{"id":4634,"date":"2026-10-20T14:30:59","date_gmt":"2026-10-20T17:30:59","guid":{"rendered":"https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/?p=4634"},"modified":"2026-10-20T13:46:54","modified_gmt":"2026-10-20T16:46:54","slug":"mao-que-afaga-apedreja-augusto-dos-anjos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/mao-que-afaga-apedreja-augusto-dos-anjos\/","title":{"rendered":"\u201cA m\u00e3o que afaga \u00e9 a mesma que apedreja\u201d: o maldito verso de Augusto dos Anjos"},"content":{"rendered":"<p>O verso &#8220;A m\u00e3o que afaga \u00e9 a mesma que apedreja&#8221; \u00e9 de <a href=\"https:\/\/literaturaonline.com.br\/autor\/augusto-dos-anjos\/\">Augusto dos Anjos<\/a> e fecha o primeiro terceto de &#8220;<a href=\"https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/versos-intimos-augusto-dos-anjos\/\">Versos \u00cdntimos<\/a>&#8220;, soneto do livro <a href=\"https:\/\/literaturaonline.com.br\/livro\/eu\/\"><em>Eu<\/em><\/a>, publicado em 1912. Quem fala \u00e9 o eu l\u00edrico, a voz do poema, que se dirige a um &#8220;tu&#8221; chamado de &#8220;amigo&#8221; e o aconselha a n\u00e3o esperar nada de ningu\u00e9m: o mesmo gesto que oferece carinho pode, logo depois, virar agress\u00e3o.<\/p>\n<p>A ideia n\u00e3o para a\u00ed. Dois versos adiante, no \u00faltimo terceto, o poeta retoma as mesmas palavras e <strong>transforma a constata\u00e7\u00e3o numa ordem<\/strong>: &#8220;Apedreja essa m\u00e3o vil que te afaga&#8221;. O que era um diagn\u00f3stico amargo sobre as pessoas vira um conselho de revide, e \u00e9 essa virada que d\u00e1 ao soneto o seu tom de desforra.<\/p>\n<p>A estrofe do verso, aqui na grafia atualizada, est\u00e1 na <strong>p\u00e1gina 101 da primeira edi\u00e7\u00e3o de <em>Eu:<\/em><\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Toma um f\u00f3sforo. Acende teu cigarro!<br \/>\nO beijo, amigo, \u00e9 a v\u00e9spera do escarro,<br \/>\nA m\u00e3o que afaga \u00e9 a mesma que apedreja.<\/p><\/blockquote>\n<p>Na edi\u00e7\u00e3o original, o t\u00edtulo aparece como &#8220;Versos Intimos&#8221;, sem acento, e o verbo \u00e9 grafado &#8220;affaga&#8221;, segundo a ortografia da \u00e9poca. Ao p\u00e9 do soneto vem a indica\u00e7\u00e3o &#8220;Pau d\u2019Arco, 1901&#8221;: o nome do engenho da Para\u00edba onde o poeta nasceu e o ano em que datou o poema, onze anos antes de o livro sair.<\/p>\n<h2>Onde o verso aparece em &#8220;Versos \u00cdntimos&#8221;<\/h2>\n<p>O soneto segue a forma cl\u00e1ssica de dois quartetos e dois tercetos, com versos de dez s\u00edlabas. Abre com uma pergunta e uma exclama\u00e7\u00e3o juntas, &#8220;V\u00eas?!&#8221;, e com uma cena de abandono: ningu\u00e9m compareceu ao &#8220;formid\u00e1vel \/ Enterro de tua \u00faltima quimera&#8221;. Quimera, aqui, \u00e9 ilus\u00e3o, um sonho que n\u00e3o se realizou. A \u00fanica companhia que sobrou foi a Ingratid\u00e3o, comparada a uma pantera.<\/p>\n<p>O segundo quarteto explica por que ningu\u00e9m apareceu: &#8220;O Homem, que, nesta terra miser\u00e1vel, \/ Mora, entre feras, sente inevit\u00e1vel \/ Necessidade de tamb\u00e9m ser fera.&#8221; Para o eu l\u00edrico, quem vive cercado de crueldade acaba cruel tamb\u00e9m. O conselho que vem antes desses versos \u00e9 seco: &#8220;Acostuma-te \u00e0 lama que te espera!&#8221;<\/p>\n<p>Ent\u00e3o chega o terceto do verso famoso. Ele come\u00e7a com um gesto banal, riscar um f\u00f3sforo e acender um cigarro, e o tom muda do lamento para a frieza. &#8220;O beijo, amigo, \u00e9 a v\u00e9spera do escarro&#8221; prepara a frase seguinte com a mesma l\u00f3gica: cada gesto de afeto anuncia o seu contr\u00e1rio, como a v\u00e9spera anuncia o dia.<\/p>\n<p>O \u00faltimo terceto fecha o poema com ordens. Se algu\u00e9m ainda sente pena da &#8220;chaga&#8221; (a ferida) do amigo, ele deve apedrejar &#8220;essa m\u00e3o vil que te afaga&#8221; e escarrar &#8220;nessa boca que te beija&#8221;. As palavras do terceto anterior (m\u00e3o, afagar, apedrejar, beijo, escarro) voltam em ordem trocada, agora como a\u00e7\u00e3o de quem foi ferido.<\/p>\n<h2>O que o verso diz sobre o pessimismo de Augusto dos Anjos<\/h2>\n<p>&#8220;A m\u00e3o que afaga \u00e9 a mesma que apedreja&#8221; junta afeto e agress\u00e3o numa s\u00f3 pessoa e num s\u00f3 gesto. O verso n\u00e3o afirma que todo carinho \u00e9 falso; afirma que o carinho n\u00e3o garante nada, porque quem acaricia hoje pode atacar amanh\u00e3. Por isso o eu l\u00edrico n\u00e3o pede ao amigo que se proteja, e sim que ataque primeiro.<\/p>\n<p>Essa vis\u00e3o combina com o restante de <em>Eu<\/em>, livro marcado pelo pessimismo e pela ideia do ser humano como mat\u00e9ria sujeita \u00e0 doen\u00e7a e \u00e0 decomposi\u00e7\u00e3o. O cr\u00edtico Anatol Rosenfeld aproximou essa poesia do Expressionismo alem\u00e3o, movimento que usava o feio e o deformado para expressar ang\u00fastia, e a definiu como uma &#8220;poesia de necrot\u00e9rio na qual se disseca e desmonta &#8216;a gl\u00f3ria da cria\u00e7\u00e3o'&#8221;, como registra a <a href=\"https:\/\/enciclopedia.itaucultural.org.br\/pessoas\/786-augusto-dos-anjos\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Enciclop\u00e9dia Ita\u00fa Cultural<\/a>. O coment\u00e1rio est\u00e1 no ensaio &#8220;A costela de prata de Augusto dos Anjos&#8221;, do livro <em>Texto\/contexto<\/em> (1969).<\/p>\n<p>&#8220;Versos \u00cdntimos&#8221;, por\u00e9m, quase n\u00e3o usa o vocabul\u00e1rio cient\u00edfico que marcou o poeta. N\u00e3o h\u00e1 &#8220;epig\u00eanesis&#8221; nem &#8220;amon\u00edaco&#8221;, palavras de outros poemas do livro: as imagens s\u00e3o cotidianas, como beijo, cigarro, f\u00f3sforo e m\u00e3o. O pessimismo \u00e9 o mesmo, mas dito numa linguagem que qualquer leitor entende na primeira leitura.<\/p>\n<p>O t\u00edtulo tamb\u00e9m pesa na interpreta\u00e7\u00e3o. &#8220;\u00cdntimos&#8221; sugere conversa reservada, de algu\u00e9m que fala baixo a um amigo, ou a si mesmo. O texto n\u00e3o identifica quem \u00e9 o &#8220;tu&#8221;, e as duas leituras se sustentam: o soneto pode ser um conselho a outra pessoa ou um desabafo do poeta diante do pr\u00f3prio fracasso.<\/p>\n<h2>Onde ler <em>Eu<\/em>, de Augusto dos Anjos<\/h2>\n<p><em>Eu<\/em> foi o \u00fanico livro que Augusto dos Anjos publicou em vida, numa <a href=\"https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/augusto-dos-anjos-eu-livro\/\">edi\u00e7\u00e3o paga pelo irm\u00e3o, Odilon dos Anjos<\/a>. O poeta morreu dois anos depois, em 1914, aos 30 anos. O livro, com &#8220;Versos \u00cdntimos&#8221; e os demais poemas, <strong>pode ser lido de gra\u00e7a na plataforma<\/strong>, na p\u00e1gina de <a href=\"https:\/\/literaturaonline.com.br\/livro\/eu\/\"><em>Eu<\/em><\/a>, com op\u00e7\u00e3o de download em EPUB e PDF.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O verso &#8220;A m\u00e3o que afaga \u00e9 a mesma que apedreja&#8221;, de Versos \u00cdntimos (Eu, 1912), conferido na primeira edi\u00e7\u00e3o e explicado no contexto do soneto de Augusto dos Anjos.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":4648,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[1395,1396,1661],"class_list":["post-4634","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-poemas","tag-augusto-dos-anjos","tag-eu","tag-frase-do-dia"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.7 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