{"id":3536,"date":"2025-10-24T18:00:26","date_gmt":"2025-10-24T21:00:26","guid":{"rendered":"https:\/\/literaturaonline.com.br\/?p=3536"},"modified":"2026-05-23T19:04:43","modified_gmt":"2026-05-23T22:04:43","slug":"ode-triunfal-de-alvaro-de-campos-poema-completo-e-analise","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/ode-triunfal-de-alvaro-de-campos-poema-completo-e-analise\/","title":{"rendered":"Ode Triunfal, de \u00c1lvaro de Campos &#8211; Poema Completo e An\u00e1lise"},"content":{"rendered":"<p>O poema &#8220;Ode Triunfal&#8221;, de \u00c1lvaro de Campos (<a href=\"https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/como-fernando-pessoa-morreu\/\">heter\u00f4nimo de Fernando Pessoa<\/a>), \u00e9 um hino exaltado \u00e0 modernidade, \u00e0s m\u00e1quinas e \u00e0 vida urbana industrial.<\/p>\n<p>Escrito em 1914, o texto marca o in\u00edcio da fase sensacionista do poeta, celebrando com entusiasmo febril as f\u00e1bricas, os motores, as cidades cosmopolitas e toda a energia da civiliza\u00e7\u00e3o moderna. Est\u00e3o presentes temas como a exalta\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, o sensacionismo extremo, a fus\u00e3o entre homem e m\u00e1quina, e a experi\u00eancia total da vida contempor\u00e2nea.<\/p>\n<h2>Ode Triunfal, de \u00c1lvaro de Campos (Fernando Pessoa)<\/h2>\n<blockquote class=\"poem\">\n<p>\u00c0 dolorosa luz das grandes l\u00e2mpadas el\u00e9ctricas da f\u00e1brica\u00a0<br \/>\nTenho febre e escrevo.\u00a0<br \/>\nEscrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,\u00a0<br \/>\nPara a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.<\/p>\n<p>\u00d3 rodas, \u00f3 engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno!\u00a0<br \/>\nForte espasmo retido dos maquinismos em f\u00faria!\u00a0<br \/>\nEm f\u00faria fora e dentro de mim,\u00a0<br \/>\nPor todos os meus nervos dissecados fora,\u00a0<br \/>\nPor todas as papilas fora de tudo com que eu sinto!\u00a0<br \/>\nTenho os l\u00e1bios secos, \u00f3 grandes ru\u00eddos modernos,\u00a0<br \/>\nDe vos ouvir demasiadamente de perto,\u00a0<br \/>\nE arde-me a cabe\u00e7a de vos querer cantar com um excesso\u00a0<br \/>\nDe express\u00e3o de todas as minhas sensa\u00e7\u00f5es,\u00a0<br \/>\nCom um excesso contempor\u00e2neo de v\u00f3s, \u00f3 m\u00e1quinas!<\/p>\n<p>Em febre e olhando os motores como a uma Natureza tropical &#8211;<br \/>\nGrandes tr\u00f3picos humanos de ferro e fogo e for\u00e7a &#8211;<br \/>\nCanto, e canto o presente, e tamb\u00e9m o passado e o futuro,\u00a0<br \/>\nPorque o presente \u00e9 todo o passado e todo o futuro<br \/>\nE h\u00e1 Plat\u00e3o e Virg\u00edlio dentro das m\u00e1quinas e das luzes el\u00e9ctricas\u00a0<br \/>\nS\u00f3 porque houve outrora e foram humanos Virg\u00edlio e Plat\u00e3o,<br \/>\nE peda\u00e7os do Alexandre Magno do s\u00e9culo talvez cinquenta,<br \/>\n\u00c1tomos que h\u00e3o-de ir ter febre para o c\u00e9rebro do \u00c9squilo do s\u00e9culo cem,<br \/>\nAndam por estas correias de transmiss\u00e3o e por estes \u00eambolos e por estes volantes,\u00a0<br \/>\nRugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando,<br \/>\nFazendo-me um acesso de car\u00edcias ao corpo numa s\u00f3 car\u00edcia \u00e0 alma.<\/p>\n<p>Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime!\u00a0<br \/>\nSer completo como uma m\u00e1quina!\u00a0<br \/>\nPoder ir na vida triunfante como um autom\u00f3vel \u00faltimo-modelo!\u00a0<br \/>\nPoder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto,\u00a0<br \/>\nRasgar-me todo, abrir-me completamente, tornar-me passento\u00a0<br \/>\nA todos os perfumes de \u00f3leos e calores e carv\u00f5es\u00a0<br \/>\nDesta flora estupenda, negra, artificial e insaci\u00e1vel!<\/p>\n<p>Fraternidade com todas as din\u00e2micas!<br \/>\nProm\u00edscua f\u00faria de ser parte-agente<br \/>\nDo rodar f\u00e9rreo e cosmopolita<br \/>\nDos comboios estr\u00e9nuos,<br \/>\nDa faina transportadora-de-cargas dos navios,<br \/>\nDo giro l\u00fabrico e lento dos guindastes,<br \/>\nDo tumulto disciplinado das f\u00e1bricas,<br \/>\nE do quase-sil\u00eancio ciciante e mon\u00f3tono das correias de transmiss\u00e3o!<\/p>\n<p>Horas europeias, produtoras, entaladas<br \/>\nEntre maquinismos e afazeres \u00fateis!<br \/>\nGrandes cidades paradas nos caf\u00e9s,<br \/>\nNos caf\u00e9s &#8211; o\u00e1sis de inutilidades ruidosas<br \/>\nOnde se cristalizam e se precipitam<br \/>\nOs rumores e os gestos do \u00datil<br \/>\nE as rodas, e as rodas-dentadas e as chumaceiras do Progressivo!<br \/>\nNova Minerva sem-alma dos cais e das gares!<br \/>\nNovos entusiasmos de estatura do Momento!<br \/>\nQuilhas de chapas de ferro sorrindo encostadas \u00e0s docas,<br \/>\nOu a seco, erguidas, nos planos-inclinados dos portos!<br \/>\nActividade internacional, transatl\u00e2ntica, Canadian-Pacific!<br \/>\nLuzes e febris perdas de tempo nos bares, nos hot\u00e9is,<br \/>\nNos Longchamps e nos Derbies e nos Ascots,<br \/>\nE Piccadillies e Avenues de L&#8217;Op\u00e9ra que entram<br \/>\nPela minh&#8217;alma dentro!<\/p>\n<p>H\u00e9-l\u00e1 as ruas, h\u00e9-l\u00e1 as pra\u00e7as, h\u00e9-l\u00e1-h\u00f4 la foule!<br \/>\nTudo o que passa, tudo o que p\u00e1ra \u00e0s montras!<br \/>\nComerciantes; v\u00e1rios; escrocs exageradamente bem-vestidos;<br \/>\nMembros evidentes de clubes aristocr\u00e1ticos;<br \/>\nEsqu\u00e1lidas figuras d\u00fabias; chefes de fam\u00edlia vagamente felizes\u00a0<br \/>\nE paternais at\u00e9 na corrente de oiro que atravessa o colete\u00a0<br \/>\nDe algibeira a algibeira!\u00a0<br \/>\nTudo o que passa, tudo o que passa e nunca passa!\u00a0<br \/>\nPresen\u00e7a demasiadamente acentuada das cocotes\u00a0<br \/>\nBanalidade interessante (e quem sabe o qu\u00ea por dentro?)\u00a0<br \/>\nDas burguesinhas, m\u00e3e e filha geralmente,\u00a0<br \/>\nQue andam na rua com um fim qualquer;\u00a0<br \/>\nA gra\u00e7a feminil e falsa dos pederastas que passam, lentos;\u00a0<br \/>\nE toda a gente simplesmente elegante que passeia e se mostra\u00a0<br \/>\nE afinal tem alma l\u00e1 dentro!<\/p>\n<p>(Ah, como eu desejaria ser o souteneur disto tudo!)<\/p>\n<p>A maravilhosa beleza das corrup\u00e7\u00f5es pol\u00edticas,\u00a0<br \/>\nDeliciosos esc\u00e2ndalos financeiros e diplom\u00e1ticos,\u00a0<br \/>\nAgress\u00f5es pol\u00edticas nas ruas,\u00a0<br \/>\nE de vez em quando o cometa dum regic\u00eddio\u00a0<br \/>\nQue ilumina de Prod\u00edgio e Fanfarra os c\u00e9us\u00a0<br \/>\nUsuais e l\u00facidos da Civiliza\u00e7\u00e3o quotidiana!<\/p>\n<p>Not\u00edcias desmentidas dos jornais,\u00a0<br \/>\nArtigos pol\u00edticos insinceramente sinceros,\u00a0<br \/>\nNot\u00edcias passez \u00e0-la-caisse, grandes crimes &#8211;\u00a0<br \/>\nDuas colunas deles passando para a segunda p\u00e1gina!\u00a0<br \/>\nO cheiro fresco a tinta de tipografia!<br \/>\nOs cartazes postos h\u00e1 pouco, molhados!\u00a0<br \/>\nVients-de-para\u00eetre amarelos como uma cinta branca!\u00a0<br \/>\nComo eu vos amo a todos, a todos, a todos,\u00a0<br \/>\nComo eu vos amo de todas as maneiras,\u00a0<br \/>\nCom os olhos e com os ouvidos e com o olfacto\u00a0<br \/>\nE com o tacto (o que palpar-vos representa para mim!)\u00a0<br \/>\nE com a intelig\u00eancia como uma antena que fazeis vibrar!\u00a0<br \/>\nAh, como todos os meus sentidos t\u00eam cio de v\u00f3s!<\/p>\n<p>Adubos, debulhadoras a vapor, progressos da agricultura!\u00a0<br \/>\nQu\u00edmica agr\u00edcola, e o com\u00e9rcio quase uma ci\u00eancia!\u00a0<br \/>\n\u00d3 mostru\u00e1rios dos caixeiros-viajantes,\u00a0<br \/>\nDos caixeiros-viajantes, cavaleiros-andantes da Ind\u00fastria,\u00a0<br \/>\nProlongamentos humanos das f\u00e1bricas e dos calmos escrit\u00f3rios!<\/p>\n<p>\u00d3 fazendas nas montras! \u00d3 manequins! \u00d3 \u00faltimos figurinos!<br \/>\n\u00d3 artigos in\u00fateis que toda a gente quer comprar!<br \/>\nOl\u00e1 grandes armaz\u00e9ns com v\u00e1rias sec\u00e7\u00f5es!<br \/>\nOl\u00e1 an\u00fancios el\u00e9ctricos que v\u00eam e est\u00e3o e desaparecem!<br \/>\nOl\u00e1 tudo com que hoje se constr\u00f3i, com que hoje se \u00e9 diferente de ontem!\u00a0<br \/>\nEh, cimento armado, beton de cimento, novos processos!\u00a0<br \/>\nProgressos dos armamentos gloriosamente mort\u00edferos!\u00a0<br \/>\nCoura\u00e7as, canh\u00f5es, metralhadoras, submarinos, aeroplanos!\u00a0<br \/>\nAmo-vos a todos, a tudo, como uma fera.\u00a0<br \/>\nAmo-vos carnivoramente.<br \/>\nPervertidamente e enroscando a minha vista\u00a0<br \/>\nEm v\u00f3s, \u00f3 coisas grandes, banais, \u00fateis, in\u00fateis,\u00a0<br \/>\n\u00d3 coisas todas modernas,\u00a0<br \/>\n\u00d3 minhas contempor\u00e2neas, forma actual e pr\u00f3xima\u00a0<br \/>\nDo sistema imediato do Universo!\u00a0<br \/>\nNova Revela\u00e7\u00e3o met\u00e1lica e din\u00e2mica de Deus!<\/p>\n<p>\u00d3 f\u00e1bricas, \u00f3 laborat\u00f3rios, \u00f3 music-halls, \u00f3 Luna-Parks,\u00a0<br \/>\n\u00d3 coura\u00e7ados, \u00f3 pontes, \u00f3 docas flutuantes &#8211;\u00a0<br \/>\nNa minha mente turbulenta e encandescida\u00a0<br \/>\nPossuo-vos como a uma mulher bela,\u00a0<br \/>\nCompletamente vos possuo como a uma mulher bela que n\u00e3o se ama,\u00a0<br \/>\nQue se encontra casualmente e se acha interessant\u00edssima.<\/p>\n<p>Eh-l\u00e1-h\u00f4 fachadas das grandes lojas!\u00a0<br \/>\nEh-l\u00e1-h\u00f4 elevadores dos grandes edif\u00edcios!\u00a0<br \/>\nEh-l\u00e1-h\u00f4 recomposi\u00e7\u00f5es ministeriais!\u00a0<br \/>\nParlamentos, pol\u00edticas, relatores de or\u00e7amentos,\u00a0<br \/>\nOr\u00e7amentos falsificados!\u00a0<br \/>\n(Um or\u00e7amento \u00e9 t\u00e3o natural como uma \u00e1rvore\u00a0<br \/>\nE um parlamento t\u00e3o belo como uma borboleta).<\/p>\n<p>Eh-l\u00e1 o interesse por tudo na vida,<br \/>\nPorque tudo \u00e9 a vida, desde os brilhantes nas montras<br \/>\nAt\u00e9 \u00e0 noite ponte misteriosa entre os astros<br \/>\nE o mar antigo e solene, lavando as costas<br \/>\nE sendo misericordiosamente o mesmo\u00a0<br \/>\nQue era quando Plat\u00e3o era realmente Plat\u00e3o\u00a0<br \/>\nNa sua presen\u00e7a real e na sua carne com a alma dentro,\u00a0<br \/>\nE falava com Arist\u00f3teles, que havia de n\u00e3o ser disc\u00edpulo dele.<\/p>\n<p>Eu podia morrer triturado por um motor\u00a0<br \/>\nCom o sentimento de deliciosa entrega duma mulher possu\u00edda.\u00a0<br \/>\nAtirem-me para dentro das fornalhas!\u00a0<br \/>\nMetam-me debaixo dos comboios!\u00a0<br \/>\nEspanquem-me a bordo de navios!\u00a0<br \/>\nMasoquismo atrav\u00e9s de maquinismos!\u00a0<br \/>\nSadismo de n\u00e3o sei qu\u00ea moderno e eu e barulho!<\/p>\n<p>Up-l\u00e1 h\u00f4 jockey que ganhaste o Derby,\u00a0<br \/>\nMorder entre dentes o teu cap de duas cores!<\/p>\n<p>(Ser t\u00e3o alto que n\u00e3o pudesse entrar por nenhuma porta!\u00a0<br \/>\nAh, olhar \u00e9 em mim uma pervers\u00e3o sexual!)<\/p>\n<p>Eh-l\u00e1, eh-l\u00e1, eh-l\u00e1, catedrais!\u00a0<br \/>\nDeixai-me partir a cabe\u00e7a de encontro \u00e0s vossas esquinas.<\/p>\n<p>E ser levado da rua cheio de sangue\u00a0<br \/>\nSem ningu\u00e9m saber quem eu sou!<\/p>\n<p>\u00d3 tramways, funiculares, metropolitanos,\u00a0<br \/>\nRo\u00e7ai-vos por mim at\u00e9 ao espasmo!\u00a0<br \/>\nHilla! hilla! hilla-h\u00f4!\u00a0<br \/>\nDai-me gargalhadas em plena cara,\u00a0<br \/>\n\u00d3 autom\u00f3veis apinhados de p\u00e2ndegos e de&#8230;,\u00a0<br \/>\n\u00d3 multid\u00f5es quotidianas nem alegres nem tristes das ruas,\u00a0<br \/>\nRio multicolor an\u00f3nimo e onde eu me posso banhar como quereria!\u00a0<br \/>\nAh, que vidas complexas, que coisas l\u00e1 pelas casas de tudo isto!\u00a0<br \/>\nAh, saber-lhes as vidas a todos, as dificuldades de dinheiro,\u00a0<br \/>\nAs dissens\u00f5es dom\u00e9sticas, os deboches que n\u00e3o se suspeitam,\u00a0<br \/>\nOs pensamentos que cada um tem a s\u00f3s consigo no seu quarto\u00a0<br \/>\nE os gestos que faz quando ningu\u00e9m pode ver!\u00a0<br \/>\nN\u00e3o saber tudo isto \u00e9 ignorar tudo, \u00f3 raiva,\u00a0<br \/>\n\u00d3 raiva que como uma febre e um cio e uma fome\u00a0<br \/>\nMe p\u00f5e a magro o rosto e me agita \u00e0s vezes as m\u00e3os\u00a0<br \/>\nEm crispa\u00e7\u00f5es absurdas em pleno meio das turbas\u00a0<br \/>\nNas ruas cheias de encontr\u00f5es!<\/p>\n<p>Ah, e a gente ordin\u00e1ria e suja, que parece sempre a mesma,\u00a0<br \/>\nQue emprega palavr\u00f5es como palavras usuais,\u00a0<br \/>\nCujos filhos roubam \u00e0s portas das mercearias\u00a0<br \/>\nE cujas filhas aos oito anos &#8211; e eu acho isto belo e amo-o! &#8211;<br \/>\nMasturbam homens de aspecto decente nos v\u00e3os de escada.<br \/>\nA gentalha que anda pelos andaimes e que vai para casa\u00a0<br \/>\nPor vielas quase irreais de estreiteza e podrid\u00e3o.<br \/>\nMaravilhosamente gente humana que vive como os c\u00e3es\u00a0<br \/>\nQue est\u00e1 abaixo de todos os sistemas morais,\u00a0<br \/>\nPara quem nenhuma religi\u00e3o foi feita,\u00a0<br \/>\nNenhuma arte criada,\u00a0<br \/>\nNenhuma pol\u00edtica destinada para eles!\u00a0<br \/>\nComo eu vos amo a todos, porque sois assim,\u00a0<br \/>\nNem imorais de t\u00e3o baixos que sois, nem bons nem maus,\u00a0<br \/>\nInating\u00edveis por todos os progressos,\u00a0<br \/>\nFauna maravilhosa do fundo do mar da vida!<\/p>\n<p>(Na nora do quintal da minha casa<br \/>\nO burro anda \u00e0 roda, anda \u00e0 roda,<br \/>\nE o mist\u00e9rio do mundo \u00e9 do tamanho disto.<br \/>\nLimpa o suor com o bra\u00e7o, trabalhador descontente.<br \/>\nA luz do sol abafa o sil\u00eancio das esferas<br \/>\nE havemos todos de morrer,<br \/>\n\u00d3 pinheirais sombrios ao crep\u00fasculo,<br \/>\nPinheirais onde a minha inf\u00e2ncia era outra coisa<br \/>\nDo que eu sou hoje&#8230;)<\/p>\n<p>Mas, ah outra vez a raiva mec\u00e2nica constante!<br \/>\nOutra vez a obsess\u00e3o movimentada dos \u00f3nibus.<br \/>\nE outra vez a f\u00faria de estar indo ao mesmo tempo dentro de todos os comboios<br \/>\nDe todas as partes do mundo,<br \/>\nDe estar dizendo adeus de bordo de todos os navios,\u00a0<br \/>\nQue a estas horas est\u00e3o levantando ferro ou afastando-se das docas.\u00a0<br \/>\n\u00d3 ferro, \u00f3 a\u00e7o, \u00f3 alum\u00ednio, \u00f3 chapas de ferro ondulado!\u00a0<br \/>\n\u00d3 cais, \u00f3 portos, \u00f3 comboios, \u00f3 guindastes, \u00f3 rebocadores!<\/p>\n<p>Eh-l\u00e1 grandes desastres de comboios!\u00a0<br \/>\nEh-l\u00e1 desabamentos de galerias de minas!\u00a0<br \/>\nEh-l\u00e1 naufr\u00e1gios deliciosos dos grandes transatl\u00e2nticos!\u00a0<br \/>\nEh-l\u00e1-h\u00f4 revolu\u00e7\u00f5es aqui, ali, acol\u00e1,\u00a0<br \/>\nAltera\u00e7\u00f5es de constitui\u00e7\u00f5es, guerras, tratados, invas\u00f5es,\u00a0<br \/>\nRu\u00eddo, injusti\u00e7as, viol\u00eancias, e talvez para breve o fim,\u00a0<br \/>\nA grande invas\u00e3o dos b\u00e1rbaros amarelos pela Europa,\u00a0<br \/>\nE outro Sol no novo Horizonte!<\/p>\n<p>Que importa tudo isto, mas que importa tudo isto\u00a0<br \/>\nAo f\u00falgido e rubro ru\u00eddo contempor\u00e2neo,\u00a0<br \/>\nAo ru\u00eddo cruel e delicioso da civiliza\u00e7\u00e3o de hoje?<br \/>\nTudo isso apaga tudo, salvo o Momento,\u00a0<br \/>\nO Momento de tronco nu e quente como um fogueiro,\u00a0<br \/>\nO Momento estridentemente ruidoso e mec\u00e2nico,\u00a0<br \/>\nO Momento din\u00e2mico passagem de todas as bacantes\u00a0<br \/>\nDo ferro e do bronze e da bebedeira dos metais.<\/p>\n<p>Eia comboios, eia pontes, eia hot\u00e9is \u00e0 hora do jantar,\u00a0<br \/>\nEia aparelhos de todas as esp\u00e9cies, f\u00e9rreos, brutos, m\u00ednimos,\u00a0<br \/>\nInstrumentos de precis\u00e3o, aparelhos de triturar, de cavar,<br \/>\nEngenhos brocas, m\u00e1quinas rotativas!<\/p>\n<p>Eia! eia! eia!\u00a0<br \/>\nEia electricidade, nervos doentes da Mat\u00e9ria!\u00a0<br \/>\nEia telegrafia-sem-fios, simpatia met\u00e1lica do Inconsciente!\u00a0<br \/>\nEia t\u00faneis, eia canais, Panam\u00e1, Kiel, Suez!\u00a0<br \/>\nEia todo o passado dentro do presente!\u00a0<br \/>\nEia todo o futuro j\u00e1 dentro de n\u00f3s! eia!\u00a0<br \/>\nEia! eia! eia!\u00a0<br \/>\nFrutos de ferro e \u00fatil da \u00e1rvore-f\u00e1brica cosmopolita!\u00a0<br \/>\nEia! eia! eia! eia-h\u00f4-\u00f4-\u00f4!\u00a0<br \/>\nNem sei que existo para dentro. Giro, rodeio, engenho-me.\u00a0<br \/>\nEngatam-me em todos os comboios.\u00a0<br \/>\nI\u00e7am-me em todos os cais.\u00a0<br \/>\nGiro dentro das h\u00e9lices de todos os navios.\u00a0<br \/>\nEia! eia-h\u00f4! eia!\u00a0<br \/>\nEia! sou o calor mec\u00e2nico e a electricidade!<\/p>\n<p>Eia! e os rails e as casas de m\u00e1quinas e a Europa!\u00a0<br \/>\nEia e hurrah por mim-tudo e tudo, m\u00e1quinas a trabalhar, eia!<\/p>\n<p>Galgar com tudo por cima de tudo! Hup-l\u00e1!<\/p>\n<p>Hup-l\u00e1, hup-l\u00e1, hup-l\u00e1-h\u00f4, hup-l\u00e1!\u00a0<br \/>\nH\u00e9-la! He-h\u00f4! H-o-o-o-o!\u00a0<br \/>\nZ-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z!<\/p>\n<p>Ah n\u00e3o ser eu toda a gente e toda a parte!<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Londres, 1914 &#8211; Junho.<\/p>\n<\/blockquote>\n<h2>An\u00e1lise de Ode Triunfal, de \u00c1lvaro de Campos<\/h2>\n<p>\u00c1lvaro de Campos abre este poema de maneira intensa e imediata: ele est\u00e1 em uma f\u00e1brica, sob a luz das l\u00e2mpadas el\u00e9tricas, e escreve com febre. Logo nas primeiras linhas, fica claro que n\u00e3o se trata de uma contempla\u00e7\u00e3o tranquila, mas de uma experi\u00eancia violenta e apaixonada. Ele range os dentes como uma &#8220;fera para a beleza disto&#8221;, mostrando que a beleza que ele v\u00ea nas m\u00e1quinas e na ind\u00fastria \u00e9 algo selvagem, primitivo, que desperta nele rea\u00e7\u00f5es f\u00edsicas intensas.<\/p>\n<p>O poeta se entrega completamente \u00e0s sensa\u00e7\u00f5es que as m\u00e1quinas provocam. As rodas, engrenagens e o som eterno &#8220;r-r-r-r-r-r-r&#8221; dos maquinismos entram por todos os seus sentidos. Ele n\u00e3o apenas observa as m\u00e1quinas: ele as sente &#8220;dentro e fora&#8221; de si, &#8220;por todos os nervos dissecados&#8221;. \u00c9 como se ele quisesse se fundir com elas, tornar-se parte daquele movimento mec\u00e2nico e febril.<\/p>\n<p>Uma das ideias mais marcantes do poema aparece quando Campos olha para os motores &#8220;como a uma Natureza tropical&#8221;. Ele enxerga nas f\u00e1bricas uma nova natureza, feita de &#8220;ferro e fogo e for\u00e7a&#8221;. Para ele, n\u00e3o h\u00e1 contradi\u00e7\u00e3o entre passado e presente, entre os antigos fil\u00f3sofos gregos e as m\u00e1quinas modernas. Ele afirma que &#8220;h\u00e1 Plat\u00e3o e <a href=\"https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/editora-autentica-bucolicas-virgilio-projeto-grafico\/\">Virg\u00edlio<\/a> dentro das m\u00e1quinas&#8221;, porque tudo que somos hoje vem daquilo que fomos antes. Os \u00e1tomos que formaram as pessoas do passado agora fazem parte das correias de transmiss\u00e3o e dos motores. \u00c9 uma vis\u00e3o em que tudo est\u00e1 conectado atrav\u00e9s do tempo.<\/p>\n<p>O desejo de Campos \u00e9 radical: ele quer &#8220;exprimir-se todo como um motor se exprime&#8221;, quer &#8220;ser completo como uma m\u00e1quina&#8221;. Isso mostra uma invers\u00e3o: <strong>em vez de humanizar as m\u00e1quinas, ele quer se mecanizar, quer ter a efici\u00eancia, a completude e a for\u00e7a de um motor<\/strong>. Ele deseja &#8220;rasgar-se todo&#8221;, abrir-se completamente aos perfumes de &#8220;\u00f3leos e calores e carv\u00f5es&#8221; dessa &#8220;flora estupenda, negra, artificial&#8221;.<\/p>\n<p>Campos celebra a &#8220;fraternidade com todas as din\u00e2micas&#8221;, querendo ser parte do movimento dos trens, navios, guindastes e f\u00e1bricas. Ele v\u00ea beleza at\u00e9 nas &#8220;horas europeias, produtoras&#8221;, nas grandes cidades, nos caf\u00e9s onde as pessoas cristalizam &#8220;os rumores e os gestos do \u00datil&#8221;. Tudo que \u00e9 moderno, \u00fatil, produtivo, mec\u00e2nico, desperta nele uma paix\u00e3o quase er\u00f3tica.<\/p>\n<p>A linguagem do poema reflete essa energia ca\u00f3tica. Campos usa interjei\u00e7\u00f5es como &#8220;Eh-l\u00e1&#8221;, &#8220;H\u00e9-l\u00e1-h\u00f4&#8221;, &#8220;Eia!&#8221;, &#8220;Hup-l\u00e1!&#8221;, criando um ritmo fren\u00e9tico que imita o barulho das m\u00e1quinas e das ruas movimentadas. Os versos s\u00e3o longos e irregulares, sem m\u00e9trica fixa, e as frases se acumulam em listas intermin\u00e1veis de coisas, lugares e sensa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O poeta tamb\u00e9m celebra aspectos mais sombrios da modernidade. Ele fala da &#8220;maravilhosa beleza das corrup\u00e7\u00f5es pol\u00edticas&#8221;, dos &#8220;esc\u00e2ndalos financeiros&#8221;, da &#8220;gentalha&#8221; que vive nas ruas. H\u00e1 um momento em que ele expressa desejos violentos e masoquistas: &#8220;Atirem-me para dentro das fornalhas! \/ Metam-me debaixo dos comboios!&#8221; Esse masoquismo atrav\u00e9s dos maquinismos mostra o quanto ele quer se entregar totalmente, at\u00e9 a destrui\u00e7\u00e3o, \u00e0 experi\u00eancia moderna.<\/p>\n<p>Campos n\u00e3o esconde contradi\u00e7\u00f5es. Ele ama a multid\u00e3o, os pederastas, as prostitutas, as &#8220;burguesinhas&#8221;, os oper\u00e1rios, todos indistintamente. Ele tem &#8220;cio&#8221; de tudo, quer possuir as coisas &#8220;como a uma mulher bela que n\u00e3o se ama&#8221;. \u00c9 um amor carnal, f\u00edsico, sem romantismo.<\/p>\n<p>No meio dessa celebra\u00e7\u00e3o fren\u00e9tica, h\u00e1 um momento de pausa inesperado. Entre par\u00eanteses, Campos se lembra da &#8220;nora do quintal&#8221; de sua casa, do burro andando \u00e0 roda, dos pinheirais da inf\u00e2ncia. \u00c9 um instante de nostalgia, de reconhecimento de que ele j\u00e1 foi outra coisa, outra pessoa. Mas logo a &#8220;raiva mec\u00e2nica constante&#8221; volta, e ele se entrega novamente \u00e0 obsess\u00e3o com trens, navios e cidades.<\/p>\n<p>O poema termina em um cl\u00edmax de exclama\u00e7\u00f5es e onomatopeias: &#8220;Eia! eia! eia!&#8221;, &#8220;Hup-l\u00e1!&#8221;, &#8220;Z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z!&#8221;, imitando sons de m\u00e1quinas. Na \u00faltima linha, Campos expressa sua frustra\u00e7\u00e3o final: &#8220;<strong>Ah n\u00e3o ser eu toda a gente e toda a parte!<\/strong>&#8221; Ele quer ser tudo e estar em todos os lugares ao mesmo tempo, mas reconhece a impossibilidade desse desejo.<\/p>\n<p>Essa conclus\u00e3o marca o profundo pessimismo existencial que Fernando Pessoa carrega em todos os seus heter\u00f4nimos. <strong>O triunfo prometido no t\u00edtulo \u00e9, na verdade, um fracasso<\/strong>. A modernidade pode ser vibrante, intensa e bela, mas o indiv\u00edduo continua irremediavelmente sozinho, incapaz de transcender os limites de sua pr\u00f3pria exist\u00eancia. O poema que come\u00e7ou como uma ode de celebra\u00e7\u00e3o termina como um lamento de impot\u00eancia.<\/p>\n<p>O poema nos mostra que a modernidade, para Campos, n\u00e3o \u00e9 apenas progresso e beleza: \u00e9 tamb\u00e9m febre, f\u00faria, desejo imposs\u00edvel de abarcar tudo que existe.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ode Triunfal de \u00c1lvaro de Campos completo com an\u00e1lise. 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