{"id":1939,"date":"2024-04-22T22:56:22","date_gmt":"2024-04-23T01:56:22","guid":{"rendered":"https:\/\/literaturaonline.com.br\/?p=1939"},"modified":"2026-05-23T19:04:43","modified_gmt":"2026-05-23T22:04:43","slug":"criancas-de-auta-de-souza-analise","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/criancas-de-auta-de-souza-analise\/","title":{"rendered":"Crian\u00e7as, de Auta de Souza &#8211; An\u00e1lise"},"content":{"rendered":"<p>O poema &#8220;Crian\u00e7as&#8221;, de Auta de Souza, \u00e9 uma homenagem \u00e0 inf\u00e2ncia e um lamento pelo seu passageiro encanto, encerrando com um desejo de retorno aos dias da &#8220;primeira inf\u00e2ncia&#8221;, um sentimento comum que temos ao querer reviver momentos de felicidade.<\/p>\n<h2>Crian\u00e7as, de Auta de Souza<\/h2>\n<blockquote class=\"poem\">\n<p>Moro na rua da Ventura. Perto,<br \/>\nH\u00e1 um ninho &#8211; \u00e9 a aula das meninas;<br \/>\nTrazem-me sempre o cora\u00e7\u00e3o desperto<br \/>\nOs risos dessas almas cristalinas.<\/p>\n<p>Sinto-me alegre. Vivo sem saudade,<br \/>\nSem, desconforto, sem desesperan\u00e7as.<br \/>\nSou bem feliz na minha soledade<br \/>\nOuvindo o pipilar d\u2019essas crian\u00e7as.<\/p>\n<p>A\u2019s duas horas ergo-me da banca<br \/>\nOnde medito: vai fechar-se a escola&#8230;<br \/>\nQue bem me faz esta algazarra franca<br \/>\nDe aves gentis que voam da gaiola!<\/p>\n<p>Gosto de v\u00ea-las quando saem rindo<br \/>\nAlegremente, as mansas andorinhas.<br \/>\nS\u00e3o doze ao todo. Que rebanho lindo<br \/>\nDe inocentes e castas ovelhinhas!<\/p>\n<p>Vem na frente a maior. J\u00e1 quase mo\u00e7a,<br \/>\nOlhos azuis e fronte cismadora:<br \/>\nUma a\u00e7ucena de esquisito lou\u00e7a,<br \/>\nDe face cor de neve e tran\u00e7a loura.<\/p>\n<p>\u00c9 s\u00e9ria e triste. Chama-se Laurita;<br \/>\nTem uma voz que me seduz e encanta;<br \/>\nVeste sempre de azul e \u00e9 t\u00e3o bonita<br \/>\nCom os seus ares de pequena santa!<\/p>\n<p>Passa depois Sophia, uma crian\u00e7a<br \/>\nDe olhar mais negro do que a noite escura.<br \/>\nVive sempre a sorrir como a Esperan\u00e7a,<br \/>\nVive sempre a cantar como a Ventura!<\/p>\n<p>E aquela doida que l\u00e1 vai correndo<br \/>\nEm risco de tombar nas pedras duras?<br \/>\n\u00c9 L\u00facia. A vida quer levar fazendo<br \/>\nTodos os dias essas travessuras.<\/p>\n<p>Depois, Sarah e Rebecca&#8230; Borboletas<br \/>\nIrm\u00e3s no olhar, no rosto e nos vestidos;<br \/>\nS\u00e3o dois anjinhos de madeixas pretas,<br \/>\nG\u00eameos sorrisos, cora\u00e7\u00f5es unidos!<\/p>\n<p>Segue-as a linda e ing\u00eanua moreninha<br \/>\nDe nome terno e encantador: Dolores,<br \/>\nUma singela e p\u00e1lida amiguinha<br \/>\nQue todas as manh\u00e3s guarda-me flores.<\/p>\n<p>Hoje, est\u00e1 triste. Nem me deu bom dia!<br \/>\nDeixou cair as rosas pela estrada.<br \/>\n&#8211; Que \u00e9 do teu canto, doce cotovia?<br \/>\n(Reparem ela como vai zangada!)<\/p>\n<p>Desce em seguida a meiga Valentina,<br \/>\nDez anos tem. Parece um Querubim&#8230;<br \/>\nUma a\u00e7ucena p\u00e1lida e franzina,<br \/>\nUm encantado e p\u00e1lido jasmim!<\/p>\n<p>E a Inoc\u00eancia? Vem chorando tanto!<br \/>\nQue te fizeram, minha sensitiva?<br \/>\nQuem foi que os olhos te inundou de pranto,<br \/>\nQuem te causou essa amargura viva?<\/p>\n<p>J\u00e1 sei: a mestra quis ralhar contigo,<br \/>\nE foi bem feito, colibri travesso!<br \/>\nFiquei alegre com o teu castigo;<br \/>\nPor que n\u00e3o me d\u00e1s beijos quando os pe\u00e7o?<\/p>\n<p>Ou\u00e7o chamar pelo meu nome&#8230; \u00c9 Santa,<br \/>\nUm diabrete muito engra\u00e7adinho&#8230;<br \/>\n&#8211; Soube a li\u00e7\u00e3o? &#8211; N\u00e3o me responde, canta&#8230;<br \/>\n&#8211; Gra\u00e7a inocente, voa para o ninho!<\/p>\n<p>Puxando a tran\u00e7a de Luc\u00edlia, passa<br \/>\nCeleste, a loura; correm como doidas&#8230;<br \/>\nPor que \u00e9 que tarda a pequenina Gar\u00e7a,<br \/>\nA mais mimosa e mais gentil de todas!<\/p>\n<p>Ei-la! \u00c9 um anjo a divagar na terra,<br \/>\nUm beija-flor que prendem na gaiola&#8230;<br \/>\nQuanta candura o seu sorriso encerra,<br \/>\nQuanta inoc\u00eancia d\u2019esse olhar se evola!<\/p>\n<p>Como eu a amo e que tristeza infinda,<br \/>\nSinto nos dias em que n\u00e3o a vejo&#8230;<br \/>\nAh! como adoro essa m\u00e3ozinha linda,<br \/>\nT\u00e3o pequenina que parece um beijo!<\/p>\n<p>E eu digo ao ver das criancinhas mansas<br \/>\nO bando alegre e luminoso e forte:<br \/>\nV\u00f3s sois no mundo claras esperan\u00e7as,<br \/>\nRosas da vida, embalsamando a morte!<\/p>\n<p>O vosso olhar \u00e9 como um livro aberto<br \/>\nOnde soletro as minhas alegrias&#8230;<br \/>\nO\u00e1sis santo num cruel deserto,<br \/>\nNegro e sem fim, de fundas agonias.<\/p>\n<p>Em breve as f\u00e9rias chegar\u00e3o, e eu triste<br \/>\nQuantas semanas vou passar distante<br \/>\nDe vosso olhar onde a Candura existe,<br \/>\nDe vosso riso claro e hilariante!<\/p>\n<p>E para n\u00e3o ficar t\u00e3o s\u00f3, t\u00e3o louca,<br \/>\nPresa da cisma ao doloroso enleio,<br \/>\nDai-me as cantigas que levais na boca,<br \/>\nDai-me as quimeras que guardais no seio!<\/p>\n<p>Pois j\u00e1 suspiro pela aurora mansa<br \/>\nQue h\u00e1 de trazer com o sol do novo ano,<br \/>\nPara a voss\u2019alma mais uma esperan\u00e7a,<br \/>\nPara a minh\u2019alma mais um desengano.<\/p>\n<p>Anjos da terra, flores animadas,<br \/>\nAves do c\u00e9u que a chilrear passais&#8230;<br \/>\nComo vos quero, evoca\u00e7\u00f5es amadas<br \/>\nDo meu passado que n\u00e3o volta mais!<\/p>\n<p>Ah, quem me dera os sonhos perfumados<br \/>\nD\u2019aquele tempo de ideal fragr\u00e2ncia&#8230;<br \/>\nCantai! cantai! \u00f3 rouxin\u00f3is sagrados,<br \/>\nLembrai-me os dias da primeira inf\u00e2ncia!<\/p>\n<\/blockquote>\n<h2>An\u00e1lise do poema &#8220;Crian\u00e7as&#8221;<\/h2>\n<p>O poema &#8220;Crian\u00e7as&#8221; de Auta de Souza mostra um eu-l\u00edrico nost\u00e1lgico a <strong>observar um grupo de meninas ao sair da escola<\/strong>.<\/p>\n<p>A narradora, reclusa, encontra alegria e consolo nas intera\u00e7\u00f5es e nas personalidades distintas das crian\u00e7as, que lembram a ela o fulgor e a inoc\u00eancia da <strong>juventude<\/strong>.<\/p>\n<p>Com descri\u00e7\u00f5es detalhadas, cada crian\u00e7a \u00e9 associada a <strong>s\u00edmbolos da pureza<\/strong> &#8211; como a\u00e7ucenas (tipo de planta) e serafins (tipo de anjo) -, bem como \u00e0 natureza &#8211; atrav\u00e9s de aves e flores.<\/p>\n<p>O ato de observar essas &#8220;criancinhas mansas&#8221; guia a narradora em uma <strong>medita\u00e7\u00e3o sobre a ess\u00eancia da vida<\/strong>, <strong>a inevitabilidade da morte e o fortalecimento da esperan\u00e7a<\/strong>, essas \u00faltimas representadas metaforicamente como &#8220;rosas da vida, embalsamando a morte&#8221;.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a poesia \u00e9 marcada por uma estrutura que equilibra a descri\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as com os sentimentos internos da narradora.<\/p>\n<p>O poema vai al\u00e9m do mero retrato do exterior para refletir sobre o estado interior de uma alma que, embora solit\u00e1ria, encontra-se ligada ao mundo externo pela cont\u00ednua renova\u00e7\u00e3o da juventude e pela perpetua\u00e7\u00e3o dos ciclos da vida.<\/p>\n<p>Ironicamente,<strong> as mesmas crian\u00e7as que trazem alegria tamb\u00e9m anunciam um futuro vazio com a chegada das f\u00e9rias,<\/strong> uma met\u00e1fora para os ciclos de presen\u00e7a e aus\u00eancia que permeiam a exist\u00eancia humana.<\/p>\n<p>A narrativa intercala elementos da natureza com a vida humana, usando um simbolismo que real\u00e7a a<strong> conex\u00e3o do indiv\u00edduo com o ciclo maior do mundo natural.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O poema &#8220;Crian\u00e7as&#8221;, de Auta de Souza, \u00e9 uma homenagem \u00e0 inf\u00e2ncia e um lamento pelo seu passageiro 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