{"id":2909,"date":"2024-07-18T15:42:20","date_gmt":"2024-07-18T18:42:20","guid":{"rendered":"https:\/\/literaturaonline.com.br\/?p=2909"},"modified":"2024-07-18T15:42:20","modified_gmt":"2024-07-18T18:42:20","slug":"geracao-beat-tudo-sobre-o-movimento-literario","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/geracao-beat-tudo-sobre-o-movimento-literario\/","title":{"rendered":"Gera\u00e7\u00e3o Beat: tudo sobre o movimento liter\u00e1rio"},"content":{"rendered":"<p>A Gera\u00e7\u00e3o Beat foi um movimento liter\u00e1rio que surgiu nos Estados Unidos ap\u00f3s o fim da Segunda Guerra Mundial. Muito associado \u00e0 contracultura, o grupo de autores da Gera\u00e7\u00e3o Beat moldou a literatura da \u00e9poca e influenciou a cultura e a pol\u00edtica americanas durante os anos 1950 e 1960.<\/p>\n<h2>O que foi e onde surgiu a Gera\u00e7\u00e3o Beat?<\/h2>\n<p>A Gera\u00e7\u00e3o Beat surgiu com figuras como Allen Ginsberg, William S. Burroughs e Jack Kerouac, entre outros, que se reuniam na Columbia University em Nova York, em meados de 1944.<\/p>\n<figure id=\"attachment_2911\" aria-describedby=\"caption-attachment-2911\" style=\"width: 1280px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-2911\" src=\"https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/autores-geracao-beat.jpg\" alt=\"Allen Ginsberg e Jack Kerouac\" width=\"1280\" height=\"720\" srcset=\"https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/autores-geracao-beat.jpg 1280w, https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/autores-geracao-beat-300x169.jpg 300w, https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/autores-geracao-beat-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/autores-geracao-beat-768x432.jpg 768w, https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/autores-geracao-beat-520x292.jpg 520w, https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/autores-geracao-beat-860x483.jpg 860w, https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/autores-geracao-beat-150x84.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 1280px) 100vw, 1280px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-2911\" class=\"wp-caption-text\">Allen Ginsberg e Jack Kerouac<\/figcaption><\/figure>\n<p>Este grupo pioneiro, composto tamb\u00e9m por Herbert Huncke e Lucien Carr, se expandiu para a costa oeste dos Estados Unidos, especialmente em S\u00e3o Francisco, onde a cena liter\u00e1ria floresceu e interagiu com o que ficou conhecido como &#8220;Renascen\u00e7a de S\u00e3o Francisco&#8221;.<\/p>\n<p>Os &#8220;beatniks&#8221;, como eram chamados os integrantes do movimento, levavam vidas n\u00f4mades, organizando-se em comunidades e influenciando profundamente o surgimento do movimento hippie. Jazz, drogas, sexo livre e vida n\u00f4made eram algumas das bandeiras desse movimento. Faziam parte de uma gera\u00e7\u00e3o inconformada com a realidade ap\u00f3s os horrores da 2\u00aa Guerra e das <a href=\"https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/livros-para-conhecer-john-steinbeck\/\">contradi\u00e7\u00f5es do capitalismo<\/a>, optando por uma vida marginalizada e rebelde, com uma vis\u00e3o m\u00edstica e uma poesia libert\u00e1ria.<\/p>\n<p>A origem do nome \u00e9 bastante curiosa: mistura o termo &#8220;beat&#8221; (batida), poss\u00edvel refer\u00eancia ao jazz, e &#8220;nik&#8221;, uma refer\u00eancia ao sat\u00e9lite Sputnik, lan\u00e7ado pela Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica em 1957. Ali\u00e1s, reza a lenda que John Lennon era beatnik, e que o nome da banda, The Beatles, \u00e9 um aceno ao movimento.<\/p>\n<h2>O que a literatura da Gera\u00e7\u00e3o Beat defendia?<\/h2>\n<p>Os escritores da Gera\u00e7\u00e3o Beat eram conhecidos por sua rejei\u00e7\u00e3o dos valores narrativos tradicionais, embarcando em uma <a href=\"https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/ao-pe-do-tumulo-de-auta-de-souza\/\">busca espiritual<\/a> que inclu\u00eda a explora\u00e7\u00e3o de religi\u00f5es como o Catolicismo e o Budismo.<\/p>\n<p>Eles eram contra o materialismo econ\u00f4mico e buscavam retratar a condi\u00e7\u00e3o humana de forma expl\u00edcita, frequentemente recorrendo ao uso de drogas psicod\u00e9licas e promovendo a liberdade sexual. Muitos de seus membros, como Allen Ginsberg, seguiam <a href=\"https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/caracteristicas-da-literatura-de-jorge-amado\/\">ideais comunistas<\/a> e denunciavam as desigualdades e os impasses sociais que acompanham o capitalismo.<\/p>\n<figure id=\"attachment_2910\" aria-describedby=\"caption-attachment-2910\" style=\"width: 1280px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-2910\" src=\"https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/geracao-beat-literatura.jpg\" alt=\"Da esquerda para a direita, Allen Ginsberg, Michael McClure e Bruce Connor em S\u00e3o Francisco, 1965 (Imagem: Larry Keenan)\" width=\"1280\" height=\"720\" srcset=\"https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/geracao-beat-literatura.jpg 1280w, https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/geracao-beat-literatura-300x169.jpg 300w, https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/geracao-beat-literatura-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/geracao-beat-literatura-768x432.jpg 768w, https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/geracao-beat-literatura-520x292.jpg 520w, https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/geracao-beat-literatura-860x483.jpg 860w, https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/geracao-beat-literatura-150x84.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 1280px) 100vw, 1280px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-2910\" class=\"wp-caption-text\">Da esquerda para a direita, Allen Ginsberg, Michael McClure e Bruce Connor em S\u00e3o Francisco, 1965 (Imagem: Larry Keenan)<\/figcaption><\/figure>\n<p>O movimento defendia o n\u00e3o-conformismo (ou seja, manter sempre um esp\u00edrito de rebeldia) e uma criatividade espont\u00e2nea, desafiando as normas estabelecidas da sociedade. A poesia, por exemplo, era usada como arma, sendo declamada nas ruas e frequentemente alvo de repreens\u00e3o da pol\u00edcia.<\/p>\n<h2>Caracter\u00edsticas da Gera\u00e7\u00e3o Beat<\/h2>\n<ul>\n<li><strong>Intensidade narrativa:<\/strong> Os textos eram caracterizados por uma narrativa vigorosa e temas profundos.<\/li>\n<li><strong>Escrita compulsiva:<\/strong> Muitos escritores adotaram um estilo de escrita quase fren\u00e9tico.<\/li>\n<li><strong>Fluxo de pensamento ca\u00f3tico:<\/strong> A estrutura dos textos frequentemente refletia uma mente desordenada.<\/li>\n<li><strong>Linguagem informal:<\/strong> O uso de g\u00edrias, palavr\u00f5es e express\u00f5es coloquiais era comum.<\/li>\n<li><strong>Igualdade \u00e9tnica:<\/strong> Havia um forte apoio \u00e0 miscigena\u00e7\u00e3o e trocas culturais entre diferentes ra\u00e7as.<\/li>\n<li><strong>Influ\u00eancia do jazz:<\/strong> A m\u00fasica jazz, com seu ritmo e improvisa\u00e7\u00e3o, inspirou muitos dos escritores.<\/li>\n<li><strong>Conex\u00e3o com outras artes:<\/strong> Houve uma significativa intera\u00e7\u00e3o com artistas pl\u00e1sticos e m\u00fasicos, enriquecendo o movimento.<\/li>\n<\/ul>\n<h2>A poesia Beatnik<\/h2>\n<p>A poesia beatnik, exemplificada por obras como &#8220;Uivo&#8221;, de Allen Ginsberg, marcada por um estilo narrativo intenso e informal.<\/p>\n<p>Os poemas frequentemente apresentavam um fluxo de pensamento desordenado, utilizando g\u00edrias e palavr\u00f5es do vocabul\u00e1rio marginal nova-iorquino. A transmiss\u00e3o oral e a igualdade \u00e9tnica eram muito valorizadas, refletindo a influ\u00eancia do jazz e a diversidade cultural do submundo da cidade.<\/p>\n<h3>Trecho de &#8220;O Uivo&#8221;, de Allen Ginsberg (tradu\u00e7\u00e3o de Claudio Willer)<\/h3>\n<blockquote><p><em><strong>UIVO<\/strong><\/em><\/p>\n<p><em>para Carl Solomon<\/em><\/p>\n<p><em>Eu vi os expoentes da minha gera\u00e7\u00e3o destru\u00eddos pela loucura, morrendo de fome, hist\u00e9ricos, nus,<\/em><br \/>\n<em>arrastando-se pelas ruas do bairro negro de madrugada em busca de uma dose violenta de qualquer coisa,<\/em><br \/>\n<em>hipsters com cabe\u00e7a de anjo ansiando pelo antigo contato celestial com o d\u00ednamo estrelado na maquinaria da noite,<\/em><br \/>\n<em>que pobres, esfarrapados e olheiras fundas, viajaram fumando sentados na sobrenatural escurid\u00e3o dos miser\u00e1veis apartamentos sem \u00e1gua quente, flutuando sobre os tetos das cidades contemplando jazz,<\/em><br \/>\n<em>que desnudaram seus c\u00e9rebros ao c\u00e9u sob o Elevado e viram anjos maometanos cambaleando iluminados nos telhados das casas de c\u00f4modos,<\/em><br \/>\n<em>que passaram por universidades com olhos frios e radiantes alucinando Arkansas e trag\u00e9dias \u00e0 luz de Blake entre os estudiosos da guerra,<\/em><br \/>\n<em>que foram expulsos das universidades por serem loucos &amp; publicarem odes obscenas nas janelas do cr\u00e2nio,<\/em><br \/>\n<em>que se refugiaram em quartos de paredes de pintura descascada em roupa de baixo queimando seu dinheiro em cestos de papel, escutando o Terror atrav\u00e9s da parede,<\/em><br \/>\n<em>que foram detidos em suas barbas p\u00fabicas voltando por Laredo com um cintur\u00e3o de marijuana para Nova York,<\/em><br \/>\n<em>que comeram fogo em hot\u00e9is mal pintados ou beberam terebintina em Paradise Alley, morreram ou flagelaram seus torsos noite ap\u00f3s noite com sonhos, com drogas, com pesadelos na vig\u00edlia, \u00e1lcool e caralhos e intermin\u00e1veis orgias,<\/em><br \/>\n<em>incompar\u00e1veis ruas cegas sem sa\u00edda de nuvem tr\u00eamula e clar\u00e3o na mente pulando nos postes dos p\u00f3los de Canad\u00e1 &amp; Paterson, iluminando completamente o mundo im\u00f3vel do Tempo intermedi\u00e1rio,<\/em><br \/>\n<em>solidez de Peiote dos corredores, aurora de fundo de quintal com verdes \u00e1rvores de cemit\u00e9rio, porre de vinho nos telhados, fachadas de lojas de sub\u00farbio na luz cintilante de n\u00e9on do tr\u00e1fego na corrida de cabe\u00e7a feita do prazer, vibra\u00e7\u00f5es de sol e lua e \u00e1rvore no ronco de crep\u00fasculo de inverno de Brooklyn, declama\u00e7\u00f5es entre latas de lixo e a suave soberana luz da mente,<\/em><br \/>\n<em>que se acorrentaram aos vag\u00f5es do metr\u00f4 para o infind\u00e1vel percurso do Battery ao sagrado Bronx de benzedrina at\u00e9 que o barulho das rodas e crian\u00e7as os trouxesse de volta, tr\u00eamulos, a boca arrebentada e o despovoado deserto do c\u00e9rebro esvaziado de qualquer brilho na l\u00fagubre luz do Zool\u00f3gico,<\/em><br \/>\n<em>que afundaram a noite toda na luz submarina de Bickford\u2019s, voltaram \u00e0 tona e passaram a tarde de cerveja choca no desolado Fuggazi\u2019s escutando o matraquear da cat\u00e1strofe na vitrola autom\u00e1tica de hidrog\u00eanio,<\/em><br \/>\n<em>que falaram setenta e duas horas sem parar do parque ao ap\u00ea ao bar ao Hospital Bellevue ao Museu \u00e0 Ponte de Brooklyn,<\/em><br \/>\n<em>batalh\u00e3o perdido de debatedores plat\u00f4nicos saltando dos gradis das escadas de emerg\u00eancia dos parapeitos das janelas do Empire State da Lua,<\/em><br \/>\n<em>tagarelando, berrando, vomitando, sussurrando fatos e lembran\u00e7as e anedotas e viagens visuais e choques nos hospitais e pris\u00f5es e guerras,<\/em><br \/>\n<em>intelectos inteiros regurgitados em recorda\u00e7\u00e3o total com os olhos brilhando por sete dias e noites, carne para a sinagoga jogada \u00e0 rua,<\/em><br \/>\n<em>que desapareceram no Zen de Nova Jersey de lugar algum deixando um rastro de cart\u00f5es-postais amb\u00edguos do Centro C\u00edvico de Atlantic City,<\/em><br \/>\n<em>sofrendo suores orientais, pulveriza\u00e7\u00f5es tangerianas nos ossos e enxaquecas da China por causa da falta da droga no quarto pobremente mobiliado de Newark,<\/em><br \/>\n<em>que deram voltas e voltas \u00e0 meia-noite no p\u00e1tio da ferrovia perguntando-se aonde ir e foram, sem deixar cora\u00e7\u00f5es partidos,<\/em><br \/>\n<em>que acenderam cigarros em vag\u00f5es de carga, vag\u00f5es de carga, vag\u00f5es de carga que rumavam ruidosamente pela neve at\u00e9 solit\u00e1rias fazendas dentro da noite do av\u00f4,<\/em><br \/>\n<em>que estudaram Plotino, Poe, S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz, telepatia e bop-cabala pois o Cosmos instintivamente vibrava a seus p\u00e9s em Kansas,<\/em><br \/>\n<em>que passaram solit\u00e1rios pelas ruas de Idaho procurando anjos \u00edndios e vision\u00e1rios que eram anjos \u00edndios e vision\u00e1rios,<\/em><br \/>\n<em>que s\u00f3 acharam que estavam loucos quando Baltimore apareceu em \u00eaxtase sobrenatural,<\/em><br \/>\n<em>que pularam em limusines com o chin\u00eas de Oklahoma no impulso da chuva de inverno na luz das ruas de cidade pequena \u00e0 meia-noite,<\/em><br \/>\n<em>que vaguearam famintos e s\u00f3s por Houston procurando jazz ou sexo ou rango e seguiram o espanhol brilhante para conversar sobre Am\u00e9rica e Eternidade, in\u00fatil tarefa, e assim embarcaram num navio para a \u00c1frica,<\/em><br \/>\n<em>que desapareceram nos vulc\u00f5es do M\u00e9xico nada deixando al\u00e9m da sombra de suas cal\u00e7as rancheiras e a lava e a cinza da poesia espalhadas pela lareira Chicago,<\/em><br \/>\n<em>que reapareceram na Costa Oeste investigando o FBI de barba e bermudas com grandes olhos pacifistas e sensuais em suas peles morenas, distribuindo folhetos inintelig\u00edveis,<\/em><br \/>\n<em>que apagaram cigarros acesos em seus bra\u00e7os protestando contra o nevoeiro narc\u00f3tico de tabaco do Capitalismo,<\/em><br \/>\n<em>que distribu\u00edram panfletos supercomunistas em Union Square, chorando e despindo-se enquanto as sirenes de Los Alamos os afugentavam gemendo mais alto que eles e gemiam pela Wall Street e tamb\u00e9m gemia a balsa de Staten Island,<\/em><br \/>\n<em>que ca\u00edram em prantos em brancos gin\u00e1sios desportivos, nus e tr\u00eamulos diante da maquinaria de outros esqueletos,<\/em><br \/>\n<em>que morderam policiais no pesco\u00e7o e berraram de prazer nos carros de presos por n\u00e3o terem cometido outro crime a n\u00e3o ser sua transa\u00e7\u00e3o peder\u00e1stica e t\u00f3xica,<\/em><br \/>\n<em>que uivaram de joelhos no metr\u00f4 e foram arrancados do telhado sacudindo genitais e manuscritos,<\/em><br \/>\n<em>que se deixaram foder no rabo por motociclistas santificados e urraram de prazer,<\/em><br \/>\n<em>que enrabaram e foram enrabados por esses serafins humanos, os marinheiros, car\u00edcias de amor atl\u00e2ntico e caribeano,<\/em><br \/>\n<em>que transaram pela manh\u00e3 e ao cair da tarde em roseirais, na grama de jardins p\u00fablicos e cemit\u00e9rios, espalhando livremente seu s\u00eamen para quem quisesse vir,<\/em><br \/>\n<em>que solu\u00e7aram interminavelmente tentando gargalhar mas acabaram choramingando atr\u00e1s de um tabique de banho turco onde o anjo loiro e nu veio trespass\u00e1-los com sua espada,<\/em><br \/>\n<em>que perderam seus garotos amados para as tr\u00eas megeras do destino, a megera caolha do d\u00f3lar heterossexual, a megera caolha que pisca de dentro do ventre e a megera caolha que s\u00f3 sabe ficar plantada sobre sua bunda retalhando os dourados fios intelectuais do tear do artes\u00e3o,<\/em><br \/>\n<em>que copularam em \u00eaxtase insaci\u00e1vel com uma garrafa de cerveja, uma namorada, um ma\u00e7o de cigarros, uma vela, e ca\u00edram da cama e continuaram pelo assoalho e pelo corredor e terminaram desmaiando contra a parede com uma vis\u00e3o da boceta final e acabaram sufocando um derradeiro lampejo de consci\u00eancia,<\/em><br \/>\n<em>que ado\u00e7aram as trepadas de um milh\u00e3o de garotas tr\u00eamulas ao anoitecer, acordaram de olhos vermelhos no dia seguinte mesmo assim prontos para ado\u00e7ar trepadas na aurora, bundas luminosas nos celeiros e nus no lago,<\/em><br \/>\n<em>que foram transar em Colorado numa mir\u00edade de carros roubados \u00e0 noite, N. C. her\u00f3i secreto destes poemas, garanh\u00e3o e Ad\u00f4nis de Denver \u2013 prazer ao lembrar das suas incont\u00e1veis trepadas com garotas em terrenos baldios &amp; p\u00e1tios dos fundos de restaurantes de beira de estrada, raqu\u00edticas fileiras de poltronas de cinema, picos de montanha, cavernas ou com esqu\u00e1lidas gar\u00e7onetes no familiar levantar de saias solit\u00e1rio \u00e0 beira da estrada &amp; especialmente secretos solipsismos de mict\u00f3rios de postos de gasolina &amp; becos da cidade natal tamb\u00e9m,<\/em><br \/>\n<em>que se apagaram em longos filmes s\u00f3rdidos, foram transportados em sonho, acordaram num Manhattan s\u00fabito e conseguiram voltar com uma impiedosa ressaca de adegas de Tokay e o horror dos sonhos de ferro da Terceira Avenida &amp; cambalearam at\u00e9 as ag\u00eancias de desemprego,<\/em><br \/>\n<em>que caminharam a noite toda com os sapatos cheios de sangue pelo cais coberto por mont\u00f5es de neve, esperando que uma porta se abrisse no East River dando para um quarto cheio de vapor e \u00f3pio,<\/em><br \/>\n<em>que criaram grandes dramas suicidas nos penhascos de apartamentos do Hudson \u00e0 luz azul de holofote antia\u00e9reo da lua &amp; suas cabe\u00e7as receber\u00e3o coroas de louro no esquecimento,<\/em><br \/>\n<em>que comeram o ensopado de cordeiro da imagina\u00e7\u00e3o ou digeriram o caranguejo do fundo lodoso dos rios de Bovery,<\/em><br \/>\n<em>que choraram diante do romance das ruas com seus carrinhos de m\u00e3o cheios de cebola e p\u00e9ssima m\u00fasica,<\/em><br \/>\n<em>que ficaram sentados em caixotes respirando a escurid\u00e3o sob a ponte e ergueram-se para construir clavic\u00f3rdios em seus s\u00f3t\u00e3os,<\/em><br \/>\n<em>que tossiram num sexto andar do Harlem coroado de chamas sob um c\u00e9u tuberculoso rodeados pelos caixotes de laranja da teologia,<\/em><br \/>\n<em>que rabiscaram a noite toda deitando e rolando sobre invoca\u00e7\u00f5es sublimes que ao amanhecer amarelado re\u0002velaram-se versos de tagarelice sem sentido,<\/em><br \/>\n<em>que cozinharam animais apodrecidos, pulm\u00e3o cora\u00e7\u00e3o p\u00e9 rabo borsht &amp; tortillas sonhando com o puro reino vegetal,<\/em><br \/>\n<em>que se atiraram sob caminh\u00f5es de carne em busca de um ovo,<\/em><br \/>\n<em>que jogaram seus rel\u00f3gios do telhado fazendo seu lance de aposta pela Eternidade fora do Tempo &amp; despertadores ca\u00edram nas suas cabe\u00e7as por todos os dias<\/em><br \/>\n<em>da d\u00e9cada seguinte [&#8230;]<\/em><\/p><\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Gera\u00e7\u00e3o Beat, com rebeldia e inova\u00e7\u00e3o, deixou um legado na literatura e na cultura americana, influenciando movimentos como hippie e 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