{"id":4472,"date":"2026-10-13T20:02:22","date_gmt":"2026-10-13T23:02:22","guid":{"rendered":"https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/?p=4472"},"modified":"2026-10-13T19:12:41","modified_gmt":"2026-10-13T22:12:41","slug":"morte-edgar-allan-poe-misterio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/morte-edgar-allan-poe-misterio\/","title":{"rendered":"Edgar Allan Poe foi encontrado delirando e com roupas de outro homem, e sua morte segue sem explica\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Na tarde de 3 de outubro de 1849, um homem foi encontrado semiconsciente numa taverna de Baltimore, nos Estados Unidos, usada naquele dia como local de vota\u00e7\u00e3o. Vestia roupas baratas que n\u00e3o eram suas e n\u00e3o conseguia explicar como tinha chegado ali. Era <strong>Edgar Allan Poe<\/strong>, o autor de &#8220;O Corvo&#8221;. Quatro dias depois, ele <strong>morreu num hospital da cidade, aos 40 anos<\/strong>, sem nunca contar o que aconteceu.<\/p>\n<p>Mais de 175 anos depois, <strong>a causa da morte de Poe continua desconhecida<\/strong>. N\u00e3o existe certid\u00e3o de \u00f3bito, os registros do hospital se perderam e o principal relato sobre os \u00faltimos dias do escritor foi escrito pelo m\u00e9dico que o atendeu, anos depois e com vers\u00f5es diferentes. Desde ent\u00e3o, pesquisadores j\u00e1 propuseram alcoolismo, fraude eleitoral, espancamento, raiva e at\u00e9 um tumor no c\u00e9rebro.<\/p>\n<p>O mist\u00e9rio combina com a obra de quem ajudou a criar o conto policial e aperfei\u00e7oou o conto de terror. No Brasil, Poe foi lido por gera\u00e7\u00f5es a partir de duas tradu\u00e7\u00f5es c\u00e9lebres de &#8220;O Corvo&#8221;: a de Machado de Assis, de 1883, e a de Fernando Pessoa, de 1924.<\/p>\n<h2>Os \u00faltimos dias de Poe<\/h2>\n<p>Poe saiu de Richmond, na Virg\u00ednia, de barco, em 27 de setembro de 1849, e chegou a Baltimore no dia seguinte. O plano era seguir para a Filad\u00e9lfia e depois para Nova York, onde buscaria a tia e sogra, Maria Clemm. Ele estava noivo de Sarah Elmira Shelton, uma vi\u00fava rica de Richmond que tinha sido sua namorada na adolesc\u00eancia.<\/p>\n<p>Entre 28 de setembro e 3 de outubro, n\u00e3o h\u00e1 nenhum registro confi\u00e1vel de onde Poe esteve. Ele reaparece no Ryan&#8217;s 4th Ward Polls, tamb\u00e9m chamado de Gunner&#8217;s Hall, uma taverna que funcionava como se\u00e7\u00e3o eleitoral. Um homem chamado Joseph W. Walker o reconheceu e mandou um bilhete ao m\u00e9dico Joseph E. Snodgrass, conhecido do escritor. A nota, preservada pela <a href=\"https:\/\/www.eapoe.org\/geninfo\/poedeath.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Edgar Allan Poe Society of Baltimore<\/a>, dizia:<\/p>\n<blockquote><p><em>&#8220;H\u00e1 um cavalheiro, bastante maltratado, nas urnas do 4\u00ba distrito de Ryan, que atende pelo nome de Edgar A. Poe e que parece em grande afli\u00e7\u00e3o. Ele diz que o conhece, e eu lhe asseguro que precisa de ajuda imediata.&#8221;<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Poe foi levado ao Washington College Hospital. Segundo o m\u00e9dico John J. Moran, ele alternava momentos de lucidez com del\u00edrio e n\u00e3o conseguia dizer o que tinha acontecido com ele nem com suas roupas. Na v\u00e9spera da morte, chamou repetidamente por um certo &#8220;Reynolds&#8221;, nome que nenhum pesquisador conseguiu identificar com seguran\u00e7a. Morreu na madrugada de domingo, <strong>7 de outubro de 1849<\/strong>. Pela carta que Moran escreveu em novembro daquele ano, as \u00faltimas palavras foram &#8220;Senhor, ajude minha pobre alma&#8221;.<\/p>\n<p>Jornais de Baltimore registraram a causa como &#8220;congest\u00e3o do c\u00e9rebro&#8221;, express\u00e3o gen\u00e9rica da \u00e9poca. Nenhuma certid\u00e3o de \u00f3bito foi encontrada at\u00e9 hoje.<\/p>\n<h2>As teorias sobre a morte de Edgar Allan Poe<\/h2>\n<ul>\n<li>A explica\u00e7\u00e3o mais antiga \u00e9 o \u00e1lcool. Snodgrass, que era militante da causa contra a bebida, descreveu o escritor como v\u00edtima de uma bebedeira. Moran, anos depois, negou que Poe estivesse embriagado. Poe tinha fama de beber, e um m\u00e9dico de Nova York chegou a lhe dizer que uma les\u00e3o cerebral explicava suas rea\u00e7\u00f5es ruins ao \u00e1lcool.<\/li>\n<li>A teoria mais citada \u00e9 a do <strong>&#8220;cooping&#8221;<\/strong>, uma fraude eleitoral comum em Baltimore no s\u00e9culo 19. Gangues sequestravam pessoas, trocavam suas roupas e as obrigavam a votar v\u00e1rias vezes no mesmo candidato, em se\u00e7\u00f5es diferentes, muitas vezes embebedando as v\u00edtimas. O fato de Poe ter sido achado numa se\u00e7\u00e3o eleitoral, em dia de elei\u00e7\u00e3o e com roupas de outra pessoa, sustenta essa hip\u00f3tese, defendida desde a d\u00e9cada de 1870.<\/li>\n<li>Em 1996, o m\u00e9dico R. Michael Benitez, do Centro M\u00e9dico da Universidade de Maryland, apresentou numa confer\u00eancia m\u00e9dica a hip\u00f3tese de raiva, com base nos sintomas descritos por Moran. A ideia ganhou repercuss\u00e3o nacional, mas n\u00e3o h\u00e1 registro de mordida de animal. Em 1999, o pesquisador Albert Donnay sugeriu intoxica\u00e7\u00e3o por mon\u00f3xido de carbono do g\u00e1s usado na ilumina\u00e7\u00e3o; testes em fios de cabelo do escritor foram inconclusivos.<\/li>\n<li>O escritor Matthew Pearl, autor de um romance sobre a morte de Poe, levantou a hip\u00f3tese de tumor cerebral. Quando o corpo foi exumado em 1875 para ser transferido a um novo t\u00famulo, trabalhadores viram uma massa solta dentro do cr\u00e2nio, que os jornais da \u00e9poca chamaram de c\u00e9rebro. Segundo a <a href=\"https:\/\/www.smithsonianmag.com\/history\/still-mysterious-death-edgar-allan-poe-180952936\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Smithsonian Magazine<\/a>, um patologista forense consultado por Pearl disse que a massa poderia ser um tumor cerebral calcificado, e n\u00e3o o c\u00e9rebro.<\/li>\n<li>H\u00e1 ainda a hip\u00f3tese de agress\u00e3o. No livro <em>Midnight Dreary<\/em>, o bi\u00f3grafo John Evangelist Walsh prop\u00f4s que os irm\u00e3os da noiva de Poe, contr\u00e1rios ao casamento, o teriam amea\u00e7ado e depois espancado em Baltimore. A revista <em>American Literature<\/em> classificou a hist\u00f3ria como &#8220;apenas plaus\u00edvel, n\u00e3o totalmente convincente&#8221; (em tradu\u00e7\u00e3o livre). Chris Semtner, curador do Poe Museum, em Richmond, resumiu o impasse \u00e0 Smithsonian: &#8220;Nunca me convenci completamente de nenhuma teoria&#8221;.<\/li>\n<\/ul>\n<h2>O obitu\u00e1rio que criou o mito<\/h2>\n<p>A fama sombria de Poe tamb\u00e9m nasceu ali. Em 9 de outubro de 1849, o jornal <em>New York Tribune<\/em> publicou um obitu\u00e1rio assinado por &#8220;Ludwig&#8221; que come\u00e7ava assim: &#8220;Edgar Allan Poe est\u00e1 morto. Morreu em Baltimore anteontem. Este an\u00fancio vai surpreender muitos, mas poucos ficar\u00e3o tristes com ele&#8221; (em tradu\u00e7\u00e3o livre).<\/p>\n<p>O autor era Rufus Griswold, cr\u00edtico e antigo desafeto de Poe, que acabou como seu executor liter\u00e1rio. Nos anos seguintes, Griswold publicou uma biografia que apresentava o escritor como b\u00eabado, louco e sem car\u00e1ter, com cartas adulteradas. O retrato era em grande parte falso, mas ajudou a vender os livros de Poe e a fundir a imagem do autor com a dos narradores perturbados de seus contos.<\/p>\n<h2>O t\u00famulo e o visitante misterioso<\/h2>\n<p>Poe foi enterrado no cemit\u00e9rio de Westminster Hall, em Baltimore, numa cerim\u00f4nia r\u00e1pida, com poucas pessoas. Em 1875, os restos mortais foram levados para um monumento perto da entrada do cemit\u00e9rio, onde hoje tamb\u00e9m est\u00e3o Maria Clemm e Virginia, a mulher do escritor, morta em 1847.<\/p>\n<p>O mist\u00e9rio ganhou um cap\u00edtulo extra no s\u00e9culo 20. Por d\u00e9cadas, um visitante desconhecido, apelidado de &#8220;Poe Toaster&#8221;, deixou no t\u00famulo, na madrugada do anivers\u00e1rio do escritor (19 de janeiro), uma garrafa de conhaque e tr\u00eas rosas. A tradi\u00e7\u00e3o terminou em 2009, ano do bicenten\u00e1rio de nascimento de Poe, sem que a identidade do visitante fosse revelada.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os \u00faltimos dias de Poe em Baltimore, as teorias sobre sua morte e o obitu\u00e1rio de Griswold.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":4493,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[1637,1638,1250],"class_list":["post-4472","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-curiosidades","tag-edgar-allan-poe","tag-literatura-norte-americana","tag-misterios"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.7 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>O mist\u00e9rio da morte de Edgar Allan Poe, 177 anos depois<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"A morte de Edgar Allan Poe, em 1849, nunca foi explicada. 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