{"id":2941,"date":"2024-07-21T15:37:32","date_gmt":"2024-07-21T18:37:32","guid":{"rendered":"https:\/\/literaturaonline.com.br\/?p=2941"},"modified":"2024-07-21T15:38:02","modified_gmt":"2024-07-21T18:38:02","slug":"cronica-o-amor-acaba-de-paulo-mendes-campos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/cronica-o-amor-acaba-de-paulo-mendes-campos\/","title":{"rendered":"Cr\u00f4nica &#8220;O Amor Acaba&#8221;, de Paulo Mendes Campos"},"content":{"rendered":"<p>A <a href=\"https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/qual-o-papel-da-cronica-na-literatura\/\">cr\u00f4nica<\/a> &#8220;O amor acaba&#8221;, de Paulo Mendes Campos, \u00e9 uma reflex\u00e3o profunda (e melanc\u00f3lica) sobre a natureza ef\u00eamera e passageira do <a href=\"https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/noite-de-amor-de-castro-alves\/\">amor<\/a>, que eventualmente acaba chegando ao fim.<\/p>\n<p>Com um estilo l\u00edrico e detalhista, o autor explora cen\u00e1rios cotidianos e po\u00e9ticos em que o amor chega ao fim, revelando como os sentimentos humanos podem ser fr\u00e1geis e transit\u00f3rios.<\/p>\n<h2>O amor acaba, de Paulo Mendes Campos<\/h2>\n<blockquote><p><em>O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e sil\u00eancio; acaba em caf\u00e9s engordurados, diferentes dos parques de ouro onde come\u00e7ou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um autom\u00f3vel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada \u00e0 alegria p\u00f3stuma, que n\u00e3o veio; e acaba o amor no desenlace das m\u00e3os no cinema, como tent\u00e1culos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solid\u00e3o; como se as m\u00e3os soubessem antes que o amor tinha acabado; na ins\u00f4nia dos bra\u00e7os luminosos do rel\u00f3gio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alum\u00ednio e espelhos mon\u00f3tonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pens\u00e3o; \u00e0s vezes acaba o amor nos bra\u00e7os torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irm\u00e3 dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretens\u00e3o rid\u00edcula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua \u00e0s prov\u00edncias empoeiradas da \u00c1sia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compuls\u00e3o da simplicidade simplesmente; no s\u00e1bado, depois de tr\u00eas goles mornos de gim \u00e0 beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, \u00e0s vezes vingado por alguns dias, mas que n\u00e3o floresceu, abrindo par\u00e1grafos de \u00f3dio inexplic\u00e1vel entre o p\u00f3len e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde h\u00e1 mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crep\u00fasculos, caindo impercept\u00edvel no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do t\u00e9dio para o t\u00e9dio, na barca, no trem, no \u00f4nibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eri\u00e7a e acaba; no inferno o amor n\u00e3o come\u00e7a; na usura o amor se dissolve; em Bras\u00edlia o amor pode virar p\u00f3; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em S\u00e3o Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; \u00e0s vezes acaba na mesma m\u00fasica que come\u00e7ou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no cora\u00e7\u00e3o que se dilata e quebra, e o m\u00e9dico sentencia imprest\u00e1vel para o amor; e acaba no longo p\u00e9riplo, tocando em todos os portos, at\u00e9 se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; \u00e0s vezes n\u00e3o acaba e \u00e9 simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem raz\u00e3o at\u00e9 que algu\u00e9m, humilde, o carregue consigo; \u00e0s vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com do\u00e7ura e esperan\u00e7a; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o \u00e1lcool; de manh\u00e3, de tarde, de noite; na flora\u00e7\u00e3o excessiva da primavera; no abuso do ver\u00e3o; na disson\u00e2ncia do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recome\u00e7ar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<h2>An\u00e1lise da cr\u00f4nica &#8220;O amor acaba&#8221;, de Paulo Mendes Campos<\/h2>\n<p>A cr\u00f4nica &#8220;O amor acaba&#8221;, de Paulo Mendes Campos, traz uma reflex\u00e3o sobre <strong>o <a href=\"https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/venha-ver-o-por-do-sol-lygia-fagundes-telles\/\">fim do amor<\/a>,<\/strong> mais especificamente sobre sua fragilidade e sobre como o seu fim \u00e9 inevit\u00e1vel (na vis\u00e3o do autor). Atrav\u00e9s de met\u00e1foras e cenas do cotidiano, ele exemplifica como o amor pode perder sua for\u00e7a e intensidade.<\/p>\n<p>A cr\u00f4nica come\u00e7a com uma declara\u00e7\u00e3o bastante forte, que inclusive d\u00e1 nome a ela: &#8220;O amor acaba&#8221;. A partir dessa simples afirma\u00e7\u00e3o, passamos por uma viagem interna, com o autor enumerando os diversos cen\u00e1rios onde o amor pode chegar ao fim. Como &#8220;numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova&#8221;, ou ent\u00e3o &#8220;em caf\u00e9s engordurados&#8221;. Tudo isso faz um contraste realista e doloroso com o amor idealizado, frequentemente retratado como sublime, divino e eterno, como na <a href=\"https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/a-importancia-do-romantismo-para-a-literatura-brasileira\/\">poesia rom\u00e2ntica<\/a>.<\/p>\n<figure id=\"attachment_2942\" aria-describedby=\"caption-attachment-2942\" style=\"width: 1280px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-2942\" src=\"https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/cronica-o-amor-acaba-paulo-mendes-campos.jpg\" alt=\"Pintura &quot;Amor e Dor&quot;, tamb\u00e9m chamada &quot;Vampiro&quot;, de Edvard Munch. 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Ilustrando a cr\u00f4nica &#8220;O Amor Acaba&#8221;, de Paulo Mendes Campos<\/figcaption><\/figure>\n<p>A repeti\u00e7\u00e3o da express\u00e3o &#8220;e acaba o amor&#8221; ao longo do texto, quase como um refr\u00e3o, cria um ritmo hipn\u00f3tico, ao mesmo tempo em que refor\u00e7a a ideia de que todo relacionamento chega ao fim. O tom melanc\u00f3lico, e ao mesmo tempo l\u00edrico, retrata bem as nuances da desilus\u00e3o amorosa. Em trechos como &#8220;no desenlace das m\u00e3os no cinema, como tent\u00e1culos saciados&#8221;, entendemos que o fim do amor n\u00e3o necessariamente acontece em grandes e tr\u00e1gicos eventos, e sim em pequenos gestos. Como no simples separar de m\u00e3os de um casal em uma sala de cinema.A met\u00e1fora das m\u00e3os que se desenla\u00e7am &#8220;como dois polvos de solid\u00e3o&#8221; \u00e9 particularmente intensa, sugerindo que, mesmo antes do t\u00e9rmino oficial, os sinais de desconex\u00e3o (e de enfraquecimento do amor) j\u00e1 estavam presentes.<\/p>\n<p>Apesar do tom melanc\u00f3lico predominante, o autor n\u00e3o deixa de mencionar que o amor pode acabar &#8220;com do\u00e7ura e esperan\u00e7a&#8221;, sugerindo que <strong>nem todos os t\u00e9rminos s\u00e3o necessariamente tr\u00e1gicos<\/strong>. Afinal, h\u00e1 males que v\u00eam para o bem, e o fechar de uma porta pode ser a abertura de novas. Esse \u00e9 um toque de otimismo em meio \u00e0 desilus\u00e3o geral do texto, reconhecendo que o fim de um amor tamb\u00e9m pode abrir espa\u00e7o para novos come\u00e7os.<\/p>\n<p>Prova disso \u00e9 que a cr\u00f4nica termina com a reflex\u00e3o de que &#8220;a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recome\u00e7ar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba&#8221;. Um fechamento que destaca a natureza c\u00edclica do amor, com altos e baixos e novo saltos, mostrando que, embora ele possa inevitavelmente acabar, h\u00e1 sempre a possibilidade de renascimento e renova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A cr\u00f4nica &#8220;O amor acaba&#8221;, de Paulo Mendes Campos, \u00e9 uma reflex\u00e3o sobre a natureza ef\u00eamera e passageira do amor, que acaba chegando ao fim.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":2942,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-2941","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-curiosidades"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.6 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Cr\u00f4nica &quot;O Amor Acaba&quot;, de Paulo Mendes Campos<\/title>\n<meta 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