{"id":10,"date":"2023-04-04T02:50:07","date_gmt":"2023-04-04T05:50:07","guid":{"rendered":"https:\/\/poesiapublica.com.br\/?p=10"},"modified":"2026-05-23T19:00:36","modified_gmt":"2026-05-23T22:00:36","slug":"o-navio-negreiro-castro-alves","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/o-navio-negreiro-castro-alves\/","title":{"rendered":"O Navio Negreiro, de Castro Alves &#8211; Poema Completo e An\u00e1lise"},"content":{"rendered":"<p>Escrito em\u00a01868, quando Castro Alves tinha apenas 22 anos,\u00a0<em>O Navio Negreiro<\/em> \u00e9 um dos poemas mais emblem\u00e1ticos da poesia brasileira. Retrata os horrores da escravid\u00e3o ao descrever um navio negreiro, respons\u00e1vel por transportar escravizados africanos, manchando a vis\u00e3o do mar que o eu-l\u00edrico tem no in\u00edcio e desencadeando um final apote\u00f3tico, em que autor faz um apelo abolicionista.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2 style=\"text-align: left\" align=\"CENTER\">O Navio Negreiro, de Castro Alves<\/h2>\n<h3>I<\/h3>\n<p>&#8216;Stamos em pleno mar&#8230; Doudo no espa\u00e7o<br \/>\nBrinca o luar \u2014 dourada borboleta;<br \/>\nE as vagas ap\u00f3s ele correm&#8230; cansam<br \/>\nComo turba de infantes inquieta.<\/p>\n<p>&#8216;Stamos em pleno mar&#8230; Do firmamento<br \/>\nOs astros saltam como espumas de ouro&#8230;<br \/>\nO mar em troca acende as ardentias,<br \/>\n\u2014 Constela\u00e7\u00f5es do l\u00edquido tesouro&#8230;<\/p>\n<p>&#8216;Stamos em pleno mar&#8230; Dois infinitos<br \/>\nAli se estreitam num abra\u00e7o insano,<br \/>\nAzuis, dourados, pl\u00e1cidos, sublimes&#8230;<br \/>\nQual dos dous \u00e9 o c\u00e9u? qual o oceano?&#8230;<\/p>\n<p>&#8216;Stamos em pleno mar. . . Abrindo as velas<br \/>\nAo quente arfar das vira\u00e7\u00f5es marinhas,<br \/>\nVeleiro brigue corre \u00e0 flor dos mares,<br \/>\nComo ro\u00e7am na vaga as andorinhas&#8230;<\/p>\n<p>Donde vem? onde vai? Das naus errantes<br \/>\nQuem sabe o rumo se \u00e9 t\u00e3o grande o espa\u00e7o?<br \/>\nNeste saara os corc\u00e9is o p\u00f3 levantam,<br \/>\nGalopam, voam, mas n\u00e3o deixam tra\u00e7o.<\/p>\n<p>Bem feliz quem ali pode nest&#8217;hora<br \/>\nSentir deste painel a majestade!<br \/>\nEmbaixo \u2014 o mar em cima \u2014 o firmamento&#8230;<br \/>\nE no mar e no c\u00e9u \u2014 a imensidade!<\/p>\n<p>Oh! que doce harmonia traz-me a brisa!<br \/>\nQue m\u00fasica suave ao longe soa!<br \/>\nMeu Deus! como \u00e9 sublime um canto ardente<br \/>\nPelas vagas sem fim boiando \u00e0 toa!<\/p>\n<p>Homens do mar! \u00f3 rudes marinheiros,<br \/>\nTostados pelo sol dos quatro mundos!<br \/>\nCrian\u00e7as que a procela acalentara<br \/>\nNo ber\u00e7o destes p\u00e9lagos profundos!<\/p>\n<p>Esperai! esperai! deixai que eu beba<br \/>\nEsta selvagem, livre poesia<br \/>\nOrquestra \u2014 \u00e9 o mar, que ruge pela proa,<br \/>\nE o vento, que nas cordas assobia&#8230;<br \/>\n&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/p>\n<p>Por que foges assim, barco ligeiro?<br \/>\nPor que foges do p\u00e1vido poeta?<br \/>\nOh! quem me dera acompanhar-te a esteira<br \/>\nQue semelha no mar \u2014 doudo cometa!<\/p>\n<p>Albatroz! Albatroz! \u00e1guia do oceano,<br \/>\nTu que dormes das nuvens entre as gazas,<br \/>\nSacode as penas, Leviathan do espa\u00e7o,<br \/>\nAlbatroz! Albatroz! d\u00e1-me estas asas.<\/p>\n<h3>II<\/h3>\n<p>Que importa do nauta o ber\u00e7o,<br \/>\nDonde \u00e9 filho, qual seu lar?<br \/>\nAma a cad\u00eancia do verso<br \/>\nQue lhe ensina o velho mar!<br \/>\nCantai! que a morte \u00e9 divina!<br \/>\nResvala o brigue \u00e0 bolina<br \/>\nComo golfinho veloz.<br \/>\nPresa ao mastro da mezena<br \/>\nSaudosa bandeira acena<br \/>\nAs vagas que deixa ap\u00f3s.<\/p>\n<p>Do Espanhol as cantilenas<br \/>\nRequebradas de langor,<br \/>\nLembram as mo\u00e7as morenas,<br \/>\nAs andaluzas em flor!<br \/>\nDa It\u00e1lia o filho indolente<br \/>\nCanta Veneza dormente,<br \/>\n\u2014 Terra de amor e trai\u00e7\u00e3o,<br \/>\nOu do golfo no rega\u00e7o<br \/>\nRelembra os versos de Tasso,<br \/>\nJunto \u00e0s lavas do vulc\u00e3o!<\/p>\n<p>O Ingl\u00eas \u2014 marinheiro frio,<br \/>\nQue ao nascer no mar se achou,<br \/>\n(Porque a Inglaterra \u00e9 um navio,<br \/>\nQue Deus na Mancha ancorou),<br \/>\nRijo entoa p\u00e1trias gl\u00f3rias,<br \/>\nLembrando, orgulhoso, hist\u00f3rias<br \/>\nDe Nelson e de Aboukir.. .<br \/>\nO Franc\u00eas \u2014 predestinado \u2014<br \/>\nCanta os louros do passado<br \/>\nE os loureiros do porvir!<\/p>\n<p>Os marinheiros Helenos,<br \/>\nQue a vaga j\u00f4nia criou,<br \/>\nBelos piratas morenos<br \/>\nDo mar que Ulisses cortou,<br \/>\nHomens que F\u00eddias talhara,<br \/>\nV\u00e3o cantando em noite clara<br \/>\nVersos que Homero gemeu &#8230;<br \/>\nNautas de todas as plagas,<br \/>\nV\u00f3s sabeis achar nas vagas<br \/>\nAs melodias do c\u00e9u! &#8230;<\/p>\n<h3>III<\/h3>\n<p>Desce do espa\u00e7o imenso, \u00f3 \u00e1guia do oceano!<br \/>\nDesce mais &#8230; inda mais&#8230; n\u00e3o pode olhar humano<br \/>\nComo o teu mergulhar no brigue voador!<br \/>\nMas que vejo eu a\u00ed&#8230; Que quadro d&#8217;amarguras!<br \/>\n\u00c9 canto funeral! &#8230; Que t\u00e9tricas figuras! &#8230;<br \/>\nQue cena infame e vil&#8230; Meu Deus! Meu Deus! Que horror!<\/p>\n<h3>IV<\/h3>\n<p>Era um sonho dantesco&#8230; o tombadilho<br \/>\nQue das luzernas avermelha o brilho.<br \/>\nEm sangue a se banhar.<br \/>\nTinir de ferros&#8230; estalar de a\u00e7oite&#8230;<br \/>\nLegi\u00f5es de homens negros como a noite,<br \/>\nHorrendos a dan\u00e7ar&#8230;<\/p>\n<p>Negras mulheres, suspendendo \u00e0s tetas<br \/>\nMagras crian\u00e7as, cujas bocas pretas<br \/>\nRega o sangue das m\u00e3es:<br \/>\nOutras mo\u00e7as, mas nuas e espantadas,<br \/>\nNo turbilh\u00e3o de espectros arrastadas,<br \/>\nEm \u00e2nsia e m\u00e1goa v\u00e3s!<\/p>\n<p>E ri-se a orquestra ir\u00f4nica, estridente&#8230;<br \/>\nE da ronda fant\u00e1stica a serpente<br \/>\nFaz doudas espirais &#8230;<br \/>\nSe o velho arqueja, se no ch\u00e3o resvala,<br \/>\nOuvem-se gritos&#8230; o chicote estala.<br \/>\nE voam mais e mais&#8230;<\/p>\n<p>Presa nos elos de uma s\u00f3 cadeia,<br \/>\nA multid\u00e3o faminta cambaleia,<br \/>\nE chora e dan\u00e7a ali!<br \/>\nUm de raiva delira, outro enlouquece,<br \/>\nOutro, que mart\u00edrios embrutece,<br \/>\nCantando, geme e ri!<\/p>\n<p>No entanto o capit\u00e3o manda a manobra,<br \/>\nE ap\u00f3s fitando o c\u00e9u que se desdobra,<br \/>\nT\u00e3o puro sobre o mar,<br \/>\nDiz do fumo entre os densos nevoeiros:<br \/>\n&#8220;Vibrai rijo o chicote, marinheiros!<br \/>\nFazei-os mais dan\u00e7ar!&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>E ri-se a orquestra ir\u00f4nica, estridente. . .<br \/>\nE da ronda fant\u00e1stica a serpente<br \/>\nFaz doudas espirais&#8230;<br \/>\nQual um sonho dantesco as sombras voam!&#8230;<br \/>\nGritos, ais, maldi\u00e7\u00f5es, preces ressoam!<br \/>\nE ri-se Satan\u00e1s!&#8230;<\/p>\n<h3>V<\/h3>\n<p>Senhor Deus dos desgra\u00e7ados!<br \/>\nDizei-me v\u00f3s, Senhor Deus!<br \/>\nSe \u00e9 loucura&#8230; se \u00e9 verdade<br \/>\nTanto horror perante os c\u00e9us?!<br \/>\n\u00d3 mar, por que n\u00e3o apagas<br \/>\nCo&#8217;a esponja de tuas vagas<br \/>\nDe teu manto este borr\u00e3o?&#8230;<br \/>\nAstros! noites! tempestades!<br \/>\nRolai das imensidades!<br \/>\nVarrei os mares, tuf\u00e3o!<\/p>\n<p>Quem s\u00e3o estes desgra\u00e7ados<br \/>\nQue n\u00e3o encontram em v\u00f3s<br \/>\nMais que o rir calmo da turba<br \/>\nQue excita a f\u00faria do algoz?<br \/>\nQuem s\u00e3o? Se a estrela se cala,<br \/>\nSe a vaga \u00e0 pressa resvala<br \/>\nComo um c\u00famplice fugaz,<br \/>\nPerante a noite confusa&#8230;<br \/>\nDize-o tu, severa Musa,<br \/>\nMusa lib\u00e9rrima, audaz!&#8230;<\/p>\n<p>S\u00e3o os filhos do deserto,<br \/>\nOnde a terra esposa a luz.<br \/>\nOnde vive em campo aberto<br \/>\nA tribo dos homens nus&#8230;<br \/>\nS\u00e3o os guerreiros ousados<br \/>\nQue com os tigres mosqueados<br \/>\nCombatem na solid\u00e3o.<br \/>\nOntem simples, fortes, bravos.<br \/>\nHoje m\u00edseros escravos,<br \/>\nSem luz, sem ar, sem raz\u00e3o. . .<\/p>\n<p>S\u00e3o mulheres desgra\u00e7adas,<br \/>\nComo Agar o foi tamb\u00e9m.<br \/>\nQue sedentas, alquebradas,<br \/>\nDe longe&#8230; bem longe v\u00eam&#8230;<br \/>\nTrazendo com t\u00edbios passos,<br \/>\nFilhos e algemas nos bra\u00e7os,<br \/>\nN&#8217;alma \u2014 l\u00e1grimas e fel&#8230;<br \/>\nComo Agar sofrendo tanto,<br \/>\nQue nem o leite de pranto<br \/>\nT\u00eam que dar para Ismael.<\/p>\n<p>L\u00e1 nas areias infindas,<br \/>\nDas palmeiras no pa\u00eds,<br \/>\nNasceram crian\u00e7as lindas,<br \/>\nViveram mo\u00e7as gentis&#8230;<br \/>\nPassa um dia a caravana,<br \/>\nQuando a virgem na cabana<br \/>\nCisma da noite nos v\u00e9us &#8230;<br \/>\n&#8230; Adeus, \u00f3 cho\u00e7a do monte,<br \/>\n&#8230; Adeus, palmeiras da fonte!&#8230;<br \/>\n&#8230; Adeus, amores&#8230; adeus!&#8230;<\/p>\n<p>Depois, o areal extenso&#8230;<br \/>\nDepois, o oceano de p\u00f3.<br \/>\nDepois no horizonte imenso<br \/>\nDesertos&#8230; desertos s\u00f3&#8230;<br \/>\nE a fome, o cansa\u00e7o, a sede&#8230;<br \/>\nAi! quanto infeliz que cede,<br \/>\nE cai p&#8217;ra n\u00e3o mais s&#8217;erguer!&#8230;<br \/>\nVaga um lugar na cadeia,<br \/>\nMas o chacal sobre a areia<br \/>\nAcha um corpo que roer.<\/p>\n<p>Ontem a Serra Leoa,<br \/>\nA guerra, a ca\u00e7a ao le\u00e3o,<br \/>\nO sono dormido \u00e0 toa<br \/>\nSob as tendas d&#8217;amplid\u00e3o!<br \/>\nHoje&#8230; o por\u00e3o negro, fundo,<br \/>\nInfecto, apertado, imundo,<br \/>\nTendo a peste por jaguar&#8230;<br \/>\nE o sono sempre cortado<br \/>\nPelo arranco de um finado,<br \/>\nE o baque de um corpo ao mar&#8230;<\/p>\n<p>Ontem plena liberdade,<br \/>\nA vontade por poder&#8230;<br \/>\nHoje&#8230; c\u00fam&#8217;lo de maldade,<br \/>\nNem s\u00e3o livres p&#8217;ra morrer. .<br \/>\nPrende-os a mesma corrente<br \/>\n\u2014 F\u00e9rrea, l\u00fagubre serpente \u2014<br \/>\nNas roscas da escravid\u00e3o.<br \/>\nE assim zombando da morte,<br \/>\nDan\u00e7a a l\u00fagubre coorte<br \/>\nAo som do a\u00e7oute&#8230; Irris\u00e3o!&#8230;<\/p>\n<p>Senhor Deus dos desgra\u00e7ados!<br \/>\nDizei-me v\u00f3s, Senhor Deus,<br \/>\nSe eu deliro&#8230; ou se \u00e9 verdade<br \/>\nTanto horror perante os c\u00e9us?!&#8230;<br \/>\n\u00d3 mar, por que n\u00e3o apagas<br \/>\nCo&#8217;a esponja de tuas vagas<br \/>\nDo teu manto este borr\u00e3o?<br \/>\nAstros! noites! tempestades!<br \/>\nRolai das imensidades!<br \/>\nVarrei os mares, tuf\u00e3o! &#8230;<\/p>\n<h3>VI<\/h3>\n<p>Existe um povo que a bandeira empresta<br \/>\nP&#8217;ra cobrir tanta inf\u00e2mia e cobardia!&#8230;<br \/>\nE deixa-a transformar-se nessa festa<br \/>\nEm manto impuro de bacante fria!&#8230;<br \/>\nMeu Deus! meu Deus! mas que bandeira \u00e9 esta,<br \/>\nQue impudente na g\u00e1vea tripudia?<br \/>\nSil\u00eancio. Musa&#8230; chora, e chora tanto<br \/>\nQue o pavilh\u00e3o se lave no teu pranto! &#8230;<\/p>\n<p>Auriverde pend\u00e3o de minha terra,<br \/>\nQue a brisa do Brasil beija e balan\u00e7a,<br \/>\nEstandarte que a luz do sol encerra<br \/>\nE as promessas divinas da esperan\u00e7a&#8230;<br \/>\nTu que, da liberdade ap\u00f3s a guerra,<br \/>\nFoste hasteado dos her\u00f3is na lan\u00e7a<br \/>\nAntes te houvessem roto na batalha,<br \/>\nQue servires a um povo de mortalha!&#8230;<\/p>\n<p>Fatalidade atroz que a mente esmaga!<br \/>\nExtingue nesta hora o brigue imundo<br \/>\nO trilho que Colombo abriu nas vagas,<br \/>\nComo um \u00edris no p\u00e9lago profundo!<br \/>\nMas \u00e9 inf\u00e2mia demais! &#8230; Da et\u00e9rea plaga<br \/>\nLevantai-vos, her\u00f3is do Novo Mundo!<br \/>\nAndrada! arranca esse pend\u00e3o dos ares!<br \/>\nColombo! fecha a porta dos teus mares!<\/p>\n<h2 style=\"text-align: left\" align=\"CENTER\">Sobre o que fala o poema &#8220;O Navio Negreiro&#8221;? An\u00e1lise completa<\/h2>\n<p>&#8220;O Navio Negreiro&#8221;, de <a href=\"https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/\/tag\/castro-alves\/\">Castro Alves<\/a>, fala sobre a trag\u00e9dia da escravid\u00e3o ao retratar o horror e o sofrimento dos africanos que foram trazidos \u00e0 for\u00e7a como escravizados em navios negreiros durante o per\u00edodo colonial (1530-1815) e imperial do Brasil (1822-1889). O poema descreve as condi\u00e7\u00f5es desumanas enfrentadas pelos escravizados nos navios, como a falta de espa\u00e7o, a doen\u00e7a, a fome, a viol\u00eancia f\u00edsica e a morte.<\/p>\n<p>Castro Alves critica a escravid\u00e3o e denuncia a crueldade e a injusti\u00e7a dessa pr\u00e1tica nefasta, ressaltando a viola\u00e7\u00e3o dos direitos humanos e a brutalidade cometida contra os escravizados, fazendo um apelo \u00e0 justi\u00e7a e \u00e0 liberdade. Como na \u00faltima estrofe, em que o eu-l\u00edrico faz dois apelos: que Andrada, patrono da independ\u00eancia do Brasil, arranque a bandeira do Brasil dos ares, que estava adornando o navio negreiro; e que o navegador genov\u00eas Colombo feche o caminho de tr\u00e1fico de escravizados aberto no per\u00edodo das Grandes Navega\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O poeta baiano foi um dos maiores defensores do fim da escravid\u00e3o, o que o fez ser conhecido como &#8220;o poeta dos escravos&#8221;. Al\u00e9m disso, defendia ideais republicanos, advogando em favor do fim da Monarquia e da instaura\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica, sendo amigo pr\u00f3ximo do jurista Rui Barbosa (1849-1923), com quem estudou na Faculdade de Direito de Recife.<\/p>\n<h2>Estrutura do poema<\/h2>\n<p>Podemos dividir o poema em quatro partes. Na primeira, o eu-l\u00edrico, em alto mar, observa os navios que passam. Descreve a beleza do mar, que se mistura ao c\u00e9u noturno; a beleza da Lua, que parece brincar nas ondas; as estrelas que s\u00e3o refletidas na \u00e1gua, transformando-se numa esp\u00e9cie de tesouro l\u00edquido.<\/p>\n<p>Nesta primeira fase, um navio chama sua aten\u00e7\u00e3o, e ele come\u00e7a a conjecturar: que navio \u00e9 esse? De onde vem? Para onde ele est\u00e1 indo? Ent\u00e3o, ele come\u00e7a a se lembrar de navios de diversas nacionalidades com os quais j\u00e1 cruzou: italianos, franceses, gregos, espanh\u00f3is, com todos tendo algo em comum: marinheiros alegres, cantando m\u00fasicas patri\u00f3ticas e de saudade \u2014 de suas terras e de suas fam\u00edlias.<\/p>\n<p>Quando ele se aproxima do navio que est\u00e1 vendo, por\u00e9m, ele percebe que aquele n\u00e3o \u00e9 um navio comum. A segunda parte come\u00e7a com o eu-l\u00edrico percebendo que, em vez de um canto alegre, seus tripulantes choram, gemem, gritam de dor e desespero. Descreve cenas de tortura, de morte, de sofrimento, criando um contraste com a primeira parte e fazendo com que a alegria das lembran\u00e7as e a beleza da vista mar\u00edtima fiquem para tr\u00e1s.<\/p>\n<p>Nas duas \u00faltimas partes, o eu-l\u00edrico faz duas perguntas \u00e0 &#8220;Musa Inspiradora&#8221;, que s\u00e3o respondidas atrav\u00e9s da poesia. A primeira \u00e9: quem s\u00e3o aqueles que est\u00e3o sofrendo tanto? E a resposta vem em uma longa descri\u00e7\u00e3o: s\u00e3o africanos escravizados, arrancados de suas terras e fam\u00edlias. Capturados e vendidos como mercadoria, privados da liberdade, de sonhos, de perspectiva.<\/p>\n<p>A segunda pergunta \u00e9: e quem est\u00e1 por tr\u00e1s de todo esse sofrimento? E a resposta tamb\u00e9m vem logo em seguida, decepcionando e envergonhando o eu-l\u00edrico. A bandeira que encobre aquela cena terr\u00edvel \u00e9 a bandeira do Brasil.<\/p>\n<h2 class=\"mceTemp\">&#8220;O Navio Negreiro&#8221; sendo recitado<\/h2>\n<p>Voc\u00ea pode ouvir um trecho do poema\u00a0<em>O Navio Negreiro<\/em>, de Castro Alves, sendo recitado pelo ator brasileiro Paulo Autran no v\u00eddeo abaixo. Infelizmente, a leitura do poema n\u00e3o est\u00e1 completa, mas \u00e9 uma boa forma de interpret\u00e1-lo e senti-lo mais.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Navio Negreiro, do poeta baiano Castro Alves, \u00e9 um poema que retrata os horrores da escravid\u00e3o no Brasil.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":12,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[47,207],"class_list":["post-10","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-poemas","tag-castro-alves","tag-romantismo"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.6 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>O Navio Negreiro, de Castro Alves - Poema Completo e An\u00e1lise<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"O Navio Negreiro, do poeta baiano Castro Alves, \u00e9 um poema que retrata os horrores da escravid\u00e3o no Brasil.\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/o-navio-negreiro-castro-alves\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"O Navio Negreiro, de Castro Alves - Poema Completo e An\u00e1lise\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"O Navio Negreiro, do poeta baiano Castro Alves, \u00e9 um poema que retrata os horrores da escravid\u00e3o no Brasil.\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/o-navio-negreiro-castro-alves\/\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Literatura Online\" \/>\n<meta property=\"article:author\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=100043804593210\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2023-04-04T05:50:07+00:00\" \/>\n<meta property=\"article:modified_time\" content=\"2026-05-23T22:00:36+00:00\" \/>\n<meta property=\"og:image\" content=\"https:\/\/literaturaonline.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/O-Navio-de-Negreiro-de-Castro-Alves-1.jpg\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:width\" content=\"799\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:height\" content=\"537\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:type\" content=\"image\/jpeg\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Alexandre Garcia Peres\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Alexandre Garcia Peres\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. tempo de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"11 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":[\"Article\",\"BlogPosting\"],\"@id\":\"https:\\\/\\\/literaturaonline.com.br\\\/blog\\\/o-navio-negreiro-castro-alves\\\/#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/literaturaonline.com.br\\\/blog\\\/o-navio-negreiro-castro-alves\\\/\"},\"author\":{\"name\":\"Alexandre Garcia Peres\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/literaturaonline.com.br\\\/blog\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/c9a9c53a80bc6508d64423b712739c41\"},\"headline\":\"O Navio Negreiro, de Castro Alves &#8211; 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