{"id":1972,"date":"2024-04-24T20:16:13","date_gmt":"2024-04-24T23:16:13","guid":{"rendered":"https:\/\/literaturaonline.com.br\/?p=1972"},"modified":"2026-05-23T19:04:43","modified_gmt":"2026-05-23T22:04:43","slug":"dada-auta-de-souza-analise","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/dada-auta-de-souza-analise\/","title":{"rendered":"Dad\u00e1, de Auta de Souza &#8211; An\u00e1lise"},"content":{"rendered":"<p>No poema &#8220;Dad\u00e1&#8221;, Auta de Souza descreve, com uma intensidade l\u00edrica envolvente, a profunda conex\u00e3o entre uma m\u00e3e e seu filho, marcada por amor e trag\u00e9dia.<\/p>\n<h2>Dad\u00e1, de Auta de Souza<\/h2>\n<blockquote class=\"poem\">\n<p>Dad\u00e1 tinha um filhinho muito louro,<br \/>\nT\u00e3o louro como um raio de luar.<br \/>\nAquela criancinha era o tesouro,<br \/>\nO imaculado encanto do seu lar.<\/p>\n<p>Dad\u00e1 o amava tanto que no mundo<br \/>\nSu\u2019alma em cousa alguma achava brilho.<br \/>\nNada alterava aquele amor profundo:<br \/>\nS\u00f3 via o ber\u00e7o onde sonhava o filho.<\/p>\n<p>Quanto cuidado e que afei\u00e7\u00e3o t\u00e3o santa!<br \/>\nA areia onde brincando ele corria,<br \/>\nSe ela pudesse (ah! se n\u00e3o fosse tanta!)<br \/>\nMesmo dentro do seio a guardaria.<\/p>\n<p>Desejava que a terra fosse um ninho<br \/>\nHabitado por ela e os seus amores;<br \/>\nQueria mais que o buli\u00e7oso anjinho<br \/>\nS\u00f3 visse o c\u00e9u e s\u00f3 pisasse em flores.<\/p>\n<p>Pois se ele era o sorriso de seus olhos<br \/>\nDesde que o esposo para o Al\u00e9m se fora!<br \/>\nSe era a luz que surgia entre os abrolhos<br \/>\nDe su\u2019alma tristonha e sofredora!<\/p>\n<p>Sorrindo a m\u00e3e dizia olhando a terra<br \/>\nE o casto manto azul de l\u00e1 do c\u00e9u:<br \/>\n\u201cSois muito lindo, mas nenhum encerra<br \/>\nJ\u00f3ia mais linda do que o filho meu.\u201d<\/p>\n<p>E tinha bem raz\u00e3o. O seu Laurinho,<br \/>\nAquela criatura t\u00e3o franzina,<br \/>\nGuardava l\u00edrios brancos no rostinho<br \/>\nE uma rosa na boca pequenina.<\/p>\n<p>N\u00e3o consentia que ele um s\u00f3 minuto<br \/>\nDos cuidados maternos se afastasse:<br \/>\nEra um contraste a sombra de seu luto<br \/>\nNa alvura virginal d\u2019aquela face!<\/p>\n<p>E se \u00e0s vezes a garrula crian\u00e7a<br \/>\nDisparava a correr jardim a fora.<br \/>\nDad\u00e1 pensava que sua esperan\u00e7a<br \/>\nIa fugindo ou que morria a aurora&#8230;<\/p>\n<p>Ent\u00e3o cismava cheia de receio,<br \/>\nComo se o seu filhinho mais n\u00e3o visse:<br \/>\nE se alcan\u00e7ava, comprimia-o ao seio,<br \/>\nTemerosa que ainda lhe fugisse..<\/p>\n<p>Se ele morresse, o que seria d\u2019ela?<br \/>\nDad\u00e1 cuidava \u00e0s vezes tristemente &#8211;<br \/>\nSe essa crian\u00e7a era como a estrela<br \/>\nQue guiava os Reis Magos no Oriente?<\/p>\n<p>E entre esperan\u00e7as e temores francos,<br \/>\nLauro crescia cada vez mais lindo;<br \/>\nQuando falava, os seus dentinhos brancos<br \/>\nLembravam \u00e0 gente um bogari abrindo.<\/p>\n<p>Um dia, ao acordar, Lauro queixou-se<br \/>\nDe que o corpinho todo lhe do\u00eda.<br \/>\nA m\u00e3e cercou-o de um carinho doce:<br \/>\nO seu filhinho de que sofreria?<\/p>\n<p>E ele chorava que fazia pena<br \/>\nNaquela alegre e l\u00edmpida manh\u00e3,<br \/>\nP\u00e1lida a face como uma a\u00e7ucena,<br \/>\nE o r\u00f3seo l\u00e1bio a murmurar: \u201cmam\u00e3\u201d!<\/p>\n<p>Dad\u00e1 beijava aquela m\u00e3o querida<br \/>\nE os p\u00e9s e o rosto e o peito nu e a boca:<br \/>\nQueria ver se lhe incutia a vida<br \/>\nNaqueles beijos que lhe dava, louca!<\/p>\n<p>O triste pobrezinho solu\u00e7ava<br \/>\nEntre as car\u00edcias do materno afago;<br \/>\nE, em seus olhos, a morte esvoa\u00e7ava<br \/>\nBem como um corvo \u00e0 tona azul de um lago.<\/p>\n<p>Antes do sol pender sobre o horizonte<br \/>\nO querubim cessava de existir;<br \/>\nE algu\u00e9m ainda lhe beijava a fronte:<br \/>\nEra Dad\u00e1 a solu\u00e7ar e a rir.<\/p>\n<p>Estava louca. D\u2019ora em diante, a vida,<br \/>\nQuem lhe traria ao ninho seu deserto?<br \/>\nLauro morrera&#8230; Branca flor pendida<br \/>\nCa\u00edra murcha num esquife aberto!<\/p>\n<p>Ela bem vira quando carregavam<br \/>\nO meigo arcanjo dentro de um caix\u00e3o&#8230;<br \/>\nAlmas cru\u00e9is! Do seio lh\u2019o arrancaram<br \/>\nE com ele tamb\u00e9m seu cora\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>H\u00e1 muitos anos que isto sucedeu,<br \/>\nMas, entretanto, o que da morte a salva<br \/>\n\u00c9 que Dad\u00e1, quando contempla o c\u00e9u,<br \/>\nDiz que seu filho est\u00e1 na estrela d\u2019Alva.<\/p>\n<\/blockquote>\n<h2>An\u00e1lise do poema &#8220;Dad\u00e1&#8221;<\/h2>\n<p>O poema &#8220;Dad\u00e1&#8221;, escrito pela poetisa brasileira Auta de Souza, \u00e9 uma obra centrada na <strong>rela\u00e7\u00e3o entre uma m\u00e3e, Dad\u00e1, e seu filho, chamado de Laurinho<\/strong>. O poema fala diretamente sobre o amor incondicional, a prote\u00e7\u00e3o maternal, a perda e a consequente insanidade causada pelo luto.<\/p>\n<p>Auta de Souza traz um retrato delicado e ao mesmo tempo intenso da <strong>maternidade<\/strong>, explorando a met\u00e1fora da crian\u00e7a como um tesouro luminoso, &#8220;t\u00e3o louro como um raio de luar&#8221;. Isso vai lado a lado com a idealiza\u00e7\u00e3o de um mundo perfeito para o filho, um &#8220;ninho&#8221; repleto de beleza e totalmente livre de mazelas.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, fora dessa aura de amor e cuidado, existe um temor, uma ang\u00fastia que toda m\u00e3e carrega: <strong>a dor de acabar perdendo seu filho<\/strong>.<\/p>\n<p>O poema se aprofunda nessa dor quando o medo vira realidade. O filho adoece e, apesar da desesperada tentativa de Dad\u00e1 de revigor\u00e1-lo com seus beijos e afeto,<strong> Laurinho morre<\/strong>, arrancando com ele o cora\u00e7\u00e3o de sua m\u00e3e.<\/p>\n<p>A imagem do &#8220;pobrezinho [que] solu\u00e7ava&#8221; sugere uma inoc\u00eancia quebrada, a fragilidade da vida humana diante das inevitabilidades; a morte esvoa\u00e7ava como &#8220;um corvo \u00e0 tona azul de um lago&#8221;, uma met\u00e1fora para o pren\u00fancio do fim que oscila entre a beleza e o tr\u00e1gico.<\/p>\n<p>Esse poema retrata o <a href=\"https:\/\/luto\"><strong>luto materno<\/strong><\/a> de forma crua, mostrando Dad\u00e1 como um exemplo extremo de pesar que culmina na <strong>loucura<\/strong>. A vida, da\u00ed em diante, \u00e9 a de uma mulher que teve seu &#8220;ninho&#8221; esvaziado e de quem a esperan\u00e7a se afastou.<\/p>\n<p>Nos versos finais, encontramos uma tentativa de reden\u00e7\u00e3o po\u00e9tica, na qual <strong>mesmo a morte n\u00e3o consegue extinguir completamente o brilho do amor de m\u00e3e<\/strong>. Dad\u00e1, encarando o c\u00e9u, busca conforto ao imaginar seu filho numa estrela, na &#8220;estrela d&#8217;Alva&#8221;, preservando sua mem\u00f3ria e sua exist\u00eancia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O poema Dad\u00e1, de Auta de Souza, mostra a rela\u00e7\u00e3o entre uma m\u00e3e e seu filho, explorando temas como maternidade, luto e loucura.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":1978,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[37,89,172],"class_list":["post-1972","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-poemas","tag-auta-de-souza","tag-esperanca","tag-morte"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.6 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Dad\u00e1, de Auta de Souza - An\u00e1lise<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"O poema Dad\u00e1, de Auta de Souza, mostra a rela\u00e7\u00e3o entre uma m\u00e3e e seu filho, explorando temas como maternidade, luto e loucura.\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/dada-auta-de-souza-analise\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Dad\u00e1, de Auta de Souza - An\u00e1lise\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"O poema Dad\u00e1, de Auta de Souza, mostra a rela\u00e7\u00e3o entre uma m\u00e3e e seu filho, explorando temas como maternidade, luto e loucura.\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/dada-auta-de-souza-analise\/\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Literatura Online\" \/>\n<meta property=\"article:author\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=100043804593210\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2024-04-24T23:16:13+00:00\" \/>\n<meta property=\"article:modified_time\" content=\"2026-05-23T22:04:43+00:00\" \/>\n<meta property=\"og:image\" content=\"https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Dada-de-Auta-de-Souza-Analise.jpg\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:width\" content=\"1200\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:height\" content=\"800\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:type\" content=\"image\/jpeg\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Alexandre Garcia Peres\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Alexandre Garcia Peres\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. tempo de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"5 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":[\"Article\",\"BlogPosting\"],\"@id\":\"https:\\\/\\\/literaturaonline.com.br\\\/blog\\\/dada-auta-de-souza-analise\\\/#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/literaturaonline.com.br\\\/blog\\\/dada-auta-de-souza-analise\\\/\"},\"author\":{\"name\":\"Alexandre Garcia Peres\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/literaturaonline.com.br\\\/blog\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/c9a9c53a80bc6508d64423b712739c41\"},\"headline\":\"Dad\u00e1, de Auta de Souza &#8211; 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