Humanitismo: A Filosofia fictícia de Quincas Borba, de Machado de Assis

E se alguém te dissesse que guerra é coisa boa, que morte não existe e que, no fim, tudo na vida se resume a batatas? Parece papo de doido, né? E é mesmo! Essa é a essência do Humanitismo, uma filosofia maluca inventada por Quincas Borba, um dos personagens mais marcantes de Machado de Assis.

Essa doutrina aparece primeiro em Memórias Póstumas de Brás Cubas e depois ganha destaque no romance Quincas Borba. É a prova de como Machado era mestre da ironia. Ele criou um “filósofo excêntrico” que pega as ideias científicas da época e leva tudo ao extremo, até ficar ridículo e assustador ao mesmo tempo.

Neste texto, vou te explicar o que é o Humanitismo, de onde surgiu essa ideia e, principalmente, o que Machado quis dizer ao inventar uma filosofia que defende o egoísmo e a lei do mais forte.

Como nasceu o Humanitismo

O Humanitismo não surgiu do nada. Machado criou essa filosofia para criticar as ideias que estavam na moda no século XIX. Na época, a elite intelectual brasileira acreditava muito no Positivismo (a ideia de que a humanidade só progredia) e no Darwinismo Social (que usava a teoria da evolução para justificar a desigualdade social).

Enquanto todo mundo levava essas teorias a sério, Machado fez o que sabia fazer de melhor: usou a ironia para mostrar o absurdo delas. Ele inventou uma “filosofia” que parece séria por fora, cheia de lógica e rigor científico, mas que por dentro é completamente absurda e cruel.

O Humanitismo funciona como um espelho que mostra o lado desumano dessas ideias “científicas” da época. Na história, Quincas Borba é o “mestre” cheio de certezas malucas, e Rubião é o discípulo confuso que só entende o peso daquela filosofia quando perde tudo. No centro dessa loucura está a frase que virou símbolo: “Ao vencedor, as batatas.”

Os filósofos que inspiraram o Humanitismo

Por trás dessa doutrina maluca, Machado dialogava com grandes filósofos europeus. Ele não estava só fazendo piada: ele conhecia profundamente essas correntes de pensamento.

  • Montaigne aparece com seu ceticismo e a visão do ser humano como um animal cheio de contradições e egoísmo. O Humanitismo expõe a arrogância do homem que se acha civilizado, mas no fundo age por puro interesse próprio.

  • Pascal entra com a ideia da miséria e das contradições da natureza humana. Para Pascal, o homem vive nessa condição miserável, mas pode encontrar consolo e redenção na fé cristã. Machado pega essa visão pessimista do ser humano, mas retira a parte da salvação pela religião. Ele só mostra o problema, sem oferecer nenhuma saída ou esperança.

  • Schopenhauer também influenciou bastante. O conceito de “Humanitas” tem tudo a ver com a “Vontade” de Schopenhauer, aquela força cega, irracional e instintiva que move todos os seres vivos. Para Schopenhauer, essa Vontade é fonte de sofrimento, e o mundo é basicamente dor e insatisfação. Machado pega essa ideia, mas inverte: em vez de ver a Vontade como algo negativo, o Humanitismo a transforma em celebração do egoísmo e da luta pela sobrevivência.

No fim, Machado pegou o ceticismo de Montaigne, a dor existencial de Pascal e a vontade cega de Schopenhauer, misturou tudo e criou uma caricatura das filosofias modernas. O resultado é uma doutrina lógica demais para ser humana.

Humanitas: o conceito que explica tudo

Para entender o Humanitismo, você precisa conhecer o conceito de Humanitas. Segundo Quincas Borba, Humanitas é uma substância única e universal que está presente em tudo: pessoas, animais, pedras, plantas. O universo inteiro se resume ao homem, e o homem é essa substância.

Essa ideia serve para negar a morte. Na visão de Quincas Borba: “Não há morte, há vida.” O que chamamos de morte é apenas a transformação de uma forma em outra, mas a substância (o Humanitas) continua a mesma, eterna.

A explicação que Quincas Borba dá é bem clara:

Nunca viste ferver água? Hás de lembrar-te que as bolhas fazem-se e desfazem-se de contínuo, e tudo fica na mesma água. Os indivíduos são essas bolhas transitórias.”

Ou seja: cada pessoa é como uma bolha que surge e desaparece. Mas a água (o Humanitas) continua para sempre. Parece bonito na teoria, mas na prática é assustador, porque significa que o indivíduo não tem valor nenhum.

Quincas Borba ainda fala que o Humanitas se manifesta em quatro fases: estática, expansiva, dispersiva e contrativa. Essa parte mais “científica” da filosofia é só um disfarce para dar cara de coisa séria. No fundo, tudo serve para justificar que vale tudo em nome do próprio interesse.

“Ao vencedor, as batatas”: a frase mais famosa e cruel

Capa da edição do livro Quincas Borba de Machado de Assis (Editora Martin Claret). Ilustração colorida que mostra o personagem Quincas Borba, de cartola e barba, ajoelhado em uma escadaria de pedra ao lado de seu cão, também chamado Quincas Borba. No canto superior esquerdo, há um título em destaque: "O 'Humanitismo' de Quincas Borba".

Essa é a expressão mais conhecida do Humanitismo e também seu argumento mais brutal. Para provar que a guerra é necessária, Quincas Borba conta uma história sobre duas tribos:

Existe um campo com batatas suficientes para alimentar apenas uma das tribos. Se as duas tribos dividirem as batatas em paz, ninguém vai comer o suficiente e todos vão morrer de fome. Nesse caso, a paz leva à destruição.

Mas se uma tribo destruir a outra, a vencedora come tudo, fica forte e segue em frente. Nesse caso, a guerra garante a sobrevivência.

A conclusão é direta: “Ao vencedor, as batatas.” Quem vence leva tudo e sobrevive. Quem perde desaparece. Uma ideia obviamente terrível.

Essa frase não é apenas um bordão literário. É uma metáfora da lei do mais forte e da desigualdade social. Ela mostra o que Quincas Borba considerava a única verdade: o ser humano só valoriza o que traz vantagem para ele mesmo.

O mais impressionante é que esse lema continua atual. Quantos “vencedores” não levaram as “batatas” na nossa sociedade até hoje? O Humanitismo continua explicando relações de poder, disputas econômicas e desigualdades sociais.

A crítica social por trás da filosofia maluca

Se o Humanitismo parece uma piada, a crítica social que ele carrega é muito séria. Ao dizer que “todas as coisas são boas” e que a dor é “ilusão“, Quincas Borba entrega uma doutrina onde o egoísmo vira virtude.

O Humanitismo funciona como um espelho que Machado usou para mostrar a hipocrisia da sociedade brasileira. A filosofia destrói duas coisas importantes:

  • A ideia de virtude: O Humanitismo elimina a moral cristã — que Quincas Borba chama de “moral de fracos” — e coloca o interesse pessoal como valor máximo. As personagens de Machado, como o Rubião sendo enganado pelo Palha ou a moral distorcida do conto “Pai contra Mãe” (onde o interesse financeiro supera a compaixão por uma escrava grávida), agem movidas por esse egoísmo.
  • A crença no progresso: O delírio de Brás Cubas, obcecado em dar seu nome a um remédio inútil em vez de ajudar os outros, é o Humanitismo puro. Machado mostra que a civilização e o progresso não tornaram o homem melhor — só mais hábil em justificar sua crueldade.

No fundo, o Humanitismo revela uma verdade incômoda: por trás da civilização e das boas maneiras, o ser humano continua sendo movido pela vontade de sobreviver e satisfazer o próprio ego. A única diferença é que agora ele é educado o suficiente para criar uma filosofia inteira que justifica sua crueldade como “lei natural”.

Impressionante como Machado de Assis conseguiu, através de uma filosofia inventada, expor verdades tão incômodas sobre a natureza humana e a sociedade brasileira. O Humanitismo é ficção, mas a crítica que ele carrega é real demais.

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Alexandre Garcia Peres

Criador do site Literatura Online e Redator, Editor e Analista de SEO com três anos de experiência. Formado em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), com foco em literatura e TCC em Paulo Leminski. Fez um ano de especialização em Teoria da Literatura e sua maior área de interesse é a poesia brasileira, principalmente os poetas da segunda e terceira geração do romantismo.

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