{"id":4721,"date":"2026-10-23T18:15:17","date_gmt":"2026-10-23T21:15:17","guid":{"rendered":"https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/?p=4721"},"modified":"2026-10-23T18:15:17","modified_gmt":"2026-10-23T21:15:17","slug":"cervantes-cativeiro-argel-dom-quixote","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/cervantes-cativeiro-argel-dom-quixote\/","title":{"rendered":"Cervantes passou cinco anos cativo em Argel, tentou fugir quatro vezes e p\u00f4s um tal de Saavedra no Dom Quixote"},"content":{"rendered":"<p>Antes de escrever <em>Dom Quixote<\/em>, Miguel de Cervantes passou cinco anos como cativo em Argel, no norte da \u00c1frica. Capturado por cors\u00e1rios em 1575, ele tentou fugir <strong>quatro vezes<\/strong>, foi tra\u00eddo em todas, escapou da execu\u00e7\u00e3o e s\u00f3 saiu de l\u00e1 em 1580, quando frades trinit\u00e1rios juntaram os 500 escudos de ouro do resgate. D\u00e9cadas depois, p\u00f4s a experi\u00eancia dentro do pr\u00f3prio romance: na &#8220;Hist\u00f3ria do cativo&#8221;, um personagem lembra de &#8220;um soldado espanhol chamado tal de Saavedra&#8221; (em tradu\u00e7\u00e3o livre), o sobrenome do autor.<\/p>\n<p>A passagem \u00e9 quase uma assinatura. O narrador conta que o rei de Argel enforcava e mutilava prisioneiros por qualquer motivo e que s\u00f3 um homem escapou dessa crueldade, apesar de ter feito coisas &#8220;que ficar\u00e3o na mem\u00f3ria daquela gente por muitos anos, e todas para alcan\u00e7ar a liberdade&#8221;. Era o pr\u00f3prio Cervantes, falando de si em terceira pessoa.<\/p>\n<h2>O soldado ferido em Lepanto<\/h2>\n<p>A hist\u00f3ria come\u00e7a com uma batalha. Em 7 de outubro de 1571, Cervantes, ent\u00e3o com 24 anos, lutou na <strong>Batalha de Lepanto<\/strong>, em que a frota da Liga Santa, alian\u00e7a de Espanha, Veneza e o papado, derrotou a armada otomana no mar J\u00f4nico. Ele estava doente, com febre, mas pediu para ficar num dos postos mais expostos da galera <em>Marquesa<\/em>. Levou dois tiros no peito e um na m\u00e3o esquerda, que ficou inutilizada para sempre. O apelido veio da\u00ed: <em>el manco de Lepanto<\/em>, o maneta de Lepanto.<\/p>\n<p>Ele nunca se envergonhou do ferimento. No pr\u00f3logo da segunda parte de <em>Dom Quixote<\/em>, de 1615, respondeu a um rival que zombara dele por ser &#8220;velho e maneta&#8221; dizendo que a m\u00e3o n\u00e3o tinha sido perdida numa taverna, mas &#8220;na mais alta ocasi\u00e3o que viram os s\u00e9culos passados, os presentes, nem esperam ver os vindouros&#8221; (em tradu\u00e7\u00e3o livre).<\/p>\n<h2>A captura no mar e as cartas que encareceram o resgate<\/h2>\n<p>Depois de anos como soldado na It\u00e1lia, Cervantes embarcou de volta para a Espanha com o irm\u00e3o Rodrigo na galera <em>Sol<\/em>. Em 26 de setembro de 1575, perto da costa da Catalunha, o navio foi atacado por cors\u00e1rios comandados por Arnaute Mam\u00ed. Os irm\u00e3os foram levados para Argel, ent\u00e3o um dos principais centros do com\u00e9rcio de cativos crist\u00e3os no Mediterr\u00e2neo.<\/p>\n<p>Cervantes carregava cartas de recomenda\u00e7\u00e3o de Dom Jo\u00e3o da \u00c1ustria, o comandante de Lepanto, e do duque de Sessa. A ideia era us\u00e1-las para conseguir um posto na Espanha. O efeito foi o contr\u00e1rio: os captores conclu\u00edram que tinham nas m\u00e3os um homem importante e fixaram o resgate em <strong>500 escudos de ouro<\/strong>, quantia que a fam\u00edlia, sem dinheiro, n\u00e3o conseguiu reunir por anos. Rodrigo foi resgatado primeiro, em 1577.<\/p>\n<h2>As quatro fugas fracassadas<\/h2>\n<p>Na primeira tentativa, Cervantes e outros cativos contrataram um guia mouro para lev\u00e1-los por terra at\u00e9 Or\u00e3, pra\u00e7a espanhola na costa africana. O guia os abandonou no primeiro dia de caminhada, e eles tiveram de voltar.<\/p>\n<p>A segunda foi a mais ousada. Em 1577, ele se escondeu com cerca de 15 companheiros numa caverna nos arredores de Argel, \u00e0 espera de uma galera espanhola que viria busc\u00e1-los, combinada com a ajuda do irm\u00e3o j\u00e1 libertado. Um cativo apelidado de &#8220;el Dorador&#8221; delatou o grupo, e a galera foi capturada. Cervantes assumiu sozinho a responsabilidade pelo plano. Em vez de execut\u00e1-lo, Az\u00e1n Baj\u00e1, governante de Argel, o manteve preso a correntes por cinco meses.<\/p>\n<p>Na terceira, ele mandou cartas ao governador de Or\u00e3 por um mensageiro mouro. O homem foi preso com as cartas, e Cervantes foi condenado a 2 mil pauladas, pena que n\u00e3o chegou a ser aplicada. Na quarta, com dinheiro emprestado por um mercador de Val\u00eancia, comprou uma fragata para fugir com outros cativos. Foi denunciado por Juan Blanco de Paz, um ex-frade dominicano que tamb\u00e9m estava preso, e que recebeu como recompensa, segundo relatos da \u00e9poca, um escudo e um jarro de manteiga.<\/p>\n<h2>O resgate pelos frades trinit\u00e1rios<\/h2>\n<p>Em 1580, Az\u00e1n Baj\u00e1 estava de partida para Constantinopla e pretendia levar Cervantes junto. O frade trinit\u00e1rio Juan Gil, da ordem religiosa especializada em resgatar cativos crist\u00e3os, tinha s\u00f3 300 escudos para ele e completou o valor com dinheiro arrecadado entre mercadores. Cervantes foi libertado em <strong>19 de setembro de 1580<\/strong>, quando estava prestes a ser levado para Constantinopla.<\/p>\n<p>Antes de voltar \u00e0 Espanha, ele pediu que um tabeli\u00e3o registrasse depoimentos de outros cativos sobre seu comportamento em Argel, para se defender das acusa\u00e7\u00f5es de Blanco de Paz. O documento, conhecido como <em>Informaci\u00f3n de Argel<\/em>, \u00e9 hoje uma das principais fontes sobre esses anos.<\/p>\n<h2>Argel dentro de <em>Dom Quixote<\/em><\/h2>\n<figure id=\"attachment_4731\" aria-describedby=\"caption-attachment-4731\" style=\"width: 1600px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-4731\" src=\"https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/cervantes-cativeiro-argel-dom-quixote.webp\" alt=\"Montagem com duas imagens antigas. \u00c0 esquerda est\u00e1 a folha de rosto da primeira edi\u00e7\u00e3o de El ingenioso hidalgo Don Quixote de la Mancha, de 1605, em papel amarelado. Traz o t\u00edtulo e o nome de Miguel de Cervantes em letras tipogr\u00e1ficas e, no centro, o bras\u00e3o do impressor com um falc\u00e3o, um le\u00e3o deitado e uma divisa em latim. \u00c0 direita, uma gravura em preto e branco mostra Dom Quixote sentado numa poltrona, com um livro aberto e uma espada erguida, cercado por cavaleiros, damas, drag\u00f5es, monstros e cenas de batalha que saem da imagina\u00e7\u00e3o dele.\" width=\"1600\" height=\"900\" srcset=\"https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/cervantes-cativeiro-argel-dom-quixote.webp 1600w, https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/cervantes-cativeiro-argel-dom-quixote-300x169.webp 300w, https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/cervantes-cativeiro-argel-dom-quixote-1024x576.webp 1024w, https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/cervantes-cativeiro-argel-dom-quixote-768x432.webp 768w, https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/cervantes-cativeiro-argel-dom-quixote-1536x864.webp 1536w, https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/cervantes-cativeiro-argel-dom-quixote-150x84.webp 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 1600px) 100vw, 1600px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-4731\" class=\"wp-caption-text\">Folha de rosto da primeira edi\u00e7\u00e3o de Dom Quixote (1605) e gravura de Gustave Dor\u00e9 que mostra o cavaleiro enlouquecido pela leitura de livros de cavalaria. Imagens: Biblioteca Nacional de Espa\u00f1a e Gustave Dor\u00e9 (gravura de H\u00e9liodore Pisan)\/Wikimedia Commons<\/figcaption><\/figure>\n<p>O cativeiro reapareceu em v\u00e1rias obras. Cervantes escreveu as pe\u00e7as <em>El trato de Argel<\/em> e <em>Los ba\u00f1os de Argel<\/em>, ambientadas entre os cativos, e inseriu na primeira parte de <a href=\"https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/quem-escreveu-o-livro-dom-quixote-de-la-mancha\/\"><em>Dom Quixote<\/em><\/a>, publicada em 1605, a &#8220;Hist\u00f3ria do cativo&#8221;, entre os cap\u00edtulos 39 e 41. Nela, um capit\u00e3o espanhol conta numa estalagem como foi preso em Argel e como fugiu com a ajuda de Zoraida, uma mo\u00e7a moura convertida ao cristianismo. \u00c9 no cap\u00edtulo 40 que surge o &#8220;tal de Saavedra&#8221;.<\/p>\n<p>A pris\u00e3o tamb\u00e9m marcou o nascimento do romance de outra forma. Na volta \u00e0 Espanha, Cervantes trabalhou como cobrador de impostos e acabou preso em Sevilha em 1597, depois da fal\u00eancia do banco onde depositava o dinheiro arrecadado. No pr\u00f3logo da primeira parte, ele descreve o livro como a hist\u00f3ria de um filho seco e cheio de pensamentos estranhos, &#8220;como quem se gerou num c\u00e1rcere, onde todo inc\u00f4modo tem seu assento e onde todo triste ru\u00eddo faz sua habita\u00e7\u00e3o&#8221; (em tradu\u00e7\u00e3o livre). Muitos estudiosos leem a frase como refer\u00eancia \u00e0 cadeia sevilhana.<\/p>\n<p>Cervantes morreu em Madri em 22 de abril de 1616, com o romance j\u00e1 traduzido e famoso fora da Espanha.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Antes de escrever Dom Quixote, Miguel de Cervantes passou cinco anos como cativo em Argel, no norte da \u00c1frica. 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