode ouvir aquele de cujas ordens anunciávamos o cumprimento, trazendo a nova da execução de Rosencrantz e Guildenstern. Quem no-lo agradecerá agora?

HORÁCIO

Ele não, que os seus lábios agora gélidos nunca o ordenaram. Mas, pois que vindes de Inglaterra e de Polónia e presenciais esta crise sangrenta, ordenai que bem alto, à vista de todos, sejam colocados estes corpos, e eu lhes direi a causa destes factos, pois que a ignoram. Então soarão aos seus ouvidos actos carnais, incestos, sangue, expiações, assassínios fortuitos, mortes causadas pela perfídia ou por força maior, e para desfecho traições que feriram os próprios autores; eis a minha narração, e juro que é verdade.

FORTINBRAS

Ouçamo-lo prontamente, convoquemos os nobres: dolorosamente aceito o meu novo encargo, pois tenho sobre este reino direitos incontestáveis, que é meu dever reivindicar.

HORÁCIO

Missão tenho de lhe falar a esse respeito, da parte daquele que vivo teria tido os sufrágios do povo. Seja pois rápida a decisão, antes que os espíritos perplexos sejam dominados por alguma conspiração ou engano que causem novas desgraças.

FORTINBRAS

Sejam por quatro capitães levados os restos mortais de Hamlet: façam-se-lhe todas as honras militares. Se vivesse teria sido um grande rei. Quando passar, salvem os canhões. Levem os cadáveres, esta vista é só própria dos campos de batalha; aqui causa horror! Executem as minhas ordens, rompam as salvas de canhões e as descargas de fuzilaria, e as marchas fúnebres. Morreu o que havia de ser rei de Dinamarca. (Desfilam todos com os cadáveres: ouvem-se salvas de artilharia, descargas de fuzilaria e marchas fúnebres. Cai o pano.)

Fim do quinto e último acto.

Publicidade
Leitura e contexto

Sobre a obra

Hamlet acompanha o príncipe da Dinamarca após a morte de seu pai e o casamento apressado de sua mãe com Cláudio, novo rei do país. Ao receber a revelação do fantasma do antigo monarca, Hamlet mergulha em uma jornada de dúvida, encenação e vingança que expõe a corrupção da corte.

Contexto literário

Representada e publicada no início do século XVII, a tragédia é uma das obras centrais do teatro elisabetano e uma das peças mais influentes da literatura mundial.

Temas centrais

  • vingança
  • corrupção
  • loucura
  • morte
  • dúvida
Transparência editorial

Sobre esta edição

Preparação digital
Edição preparada para leitura digital, com atos, cenas, parágrafos e diálogos estruturados para o leitor do site.
Estado editorial
Edição digital em revisão contínua.
Tradução
D. Luís I
Origem do texto
Obra em domínio público, com texto preparado e revisado pela Literatura Online.

A obra pode conservar escolhas de tradução, grafia e vocabulário históricos. Ajustes posteriores se limitam a correções de transcrição e formatação.

Publicidade
Na Revista

Leituras sobre Hamlet

Procurar análises e notícias na Revista
Continue explorando

Mais livros de Literatura clássica

Ver todo o acervo
Publicidade