{"id":3022,"date":"2024-08-27T16:27:56","date_gmt":"2024-08-27T19:27:56","guid":{"rendered":"https:\/\/literaturaonline.com.br\/?p=3022"},"modified":"2026-05-23T19:04:43","modified_gmt":"2026-05-23T22:04:43","slug":"poema-sentimento-do-mundo-carlos-drummond-de-andrade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/poema-sentimento-do-mundo-carlos-drummond-de-andrade\/","title":{"rendered":"Sentimento do Mundo, de Carlos Drummond de Andrade &#8211; Poema e An\u00e1lise"},"content":{"rendered":"<p>&#8220;Sentimento do Mundo&#8221;, um dos mais famosos de <a href=\"https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/poemas-para-o-dia-do-amigo\/\">Carlos Drummond de Andrade<\/a>, \u00e9 um poema que reflete sobre a ang\u00fastia existencial e a sensa\u00e7\u00e3o de impot\u00eancia diante das grandes crises da humanidade.<\/p>\n<p>Com uma linguagem densa e melanc\u00f3lica, o poeta transmite um <a href=\"https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/freud-a-conquista-do-fogo-pelo-olhar-da-psicanalise\/\">profundo mal-estar<\/a> em rela\u00e7\u00e3o ao mundo e a sua pr\u00f3pria exist\u00eancia, dialogando com o contexto da Primeira e <a href=\"https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/tematica-explorada-pela-poesia-da-segura-geracao-modernista\/\">Segunda Guerra Mundial<\/a>, das quais Drummond era contempor\u00e2neo, expressando o desalento e a confus\u00e3o de um tempo marcado pela destrui\u00e7\u00e3o e pela falta de sentido no mundo e na humanidade.<\/p>\n<h2>Sentimento do Mundo, de Carlos Drummond de Andrade<\/h2>\n<blockquote class=\"poem\">\n<p>Tenho apenas duas m\u00e3os<br \/>\ne o sentimento do mundo,<br \/>\nmas estou cheio de escravos,<br \/>\nminhas lembran\u00e7as escorrem<br \/>\ne o corpo transige<br \/>\nna conflu\u00eancia do amor.<\/p>\n<p>Quando me levantar, o c\u00e9u<br \/>\nestar\u00e1 morto e saqueado,<br \/>\neu mesmo estarei morto,<br \/>\nmorto meu desejo, morto<br \/>\no p\u00e2ntano sem acordes.<\/p>\n<p>Os camaradas n\u00e3o disseram<br \/>\nque havia uma guerra<br \/>\ne era necess\u00e1rio<br \/>\ntrazer fogo e alimento.<br \/>\nSinto-me disperso,<br \/>\nanterior a fronteiras,<br \/>\nhumildemente vos pe\u00e7o<br \/>\nque me perdoeis.<\/p>\n<p>Quando os corpos passarem,<br \/>\neu ficarei sozinho<br \/>\ndesfiando a recorda\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo sineiro, da vi\u00fava e do microscopista<br \/>\nque habitavam a barraca<br \/>\ne n\u00e3o foram encontrados<br \/>\nao amanhecer<\/p>\n<p>esse amanhecer<br \/>\nmais noite que a noite.<\/p>\n<\/blockquote>\n<h2>An\u00e1lise do poema <em>Sentimento do Mundo<\/em>, de Carlos Drummond de Andrade<\/h2>\n<p>O poema &#8220;Sentimento do Mundo&#8221; revela um forte pessimismo e uma vis\u00e3o quase apocal\u00edptica da realidade. Desde o in\u00edcio, o eu l\u00edrico confessa a sua limita\u00e7\u00e3o (&#8220;Tenho apenas duas m\u00e3os&#8221;) diante da vastid\u00e3o e da complexidade do sofrimento humano (&#8220;e o sentimento do mundo&#8221;). A imagem de &#8220;estar cheio de escravos&#8221; sugere que o sujeito est\u00e1 sobrecarregado por press\u00f5es internas e externas, talvez aludindo \u00e0 opress\u00e3o das pr\u00f3prias mem\u00f3rias, das responsabilidades ou das ang\u00fastias que o dominam.<\/p>\n<p>A ideia de escorrimento das lembran\u00e7as (&#8220;minhas lembran\u00e7as escorrem&#8221;) pode simbolizar o sentimento de perda, a passagem inexor\u00e1vel do tempo e a impossibilidade de reter o passado. O corpo do eu l\u00edrico, que &#8220;transige na conflu\u00eancia do amor&#8221;, sugere uma entrega, talvez involunt\u00e1ria, a for\u00e7as maiores do que ele, onde at\u00e9 <a href=\"https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/cronica-o-amor-acaba-de-paulo-mendes-campos\/\">o amor parece ser uma mistura de vulnerabilidade e conformidade<\/a>.<\/p>\n<p>Ao falar de um &#8220;c\u00e9u morto e saqueado&#8221; quando se levantar, o poeta introduz uma imagem de ru\u00edna e desola\u00e7\u00e3o. O c\u00e9u, tradicionalmente visto como um s\u00edmbolo de esperan\u00e7a ou divindade, aqui aparece devastado. Isso parece refletir a perda da espiritualidade ou da f\u00e9 num mundo melhor. A morte mencionada, tanto do pr\u00f3prio eu-l\u00edrico quanto dos seus desejos, acentua esse sentimento de aniquila\u00e7\u00e3o total, como se o futuro\u00a0fosse est\u00e9ril e sem vida.<\/p>\n<p>A aus\u00eancia de aviso dos &#8220;camaradas&#8221; sobre a guerra sugere uma sensa\u00e7\u00e3o de trai\u00e7\u00e3o ou de estar completamente alheio a eventos que afetam profundamente a humanidade. Essa guerra, que pode ser entendida literalmente (como a Primeira ou a Segunda Guerra Mundial) ou metaforicamente (uma guerra interna ou existencial, dele consigo mesmo), destaca a aliena\u00e7\u00e3o do sujeito. Ele se sente deslocado e perdido, &#8220;disperso&#8221;, como algu\u00e9m fora de lugar e fora do tempo, sem identifica\u00e7\u00e3o com as fronteiras ou com os <a href=\"https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/carta-de-pero-vaz-de-caminha-documento-considerado-o-marco-inicial-da-literatura-brasileira\/\">acontecimentos hist\u00f3ricos<\/a>.<\/p>\n<p>O pedido de perd\u00e3o (&#8220;humildemente vos pe\u00e7o que me perdoeis&#8221;) parece brotar da consci\u00eancia dessa aliena\u00e7\u00e3o. O eu l\u00edrico sente-se culpado, talvez por sua impot\u00eancia ou por sua incapacidade de participar ativamente na luta coletiva. Ele parece pedir perd\u00e3o \u00e0 humanidade ou ao pr\u00f3prio universo por essa desconex\u00e3o e fraqueza.<\/p>\n<p>Na estrofe final, a solid\u00e3o se aprofunda. Enquanto os corpos dos companheiros passam, ele permanece, preso a recorda\u00e7\u00f5es de <a href=\"https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/geracao-beat-tudo-sobre-o-movimento-literario\/\">figuras marginais<\/a> (o sineiro, a vi\u00fava, o microscopista). Essas figuras evocam uma humanidade comum, mas, ao mesmo tempo, parecem distantes e irreais, desaparecendo no amanhecer \u2014 um amanhecer que, ironicamente, \u00e9 &#8220;mais noite que a noite&#8221;. Aqui, o amanhecer, que costuma simbolizar renova\u00e7\u00e3o e esperan\u00e7a, \u00e9 subvertido para significar o contr\u00e1rio: a continuidade da escurid\u00e3o e do desespero.<\/p>\n<p>Drummond usa muito bem esse <a href=\"https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/contrastes-de-auta-de-souza-analise\/\">contraste entre luz e escurid\u00e3o<\/a>, esperan\u00e7a e desesperan\u00e7a, para intensificar a sensa\u00e7\u00e3o de que o mundo est\u00e1 mergulhado em uma crise profunda, na qual at\u00e9 o amanhecer, que deveria trazer al\u00edvio, apenas prolonga a noite existencial.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sentimento do Mundo, de Drummond,  traz uma vis\u00e3o amarga e angustiada do mundo moderno, onde o sujeito se sente isolado e impotente.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":3023,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-3022","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-poemas"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.6 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Sentimento do Mundo, de Carlos Drummond de Andrade - Poema e An\u00e1lise<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Sentimento do Mundo, de Drummond, traz uma vis\u00e3o amarga e angustiada do mundo moderno, onde o sujeito se sente isolado e impotente.\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/poema-sentimento-do-mundo-carlos-drummond-de-andrade\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Sentimento do Mundo, de Carlos Drummond de Andrade - Poema e An\u00e1lise\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Sentimento do Mundo, de Drummond, traz uma vis\u00e3o amarga e angustiada do mundo moderno, onde o sujeito se sente isolado e impotente.\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/poema-sentimento-do-mundo-carlos-drummond-de-andrade\/\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Literatura Online\" \/>\n<meta property=\"article:author\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=100043804593210\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2024-08-27T19:27:56+00:00\" \/>\n<meta property=\"article:modified_time\" content=\"2026-05-23T22:04:43+00:00\" \/>\n<meta property=\"og:image\" content=\"https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/Sentimento-do-Mundo-de-Carlos-Drummond-de-Andrade.jpg\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:width\" content=\"1600\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:height\" content=\"900\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:type\" content=\"image\/jpeg\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Alexandre Garcia Peres\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Alexandre Garcia Peres\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. tempo de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"4 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":[\"Article\",\"BlogPosting\"],\"@id\":\"https:\\\/\\\/literaturaonline.com.br\\\/blog\\\/poema-sentimento-do-mundo-carlos-drummond-de-andrade\\\/#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/literaturaonline.com.br\\\/blog\\\/poema-sentimento-do-mundo-carlos-drummond-de-andrade\\\/\"},\"author\":{\"name\":\"Alexandre Garcia Peres\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/literaturaonline.com.br\\\/blog\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/c9a9c53a80bc6508d64423b712739c41\"},\"headline\":\"Sentimento do Mundo, de Carlos Drummond de Andrade &#8211; 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