{"id":975,"date":"2023-06-28T05:44:48","date_gmt":"2023-06-28T05:44:48","guid":{"rendered":"https:\/\/literaturaonline.com.br\/?p=975"},"modified":"2023-08-02T22:50:00","modified_gmt":"2023-08-02T22:50:00","slug":"coup-detrier-de-castro-alves","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/coup-detrier-de-castro-alves\/","title":{"rendered":"Coup d&#8217;\u00c9trier, de Castro Alves"},"content":{"rendered":"<p>Em &#8220;Coup d&#8217;\u00c9trier&#8221;, de Castro Alves, vemos a representa\u00e7\u00e3o de um processo que vai desde uma despedida, passando por uma viagem, at\u00e9 uma reconcilia\u00e7\u00e3o com a natureza. O t\u00edtulo do poema, em franc\u00eas, pode ser traduzido para algo como &#8220;ajuda para montar&#8221;, fazendo refer\u00eancia ao ato de montar em um cavalo, simbolizando justamente o in\u00edcio de uma despedida ou de uma viagem transformadora.<\/p>\n<p>Depois da r\u00e1pida partida na primeira estrofe e da despedida na segunda, o eu-l\u00edrico come\u00e7a a lamentar o tempo que perdeu na vida na cidade (&#8220;<em>As horas que eu vaguei louco, perdido, das cidades no t\u00e9trico del\u00edrio<\/em>&#8220;), citando nomes famosos da literatura, como Alfred de Musset (poeta franc\u00eas conhecido pela vida bo\u00eamia) e Thomas Chatterton (poeta ingl\u00eas que, ap\u00f3s n\u00e3o conseguir sucesso liter\u00e1rio, suicidou-se aos 17 anos). Os dois nomes s\u00e3o mencionados como exemplos do que a press\u00e3o da vida na cidade pode causar at\u00e9 mesmos nos mais geniais.<\/p>\n<p>Pelo restante do poema, o eu-l\u00edrico passa a fazer uma esp\u00e9cie de sauda\u00e7\u00e3o \u00e0 natureza, que se abre diante dele, com a vida urbana ficando para tr\u00e1s. L\u00e1 ele encontra renova\u00e7\u00e3o, ref\u00fagio e tratamento para as &#8220;feridas&#8221; que ganhou enquanto estava na cidade. O poema termina justamente com ele pedindo para que, caso ele venha a morrer, seu corpo seja enterrado na selva, com uma cruz de madeira improvisada.<\/p>\n<h2>Coup d&#8217;\u00c9trier, de Castro Alves<\/h2>\n<p>\u00c9 preciso partir! J\u00e1 na cal\u00e7ada<br \/>\nRetinem as esporas do arrieiro;<br \/>\nDa mula a ferradura tacheada<br \/>\nImpaciente chama o cavaleiro;<br \/>\nA espa\u00e7os ensaiando uma toada<br \/>\nSincha as bestas o l\u00e9pido tropeiro&#8230;<br \/>\nSoa a celeuma alegre da partida,<br \/>\nO pajem firma o loro e empunha a brida.<\/p>\n<p>J\u00e1 do largo deserto o sopro quente<br \/>\nMergulha perfumado em meus cabelos.<br \/>\nOu\u00e7o das selvas a can\u00e7\u00e3o cadente<br \/>\nSegredando-me inc\u00f3gnitos anelos.<br \/>\nA voz dos servos pitoresca, ardente<br \/>\nFala de amores f\u00e9rvidos, singelos&#8230;<br \/>\nAdeus! Na folha rota de meu fado<br \/>\nTra\u00e7o ainda um \u2014 adeus \u2014 ao meu passado.<\/p>\n<p>Um adeus! E depois morra no olvido<br \/>\nMinha hist\u00f3ria de luto e de mart\u00edrio,<br \/>\nAs horas que eu vaguei louco, perdido<br \/>\nDas cidades no t\u00e9trico del\u00edrio;<br \/>\nOnde em p\u00e2ntano turvo, apodrecido<br \/>\nD&#8217;\u00edntimas flores n\u00e3o rebenta um l\u00edrio&#8230;<br \/>\nE no drama das noites do prost\u00edbulo<br \/>\n\u00c9 m\u00e1rtir \u2014 alma&#8230; a saturnal \u2014 pat\u00edbulo!<\/p>\n<p>Onde o G\u00eanio sucumbe na asfixia<br \/>\nEm meio \u00e0 turba alvar e zombadora;<br \/>\nOnde Musset suicida-se na orgia,<br \/>\nE Chatterton na fome aterradora!<br \/>\nOnde, \u00e0 luz de uma l\u00e2mpada sombrio,<br \/>\nO Anjo-da-Guarda ajoelhado chora,<br \/>\nEnquanto a cortes\u00e3 lhe apanha os prantos<br \/>\nP&#8217;ra realce dos l\u00fabricos encantos!&#8230;<\/p>\n<p>Abre-me o seio, \u00f3 Madre Natureza!<br \/>\nRega\u00e7os da floresta americana,<br \/>\nAcalenta-me a m\u00e1dida tristeza<br \/>\nQue da vaga das turbas espadana.<br \/>\nTroca dest&#8217;alma a fria morbideza<br \/>\nNessa ub\u00e9rrima seiva soberana!&#8230;<br \/>\nO Pr\u00f3digo&#8230; do lar procura o trilho&#8230;<br \/>\nNatureza! Eu voltei&#8230; e eu sou teu filho!<\/p>\n<p>Novo alento selvagem, grandioso<br \/>\nTrema nas cordas desta frouxa lira.<br \/>\nD\u00e1-me um plectro bizarro e majestoso,<br \/>\nAlto como os ramais da sicupira.<br \/>\nCante meu g\u00eanio o d\u00e9dalo assombroso<br \/>\nDa floresta que ruge e que suspira,<br \/>\nOnde a v\u00edbora lambe a parasita&#8230;<br \/>\nE a on\u00e7a fula o dorso pardo agita!<\/p>\n<p>Onde em c\u00e1lix de flor imagin\u00e1ria<br \/>\nA cobra de coral rola no orvalho,<br \/>\nE o vento leva a um tempo o canto v\u00e1rio<br \/>\nD&#8217;araponga e da serpe de chocalho&#8230;<br \/>\nOnde a so&#8217;id\u00e3o \u00e9 o magno estradiv\u00e1rio&#8230;<br \/>\nOnde h\u00e1 m\u00fasc&#8217;los em f\u00faria em cada galho,<br \/>\nE as ra\u00edzes se torcem quais serpentes&#8230;<br \/>\nE os monstros jazem no erva\u00e7al dormentes.<br \/>\nE se eu devo expirar&#8230; se a fibra morta<\/p>\n<p>Reviver j\u00e1 n\u00e3o pode a tanto alento&#8230;<br \/>\nCompanheiro! Uma cruz na selva corta<br \/>\nE planta-a no meu tosco monumento!&#8230;<br \/>\nDa chapada nos ermos&#8230; (o qu&#8217;importa?)<br \/>\nMelhor o inverno chora&#8230; e geme o vento.<br \/>\nE Deus para o poeta o c\u00e9u desata<br \/>\nSemeado de l\u00e1grimas de prata!&#8230;<\/p>\n<p>Curralinho, 1 de junho de 1870.<\/p>\n<p>____________________________<\/p>\n<p>Voc\u00ea tamb\u00e9m pode gostar: em <a href=\"https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/noite-de-maio-de-castro-alves\/\"><strong>&#8220;Noite de Maio&#8221;<\/strong><\/a>, tamb\u00e9m de Castro Alves, h\u00e1 uma bel\u00edssima ode\/homenagem dedicada \u00e0 beleza natural das noites do m\u00eas de maio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em &#8220;Coup d&#8217;\u00c9trier&#8221;, de Castro Alves, vemos um cavaleiro abandonando a vida na opressora cidade e retomando seu contato com a 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