“Ao vencedor, as batatas.”
Parece estranho, não? Relacionar vitória com batatas soa quase cômico. Mas essa frase carrega uma das críticas mais afiadas da literatura brasileira. Ela vem do romance Quincas Borba (1891), de Machado de Assis, e funciona como porta de entrada para entender a ironia mordaz do autor sobre nossa sociedade.
Vamos destrinchar essa história e ver por que Machado escolheu justamente batatas para falar de poder, egoísmo e competição.
Origem da expressão “Ao vencedor, as batatas”
A frase nasce da cabeça de Quincas Borba, o personagem que inventa uma filosofia maluca chamada Humanitismo. Machado já havia apresentado esse filósofo excêntrico em Memórias Póstumas de Brás Cubas, mas é em Quincas Borba que a teoria ganha forma.
A sentença completa que Quincas Borba solta para Rubião, seu amigo e depois herdeiro, é esta:
“Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas.”
Mas o que diabos significa isso? Para entender, precisamos mergulhar na tal filosofia do Humanitismo.
O que é o Humanitismo, filosofia por trás das batatas
Quincas Borba cria o Humanitismo baseado na ideia de que existe um princípio único no universo: o Humanitas. Segundo ele, tudo é manifestação desse Humanitas, que nunca morre de verdade, apenas muda de forma.
A partir daí, ele constrói um raciocínio que, convenhamos, é perturbador: se não existe morte real, só transformação, então não há problema em eliminar quem está no caminho. A guerra? Melhor que a paz! Por quê? Porque garante que pelo menos um lado sobreviva.
Machado está, obviamente, zoando. O Humanitismo é uma sátira pesada ao Darwinismo Social e ao Positivismo que estavam em alta no século XIX. Essas correntes defendiam o progresso e a “seleção natural” aplicada à sociedade, e Machado mostra como esse pensamento é absurdo e pode ser usado para justificar barbaridades.
A alegoria das tribos e o campo das batatas
Para explicar sua teoria, Quincas Borba conta uma parábola:
Imagine duas tribos famintas diante de um campo de batatas. Só que as batatas não dão para as duas.
Se elas resolverem dividir tudo pacificamente, ambas vão passar fome, enfraquecer e morrer. A paz, nesse caso, leva à extinção de todos.
Mas se uma tribo exterminar a outra, os vencedores comem as batatas, recuperam as forças e seguem em frente. A guerra, portanto, “conserva” a vida, pelo menos a vida de alguns.
As batatas aqui não são só comida. São recursos, dinheiro, poder, tudo aquilo que as pessoas disputam na sociedade. E quem vence leva tudo. Simples assim. E brutal.
Rubião e a aplicação prática do Humanitismo
O romance não fica só na teoria. Rubião é a prova viva (e depois morta) de como o Humanitismo funciona; ou melhor, não funciona.
Esse professor do interior herda a fortuna de Quincas Borba e vira, teoricamente, um “vencedor”. Tem as batatas na mão. Mas aí vem o problema: Rubião é ingênuo demais para o jogo social carioca.
Pessoas como Cristiano Palha e sua esposa Sofia percebem isso rapidamente e começam a sugá-lo. Aos poucos, Rubião perde dinheiro, perde o juízo e termina na miséria. De vencedor, vira vencido.
Machado mostra que a luta nunca acaba. Você pode ter as batatas hoje, mas se não for esperto o suficiente, alguém tira elas de você amanhã.
O verdadeiro significado de “Ao vencedor, as batatas”
“Ao vencedor, as batatas” não é um elogio. É uma constatação amarga.
Machado observa que, por baixo de toda a nossa civilização e boas maneiras, funciona uma lógica brutal: cada um por si. O interesse próprio sempre vence. E as pessoas que prosperam não são necessariamente as mais justas ou bondosas: são as mais espertas, as mais implacáveis.
Ao usar “batatas”, algo tão comum, Machado tira qualquer romantismo da vitória. Não estamos falando de glória, heroísmo ou nobreza. Estamos falando de sobrevivência rasteira. De conseguir o seu pedaço, nem que para isso você precise passar por cima de alguém.
A atualidade da frase de Machado de Assis
Bom, olhe ao redor. A frase de Machado continua atual porque a dinâmica que ele descreve nunca saiu de moda.
No mercado de trabalho, na política, nas redes sociais, sempre tem alguém disputando as “batatas”. E muitas vezes, quem leva não é o mais qualificado, mas o que joga melhor o jogo.
Machado tinha um olhar cirúrgico para a natureza humana. Ele sabia que progresso tecnológico e discurso civilizado não mudam o que há de mais básico nas pessoas: o impulso de garantir o próprio bem-estar, mesmo que isso signifique prejudicar outros.
Ler Machado é desconfortável porque é honesto. Ele não dá respostas fáceis nem finais felizes forçados. Mas justamente por isso vale a pena: ele nos faz pensar de verdade sobre como vivemos e por que agimos como agimos.
E convenhamos: se ele escreveu isso há mais de 130 anos e ainda parece que foi ontem, talvez seja hora de refletir sobre o que mudou — e o que definitivamente não mudou.
