{"id":647,"date":"2023-05-10T02:51:16","date_gmt":"2023-05-10T05:51:16","guid":{"rendered":"https:\/\/poesiapublica.com.br\/?p=647"},"modified":"2026-05-23T19:04:44","modified_gmt":"2026-05-23T22:04:44","slug":"tabacaria-de-alvaro-de-campos-fernando-pessoa-explicado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/tabacaria-de-alvaro-de-campos-fernando-pessoa-explicado\/","title":{"rendered":"Tabacaria, de \u00c1lvaro de Campos (Fernando Pessoa) &#8211; Poema Explicado"},"content":{"rendered":"<p>Leia abaixo o poema Tabacaria, de Fernando Pessoa (assinado pelo heter\u00f4nimo \u00c1lvaro de Campos) e, em seguida, uma explica\u00e7\u00e3o mais detalhada dele.<\/p>\n<h2>Tabacaria, de \u00c1lvaro de Campos<\/h2>\n<blockquote class=\"poem\">\n<p>N\u00e3o sou nada.<br \/>\nNunca serei nada.<br \/>\nN\u00e3o posso querer ser nada.<br \/>\n\u00c0 parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.<\/p>\n<p>Janelas do meu quarto,<br \/>\nDo meu quarto de um dos milh\u00f5es do mundo que ningu\u00e9m sabe quem \u00e9<br \/>\n(E se soubessem quem \u00e9, o que saberiam?),<br \/>\nDais para o mist\u00e9rio de uma rua cruzada constantemente por gente,<br \/>\nPara uma rua inacess\u00edvel a todos os pensamentos,<br \/>\nReal, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,<br \/>\nCom o mist\u00e9rio das coisas por baixo das pedras e dos seres,<br \/>\nCom a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,<br \/>\nCom o Destino a conduzir a carro\u00e7a de tudo pela estrada de nada.<\/p>\n<p>Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.<br \/>\nEstou hoje l\u00facido, como se estivesse para morrer,<br \/>\nE n\u00e3o tivesse mais irmandade com as coisas<br \/>\nSen\u00e3o uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua<br \/>\nA fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada<br \/>\nDe dentro da minha cabe\u00e7a,<br \/>\nE uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.<\/p>\n<p>Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.<br \/>\nEstou hoje dividido entre a lealdade que devo<br \/>\n\u00c0 [simple_tooltip style=&#8217;background:#FFF5BA;&#8217; content= content=&#8217;Toda a reflex\u00e3o do eu-l\u00edrico acontece com ele vendo a tabacaria em frente da janela de sua casa&#8217;]Tabacaria[\/simple_tooltip] do outro lado da rua, como coisa real por fora,<br \/>\nE \u00e0 sensa\u00e7\u00e3o de que tudo \u00e9 sonho, como coisa real por dentro.<\/p>\n<p>Falhei em tudo.<br \/>\nComo n\u00e3o fiz prop\u00f3sito nenhum, talvez tudo fosse nada.<br \/>\nA aprendizagem que me deram,<br \/>\nDesci dela pela janela das traseiras da casa.<br \/>\nFui at\u00e9 ao campo com grandes prop\u00f3sitos.<br \/>\nMas l\u00e1 encontrei s\u00f3 ervas e \u00e1rvores,<br \/>\nE quando havia gente era igual \u00e0 outra.<br \/>\nSaio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?<\/p>\n<p>Que sei eu do que serei, eu que n\u00e3o sei o que sou?<br \/>\nSer o que penso? Mas penso tanta coisa!<br \/>\nE h\u00e1 tantos que pensam ser a mesma coisa que n\u00e3o pode haver tantos!<br \/>\nG\u00eanio? Neste momento<br \/>\nCem mil c\u00e9rebros se concebem em sonho g\u00eanios como eu,<br \/>\nE a hist\u00f3ria n\u00e3o marcar\u00e1, quem sabe?, nem um,<br \/>\nNem haver\u00e1 sen\u00e3o estrume de tantas conquistas futuras.<br \/>\nN\u00e3o, n\u00e3o creio em mim.<br \/>\nEm todos os manic\u00f4mios h\u00e1 doidos malucos com tantas certezas!<br \/>\nEu, que n\u00e3o tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?<br \/>\nN\u00e3o, nem em mim&#8230;<br \/>\nEm quantas [simple_tooltip style=&#8217;background:#FFF5BA;&#8217; content= content=&#8217;Mansarda: uma esp\u00e9cie de c\u00f4modo improvisado em determinados telhados, aproveitando o espa\u00e7o; ou um sin\u00f4nimo de casa miser\u00e1vel&#8217;]mansardas e n\u00e3o-mansardas[\/simple_tooltip] do mundo<br \/>\nN\u00e3o est\u00e3o nesta hora g\u00eanios-para-si-mesmos sonhando?<br \/>\nQuantas aspira\u00e7\u00f5es altas e nobres e l\u00facidas &#8211;<br \/>\nSim, verdadeiramente altas e nobres e l\u00facidas -,<br \/>\nE quem sabe se realiz\u00e1veis,<br \/>\nNunca ver\u00e3o a luz do sol real nem achar\u00e3o ouvidos de gente?<br \/>\nO mundo \u00e9 para quem nasce para o conquistar<br \/>\nE n\u00e3o para quem sonha que pode conquist\u00e1-lo, ainda que tenha raz\u00e3o.<br \/>\nTenho sonhado mais que o que [simple_tooltip style=&#8217;background:#FFF5BA;&#8217; content= content=&#8217;Napole\u00e3o Bonarparte, estadista, l\u00edder e Imperador franc\u00eas, tendo alcan\u00e7ado diversas conquistas pela Europa durante as Guerras Revolucion\u00e1rias Francesas&#8217;]Napole\u00e3o[\/simple_tooltip] fez.<br \/>\nTenho apertado ao peito hipot\u00e9tico mais humanidades do que Cristo,<br \/>\nTenho feito filosofias em segredo que nenhum [simple_tooltip style=&#8217;background:#FFF5BA;&#8217; content= content=&#8217;Immanuel Kant, fil\u00f3sofo alem\u00e3o do s\u00e9culo XVIII&#8217;]Kant[\/simple_tooltip] escreveu.<br \/>\nMas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,<br \/>\nAinda que n\u00e3o more nela;<br \/>\nSerei sempre\u00a0<i>o que n\u00e3o nasceu para isso;<\/i><br \/>\nSerei sempre s\u00f3\u00a0<i>o que tinha qualidades;<\/i><br \/>\nSerei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao p\u00e9 de uma parede sem porta,<br \/>\nE cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,<br \/>\nE ouviu a voz de Deus num po\u00e7o tapado.<br \/>\nCrer em mim? N\u00e3o, nem em nada.<br \/>\nDerrame-me a Natureza sobre a cabe\u00e7a ardente<br \/>\nO seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,<br \/>\nE o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou n\u00e3o venha.<br \/>\nEscravos card\u00edacos das estrelas,<br \/>\nConquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;<br \/>\nMas acordamos e ele \u00e9 opaco,<br \/>\nLevantamo-nos e ele \u00e9 alheio,<br \/>\nSa\u00edmos de casa e ele \u00e9 a terra inteira,<br \/>\nMais o sistema solar e a Via L\u00e1ctea e o Indefinido.<\/p>\n<p>(Come chocolates, pequena;<br \/>\nCome chocolates!<br \/>\nOlha que n\u00e3o h\u00e1 mais metaf\u00edsica no mundo sen\u00e3o chocolates.<br \/>\nOlha que as religi\u00f5es todas n\u00e3o ensinam mais que a confeitaria.<br \/>\nCome, pequena suja, come!<br \/>\nPudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!<br \/>\nMas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que \u00e9 de folha de estanho,<br \/>\nDeito tudo para o ch\u00e3o, como tenho deitado a vida.)<\/p>\n<p>Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei<br \/>\nA caligrafia r\u00e1pida destes versos,<br \/>\nP\u00f3rtico partido para o Imposs\u00edvel.<br \/>\nMas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem l\u00e1grimas,<br \/>\nNobre ao menos no gesto largo com que atiro<br \/>\nA roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,<br \/>\nE fico em casa sem camisa.<\/p>\n<p>(Tu que consolas, que n\u00e3o existes e por isso consolas,<br \/>\nOu deusa grega, concebida como est\u00e1tua que fosse viva,<br \/>\nOu patr\u00edcia romana, impossivelmente nobre e nefasta,<br \/>\nOu princesa de trovadores, gentil\u00edssima e colorida,<br \/>\nOu marquesa do s\u00e9culo dezoito, decotada e long\u00ednqua,<br \/>\nOu [simple_tooltip style=&#8217;background:#FFF5BA;&#8217; content= content=&#8217;Meretriz, cortes\u00e3&#8217;]cocote[\/simple_tooltip] c\u00e9lebre do tempo dos nossos pais,<br \/>\nOu n\u00e3o sei qu\u00ea moderno &#8211; n\u00e3o concebo bem o qu\u00ea &#8211;<br \/>\nTudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!<br \/>\nMeu cora\u00e7\u00e3o \u00e9 um balde despejado.<br \/>\nComo os que invocam esp\u00edritos invocam esp\u00edritos invoco<br \/>\nA mim mesmo e n\u00e3o encontro nada.<br \/>\nChego \u00e0 janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.<br \/>\nVejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,<br \/>\nVejo os entes vivos vestidos que se cruzam,<br \/>\nVejo os c\u00e3es que tamb\u00e9m existem,<br \/>\nE tudo isto me pesa como uma condena\u00e7\u00e3o ao degredo,<br \/>\nE tudo isto \u00e9 estrangeiro, como tudo.)<\/p>\n<p>Vivi, estudei, amei e at\u00e9 cri,<br \/>\nE hoje n\u00e3o h\u00e1 mendigo que eu n\u00e3o inveje s\u00f3 por n\u00e3o ser eu.<br \/>\nOlho a cada um os [simple_tooltip style=&#8217;background:#FFF5BA;&#8217; content= content=&#8217;Roupas sujas, rasgadas, desgastadas&#8217;]andrajos [\/simple_tooltip] e as chagas e a mentira,<br \/>\nE penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses<br \/>\n(Porque \u00e9 poss\u00edvel fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);<br \/>\nTalvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo<br \/>\nE que \u00e9 rabo para aqu\u00e9m do lagarto remexidamente<\/p>\n<p>Fiz de mim o que n\u00e3o soube<br \/>\nE o que podia fazer de mim n\u00e3o o fiz.<br \/>\nO domin\u00f3 que vesti era errado.<br \/>\nConheceram-me logo por quem n\u00e3o era e n\u00e3o desmenti, e perdi-me.<br \/>\nQuando quis tirar a m\u00e1scara,<br \/>\nEstava pegada \u00e0 cara.<br \/>\nQuando a tirei e me vi ao espelho,<br \/>\nJ\u00e1 tinha envelhecido.<br \/>\nEstava b\u00eabado, j\u00e1 n\u00e3o sabia vestir o domin\u00f3 que n\u00e3o tinha tirado.<br \/>\nDeitei fora a m\u00e1scara e dormi no vesti\u00e1rio<br \/>\nComo um c\u00e3o tolerado pela ger\u00eancia<br \/>\nPor ser inofensivo<br \/>\nE vou escrever esta hist\u00f3ria para provar que sou sublime.<\/p>\n<p>Ess\u00eancia musical dos meus versos in\u00fateis,<br \/>\nQuem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,<br \/>\nE n\u00e3o ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,<br \/>\nCalcando aos p\u00e9s a consci\u00eancia de estar existindo,<br \/>\nComo um tapete em que um b\u00eabado trope\u00e7a<br \/>\nOu um capacho que os ciganos roubaram e n\u00e3o valia nada.<\/p>\n<p>Mas o Dono da Tabacaria chegou \u00e0 porta e ficou \u00e0 porta.<br \/>\nOlho-o com o desconforto da cabe\u00e7a mal voltada<br \/>\nE com o desconforto da alma mal-entendendo.<br \/>\nEle morrer\u00e1 e eu morrerei.<br \/>\nEle deixar\u00e1 a tabuleta, eu deixarei os versos.<br \/>\nA certa altura morrer\u00e1 a tabuleta tamb\u00e9m, os versos tamb\u00e9m.<br \/>\nDepois de certa altura morrer\u00e1 a rua onde esteve a tabuleta,<br \/>\nE a l\u00edngua em que foram escritos os versos.<br \/>\nMorrer\u00e1 depois o planeta girante em que tudo isto se deu.<br \/>\nEm outros sat\u00e9lites de outros sistemas qualquer coisa como gente<br \/>\nContinuar\u00e1 fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,<\/p>\n<p>Sempre uma coisa defronte da outra,<br \/>\nSempre uma coisa t\u00e3o in\u00fatil como a outra,<br \/>\nSempre o imposs\u00edvel t\u00e3o est\u00fapido como o real,<br \/>\nSempre o mist\u00e9rio do fundo t\u00e3o certo como o sono de mist\u00e9rio da superf\u00edcie,<br \/>\nSempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.<\/p>\n<p>Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)<br \/>\nE a realidade plaus\u00edvel cai de repente em cima de mim.<br \/>\nSemiergo-me en\u00e9rgico, convencido, humano,<br \/>\nE vou tencionar escrever estes versos em que digo o contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>Acendo um cigarro ao pensar em escrev\u00ea-los<br \/>\nE saboreio no cigarro a liberta\u00e7\u00e3o de todos os pensamentos.<br \/>\nSigo o fumo como uma rota pr\u00f3pria,<br \/>\nE gozo, num momento sensitivo e competente,<br \/>\nA liberta\u00e7\u00e3o de todas as especula\u00e7\u00f5es<br \/>\nE a consci\u00eancia de que a metaf\u00edsica \u00e9 uma consequ\u00eancia de estar mal disposto.<\/p>\n<p>Depois deito-me para tr\u00e1s na cadeira<br \/>\nE continuo fumando.<br \/>\nEnquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.<\/p>\n<p>(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira<br \/>\nTalvez fosse feliz.)<br \/>\nVisto isto, levanto-me da cadeira. Vou \u00e0 janela.<br \/>\nO homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das cal\u00e7as?).<br \/>\nAh, conhe\u00e7o-o; \u00e9 o Esteves sem metaf\u00edsica.<br \/>\n(O Dono da Tabacaria chegou \u00e0 porta.)<br \/>\nComo por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.<br \/>\nAcenou-me adeus, gritei-lhe\u00a0<i>Adeus \u00f3 Esteves!<\/i>, e o universo<br \/>\nReconstruiu-se-me sem ideal nem esperan\u00e7a, e o Dono da Tabacaria sorriu.<\/p>\n<\/blockquote>\n<h2>Ou\u00e7a o poema<\/h2>\n<p>Veja no v\u00eddeo abaixo o diretor de teatro, ator e apresentador brasileiro Ant\u00f4nio Abujamra recitando o poema Tabacaria em seu antigo programa na TV Cultura, o &#8220;Provoca\u00e7\u00f5es&#8221;.<\/p>\n<p>https:\/\/youtu.be\/a1IBpsuCI14<\/p>\n<h2>Explica\u00e7\u00e3o do poema Tabacaria, de \u00c1lvaro de Campos (Fernando Pessoa)<\/h2>\n<figure id=\"attachment_686\" aria-describedby=\"caption-attachment-686\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-686\" src=\"https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/Tabacaria-de-Alvaro-de-Campos-Fernando-Pessoa-Poema-Explicado-300x300.jpeg\" alt=\"Um homem fumando na janela em frente a uma tabacaria. Imagem gerada pelo Bing Image Creator.\" width=\"400\" height=\"400\" srcset=\"https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/Tabacaria-de-Alvaro-de-Campos-Fernando-Pessoa-Poema-Explicado-300x300.jpeg 300w, https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/Tabacaria-de-Alvaro-de-Campos-Fernando-Pessoa-Poema-Explicado-150x150.jpeg 150w, https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/Tabacaria-de-Alvaro-de-Campos-Fernando-Pessoa-Poema-Explicado-768x768.jpeg 768w, https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/Tabacaria-de-Alvaro-de-Campos-Fernando-Pessoa-Poema-Explicado-982x982.jpeg 982w, https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/Tabacaria-de-Alvaro-de-Campos-Fernando-Pessoa-Poema-Explicado-400x400.jpeg 400w, https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/Tabacaria-de-Alvaro-de-Campos-Fernando-Pessoa-Poema-Explicado.jpeg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-686\" class=\"wp-caption-text\">Um homem fumando na janela em frente a uma tabacaria, como no poema Tabacaria, de Fernando Pessoa. Imagem gerada pelo Bing Image Creator.<\/figcaption><\/figure>\n<p>No poema Tabacaria, de Fernando Pessoa, o eu-l\u00edrico reflete e divaga em pensamentos observando, da janela, uma rua movimentada e uma Tabacaria em frente \u00e0 sua casa, que s\u00e3o, ao mesmo tempo, s\u00edmbolos do mundo exterior e do mist\u00e9rio da exist\u00eancia ainda a ser desvendado. Com uma din\u00e2mica acelerada, pensamentos que se atropelam e versos livres, o eu-l\u00edrico reflete sobre a condi\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia humana em um mundo r\u00e1pido, desconhecido e incerto.<\/p>\n<p>Apesar de dizer ter &#8220;todos os sonhos dentro de si&#8221; e &#8220;mais humanidades no peito do que Cristo&#8221;, o eu-l\u00edrico come\u00e7a negando uma condi\u00e7\u00e3o de exist\u00eancia e prop\u00f3sito em sua vida. Essa introdu\u00e7\u00e3o j\u00e1 estabelece um contraste marcante: uma dicotomia entre a insignific\u00e2ncia que ele atribui a si mesmo e a grandeza e vastid\u00e3o de seus sonhos.<\/p>\n<p>O sentimento que prevalece \u00e9 o de que ele fracassou em tudo o que tentou. Apesar de sonhar e de ter planos grandiosos, na vis\u00e3o dele e das outras pessoas, ele ser\u00e1 apenas &#8220;o <i>o que n\u00e3o nasceu para isso&#8221; ou <\/i>&#8220;s\u00f3 <i>o que tinha qualidades&#8221;.\u00a0<\/i>Mesmo tendo planos mais ambiciosos que Napole\u00e3o e tendo filosofado em segredo mais do que Kant, n\u00e3o conseguiu colocar suas metas em pr\u00e1tica. Vestiu uma m\u00e1scara e, quando percebeu, ela j\u00e1 estava grudada \u00e0 cara; olhando-se no espelho, percebeu que o tempo j\u00e1 havia passado e que talvez j\u00e1 fosse tarde demais.<\/p>\n<p>Sozinho, confuso e incerto, ele fica dividido entre a realidade concreta da Tabacaria do outro lado da rua e a percep\u00e7\u00e3o de que tudo n\u00e3o passa de um sonho. Entediado e cansado, ele procura chegar a uma conclus\u00e3o a respeito da pr\u00f3pria identidade, sobre o seu lugar no mundo e sobre o seu papel em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s pessoas que o cercam. Tudo isso com um certo tom de inveja: inveja por aqueles que levam vidas mais simples; a menina comendo chocolate (sem metaf\u00edsica), o Esteves que visitou a Tabacaria (tamb\u00e9m sem metaf\u00edsica).<\/p>\n<p>No final, o que resta ao eu-l\u00edrico do poema Tabacaria, e talvez at\u00e9 ao pr\u00f3prio Fernando Pessoa, \u00e9 a escrita de versos, apesar de que os versos desaparecer\u00e3o assim como a tabuleta da tabacaria, e um aceno ao Esteves, homem comum, sem metaf\u00edsica, que saiu da Tabacaria. Esse aceno final \u00e9 uma reconex\u00e3o do eu-l\u00edrico com a realidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong>Gostou de conhecer mais sobre o poema Tabacaria, de Fernando Pessoa? Pois veja tamb\u00e9m:<br \/>\n<a href=\"https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/\/como-fernando-pessoa-morreu\/\">Como Fernando Pessoa morreu?<\/a><\/strong><\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Leia na \u00edntegra o poema Tabacaria, de Fernando Pessoa, e veja uma explica\u00e7\u00e3o completa e detalhada sobre ele.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":685,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[232],"class_list":["post-647","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-poemas","tag-tristeza"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.6 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Tabacaria, de \u00c1lvaro de Campos (Fernando Pessoa) - Poema Explicado<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Leia na \u00edntegra o poema Tabacaria, de Fernando Pessoa, e veja uma explica\u00e7\u00e3o completa e detalhada sobre ele.\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/tabacaria-de-alvaro-de-campos-fernando-pessoa-explicado\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Tabacaria, de \u00c1lvaro de Campos (Fernando Pessoa) - Poema Explicado\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Leia na \u00edntegra o poema Tabacaria, de Fernando Pessoa, e veja uma explica\u00e7\u00e3o completa e detalhada sobre ele.\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/tabacaria-de-alvaro-de-campos-fernando-pessoa-explicado\/\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Literatura Online\" \/>\n<meta property=\"article:author\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=100043804593210\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2023-05-10T05:51:16+00:00\" \/>\n<meta property=\"article:modified_time\" content=\"2026-05-23T22:04:44+00:00\" \/>\n<meta property=\"og:image\" content=\"https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/Tabacaria-de-Alvaro-de-Campos-Fernando-Pessoa-Poema-Explicado-capa.jpg\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:width\" content=\"1024\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:height\" content=\"696\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:type\" content=\"image\/jpeg\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Alexandre Garcia Peres\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Alexandre Garcia Peres\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. tempo de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"12 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":[\"Article\",\"BlogPosting\"],\"@id\":\"https:\\\/\\\/literaturaonline.com.br\\\/blog\\\/tabacaria-de-alvaro-de-campos-fernando-pessoa-explicado\\\/#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/literaturaonline.com.br\\\/blog\\\/tabacaria-de-alvaro-de-campos-fernando-pessoa-explicado\\\/\"},\"author\":{\"name\":\"Alexandre Garcia Peres\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/literaturaonline.com.br\\\/blog\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/c9a9c53a80bc6508d64423b712739c41\"},\"headline\":\"Tabacaria, de \u00c1lvaro de Campos (Fernando Pessoa) &#8211; 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