A Câmara Brasileira do Livro (CBL) divulgou na quarta-feira (14) os finalistas do Prêmio Jabuti 2026, a 68ª edição da premiação. São cinco livros em cada uma das 23 categorias, e os vencedores serão conhecidos em 27 de outubro, na Sala São Paulo, em cerimônia para convidados com transmissão ao vivo pelo canal da CBL no YouTube. Na mesma noite sai o Livro do Ano, principal distinção do prêmio, que nesta edição passa a incluir os livros de estreia.
O destaque de Romance literário é o encontro de nomes já premiados: Itamar Vieira Junior concorre com Coração sem medo, que fecha a trilogia iniciada por Torto arado, ao lado de Milton Hatoum, Eliana Alves Cruz, Aline Bei e Evandro Affonso Ferreira. A poeta Adélia Prado está entre os finalistas de Poesia, e o historiador Leandro Karnal aparece em Saúde e Bem-estar. Ao todo, a edição recebeu 4.675 obras e projetos inscritos.
O que mudou nas regras do Livro do Ano
O Livro do Ano não tem inscrição própria. Pelo regulamento da 68ª edição, ele vai para a obra mais bem classificada entre as categorias dos eixos Literatura e Não Ficção. Em cada categoria, cada jurado escolhe 13 títulos e os ordena do 1º ao 13º lugar; cada posição vale uma nota, e o livro com a melhor soma vence. Os jurados são indicados por consulta pública e aprovados pela curadoria, e o resultado fica em sigilo, sob controle de uma auditoria, até a cerimônia.
A novidade de 2026 é que, pela primeira vez, os vencedores de Escritor Estreante (nas modalidades Poesia e Romance) passam a disputar o Livro do Ano. Até a edição passada, essas duas categorias, criadas para autores que publicam o primeiro livro, ficavam de fora da disputa principal. Segundo o comunicado da CBL, a mudança amplia “a possibilidade de reconhecimento também para autores em início de trajetória”.
O vencedor do Livro do Ano recebe a estatueta especial e R$ 70 mil, além de uma viagem paga pela CBL para participar de uma das quatro grandes feiras internacionais do livro em 2027, à escolha do autor: Londres, Bolonha (voltada ao público infantil e juvenil), Frankfurt ou Guadalajara. Os vencedores de cada categoria levam a estatueta e R$ 5 mil. Em 2025, o Livro do Ano foi O ouvidor do Brasil: 99 vezes Tom Jobim, de Ruy Castro, que volta a ser finalista em 2026, em Biografia e Reportagem, com Trincheira tropical: a Segunda Guerra Mundial no Rio.
“Um prêmio com 68 edições só permanece relevante se souber preservar sua história sem ficar prisioneiro dela. Os finalistas deste ano mostram isso: temos autores estreantes ao lado de trajetórias consolidadas”, afirmou o curador Hubert Alquéres no comunicado. A presidente da CBL, Sevani Matos, afirmou, segundo a Agência Brasil, que o Jabuti “tem um papel importante nesse reconhecimento e em dar visibilidade aos profissionais que fazem parte de toda a cadeia do livro”.
Os finalistas de Romance literário e Poesia
Itamar Vieira Junior pode chegar ao terceiro Jabuti. O escritor baiano venceu em 2020 com Torto arado e em 2024, na categoria Romance literário, com Salvar o fogo. Coração sem medo, publicado pela Todavia, completa a trilogia e leva a história do campo para a cidade: a protagonista, Rita Preta, procura o filho desaparecido em Salvador, num enredo que trata de violência e desigualdade racial.
Milton Hatoum concorre com Dança de enganos (Companhia das Letras), último volume da trilogia O lugar mais sombrio, que começou com A noite da espera (2017) e Pontos de fuga (2019). Depois de dois livros narrados por Martim, quem conta a história agora é Lina, a mãe dele, a partir do fim dos anos 1960, com a ditadura militar como pano de fundo.
Aline Bei está na disputa com Uma delicada coleção de ausências (Companhia das Letras), romance sobre três gerações de mulheres: a neta Laura, a avó Margarida, que lê mãos numa feira de antiguidades, e a bisavó Filipa, que chega para morar com as duas. É o livro seguinte a O peso do pássaro morto e Pequena coreografia do adeus. Eliana Alves Cruz concorre com Meridiana (Companhia das Letras), sobre a ascensão de uma família negra que sai da favela para a classe média, contada por seis narradores; o livro venceu em junho o Prêmio Guimarães Rosa da Academia Brasileira de Letras de melhor ficção de 2025. Completa a lista Vez em quando, Billie Holiday, de Evandro Affonso Ferreira (Record).
Em Poesia, Adélia Prado concorre com O jardim das oliveiras (Record), seu primeiro livro de poemas inéditos em mais de uma década, publicado depois de a autora mineira receber, em 2024, o Prêmio Camões e o Prêmio Machado de Assis. Os outros finalistas da categoria são A dança áspera das raízes, de Bárbara Mançanares (Praga); Antes de dar nomes ao mundo, de Adriana Lisboa (Relicário); Boris e Marina, de Alberto Martins (Companhia das Letras); e Diáspora não é lar, de Nina Rizzi (Pallas).
Finalistas das outras categorias de literatura
A lista oficial mantém a ordem alfabética dos títulos, sem indicar classificação. Nas demais categorias do eixo Literatura, os finalistas são:
- Conto: Corpo estranho: ferida fechada com a lâmina dentro, de Marcos Vinicius de Paula (Viseu); Massaranduba, de Abáz (Senac Rio); Minha estranha loucura, de Evandro Luiz da Conceição (Todavia); Nego tudo: ficções súbitas, de Andréa del Fuego (Companhia das Letras); Tranças de meninas: contos, de João Anzanello Carrascoza (Alfaguara).
- Crônica: A sangue quente: crônicas cariocas, de Hermés Galvão (Labrador); Aproveitar a vida e suas dores, de Contardo Calligaris, indicado em memória (Planeta do Brasil); Histórias miseráveis, de José Castello (Maralto); Lugares para chorar no Recife e outros, de DJ Dolores (Seja Breve Edições); Viagem no país da crônica, de Humberto Werneck (Tinta-da-China Brasil).
- Escritor Estreante, Romance: Cantagalo, de Fernanda Teixeira Ribeiro (Todavia); Horas azuis, de Bruna Dantas Lobato (Companhia das Letras); Índigo, de Juca Magalhães (Impressões de Minas); Pitangas verdes, de Mariana Lobato Botter (Labrador); Sutura, de Roberta Barbosa (Patuá).
- Escritor Estreante, Poesia: História a que ninguém deu nome, de Juliana Cajives (Mormaço Editorial); Lavra mareia, de Camila Paoletti (Patuá); O silêncio é a música mais antiga do mundo, de Kalu Coelho (Patuá); Radiografia das árvores, de Ivana Fontes (Cachalote); Resto, de George França (Urutau).
- Histórias em Quadrinhos: Daruma: identidade, de Monge Han (Pitaya); Ouroboros, de Luckas Iohanathan (Comix Zone); Reparações, de Marcelo Lelis (Figura); Segue o baile, de Magô Pool (Veneta); Você precisa saber de mim, de Helena Cunha (nVersos).
- Romance de Entretenimento: Aranha movediça, de Moacir Fio (Moinhos); Cartografia para caminhos incertos, de Ian Fraser (Intrínseca); Instruções para desaparecer devagar, de Flávia Iriarte (Faria e Silva); Moeda de troca, de Lucas Mota (Rocco); O tesouro de Joaquim Nabuco, de Fernando Lomardo (obra independente).
No eixo Não Ficção, Leandro Karnal concorre em Saúde e Bem-estar com O dilema das galinhas felizes: diálogos sobre a ciência da felicidade, escrito com Gustavo Arns (Record). Em Tradução, um dos finalistas é a tradução de Os irmãos Karamázov, de Fiódor Dostoiévski, assinada por Cecília Rosas e Lucas Simone (Penguin-Companhia das Letras).
A edição estreia ainda a categoria Incentivo à Leitura, Cultura Digital, para criadores de conteúdo sobre livros. Os jurados escolheram dez semifinalistas e o voto popular, encerrado em 9 de outubro, definiu os cinco finalistas: os perfis @biblion.app, @bookster, @camillaeseuslivros e @impressoesdemaria, no Instagram, e o canal Resenhando Sonhos, no YouTube.
A lista final reduz à metade a seleção de semifinalistas do Jabuti 2026, divulgada em 29 de setembro com dez livros por categoria. O designer Vicente Pessôa, que voltou ao Jabuti após ter sido desclassificado em 2023 por uso de inteligência artificial, estava entre os semifinalistas de Capa com a edição de O idiota, mas não ficou entre os cinco finalistas da categoria. Criado em 1958, o Jabuti, conhecido como o Oscar da literatura brasileira, homenageia nesta edição a escritora Lygia Bojunga como Personalidade Literária.
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