{"id":4521,"date":"2026-10-15T07:30:40","date_gmt":"2026-10-15T10:30:40","guid":{"rendered":"https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/?p=4521"},"modified":"2026-10-14T23:55:18","modified_gmt":"2026-10-15T02:55:18","slug":"atar-duas-pontas-vida-machado-assis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/atar-duas-pontas-vida-machado-assis\/","title":{"rendered":"&#8220;Atar as duas pontas da vida&#8221;: o plano do narrador de Dom Casmurro, de Machado de Assis, que fracassa na frase seguinte"},"content":{"rendered":"<p>&#8220;O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolesc\u00eancia.&#8221; A frase est\u00e1 no cap\u00edtulo II de <a href=\"https:\/\/literaturaonline.com.br\/livro\/dom-casmurro\/\"><em>Dom Casmurro<\/em><\/a>, romance que <a href=\"https:\/\/literaturaonline.com.br\/autor\/machado-de-assis\/\">Machado de Assis<\/a> publicou em <strong>1899<\/strong>. Quem fala n\u00e3o \u00e9 o autor, mas o narrador, <strong>Bento Santiago<\/strong>, um homem j\u00e1 velho que vive recluso no sub\u00farbio carioca do Engenho Novo e decide contar a pr\u00f3pria vida.<\/p>\n<p>A frase anuncia um plano: juntar a velhice e a juventude, como quem amarra as duas pontas de um fio. O plano fracassa j\u00e1 na frase seguinte, quando o pr\u00f3prio narrador admite: &#8220;Pois, senhor, n\u00e3o consegui recompor o que foi nem o que fui.&#8221; O romance inteiro nasce dessa confiss\u00e3o de fracasso, e \u00e9 por isso que o trecho ajuda a entender o tipo de narrador que conduz o livro.<\/p>\n<p>O trecho completo aparece no cap\u00edtulo II, intitulado &#8220;Do livro&#8221;, conforme a primeira edi\u00e7\u00e3o (H. Garnier, 1899), aqui com a grafia atualizada:<\/p>\n<blockquote><p>O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolesc\u00eancia. Pois, senhor, n\u00e3o consegui recompor o que foi nem o que fui. Em tudo, se o rosto \u00e9 igual, a fisionomia \u00e9 diferente. Se s\u00f3 me faltassem os outros, v\u00e1; um homem consola-se mais ou menos das pessoas que perde; mas falto eu mesmo, e esta lacuna \u00e9 tudo.<\/p><\/blockquote>\n<h2>Onde a frase aparece em <em>Dom Casmurro<\/em><\/h2>\n<p>O livro come\u00e7a com dois cap\u00edtulos curtos em que o narrador se apresenta. No primeiro, ele explica o t\u00edtulo: um rapaz do bairro recitava versos para ele no trem, viu-o cochilar, ficou ofendido e passou a cham\u00e1-lo de &#8220;Dom Casmurro&#8221;. A alcunha pegou entre os vizinhos, e o narrador a adotou como nome da obra. &#8220;Casmurro&#8221;, explica ele, est\u00e1 no sentido popular de homem calado e metido consigo.<\/p>\n<p>No segundo cap\u00edtulo, ele conta os motivos que o levaram a escrever. Anos antes, mandara construir no Engenho Novo uma <strong>c\u00f3pia da casa da inf\u00e2ncia<\/strong>, na antiga rua de Matacavalos: o mesmo sobrado de tr\u00eas janelas de frente, as mesmas alcovas e salas, as mesmas pinturas no teto e nas paredes, com medalh\u00f5es de C\u00e9sar, Augusto, Nero e Massinissa. \u00c9 logo depois de descrever essa casa que vem a frase sobre atar as duas pontas da vida. A reconstru\u00e7\u00e3o, portanto, foi primeiro de tijolo e tinta, e n\u00e3o deu certo.<\/p>\n<p>O narrador conta ent\u00e3o que tentou outros projetos, como um livro de jurisprud\u00eancia, filosofia e pol\u00edtica e uma &#8220;Hist\u00f3ria dos Sub\u00farbios&#8221;, e desistiu de todos. At\u00e9 que os bustos pintados na parede &#8220;entraram a falar-me&#8221; e o aconselharam a contar os tempos idos. Ele espera que a narra\u00e7\u00e3o lhe d\u00ea &#8220;a ilus\u00e3o&#8221; de reviver o passado e evoca, como fez &#8220;o poeta do <em>Fausto<\/em>&#8221; (Goethe), as sombras do passado: &#8220;A\u00ed vindes outra vez, inquietas sombras&#8230;?&#8221;. O cap\u00edtulo termina com o an\u00fancio de que a evoca\u00e7\u00e3o come\u00e7a &#8220;por uma c\u00e9lebre tarde de novembro&#8221;, e a partir do cap\u00edtulo III o velho Bento passa a contar a adolesc\u00eancia de Bentinho, como era chamado quando menino.<\/p>\n<h2>O que a frase revela sobre o narrador<\/h2>\n<p>Lida em sequ\u00eancia, a passagem mostra um homem que j\u00e1 sabe que n\u00e3o conseguiu o que queria antes mesmo de come\u00e7ar a escrever. A casa copiada tem o mesmo rosto da antiga, mas n\u00e3o a mesma &#8220;fisionomia&#8221;; a imagem que ele usa \u00e9 a da tinta posta na barba e no cabelo, que conserva s\u00f3 a apar\u00eancia, porque &#8220;o interno n\u00e3o aguenta tinta&#8221;. O que falta, diz ele, n\u00e3o s\u00e3o apenas as pessoas que perdeu ao longo da vida: &#8220;falto eu mesmo, e esta lacuna \u00e9 tudo&#8221;.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 a chave da frase. Atar as duas pontas da vida seria reencontrar, na velhice, o menino que ele foi. Escrever o livro passa a ser a segunda tentativa, depois da casa, e o leitor \u00e9 avisado de sa\u00edda de que ela tamb\u00e9m pode falhar. O narrador, por isso, n\u00e3o promete a verdade dos fatos: promete uma reconstru\u00e7\u00e3o feita pela mem\u00f3ria de algu\u00e9m que <strong>n\u00e3o se reconhece no pr\u00f3prio passado<\/strong>.<\/p>\n<p>O professor Marco C\u00edcero Cavallini, da Universidade Estadual de Maring\u00e1, comenta o trecho num artigo publicado em 2008 na <a href=\"https:\/\/periodicos.fclar.unesp.br\/letras\/article\/view\/1191\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Revista de Letras, da Unesp<\/a>: &#8220;H\u00e1 aqui, al\u00e9m de uma consci\u00eancia da dificuldade de se restaurar o passado, uma obsess\u00e3o e um enigma, obsess\u00e3o pelo vivido e o enigma do pr\u00f3prio narrador n\u00e3o se reconhecer em suas reminisc\u00eancias.&#8221; Para ele, o narrador &#8220;n\u00e3o \u00e9 nada claro nas suas inten\u00e7\u00f5es&#8221;.<\/p>\n<p>Na <a href=\"https:\/\/linguasagem.ufscar.br\/index.php\/linguasagem\/article\/view\/28\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Revista Linguasagem, da UFSCar<\/a>, Ver\u00f4nica Franciele Seidel l\u00ea o romance como uma autobiografia de fic\u00e7\u00e3o, em que o velho que escreve (Dom Casmurro) e o menino de quem ele fala (Bentinho) s\u00e3o a mesma pessoa em tempos diferentes. Diante do trecho do cap\u00edtulo II, ela conclui que &#8220;j\u00e1 \u00e9 poss\u00edvel verificar uma fal\u00eancia do narrador\/protagonista em atingir seu objetivo de &#8216;atar as duas pontas da vida'&#8221;.<\/p>\n<p>Esse ponto tem consequ\u00eancia para o resto do livro. <em>Dom Casmurro<\/em> \u00e9 conhecido pela d\u00favida sobre Capitu, o grande amor de Bentinho, e essa d\u00favida existe porque tudo o que o leitor sabe dela passa pela mem\u00f3ria de Bento Santiago. A frase do cap\u00edtulo II \u00e9 o primeiro aviso de que essa mem\u00f3ria \u00e9 incompleta e interessada. \u00c9 o que os estudos de literatura chamam de <strong>narrador n\u00e3o confi\u00e1vel<\/strong>: aquele cuja vers\u00e3o dos fatos o leitor n\u00e3o pode aceitar sem desconfiar.<\/p>\n<h2>Onde ler <em>Dom Casmurro<\/em><\/h2>\n<p>O romance est\u00e1 em dom\u00ednio p\u00fablico. O texto integral pode ser lido de gra\u00e7a na <a href=\"https:\/\/literaturaonline.com.br\/livro\/dom-casmurro\/\">p\u00e1gina de <em>Dom Casmurro<\/em> no Literatura Online<\/a>, dividido em cap\u00edtulos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A frase do cap\u00edtulo II de Dom Casmurro, dita pelo narrador Bento Santiago, anuncia um plano que fracassa na frase seguinte e avisa o leitor sobre a mem\u00f3ria que conduz o romance.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":4528,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[1357,1661,1264,1266],"class_list":["post-4521","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entendendo-a-literatura","tag-dom-casmurro","tag-frase-do-dia","tag-machado-de-assis","tag-realismo"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.7 - 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