{"id":4737,"date":"2026-10-23T21:05:46","date_gmt":"2026-10-24T00:05:46","guid":{"rendered":"https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/?p=4737"},"modified":"2026-10-23T18:39:29","modified_gmt":"2026-10-23T21:39:29","slug":"eu-sou-trezentos-mario-de-andrade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/eu-sou-trezentos-mario-de-andrade\/","title":{"rendered":"\u201cEu sou trezentos\u201d: o que M\u00e1rio de Andrade ensina a quem se sente dividido entre muitos pap\u00e9is"},"content":{"rendered":"<p>&#8220;Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta&#8221; \u00e9 o verso que abre &#8220;Eu sou trezentos&#8221;, primeiro poema de <em>Remate de Males<\/em>, livro que M\u00e1rio de Andrade publicou em 1930. Quem fala \u00e9 o eu l\u00edrico, a voz do poema, que se descreve como muitas pessoas ao mesmo tempo: algu\u00e9m que sente tudo, vai a todos os lugares e n\u00e3o cabe numa identidade s\u00f3.<\/p>\n<p>O poema n\u00e3o trata essa divis\u00e3o como um defeito a corrigir. A resposta vem quando o refr\u00e3o se repete e ganha um complemento: <strong>&#8220;Mas um dia afinal eu toparei comigo\u2026&#8221;<\/strong>. Para M\u00e1rio, ser muitos \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o de quem vive intensamente, e o encontro consigo mesmo \u00e9 algo que chega com o tempo, sem pressa. \u00c9 isso que o verso ensina a quem se sente dividido entre pap\u00e9is.<\/p>\n<p>O poema completo, com a grafia pr\u00f3pria de M\u00e1rio (que escrevia &#8220;si&#8221; e &#8220;milhores&#8221;), diz:<\/p>\n<blockquote><p>Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,<br \/>\nAs sensa\u00e7\u00f5es renascem de si mesmas sem repouso,<br \/>\n\u00d4h espelhos, \u00f4h Pireneus! \u00d4h cai\u00e7aras!<br \/>\nSi um deus morrer, irei no Piau\u00ed buscar outro!<\/p>\n<p>Abra\u00e7o no meu leito as milhores palavras,<br \/>\nE os suspiros que dou s\u00e3o violinos alheios;<br \/>\nEu piso a terra como quem descobre a furto<br \/>\nNas esquinas, nos t\u00e1xis, nas camarinhas seus pr\u00f3prios beijos!<\/p>\n<p>Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,<br \/>\nMas um dia afinal eu toparei comigo\u2026<br \/>\nTenhamos paci\u00eancia, andorinhas curtas,<br \/>\nS\u00f3 o esquecimento \u00e9 que condensa,<br \/>\nE ent\u00e3o minha alma servir\u00e1 de abrigo.<\/p><\/blockquote>\n<h2>Onde o verso aparece<\/h2>\n<p><em>Remate de Males<\/em> saiu dois anos depois de <em>Macuna\u00edma<\/em> (1928), o romance do &#8220;her\u00f3i sem nenhum car\u00e1ter&#8221;, e re\u00fane poemas escritos por M\u00e1rio no fim dos anos 1920. &#8220;Eu sou trezentos&#8221; abre o livro e funciona como um retrato do poeta: nas duas primeiras estrofes, ele se espalha pelo mundo; na \u00faltima, olha para dentro.<\/p>\n<p>A primeira estrofe \u00e9 uma enumera\u00e7\u00e3o de lugares e sensa\u00e7\u00f5es. Os Pireneus, cordilheira entre a Fran\u00e7a e a Espanha, aparecem ao lado das cai\u00e7aras, palavra que pode designar os moradores do litoral de Canan\u00e9ia, em S\u00e3o Paulo, ou as cercas de galhos em volta das ro\u00e7as, e do Piau\u00ed, onde o poeta iria &#8220;buscar outro&#8221; deus se um morresse. Num <a href=\"https:\/\/linguasagem.ufscar.br\/index.php\/linguasagem\/article\/download\/1127\/653\/2494\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">estudo publicado pela revista <em>Linguasagem<\/em>, da UFSCar<\/a>, o pesquisador Lucas Piter Alves Costa observa que essas refer\u00eancias criam uma &#8220;sensa\u00e7\u00e3o de onipresen\u00e7a&#8221;, de quem se move de um lugar ao outro ignorando a dist\u00e2ncia.<\/p>\n<p>A segunda estrofe leva essa multiplicidade para o corpo e para o afeto. Os suspiros do poeta &#8220;s\u00e3o violinos alheios&#8221;, e ele descobre &#8220;seus pr\u00f3prios beijos&#8221; nas esquinas, nos t\u00e1xis e nos quartos (as &#8220;camarinhas&#8221;). A \u00faltima estrofe muda de tom: o refr\u00e3o volta, mas agora seguido de uma promessa e de um pedido de paci\u00eancia.<\/p>\n<h2>O que o verso quer dizer<\/h2>\n<p>A multiplicidade \u00e9 uma marca de toda a obra de M\u00e1rio de Andrade, e &#8220;Eu sou trezentos&#8221; \u00e9 o exemplo mais lembrado. &#8220;Ao assinalar a multiplicidade na cria\u00e7\u00e3o po\u00e9tica de M\u00e1rio de Andrade logo se pensa no verso &#8216;Eu sou trezentos, sou trezentos e cinquenta&#8217;, abrindo <em>Remate de males<\/em>, em 1930&#8243;, escreve a pesquisadora Angela Teodoro Grillo em <a href=\"https:\/\/www.scielo.br\/j\/ea\/a\/RdnmzwtsLWRnp74HRS8YTkb\/?lang=pt\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">artigo na revista <em>Estudos Avan\u00e7ados<\/em>, da USP<\/a>. Segundo ela, a origem dessa ideia est\u00e1 em <em>Pauliceia Desvairada<\/em> (1922), livro marco da <a href=\"https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/diferencas-entre-a-primeira-e-segunda-fases-do-modernismo-brasileiro\/\">primeira fase do modernismo<\/a>, em que o poeta escolhe o traje do arlequim, feito de retalhos, como met\u00e1fora do pr\u00f3prio sujeito l\u00edrico.<\/p>\n<p>O ponto central do poema est\u00e1 nos tr\u00eas \u00faltimos versos. Numa leitura poss\u00edvel, &#8220;Tenhamos paci\u00eancia, andorinhas curtas&#8221; \u00e9 um pedido feito \u00e0s pr\u00f3prias \u00e2nsias, que voam baixo e para todo lado, e &#8220;S\u00f3 o esquecimento \u00e9 que condensa&#8221; sugere que a unidade n\u00e3o vem de juntar \u00e0 for\u00e7a todos os peda\u00e7os, e sim de deixar que o tempo filtre o que importa. S\u00f3 ent\u00e3o &#8220;minha alma servir\u00e1 de abrigo&#8221;: o eu disperso vira casa.<\/p>\n<h2>O que o verso diz a quem l\u00ea hoje<\/h2>\n<p>Pouca gente diria hoje que \u00e9 trezentas pessoas, mas muita gente se reconhece na sensa\u00e7\u00e3o. A mesma pessoa \u00e9 filha, profissional, amiga, estudante, algu\u00e9m que cuida dos outros e algu\u00e9m que precisa de cuidado, e \u00e0s vezes parece que nenhuma dessas vers\u00f5es \u00e9 a verdadeira. A tend\u00eancia \u00e9 cobrar de si uma coer\u00eancia imediata, como se fosse preciso decidir logo quem se \u00e9.<\/p>\n<p>O poema de M\u00e1rio prop\u00f5e outra rela\u00e7\u00e3o com essa experi\u00eancia. Ele n\u00e3o pede ao leitor que escolha uma das trezentas vers\u00f5es nem que abra m\u00e3o das outras. Aceita a mistura como sinal de quem vive com intensidade e aposta que o encontro consigo mesmo acontece &#8220;um dia afinal&#8221;, no tempo pr\u00f3prio de cada um. \u00c9 a mesma generosidade que o poeta teve com um pa\u00eds inteiro em <em>Macuna\u00edma<\/em>, ao criar um her\u00f3i feito de muitas regi\u00f5es, l\u00ednguas e contradi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<h2>Por que o verso continua citado<\/h2>\n<p>&#8220;Eu sou trezentos&#8221; virou uma esp\u00e9cie de defini\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio M\u00e1rio, que foi poeta, romancista, cr\u00edtico, music\u00f3logo, pesquisador do folclore e gestor cultural. A ideia atravessou a obra dele at\u00e9 o fim: em &#8220;A medita\u00e7\u00e3o sobre o Tiet\u00ea&#8221;, poema conclu\u00eddo em fevereiro de 1945, \u00e0s v\u00e9speras da morte do autor, aparece o verso &#8220;Meu baile \u00e9 t\u00e3o v\u00e1rio que possui mil sambas insonhados!&#8221;, que Angela Grillo l\u00ea como um eco da mesma multiplicidade.<\/p>\n<p>M\u00e1rio de Andrade morreu em 1945, e sua obra est\u00e1 em dom\u00ednio p\u00fablico no Brasil desde 2016. <em>Remate de Males<\/em> est\u00e1 reunido nas edi\u00e7\u00f5es da poesia completa do autor.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta&#8221; \u00e9 o verso que abre &#8220;Eu sou trezentos&#8221;, primeiro poema de Remate de Males, livro que M\u00e1rio de Andrade publicou em 1930. 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