{"id":604,"date":"2023-04-07T20:31:48","date_gmt":"2023-04-07T23:31:48","guid":{"rendered":"https:\/\/poesiapublica.com.br\/?p=604"},"modified":"2026-05-23T19:04:44","modified_gmt":"2026-05-23T22:04:44","slug":"poema-do-cume","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/poema-do-cume\/","title":{"rendered":"Poema do Cume, de Laurindo Rabelo"},"content":{"rendered":"<p>Embora muitos acreditem que o famoso &#8220;Poema do Cume&#8221; \u00e9 de um autor desconhecido, o g\u00eanio por tr\u00e1s dessa s\u00e1tira que tira gargalhadas de muitos leitores mesmo depois de 150 anos \u00e9 o m\u00e9dico, professor e poeta da segunda gera\u00e7\u00e3o do romantismo brasileiro Laurindo Rabelo (1826-1864).<\/p>\n<p>O nome verdadeiro do &#8220;Poema do Cume&#8221; \u00e9 &#8220;As Rosas do Cume&#8221;, e o sentido dele \u00e9 exatamente esse que voc\u00ea est\u00e1 pensando. Como poeta, Laurindo Rabelo tem poemas melanc\u00f3licos e rom\u00e2nticos, mas tamb\u00e9m tem um lado sat\u00edrico e er\u00f3tico. E o poema abaixo \u00e9 uma prova disso&#8230;<\/p>\n<p>[lwptoc]<\/p>\n<h2>As rosas do Cume, de Laurindo Rabelo<\/h2>\n<blockquote class=\"poem\">\n<p>No cume daquela serra<br \/>\nEu plantei uma roseira<br \/>\nQuanto mais as rosas brotam<br \/>\nTanto mais o cume cheira<\/p>\n<p>\u00c0 tarde, quando ao sol posto<br \/>\nO vento no cume beija<br \/>\nVem travessa borboleta<br \/>\nE as rosas do cume deixa<\/p>\n<p>No tempo das invernias<br \/>\nQue as plantas do cume lavam<br \/>\nQuanto mais molhadas eram<br \/>\nTanto mais no cume davam<\/p>\n<p>Quando cai a chuva fina<br \/>\nSalpicos no cume caiem<br \/>\nAbelhas no cume entram<br \/>\nLagartos do cume saem<\/p>\n<p>Mas, se as \u00e1guas v\u00eam correndo<br \/>\nO sujo do cume limpam<br \/>\nOs bot\u00f5es do cume abrem<br \/>\nAs rosas do cume brincam<\/p>\n<p>Tenho, com certeza agora<br \/>\nQue no tempo de tal rega<br \/>\nArbusto por mais mimoso<br \/>\nPlantado no cume, pega<\/p>\n<p>E logo que a chuva cessa<br \/>\nAo cume leva alegria<br \/>\nPois volta a brilhar depressa<br \/>\nO sol que no cume abria<\/p>\n<p>\u00c0 hora de anoitecer<br \/>\nTudo no cume escurece<br \/>\nPirilampos do cume brilham<br \/>\nEstrelas no cume aparecem<\/p>\n<p>E quando chega o Ver\u00e3o<br \/>\nTudo no cume seca<br \/>\nO vento o cume limpa<br \/>\nE o cume fica careca<\/p>\n<p>Vem, por\u00e9m, o sol brilhante<br \/>\nE seca logo em catadupa<br \/>\nO mesmo sol, a terra abrasa<br \/>\nE as \u00e1guas do cume chupa<\/p>\n<p>As rosas do cume espreitam<br \/>\nEntre as folhagens d&#8217;al\u00e9m<br \/>\nTrazidas da fresca brisa<br \/>\nOs cheiros do cume v\u00eam<\/p>\n<p>E quando chega o Inverno<br \/>\nA neve no cume cai<br \/>\nO cume fica tapado<br \/>\nE ningu\u00e9m ao cume vai<\/p>\n<p>No cume dessa montanha<br \/>\nTem um olho de \u00e1gua \u00e0 beira<br \/>\n\u00c9 uma \u00e1gua t\u00e3o cheirosa<br \/>\nQue a multid\u00e3o ansiosa<br \/>\nO olho do cume cheira<\/p>\n<\/blockquote>\n<h2>An\u00e1lise do poema<\/h2>\n<p>O poema tem dois lados (como o cume): um rom\u00e2ntico, descrevendo uma cena buc\u00f3lica e pitoresca, descrevendo a beleza e a fragilidade da natureza em uma serra, as diferentes esta\u00e7\u00f5es do ano, transmitindo uma sensa\u00e7\u00e3o de tranquilidade, admira\u00e7\u00e3o, contempla\u00e7\u00e3o, com a natureza sendo uma fonte de prazer.<\/p>\n<p>O outro lado, er\u00f3tico e sat\u00edrico, descreve uma fonte de prazer&#8230; diferente. O poeta faz uma brincadeira com a pron\u00fancia da palavra &#8220;cume&#8221;, associando-o justamente \u00e0quilo que voc\u00ea est\u00e1 pensando. Indo direto ao ponto: ao fiof\u00f3.<\/p>\n<p>A leitura do poema tem uma cad\u00eancia interessante tanto pela presen\u00e7a de rimas quanto pelo ritmo do poema, que tem versos de sete s\u00edlabas po\u00e9ticas, sendo, portanto, uma redondilha maior.<\/p>\n<h2>Sobre Laurindo Rabelo<\/h2>\n<p>Laurindo Jos\u00e9 da Silva Rabelo nasceu em 8 de julho de 1826 no Rio de Janeiro. Foi m\u00e9dico, professor e poeta da segunda gera\u00e7\u00e3o do romantismo brasileiro. Nasceu em uma fam\u00edlia pobre, mas conseguiu formar-se em medicina, come\u00e7ando o curso no Rio de Janeiro e terminando-o em Salvador. Tendo interesse pela carreira militar, tornou-se m\u00e9dico no Corpo de Sa\u00fade do Ex\u00e9rcito.<\/p>\n<p>Como poeta, destacou-se mais pelo seu lado sat\u00edrico e er\u00f3tico, principalmente pelo poema &#8220;As Rosas do Cume&#8221;. Por\u00e9m, sua obra po\u00e9tica \u00e9 vast\u00edssima, indo de sonetos a hinos com caracter\u00edsticas bem marcantes da segunda gera\u00e7\u00e3o do romantismo, conhecida como &#8220;Ultrarromantica&#8221; ou &#8220;Byronesca&#8221;: a idealiza\u00e7\u00e3o da mulher, um sentimento de amargura, um desejo de morrer encontrar o descanso etc.<\/p>\n<p>Levava uma vida bo\u00eamia e tinha grande capacidade de improvisa\u00e7\u00e3o, tornando-se conhecido nos bares do Rio de Janeiro pelos repentes (improviso cantado) e modinhas. Segundo Manuel Bandeira, tinha uma apar\u00eancia magra e desengon\u00e7ada, o que lhe garantiu o apelido &#8220;Poeta Lagartixa&#8221;.<\/p>\n<p>Infelizmente, Laurindo morreu bastante jovem, com apenas 38 anos, no dia 28 de setembro de 1864, v\u00edtima de problemas card\u00edacos. Publicou em vida apenas um livro: <em>Trovas<\/em>, lan\u00e7ado originalmente em 1853.<\/p>\n<p>Biografia com informa\u00e7\u00f5es de <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Laurindo_Rabelo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Wikip\u00e9dia<\/a>.<\/p>\n<h2>Perguntas frequentes sobre o poema do Cume<\/h2>\n<h3>Quem \u00e9 o autor do Poema do Cume?<\/h3>\n<p>Como vimos nesta mat\u00e9ria completa, o autor do poema &#8220;As Rosas do Cume&#8221; \u00e9 Laurindo Jos\u00e9 da Silva Rabelo, m\u00e9dico, professor e poeta do romantismo brasileiro que nasceu no Rio de Janeiro em 8 de julho de 1826 e morreu em 28 de setembro de 1864. Sua poesia ficou conhecida especialmente por seu car\u00e1ter c\u00f4mico e humor\u00edstico, como vimos nesse exemplo.<\/p>\n<h3>Qual a estrutura do verso do Poema do Cume?<\/h3>\n<p>Os versos do &#8220;Poema do Cume&#8221; foram compostos em <strong>hexass\u00edlabos<\/strong>, ou seja, versos que t\u00eam <strong>seis s\u00edlabas po\u00e9ticas<\/strong>. Vamos analisar as duas primeiras estrofes para confirmar isso:<\/p>\n<p>\/No\/ cu\/me\/ da\/que\/la\/ se\/<s>rra<\/s> (6 s\u00edlabas)<br \/>\n\/Eu\/ plan\/tei\/ u\/ma\/ ro\/sei\/<s>ra<\/s> (6 s\u00edlabas)<br \/>\nQuan\/to\/ mais\/ as\/ ro\/sas\/ bro\/<s>tam<\/s> (6 s\u00edlabas)<br \/>\nTan\/to\/ mais\/ o\/ cu\/me\/ chei\/<s>ra<\/s> (6 s\u00edlabas)<\/p>\n<p>\u00c0\/ tar\/de\/, quan\/do ao\/ sol\/ pos\/<s>to<\/s> (6 s\u00edlabas)<br \/>\nO\/ ven\/to\/ no\/ cu\/me\/ bei\/<s>ja<\/s> (6 s\u00edlabas)<br \/>\n\/Vem\/ tra\/ve\/ssa\/ bor\/bo\/le\/<s>ta<\/s> (6 s\u00edlabas)<br \/>\nE as\/ ro\/sas\/ do\/ cu\/me\/ dei\/<s>xa<\/s> (6 s\u00edlabas)<\/p>\n<p>Lembrando que, na escans\u00e3o (nome dado a esse estudo das s\u00edlabas po\u00e9ticas de um poema) da L\u00edngua Portuguesa, s\u00edlabas que terminam e come\u00e7am em vogais se juntam com frequ\u00eancia, como em &#8220;qua\/<strong>do ao<\/strong>\/ sol pos\/to&#8221;, contabilizando apenas uma s\u00edlaba. Al\u00e9m disso, na escans\u00e3o em portugu\u00eas do Brasil, n\u00e3o consideramos a \u00faltima s\u00edlaba po\u00e9tica, que \u00e9 descartada da contagem.<\/p>\n<p>\u00c9 exatamente esse rigor da divis\u00e3o de s\u00edlabas po\u00e9ticas do verso que d\u00e1 ao poema essa cad\u00eancia interessante na leitura, fazendo-o soar como uma m\u00fasica.<\/p>\n<h3>Todo poema de Laurindo Rabelo \u00e9 c\u00f4mico\/obsceno?<\/h3>\n<p>N\u00e3o! Na verdade, a maior parte deles s\u00e3o poemas que abordam assuntos comuns do romantismo brasileiro, como saudade, amor n\u00e3o correspondido e morte.<\/p>\n<p>Por exemplo, o poema abaixo \u00e9 &#8220;O Desalento&#8221;, escrito por Rabelo e dedicado ao seu amigo, Leopoldo Luiz da Cunha:<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><em>Quando eu morrer, minha morte<\/em><br \/>\n<em>N\u00e3o lamentes, caro amigo,<\/em><br \/>\n<em>Que o sepulcro \u00e9 um jazigo<\/em><br \/>\n<em>onde eu devo descansar;<\/em><br \/>\n<em>A minha triste exist\u00eancia<\/em><br \/>\n<em>\u00c9 t\u00e3o pesada, \u00e9 t\u00e3o dura,<\/em><br \/>\n<em>Que a pedra da sepultura<\/em><br \/>\n<em>J\u00e1 me n\u00e3o pode pesar.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><em>Uma l\u00e1grima, um suspiro,<\/em><br \/>\n<em>Eis quanto custa o morrer;<\/em><br \/>\n<em>Custa-nos sempre o viver<\/em><br \/>\n<em>Prantos, suspiros, sem fim!<\/em><br \/>\n<em>Que tormento fora a vida,<\/em><br \/>\n<em>Se n\u00e3o fosse transit\u00f3ria!?&#8230;<\/em><br \/>\n<em>N\u00e3o me risques da mem\u00f3ria,<\/em><br \/>\n<em>Por\u00e9m n\u00e3o chores por mim.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><em>Enchem trevas o sepulcro,<\/em><br \/>\n<em>Mas ningu\u00e9m delas se queixa;<\/em><br \/>\n<em>Quando o morto os olhos fecha,<\/em><br \/>\n<em>N\u00e3o quer luz, quer sossegar;<\/em><br \/>\n<em>Aquele fundo sil\u00eancio,<\/em><br \/>\n<em>Aquele extremo abandono,<\/em><br \/>\n<em>D\u00e3o-lhe t\u00e3o profundo sono,<\/em><br \/>\n<em>Que nem pode despertar.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><em>J\u00e1 tive medo da morte,<\/em><br \/>\n<em>Agora tenho da vida;<\/em><br \/>\n<em>Sinto minha alma abatida,<\/em><br \/>\n<em>Sem vigor o cora\u00e7\u00e3o;<\/em><br \/>\n<em>J\u00e1 cansado de viver,<\/em><br \/>\n<em>Para a morte os olhos lan\u00e7o;<\/em><br \/>\n<em>Vejo nela o meu descanso,<\/em><br \/>\n<em>A minha consola\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p>Neste poema, n\u00e3o h\u00e1 nenhum duplo sentido com conota\u00e7\u00e3o obscena ou er\u00f3tica: \u00e9 apenas uma terna mensagem dedicada a um amigo, pedindo para que ele n\u00e3o chore quando o eu-l\u00edrico morrer, pois finalmente encontrar\u00e1 o descanso ap\u00f3s uma vida de sofrimentos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Leia na \u00edntegra o &#8220;Poema do Cume&#8221;, do poeta brasileiro Laurindo Rabelo, com uma an\u00e1lise e algumas curiosidades sobre o autor.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":605,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[207,208],"class_list":["post-604","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-poemas","tag-romantismo","tag-romantismo-brasileiro"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.6 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Poema 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