{"id":988,"date":"2023-07-02T07:27:35","date_gmt":"2023-07-02T07:27:35","guid":{"rendered":"https:\/\/literaturaonline.com.br\/?p=988"},"modified":"2026-05-23T19:04:44","modified_gmt":"2026-05-23T22:04:44","slug":"pedro-ivo-de-castro-alves","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/pedro-ivo-de-castro-alves\/","title":{"rendered":"Pedro Ivo, de Castro Alves"},"content":{"rendered":"<p>Neste extenso, bonito e impactante poema de Castro Alves, vemos uma homenagem a Pedro Ivo Veloso da Silveira, militar e revolucion\u00e1rio brasileiro que liderou a &#8220;Revolu\u00e7\u00e3o Praieira&#8221;, na prov\u00edncia de Pernambuco, entre 1848 e 1850. Essa revolu\u00e7\u00e3o repudiava a Monarquia e defendia um reformismo pol\u00edtico, a instaura\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica e uma maior independ\u00eancia para as prov\u00edncias.<\/p>\n<p>Leia o poema &#8220;Pedro Ivo&#8221; de Castro Alves na \u00edntegra a seguir e, ao final, confira uma an\u00e1lise completa dele, desde a estrutura at\u00e9 as refer\u00eancias feitas por Castro Alves.<\/p>\n<p>[lwptoc]<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>Pedro Ivo, de Castro Alves<\/h2>\n<blockquote class=\"poem\">\n<p><em>Sonhava nesta gera\u00e7\u00e3o bastarda,<\/em><br \/>\n<em>Glorias e liberdade!&#8230;<\/em><br \/>\n<em>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;<\/em><br \/>\n<em>Era um le\u00e3o sangrento que rugia,<\/em><br \/>\n<em>Da gloria nos clarins se embriagava,<\/em><br \/>\n<em>E vossa gente pallida recuava,<\/em><br \/>\n<em>Quando ele apparecia.<\/em><br \/>\n<em>(Alvares de Azevedo)<\/em><\/p>\n<h3>I<\/h3>\n<p>Rebramam os ventos&#8230; Da negra tormenta<br \/>\nNos montes de nuvens galopa o corsel&#8230;<br \/>\nRelincha&#8230; troveja&#8230; galgando no espa\u00e7o<br \/>\nMil raios desperta co\u2032as patas revel.<\/p>\n<p>\u00c9 noite de horrores&#8230; nas grunas celestes,<br \/>\nNas naves et\u00e9reas o vento gemeu&#8230;<br \/>\nE os astros fugiram, qual bando de gar\u00e7as<br \/>\nDas aguas revoltas do lago do c\u00e9u.<\/p>\n<p>E a terra \u00e9 medonha&#8230; As arvores n\u00faas<br \/>\nEspectros semelham fincados de p\u00e9,<br \/>\nCom os bra\u00e7os de mumias, que os ventos retorcem,<br \/>\nTremendo a esse grito, que estranho lhes \u00e9.<\/p>\n<p>Desperta o infinito&#8230; Co\u2032a boca entreaberta<br \/>\nRespira a borrasca do largo pulm\u00e3o.<br \/>\nAo longe o oceano sacode as espaduas<br \/>\n\u2014 Enc\u00e9lado novo calcado no ch\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 noite de horrores&#8230; Por \u00ednvio caminho<br \/>\nUm vulto sombrio sozinho passou,<br \/>\nCo\u2032a noite no peito, co\u2032a noite no busto<br \/>\nSubiu pelo monte&#8230; nas cimas parou.<\/p>\n<p>Cabelos esparsos ao sopro dos ventos,<br \/>\nOlhar desvairado, sinistro, fatal.<br \/>\nDirieis est\u00e1tua ro\u00e7ando nas nuvens,<br \/>\nP\u2032ra qual a montanha se fez pedestal.<\/p>\n<p>Rugia a procela \u2014 nem ele escutava!&#8230;<br \/>\nMil raios choviam \u2014 nem ele os fitou!<br \/>\nCom a destra apontando bem longe a cidade.<br \/>\nAp\u00f3s largo tempo sombrio falou!<\/p>\n<h3>II<\/h3>\n<p>Dorme, cidade maldita,<br \/>\nTeu sono de escravid\u00e3o!&#8230;<br \/>\nDorme, vestal da pureza,<br \/>\nSobre os coxins do Sult\u00e3o!&#8230;<br \/>\nDorme, filha da Georgia.<br \/>\nProstituta em negra orgia,<br \/>\nS\u00ea hoje Lucrecia Borgia<br \/>\nDa desonra no balc\u00e3o!&#8230;<\/p>\n<p>Dormir?!&#8230; N\u00e3o! Que a infame grita<br \/>\nL\u00e1 se alevanta fatal&#8230;<br \/>\nCorre o champagne e a desonra<br \/>\nNa orgia descomunal&#8230;<br \/>\nNa fronte j\u00e1 tens um la\u00e7o&#8230;<br \/>\nCadeias de ouro no bra\u00e7o,<br \/>\nDe perolas um bara\u00e7o,<br \/>\n\u2014 Adornos da satural!<\/p>\n<p>Louca!&#8230; Nem sabe que as luzes,<br \/>\nQue acendeu p\u2032ra as saturnais,<br \/>\nS\u00e3o do enterro de seus brios<br \/>\nTristes c\u00edrios funerais&#8230;<br \/>\nQue o seu grito de alegria<br \/>\n\u00c9 o estertor da agonia,<br \/>\nA que responde a ironia.<br \/>\nDo riso de Satanaz!&#8230;<\/p>\n<p>Morreste&#8230; E ao teu saimento<br \/>\nDobra a procela no c\u00e9u,<br \/>\nE os astros \u2014 olhar dos mortos \u2014<br \/>\nA m\u00e3o da noite escondeu.<br \/>\nV\u00ea!&#8230; Do raio mostra a lampa<br \/>\nM\u00e3o de espectro, que destampa<br \/>\nCom dedos de ossos a campa,<br \/>\nOnde a gloria adormeceu.<\/p>\n<p>E erguem-se as l\u00e1pidas frias,<br \/>\nSaltam bradando os her\u00f3is:<br \/>\n\u00abQuem ousa da eternidade<br \/>\nRoubar-nos o sono a n\u00f3s?\u00bb<br \/>\nResponde o espectro; \u2014 A desgra\u00e7a!<br \/>\nQue a realeza que passa,<br \/>\nCom o sangue de vossa ra\u00e7a,<br \/>\nCospe lodo sobre v\u00f3s!&#8230;\u00bb<\/p>\n<p>Fugi, fantasmas augustos!<br \/>\nCaveiras que coram mais<br \/>\nDo que essas faces vermelhas<br \/>\nDos infames pari\u00e1s!&#8230;<br \/>\nFugi do solo maldito!&#8230;<br \/>\nEmbu\u00e7ai-vos no infinito!&#8230;<br \/>\nE eu por detr\u00e1s do granito<br \/>\nDos montes ocidentaes.<\/p>\n<p>Eu tamb\u00e9m fujo&#8230; Eu&#8230; fugindo!&#8230;<br \/>\nMentira desses vil\u00f5es!<\/p>\n<p>N\u00e3o foge a nuvem trevosa<br \/>\nQuando em azas de tuf\u00f5es<br \/>\nSobe dos c\u00e9us \u00e0 esplanada,<br \/>\nPara tomar emprestada<br \/>\nDe raios uma outra espada,<br \/>\nA luz das constela\u00e7\u00f5es&#8230;<\/p>\n<p>Como o tigre na caverna<br \/>\nAfia as garras no ch\u00e3o,<br \/>\nComo em Elba amola a espada<br \/>\nNas pedras \u2014 Napole\u00e3o,<br \/>\nTal eu \u2014 vaga encapelada,<br \/>\nRecuo de uma passada,<br \/>\nP\u2032ra levar de derribada<br \/>\nRochedos, reis, multid\u00e3o&#8230;!<\/p>\n<h3>III<\/h3>\n<p>\u00abPernambuco! Um dia eu vi-te<br \/>\nDormido imenso ao luar,<br \/>\nCom os olhos quase cerrados,<br \/>\nCom os l\u00e1bios \u2014 quase a falar&#8230;<br \/>\nDo bra\u00e7o o clarim suspenso,<br \/>\n\u2014 O punho no sabre extenso<br \/>\nDe pedra \u2014 recife imenso.<br \/>\nQue rasga o peito do mar&#8230;<\/p>\n<p>E eu disse: \u2014 Sil\u00eancio, ventos!<br \/>\nCala a boca, furac\u00e3o!<\/p>\n<p>No sonho daquele sono<br \/>\nPerpassa a Revolu\u00e7\u00e3o!<br \/>\nEste olhar que n\u00e3o se move<br \/>\n&#8216;St\u00e1 fito em \u2014 Oitenta e Nove<br \/>\nL\u00ea Homero \u2014 escuta Jove&#8230;<br \/>\nRobespierre \u2014 Dant\u00e3o.<\/p>\n<p>Naquele cr\u00e2nio entra em ondas<br \/>\nO verbo de Mirabeau&#8230;<br \/>\nPernambuco sonha a escada,<br \/>\nQue tambem sonhou Jacob;<br \/>\nScisma a Republica al\u00e7ada,<br \/>\nE pega os copos da espada,<br \/>\nEnquanto em su\u2032alma brada:<br \/>\n\u00abSomos irm\u00e3os, Vergniaud!\u00bb<\/p>\n<p>Ent\u00e3o repeti ao povo:<br \/>\n\u2014 Desperta do sono teu!<br \/>\nSans\u00e3o! derroca as colunas!<br \/>\nQuebra os ferros, Prometeu!<br \/>\nVes\u00favio curvo \u2014 n\u00e3o pares,<br \/>\n\u00cdgnea coma solta aos ares,<br \/>\nEm lavas inunda os mares,<br \/>\nMergulha o gladio no c\u00e9u.<\/p>\n<p>Republica!&#8230; Voo ousado<br \/>\nDo homem feito condor!<\/p>\n<p>Raio de aurora inda oculta.<br \/>\nQue beija a fronte ao Thabor<br \/>\nDeus! Porqu\u2032emquanto que o monte<br \/>\nBebe a luz desse horizonte,<br \/>\nDeixas vagar tanta fronte,<br \/>\nNo vale envolto em negror?!&#8230;<\/p>\n<p>Inda me lembro&#8230; Era h\u00e1 pouco<br \/>\nA luta!&#8230; horror!&#8230; confus\u00e3o!&#8230;<br \/>\nA morte voa rugindo<br \/>\nDa garganta do canh\u00e3o!&#8230;<br \/>\nO bravo a fileira cerra!&#8230;<br \/>\nEm sangue ensopa-se a terra!&#8230;<br \/>\nE o fumo \u2014 o corvo da guerra \u2014<br \/>\nCom as asas cobre a amplid\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Cheguei!&#8230; Como nuvens tontas,<br \/>\nAo bater no monte&#8230; al\u00e9m,<br \/>\nTopam, rasgam-se, recuam&#8230;<br \/>\nTaes a meus p\u00e9s vi tamb\u00e9m<br \/>\nHostes mil na luta ingl\u00f3ria&#8230;<br \/>\nDa pir\u00e2mide da gloria<br \/>\nS\u00e3o degraus&#8230; Marcha a vit\u00f3ria,<br \/>\nPorque este bra\u00e7o a sustem.<\/p>\n<p>Foi uma luta de bravos,<br \/>\nComo a luta do jaguar,<\/p>\n<p>De sangue enrubesce a terra,<br \/>\nDe fogo enrubesce o ar!&#8230;<br \/>\nOh!&#8230; mas quem faz que eu n\u00e3o ven\u00e7a?<br \/>\n\u2014 O acaso&#8230; \u2014 avalanche imensa.<br \/>\nDa m\u00e3o do Eterno suspensa,<br \/>\nQue a ideia esmaga ao tombar!&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o importa! A liberdade<br \/>\n\u00c9 como a hidra, o Antheu.<br \/>\nSe no ch\u00e3o rola sem for\u00e7as,<br \/>\nMais forte do ch\u00e3o se ergueu&#8230;<br \/>\nS\u00e3o os seus ossos sangrentos<br \/>\nGladios terriveis, sedentos&#8230;<br \/>\nE da cinza solta aos ventos<br \/>\nMais um Graccho apareceu!&#8230;<\/p>\n<p>Dorme, cidade maldita,<br \/>\nTeu sono de escravid\u00e3o!<br \/>\nPor\u00e9m no vasto sacr\u00e1rio<br \/>\nDo templo do cora\u00e7\u00e3o,<br \/>\nAteia o lume das lampas,<br \/>\nTalvez que um dia dos pampas<br \/>\nEu, surgindo, quebre as campas,<br \/>\nOnde te colam no ch\u00e3o.<\/p>\n<p>Adeus! Vou por ti, maldito,<br \/>\nVagar nos ermos pa\u00faes.<\/p>\n<p>Tu ficas morta, na sombra,<br \/>\nSem vida, sem f\u00e9, sem luz!&#8230;<br \/>\nMas quando o povo acordado<br \/>\nTe erguer do tredo valado,<br \/>\nVir\u00e1 livre, grande, ousado,<br \/>\nDe pranto banhar-me a cruz!&#8230;<\/p>\n<h3>IV<\/h3>\n<p>Assim falara o vulto errante e negro,<br \/>\nComo a estatua sombria do rev\u00e9s.<br \/>\nUiva o tuf\u00e3o nas dobras de seu manto,<br \/>\nComo um c\u00e3o do senhor ulula aos p\u00e9s&#8230;<\/p>\n<p>Inda um momento esteve solit\u00e1rio<br \/>\nDa tempestade semelhante ao deus,<br \/>\nTrocando frases com os trov\u00f5es no espa\u00e7o,<br \/>\nRaios com os astros nos sombrios c\u00e9us&#8230;<\/p>\n<p>Depois sumiu-se dentre as brumas densas<br \/>\nDa negra noite \u2014 de su\u2032alma irm\u00e3&#8230;<br \/>\nE longe&#8230; longe&#8230; no horizonte imenso<br \/>\nRessonava a cidade cortes\u00e3!&#8230;<\/p>\n<p>Vai!&#8230; Do sert\u00e3o esperam-te as Term\u00f3pilas;<br \/>\nA liberdade inda pulula ali&#8230;<br \/>\nL\u00e1 n\u00e3o v\u00e3o vermes perseguir as \u00e1guias,<br \/>\nN\u00e3o v\u00e3o escravos perseguir a ti!<\/p>\n<p>Vai!&#8230; Que o teu manto de mil balas roto<br \/>\n\u00c9 uma bandeira que n\u00e3o tem rival.<br \/>\n\u2014 Desse suor \u00e9 que Deus faz os astros.<br \/>\nTens uma espada, que n\u00e3o foi punhal.<\/p>\n<p>Vai, tu que vestes do bandido as roupas<br \/>\nMas n\u00e3o te cobres de uma vil libr\u00e9.<br \/>\nSe te renega teu pa\u00eds ingrato,<br \/>\nO mundo, a gloria tua p\u00e1tria \u00e9!&#8230;<\/p>\n<h3>V<\/h3>\n<p>E foi-se&#8230; E inda hoje nas horas errantes,<br \/>\nQue os cedros farfalham, que ruge o tuf\u00e3o,<br \/>\nE os l\u00e1bios da noite murmuram nas selvas<br \/>\nE a on\u00e7a vagueia no vasto sert\u00e3o.<\/p>\n<p>Se passa o tropeiro nas ermas devesas,<br \/>\nCaminha medroso, figura-lhe ouvir<br \/>\nO infrene galope d\u2032Espectro soberbo.<br \/>\nCom um grito de gloria na boca a rugir.<\/p>\n<p>Que importa se o tum\u2032lo ningu\u00e9m lhe conhece?<br \/>\nNem tem epit\u00e1fio, nem leito, nem cruz!&#8230;<br \/>\nSeu t\u00famulo \u00e9 o peito do vasto universo,<br \/>\nDo espa\u00e7o \u2014 por c\u00fapula \u2014 as conchas azuis!&#8230;<\/p>\n<p>Mas contam que um dia rolara o oceano<br \/>\nSeu corpo na praia, que a vida lhe deu&#8230;<br \/>\nEnquanto que a gloria rolava sua alma<br \/>\nNas margens da historia, na areia do c\u00e9u!&#8230;<\/p>\n<\/blockquote>\n<h2>Divis\u00e3o do poema &#8220;Pedro Ivo&#8221; e an\u00e1lise<\/h2>\n<figure id=\"attachment_992\" aria-describedby=\"caption-attachment-992\" style=\"width: 1280px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-992\" src=\"https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/revolucao-praieira-pedro-ivo.jpg\" alt=\"Pintura desconhecida (ao menos para mim, n\u00e3o consegui encontrar o autor) representando os conflitos da Revolu\u00e7\u00e3o Praieira.\" width=\"1280\" height=\"811\" srcset=\"https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/revolucao-praieira-pedro-ivo.jpg 1280w, https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/revolucao-praieira-pedro-ivo-300x190.jpg 300w, https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/revolucao-praieira-pedro-ivo-1024x649.jpg 1024w, https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/revolucao-praieira-pedro-ivo-768x487.jpg 768w, https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/revolucao-praieira-pedro-ivo-982x623.jpg 982w, https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/revolucao-praieira-pedro-ivo-400x253.jpg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 1280px) 100vw, 1280px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-992\" class=\"wp-caption-text\">Pintura desconhecida (ao menos para mim, n\u00e3o consegui encontrar o autor) representando os conflitos da Revolu\u00e7\u00e3o Praieira.<\/figcaption><\/figure>\n<p>O poema foi dividido por Castro Alves em cinco partes:<\/p>\n<p>I &#8211; H\u00e1 a descri\u00e7\u00e3o de um cen\u00e1rio tempestuoso, com Pedro Ivo surgindo como uma figura sombria e amea\u00e7adora. Ele aparece como um her\u00f3i solit\u00e1rio, desafiador, colocando-se \u00e0 frente da tempestade e da escurid\u00e3o. As met\u00e1foras s\u00e3o poderosas e carregadas de emo\u00e7\u00e3o e tens\u00e3o, criando uma paisagem em tumulto.<\/p>\n<p>II &#8211; Faz-se diversas men\u00e7\u00f5es \u00e0 &#8220;Cidade maldita&#8221;, que dorme no &#8220;sonho da escravid\u00e3o&#8221;, sendo uma cr\u00edtica \u00e0 monarquia (e possivelmente \u00e0 sociedade) da \u00e9poca, que ainda permitia a escravid\u00e3o. Ele condena a lux\u00faria e os excessos, sugerindo que as festividades s\u00e3o uma mera prepara\u00e7\u00e3o para o pr\u00f3prio funeral da cidade. Nesse ponto, Pedro Ivo faz um discurso impactante, amea\u00e7ando voltar \u00e0 cidade para &#8220;quebrar as correntes da Escravid\u00e3o&#8221;. Conv\u00e9m lembrar que Castro Alves criticava duramente a escravid\u00e3o (seu mais famoso poema \u00e9 &#8220;<a href=\"https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/o-navio-negreiro-castro-alves\/\">O Navio Negreiro<\/a>&#8220;), sendo conhecido como &#8220;Poeta dos Escravos&#8221;.<\/p>\n<p>III &#8211; Aqui o poema \u00e9 voltado a Pernambuco, prov\u00edncia que \u00e9 descrita como &#8220;adormecida sob a luz do luar&#8221;, mas que est\u00e1 &#8220;sonhando com a revolu\u00e7\u00e3o&#8221;. Diversas figuras hist\u00f3ricas s\u00e3o citadas, como Robespierre, Danton, Mirabeau e Vergniaud, sugerindo que o esp\u00edrito da revolta est\u00e1 prestes a despertar e a revolu\u00e7\u00e3o prestes a eclodir. Uma batalha ent\u00e3o \u00e9 descrita, uma batalha pela liberdade que, embora aparentemente perdida, ter\u00e1 um desfecho diferente.<\/p>\n<p>IV &#8211; Aqui a aten\u00e7\u00e3o do poema sai de Pernambuco e volta-se para a figura do pr\u00f3prio Pedro Ivo, que &#8220;desparece na tempestade&#8221; (uma met\u00e1fora para a morte), deixando para tr\u00e1s apenas o &#8220;eco de sua condena\u00e7\u00e3o&#8221;. Embora descrito como um &#8220;bandido&#8221; (&#8220;tu que vestes do bandido as roupas&#8221;), \u00e9 reconhecido como um revolucion\u00e1rio, que luta pela liberdade e pelo fim da escravid\u00e3o (&#8220;Mas n\u00e3o te cobres de uma vil libr\u00e9&#8221;).<\/p>\n<p>V &#8211; Por fim, na \u00faltima se\u00e7\u00e3o do poema, vemos o her\u00f3i ap\u00f3s a sua morte. Sem t\u00famulo nem monumento, a \u00fanica lembran\u00e7a \u00e9 o eco de seu grito de liberdade, que ressoa no sert\u00e3o e em seus habitantes. Temos aqui um contrastante entre a rapidez da vida e a longevidade das ideias e dos ideais; embora Pedro Ivo tenha partido, seu legado continua vivo e a inspirar outras pessoas.<\/p>\n<h2>Refer\u00eancias e alus\u00f5es do poema<\/h2>\n<p>Veja a seguir algumas das refer\u00eancias e alus\u00f5es feitas no poema\u00a0<em>Pedro Ivo<\/em>, de Castro Alves:<\/p>\n<ul>\n<li><strong>&#8220;Como em Elba amola a espada Nas pedras \u2014 Napole\u00e3o&#8221;:\u00a0<\/strong>Refer\u00eancia a Napole\u00e3o Bonaparte, imperador da Fran\u00e7a que, ap\u00f3s sua derrota na Batalha de Leipzig, foi exilado e preso na ilha de Elba. Ele aparecer &#8220;amolando sua espada&#8221; nesse trecho, como se estivesse se preparando, \u00e9 uma refer\u00eancia ao fato de que, depois de preso, retornou para a Fran\u00e7a, tornando-se novamente imperador.<\/li>\n<li><strong>&#8220;Fugi, fantasmas augustos! Caveiras que coram mais Do que essas faces vermelhas Dos infames pari\u00e1s!&#8230;&#8221;:\u00a0<\/strong>&#8220;pari\u00e1s&#8221; \u00e9 um termo usado para se referir \u00e0s castas inferiores na \u00cdndia. Castro Alves a usou metaforicamente para indicar todos aqueles que foram marginalizados\/rejeitados pela sociedade.<\/li>\n<li><strong>&#8220;Enc\u00e9lado novo calcado no ch\u00e3o&#8221;<\/strong>: Enc\u00e9lado \u00e9 um gigante da mitologia grega que, segundo a cren\u00e7a, foi enterrado sob o Monte Etna por Atena. Uma met\u00e1fora, nesse caso, para ser esmagado por uma for\u00e7a superior.<\/li>\n<li><strong>&#8220;S\u00ea hoje Lucrecia Borgia Da desonra no balc\u00e3o!&#8230;&#8221;:\u00a0<\/strong>Lucrecia ou Lucrezia Borgia foi filha de Rodrigo Borgia, que se tornou Papa Alexandre VI. Foi acusada de v\u00e1rios crimes e pecados, e seu nome \u00e9 citado no poema como uma refer\u00eancia \u00e0 &#8220;cidade maldita&#8221;, corrompida e desonrada como a reputa\u00e7\u00e3o de Lucrecia.<\/li>\n<li><strong>&#8220;Somos irm\u00e3os, Vergniaud!&#8221;:\u00a0<\/strong>Refer\u00eancia a Pierre Vergniaud, um dos l\u00edderes dos Girondinos na Revolu\u00e7\u00e3o Francesa. No poema, Pedro Ivo identifica-se com Vergniaud, j\u00e1 que ambos foram defensores da liberdade e da rep\u00fablica.<\/li>\n<li><strong>&#8220;E da cinza solta aos ventos Mais um Graccho apareceu!..&#8221;:\u00a0<\/strong>Refer\u00eancia aos irm\u00e3os Gracchus, Tiberius e Gaius, ambos pol\u00edticos romanos conhecidos pelas reformas populistas e pela defesa dos mais pobres.<\/li>\n<li><strong>&#8220;Do verbo de Mirabeau&#8230;&#8221;:\u00a0<\/strong>Men\u00e7\u00e3o a Honor\u00e9 Gabriel Riqueti, o &#8220;Conde de Mirabeu&#8221;, figura importante da primeira fase da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa. No poema tamb\u00e9m s\u00e3o citados Maximilien Robespierre e Danton, tamb\u00e9m igualmente importantes na revolu\u00e7\u00e3o.<\/li>\n<li><strong>&#8220;Pernambuco sonha a escada, \/ Que tamb\u00e9m sonhou Jacob&#8221;:\u00a0<\/strong>Jacob ou Jac\u00f3 \u00e9 um personagem b\u00edblico, que, no Livro de G\u00eanesis, sonha um escada que vai da terra ao c\u00e9u, com anjos subindo e descendo, uma conex\u00e3o entre Deus e a humanidade. No poema, Pernambuco est\u00e1 sonhando com uma escada, mas uma que conecta o estado com a liberdade.<\/li>\n<\/ul>\n<h2>Leitura recomendada<\/h2>\n<p>Para conhecer ainda mais sobre Pedro Ivo, recomendamos que leia a publica\u00e7\u00e3o abaixo:<\/p>\n<p>https:\/\/blogs.diariodepernambuco.com.br\/historiape\/index.php\/2016\/10\/02\/pedro-ivo-heroi-e-mito-da-revolucao-praieira\/<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um dos mais belos e fortes poemas de Castro Alves, &#8220;Pedro Ivo&#8221; faz uma homenagem a Pedro Ivo Veloso da Silveira, revolucion\u00e1rio 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