{"id":4593,"date":"2026-10-17T11:00:41","date_gmt":"2026-10-17T14:00:41","guid":{"rendered":"https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/?p=4593"},"modified":"2026-10-17T10:42:27","modified_gmt":"2026-10-17T13:42:27","slug":"ouvir-estrelas-olavo-bilac","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/ouvir-estrelas-olavo-bilac\/","title":{"rendered":"&#8220;Ora (direis) ouvir estrelas!&#8221;: o verso de Olavo Bilac que d\u00e1 voz a quem zomba do poeta apaixonado"},"content":{"rendered":"<p>&#8220;Ora (direis) ouvir estrelas!&#8221; \u00e9 o verso que abre o <strong>soneto XIII de <em>Via L\u00e1ctea<\/em><\/strong>, s\u00e9rie de sonetos de amor que <a href=\"https:\/\/literaturaonline.com.br\/autor\/olavo-bilac\/\">Olavo Bilac<\/a> (1865-1918) publicou no livro <em>Poesias<\/em>, em <strong>1888<\/strong>. A exclama\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 do poeta. O eu l\u00edrico (a voz que fala no poema) coloca na boca de um interlocutor imagin\u00e1rio, tratado por &#8220;v\u00f3s&#8221;, a zombaria de quem acha um absurdo conversar com estrelas. O par\u00eantese &#8220;(direis)&#8221; marca essa troca de vozes: \u00e9 como se o poeta antecipasse a cr\u00edtica que vai ouvir.<\/p>\n<p>O soneto inteiro funciona como um di\u00e1logo. O c\u00e9tico ataca duas vezes, o poeta responde duas vezes, e a \u00faltima resposta, guardada para os versos finais, desfaz a acusa\u00e7\u00e3o de loucura: <strong>s\u00f3 quem ama consegue ouvir as estrelas<\/strong>.<\/p>\n<p>Nos dois primeiros versos do soneto XIII de <em>Via L\u00e1ctea<\/em>, a fala do interlocutor aparece completa, entre aspas:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cOra (direis) ouvir estrelas! Certo<br \/>\nPerdeste o senso!\u201d<\/p><\/blockquote>\n<h2>Onde o verso aparece em <em>Via L\u00e1ctea<\/em><\/h2>\n<p><em>Poesias<\/em> foi o livro de estreia de Bilac. Ele tinha 23 anos e ainda estudava medicina no Rio de Janeiro quando o volume saiu, com sucesso imediato, como lembra o cr\u00edtico Ivan Teixeira no ensaio <a href=\"https:\/\/revistas.usp.br\/revusp\/article\/view\/35224\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">&#8220;Artif\u00edcio, a ascens\u00e3o e a queda de Olavo Bilac&#8221;, publicado na <em>Revista USP<\/em><\/a> em 2002. Segundo Teixeira, o livro, originalmente composto por <em>Pan\u00f3plias<\/em>, <em>Via L\u00e1ctea<\/em> e <em>Sar\u00e7as de Fogo<\/em>, consolidou o <a href=\"https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/qual-e-o-principal-representante-da-poesia-parnasiana-brasileira\/\">Parnasianismo<\/a> no Brasil. O volume ganhou novas partes na edi\u00e7\u00e3o definitiva de 1902, e em 1913 Bilac era considerado o maior poeta brasileiro vivo.<\/p>\n<p><em>Via L\u00e1ctea<\/em> re\u00fane 35 sonetos numerados, sem t\u00edtulo, dirigidos a uma mulher amada. As estrelas aparecem desde o in\u00edcio: no soneto I, o poeta v\u00ea a amada subir &#8220;Entre as estrelas tr\u00eamulas&#8221; por &#8220;Uma infinita e cintilante escada&#8221;. No soneto XII, imediatamente anterior, ele sonha que corre ao encontro dela e uma estrela lhe diz: &#8220;Como \u00e9s feliz! como \u00e9s feliz, amigo, \/ Que de t\u00e3o perto vais ouvi-la e v\u00ea-la!&#8221;. O soneto XIII inverte a cena: agora \u00e9 o poeta quem escuta as estrelas, e algu\u00e9m de fora ri dele. O seguinte, o XIV, j\u00e1 muda de assunto e fala &#8220;Desse outro amor que nos perverte e engana&#8221;.<\/p>\n<p>Este \u00e9 o soneto XIII completo, no texto da edi\u00e7\u00e3o de <em>Poesias:<\/em><\/p>\n<blockquote><p>\u201cOra (direis) ouvir estrelas! Certo<br \/>\nPerdeste o senso!\u201d E eu vos direi, no entanto,<br \/>\nQue, para ouvi-las, muita vez desperto<br \/>\nE abro as janelas, p\u00e1lido de espanto&#8230;<\/p>\n<p>E conversamos toda a noite, enquanto<br \/>\nA via-l\u00e1ctea, como um p\u00e1lio aberto,<br \/>\nCintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,<br \/>\nInda as procuro pelo c\u00e9u deserto.<\/p>\n<p>Direis agora: \u201cTresloucado amigo!<br \/>\nQue conversas com elas? Que sentido<br \/>\nTem o que dizem, quando est\u00e3o contigo?\u201d<\/p>\n<p>E eu vos direi: \u201cAmai para entend\u00ea-las!<br \/>\nPois s\u00f3 quem ama pode ter ouvido<br \/>\nCapaz de ouvir e de entender estrelas\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<h2>O que o soneto diz sobre amor e loucura<\/h2>\n<p>A primeira resposta do poeta n\u00e3o discute: descreve. Ele conta que acorda, abre as janelas &#8220;p\u00e1lido de espanto&#8221;, conversa com as estrelas a noite inteira e, quando o sol nasce, ainda as procura &#8220;pelo c\u00e9u deserto&#8221;. O interlocutor insiste, agora chamando-o de &#8220;Tresloucado amigo&#8221;, e quer saber que sentido tem essa conversa. A segunda resposta \u00e9 o conselho final, &#8220;Amai para entend\u00ea-las!&#8221;, que transforma a suposta loucura em privil\u00e9gio de quem ama.<\/p>\n<p>Para a pesquisadora K\u00e1tia Rose Pinho, em artigo na revista <a href=\"https:\/\/revistas.ufrj.br\/index.php\/tm\/article\/view\/10795\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em>Terceira Margem<\/em>, da UFRJ<\/a> (2011), o interlocutor &#8220;pode ser tomado como a voz do senso comum, que o escarnece por &#8216;ouvir estrelas'&#8221;. Sobre o fecho, ela escreve: &#8220;\u00c9 preciso estar afei\u00e7oado, perpassado de afeto para entender o que quer que seja&#8221;.<\/p>\n<p>A forma \u00e9 rigorosa. Paulo da Silva Lima, em estudo publicado na revista <a href=\"https:\/\/saber.unioeste.br\/index.php\/travessias\/article\/view\/2747\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em>Travessias<\/em>, da Unioeste<\/a>, descreve o poema como <a href=\"https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/o-que-e-um-soneto-guia\/\">soneto<\/a> petrarquiano (dois quartetos e dois tercetos), todo em decass\u00edlabos, versos de dez s\u00edlabas po\u00e9ticas, com rimas no esquema ABAB, BABA, CDC e EDE. O desvario que o poema defende est\u00e1, portanto, contado em versos medidos. Ivan Teixeira ajuda a entender esse contraste: no ensaio da <em>Revista USP<\/em>, ele descreve Bilac como &#8220;um poeta de aguda consci\u00eancia ret\u00f3rica, o que lhe permitiu programar efeitos, em vez de expressar sentimentos&#8221;, desde que parecesse o contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>Outro detalhe do livro ajuda a ler o soneto XIII: no \u00faltimo poema da s\u00e9rie, o XXXV, o poeta volta a responder a quem zomba dele, agora sem disfarce: &#8220;Pouco me pesa que mofeis sorrindo \/ Destes versos pur\u00edssimos e santos&#8221;.<\/p>\n<h2>Por que o verso continua citado<\/h2>\n<p>O soneto tamb\u00e9m circula com o t\u00edtulo &#8220;Ouvir estrelas&#8221;, que n\u00e3o existe no livro: em <em>Via L\u00e1ctea<\/em>, o poema \u00e9 apenas o n\u00famero XIII. A fama rendeu par\u00f3dia. O poeta Bastos Tigre escreveu outro &#8220;Ouvir estrelas&#8221;, no mesmo molde, sobre as estrelas do cinema de Hollywood. Em vez de &#8220;Amai para entend\u00ea-las!&#8221;, o conselho final de Tigre \u00e9 &#8220;Amigo, aprende ingl\u00eas para entend\u00ea-las&#8221;, segundo o estudo de Lima, que compara os dois sonetos verso a verso.<\/p>\n<p>O prest\u00edgio de Bilac tamb\u00e9m fez dele alvo dos modernistas. Teixeira lembra que Jos\u00e9 Ver\u00edssimo considerou alguns de seus sonetos o ponto mais alto da beleza nessa forma no Brasil e que, anos depois, M\u00e1rio de Andrade, no &#8220;Pref\u00e1cio Interessant\u00edssimo&#8221; de <em>Pauliceia Desvairada<\/em>, op\u00f4s versos pr\u00f3prios aos de Bilac, apresentados como &#8220;melodia&#8221; ultrapassada. Para o cr\u00edtico, a poesia bilaquiana hoje &#8220;oscila entre o apre\u00e7o de leitores que ainda n\u00e3o incorporaram a renova\u00e7\u00e3o modernista e a recusa de intelectuais que ainda n\u00e3o se libertaram do padr\u00e3o modernista&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O verso &#8220;Ora (direis) ouvir estrelas!&#8221;, do soneto XIII de Via L\u00e1ctea, de Olavo Bilac (Poesias, 1888), \u00e9 a fala de um c\u00e9tico imagin\u00e1rio. O texto explica o contexto na s\u00e9rie, a forma, a leitura de estudiosos, a par\u00f3dia de Bastos Tigre e onde ler.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":4609,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[1661,1423,1597,1702],"class_list":["post-4593","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-poemas","tag-frase-do-dia","tag-olavo-bilac","tag-poesia-brasileira","tag-via-lactea"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.7 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Ora (direis) ouvir estrelas: o soneto de Olavo Bilac<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Ouvir estrelas: o soneto XIII de Via L\u00e1ctea (1888), de Olavo Bilac, come\u00e7a com a zombaria de um c\u00e9tico. 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