{"id":4098,"date":"2026-10-02T09:19:45","date_gmt":"2026-10-02T12:19:45","guid":{"rendered":"https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/?p=4098"},"modified":"2026-10-02T00:29:47","modified_gmt":"2026-10-02T03:29:47","slug":"jose-alencar-pedro-ii-senado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/jose-alencar-pedro-ii-senado\/","title":{"rendered":"Por que D. Pedro II barrou Jos\u00e9 de Alencar no Senado, mesmo com o escritor em primeiro lugar"},"content":{"rendered":"<p>Em 1869, <a href=\"https:\/\/literaturaonline.com.br\/autor\/jose-de-alencar\/\">Jos\u00e9 de Alencar<\/a> j\u00e1 era o romancista mais famoso do Brasil, autor de <em><a href=\"https:\/\/literaturaonline.com.br\/livro\/o-guarani\/\">O Guarani<\/a><\/em> e <em><a href=\"https:\/\/literaturaonline.com.br\/livro\/iracema\/\">Iracema<\/a><\/em>, e ministro da Justi\u00e7a do Imp\u00e9rio. Faltava realizar o maior sonho pol\u00edtico: uma cadeira vital\u00edcia no Senado. Ele disputou a elei\u00e7\u00e3o pelo Cear\u00e1 e <strong>foi o candidato mais votado, com 1.185 votos<\/strong>. Mesmo assim, n\u00e3o virou senador. Quem o barrou foi D. Pedro II.<\/p>\n<p>A recusa do imperador, em 1870, encerrou a carreira pol\u00edtica do escritor e transformou uma antiga rivalidade liter\u00e1ria numa inimizade que durou at\u00e9 a morte de Alencar, sete anos depois. A hist\u00f3ria mistura vaidade, regras n\u00e3o escritas da monarquia e um poema \u00e9pico que o imperador adorava e o jovem Alencar destruiu.<\/p>\n<h2>Do romance \u00e0 pol\u00edtica<\/h2>\n<p>Alencar nunca foi s\u00f3 romancista. Formado em direito, entrou para a pol\u00edtica em 1861, quando se elegeu deputado pelo Cear\u00e1 pelo Partido Conservador, e voltou a ser eleito outras vezes. Em 1868, quando o visconde de Itabora\u00ed formou um gabinete conservador, foi nomeado <strong>ministro da Justi\u00e7a<\/strong>, um dos postos mais altos do governo.<\/p>\n<p>Para um pol\u00edtico do Imp\u00e9rio, o passo seguinte natural era o Senado. Os senadores n\u00e3o enfrentavam novas elei\u00e7\u00f5es, tinham prest\u00edgio e influ\u00eancia sobre os rumos do pa\u00eds, e muitos deles chegavam a presidir gabinetes.<\/p>\n<h2>Como funcionava a escolha de senadores no Imp\u00e9rio<\/h2>\n<p>No Brasil imperial, o eleitor n\u00e3o escolhia o senador diretamente. Para cada vaga, a elei\u00e7\u00e3o formava uma lista com tr\u00eas nomes, e o imperador escolhia um deles. O cargo era vital\u00edcio e estava entre os mais prestigiados do pa\u00eds. Em 1869 surgiram <strong>duas vagas pelo Cear\u00e1<\/strong>, e a lista final tinha seis nomes. Alencar, com 40 anos, a idade m\u00ednima exigida, ficou em primeiro lugar.<\/p>\n<p>A vaga tinha tamb\u00e9m um peso familiar. O pai do escritor, o padre Jos\u00e9 Martiniano de Alencar, tinha sido <a href=\"https:\/\/www25.senado.leg.br\/web\/senadores\/senador\/-\/perfil\/1958\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">senador pelo Cear\u00e1<\/a> de 1832 at\u00e9 morrer, em 1860.<\/p>\n<p>Ser o mais votado, por\u00e9m, n\u00e3o garantia nada. D. Pedro II deixou o nome de Alencar de fora e escolheu outros nomes da lista.<\/p>\n<h2>Por que D. Pedro II n\u00e3o escolheu Alencar<\/h2>\n<figure id=\"attachment_4126\" aria-describedby=\"caption-attachment-4126\" style=\"width: 1600px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-4126\" src=\"https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Por-que-D.-Pedro-II-barrou-Jose-de-Alencar-no-Senado.webp\" alt=\"Montagem com Jos\u00e9 de Alencar de olhos tarjados e D. Pedro II diante da bandeira do Imp\u00e9rio em s\u00e9pia, ilustrando o veto do imperador ao escritor no Senado\" width=\"1600\" height=\"900\" srcset=\"https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Por-que-D.-Pedro-II-barrou-Jose-de-Alencar-no-Senado.webp 1600w, https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Por-que-D.-Pedro-II-barrou-Jose-de-Alencar-no-Senado-300x169.webp 300w, https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Por-que-D.-Pedro-II-barrou-Jose-de-Alencar-no-Senado-1024x576.webp 1024w, https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Por-que-D.-Pedro-II-barrou-Jose-de-Alencar-no-Senado-768x432.webp 768w, https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Por-que-D.-Pedro-II-barrou-Jose-de-Alencar-no-Senado-1536x864.webp 1536w, https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Por-que-D.-Pedro-II-barrou-Jose-de-Alencar-no-Senado-150x84.webp 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 1600px) 100vw, 1600px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-4126\" class=\"wp-caption-text\">Jos\u00e9 de Alencar e D. Pedro II diante da bandeira do Imp\u00e9rio: em 1869, o romancista foi o mais votado na elei\u00e7\u00e3o para o Senado pelo Cear\u00e1, mas o imperador n\u00e3o o escolheu. (Montagem sobre retratos em dom\u00ednio p\u00fablico)<\/figcaption><\/figure>\n<p>A explica\u00e7\u00e3o mais repetida \u00e9 a de que o imperador teria achado o escritor jovem demais. Em suas <em>Reminisc\u00eancias<\/em>, o Visconde de Taunay registrou que D. Pedro II teria dito a Alencar, ao saber da candidatura: &#8220;n\u00e3o me apresentava agora; o sr. \u00e9 muito mo\u00e7o\u2026&#8221;. A frase virou anedota, mas o historiador Luiz Viana Filho, ao examinar documentos da \u00e9poca, classificou essa vers\u00e3o como &#8220;a mais corrente, e tamb\u00e9m a mais inveross\u00edmil&#8221;.<\/p>\n<p>Segundo Viana Filho, no artigo &#8220;D. Pedro II e Alencar&#8221;, publicado no <a href=\"https:\/\/museuimperial.museus.gov.br\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/1975-Vol.36.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Anu\u00e1rio do Museu Imperial<\/a> em 1975, o motivo real era uma regra que o imperador defendia: <strong>ministros em exerc\u00edcio n\u00e3o deveriam se candidatar ao Senado<\/strong>. O imperador j\u00e1 tinha manifestado essa opini\u00e3o ao gabinete, e Alencar sabia disso quando decidiu concorrer.<\/p>\n<p>Alencar via a quest\u00e3o de outro modo. Para ele, a Coroa n\u00e3o tinha o direito de se opor \u00e0 candidatura de algu\u00e9m escolhido pelos eleitores. Depois das elei\u00e7\u00f5es, deixou o minist\u00e9rio, e o rompimento com o imperador se tornou definitivo.<\/p>\n<h2>A briga come\u00e7ou numa pol\u00eamica liter\u00e1ria<\/h2>\n<p>O desentendimento tinha ra\u00edzes mais antigas. Em 1856, Gon\u00e7alves de Magalh\u00e3es publicou <em>A Confedera\u00e7\u00e3o dos Tamoios<\/em>, poema \u00e9pico sobre a resist\u00eancia ind\u00edgena no s\u00e9culo 16. D. Pedro II gostava tanto da obra que, segundo Viana Filho, <strong>mandou imprimir uma edi\u00e7\u00e3o por conta pr\u00f3pria<\/strong> para distribuir entre amigos e letrados.<\/p>\n<p>Alencar, ent\u00e3o com 27 anos e ainda pouco conhecido, publicou no <em>Di\u00e1rio do Rio de Janeiro<\/em> uma s\u00e9rie de cartas assinadas com o pseud\u00f4nimo &#8220;Ig&#8221;, criticando duramente o poema. A pol\u00eamica ganhou os jornais, e o pr\u00f3prio imperador entrou no debate, tamb\u00e9m sob pseud\u00f4nimo, para defender o poeta, sem conseguir virar o jogo.<\/p>\n<p>No ano seguinte, Alencar lan\u00e7ou <em>O Guarani<\/em>, e mais tarde <em>Iracema<\/em> (1865), mostrando na pr\u00e1tica como achava que a literatura deveria tratar o tema ind\u00edgena.<\/p>\n<h2>Cartas ao imperador e vingan\u00e7a em romance<\/h2>\n<p>Mesmo antes da disputa pelo Senado, Alencar j\u00e1 se dirigia diretamente ao monarca. Em 1865, come\u00e7ou a publicar as <em>Cartas de Erasmo<\/em>, textos pol\u00edticos endere\u00e7ados a D. Pedro II, com cr\u00edticas ao modo como o imperador exercia o poder. A primeira s\u00e9rie, <em>Ao Imperador<\/em>, sa\u00eda \u00e0s quintas-feiras, em novembro daquele ano, segundo estudo da pesquisadora Cristina Ferreira publicado na revista <a href=\"https:\/\/periodicos.unifesspa.edu.br\/index.php\/escritasdotempo\/article\/download\/1632\/667\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Escritas do Tempo<\/a>. As cartas tratavam de temas como a escravid\u00e3o, assunto em que Alencar defendia uma posi\u00e7\u00e3o conservadora: o fim da escravid\u00e3o como um processo natural e gradual.<\/p>\n<p>Depois de 1870, as cr\u00edticas viraram ataques. Alencar chegou a fundar o jornal <em>O Protesto<\/em>, com farpas contra o imperador, e levou a briga tamb\u00e9m para a fic\u00e7\u00e3o. Em <em>A Guerra dos Mascates<\/em> (1873), romance sobre um conflito do s\u00e9culo 18 em Pernambuco, Viana Filho identifica no governador Sebasti\u00e3o de Castro Caldas uma caricatura de D. Pedro II: um governante que manobra tudo por tr\u00e1s dos panos, sem nunca se mostrar.<\/p>\n<h2>O fim da carreira pol\u00edtica<\/h2>\n<p>Afastado do poder, Alencar se dedicou mais \u00e0 literatura nos \u00faltimos anos, enquanto a sa\u00fade piorava. Em 1877, viajou \u00e0 Europa em busca de tratamento, passando por Lisboa, Londres e Paris, sem resultado. Morreu no Rio de Janeiro em 12 de dezembro de 1877, aos 48 anos, de tuberculose.<\/p>\n<p>O escritor que o imperador n\u00e3o quis no Senado acabou mais lembrado que a maioria dos senadores do Imp\u00e9rio. Seus romances, como <em><a href=\"https:\/\/literaturaonline.com.br\/livro\/senhora\/\">Senhora<\/a><\/em> e <em><a href=\"https:\/\/literaturaonline.com.br\/livro\/luciola\/\">Luc\u00edola<\/a><\/em>, seguem presentes nas listas de leitura de escolas e vestibulares.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 1869, Jos\u00e9 de Alencar j\u00e1 era o romancista mais famoso do Brasil, autor de O Guarani e Iracema, e ministro da Justi\u00e7a do Imp\u00e9rio. 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