O Prêmio Nobel de Literatura já deixou de ser entregue sete vezes desde 1901: em 1914, 1918, 1935 e nos quatro anos seguidos de 1940 a 1943. Em outras duas ocasiões, 1949 e 2018, o anúncio foi adiado e o vencedor só foi conhecido no ano seguinte. Os motivos vão das duas guerras mundiais a uma regra pouco conhecida do estatuto da Fundação Nobel e a um escândalo de abuso sexual que abalou a Academia Sueca.
Até 2025, segundo a página de estatísticas da Fundação Nobel, foram entregues 118 prêmios de literatura a 122 escritores (quatro edições premiaram duas pessoas: 1904, 1917, 1966 e 1974). O de 2026, que será o 119º, tem anúncio marcado para esta quinta-feira, 8 de outubro.
A regra que permite deixar o Nobel sem vencedor
O estatuto da Fundação Nobel prevê que nenhum prêmio é obrigatório. O parágrafo 5 do estatuto diz que uma obra só pode ser premiada se tiver a “importância extraordinária” que Alfred Nobel pretendia em seu testamento. Se nenhuma das indicadas atingir esse nível, o dinheiro do prêmio fica reservado para o ano seguinte. Se, mesmo assim, ninguém for escolhido, o valor volta para os fundos da instituição.
Foi essa regra que permitiu as lacunas da lista. Em todas as edições sem vencedor, a fundação registra apenas para onde foi o dinheiro: na de 1914, por exemplo, a página oficial informa que o valor foi destinado ao fundo especial da categoria.
As guerras mundiais e os anos sem prêmio
A Primeira Guerra Mundial explica 1914 e 1918. Segundo o histórico das indicações publicado pela Fundação Nobel, os prêmios de 1914, 1915, 1918 e 1919 foram reservados para o ano seguinte. Os de 1915 e 1919 acabaram entregues (ao francês Romain Rolland e ao suíço Carl Spitteler), mas os de 1914 e 1918 nunca tiveram dono, e o dinheiro foi reinvestido.
A Segunda Guerra Mundial produziu o maior intervalo da história do prêmio. Depois da vitória do finlandês Frans Eemil Sillanpää, em 1939, os anúncios foram suspensos de 1940 a 1943. O comitê da Academia Sueca continuou trabalhando nesse período e chegou a propor o nome da chilena Gabriela Mistral em 1940 e em 1942. Ela só ganharia em 1945, quando foi sugerida pela terceira vez, e se tornou a primeira pessoa da América Latina a receber o Nobel de Literatura.
1935, o ano sem explicação
A edição de 1935 é a única sem vencedor fora dos anos de guerra. A página da Fundação Nobel sobre aquele ano não dá motivo: informa apenas que um terço do valor foi para o fundo principal e dois terços para o fundo especial da categoria. A leitura mais comum é a aplicação direta do parágrafo 5 (nenhum indicado foi considerado à altura), mas a instituição nunca publicou uma justificativa formal.
Faulkner, o vencedor que esperou um ano
Em 1949 a Academia Sueca não chegou a um consenso a tempo. O comitê concluiu que nenhuma indicação atendia aos critérios do testamento e usou a regra da reserva. No ano seguinte, o americano William Faulkner, autor de O Som e a Fúria, recebeu o prêmio referente a 1949, entregue em 1950 junto com o daquele ano, que foi para o britânico Bertrand Russell.
O escândalo de 2018
O adiamento mais recente não teve relação com a qualidade dos indicados. Em 2018, a Academia Sueca enfrentou a pior crise de sua história depois que o fotógrafo francês Jean-Claude Arnault, casado com a poeta Katarina Frostenson, integrante da Academia, foi acusado de assédio e abuso sexual por várias mulheres. Ao mesmo tempo, surgiram suspeitas de que nomes de vencedores tinham vazado antes dos anúncios.
A crise levou à saída da secretária permanente, Sara Danius, em abril daquele ano, e ao afastamento de cerca de sete dos 18 membros, segundo a NPR. Em 4 de maio de 2018, a instituição anunciou que não entregaria o prêmio daquele ano. “A decisão foi tomada tendo em vista a Academia atualmente reduzida e a menor confiança do público na Academia”, afirmou a entidade em comunicado (em tradução livre).
Arnault foi condenado por estupro pela Justiça sueca em outubro de 2018. Em março de 2019, a Fundação Nobel confirmou que o prêmio voltaria a ser concedido, com dois nomes de uma vez. Em 10 de outubro de 2019, a Academia anunciou a polonesa Olga Tokarczuk como vencedora de 2018 e o austríaco Peter Handke como vencedor de 2019.
Quem recusou, quem foi obrigado a recusar e quem ganhou depois de morrer
A lista de 118 prêmios inclui dois escritores que não aceitaram a honraria, e a fundação continua contando os dois como laureados. O francês Jean-Paul Sartre recusou o prêmio de 1964 porque sempre rejeitava distinções oficiais, uma decisão que explicamos em detalhes no texto sobre por que Sartre recusou o Nobel.
O caso do russo Boris Pasternak, autor de Doutor Jivago, foi diferente. Premiado em 1958, ele primeiro aceitou e, dias depois, foi pressionado pelo governo soviético a desistir. Os dois telegramas que mandou à Academia estão na página do prêmio de 1958. No primeiro, de 25 de outubro, escreveu: “Imensamente grato, tocado, orgulhoso, surpreso, envergonhado”. No segundo, de 29 de outubro: “Considerando o significado que este prêmio recebeu na sociedade à qual pertenço, devo rejeitar este prêmio imerecido que me foi concedido”.
Há ainda o único Nobel de Literatura póstumo. O poeta sueco Erik Axel Karlfeldt, que era secretário permanente da própria Academia, morreu em abril de 1931 e foi premiado meses depois, porque havia sido indicado antes de morrer, o que as regras da época permitiam. Desde 1974, o estatuto proíbe prêmios póstumos, a não ser que o vencedor morra depois do anúncio.
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