O amor é aquele assunto que a gente nunca consegue explicar direito, e talvez seja exatamente por isso que tantos escritores, poetas e músicos insistem em tentar. É sentimento, é desejo, é cuidado… ou é tudo isso misturado? Vamos percorrer 5 poemas que olham para o amor de jeitos bem diferentes. Do romântico exagerado ao intenso quase doloroso, cada um traz uma pista sobre o que esse sentimento pode ser, ou, pelo menos, sobre como ele pode ser sentido.
1. “As sem-razões do amor” – Carlos Drummond de Andrade
Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.Eu te amo porque não amo
bastante ou de mais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.
Drummond não tenta dar uma fórmula. Pelo contrário: seu poema já começa deixando claro que amar não precisa de justificativa. É “dado de graça”, escapa a regras e dicionários, e, mesmo quando tentam destruí-lo, o amor resiste.
É como um estado de graça, livre de explicações e trocas. É o amor que existe por existir, autossuficiente, que não precisa se sustentar em nada além de si. A sensação é liberdade e aceitação do amor como mistério.
2. “Futuros amantes” – Chico Buarque
Não se afobe, não
Que nada é pra já
O amor não tem pressa
Ele pode esperar em silêncio
Num fundo de armário
Na posta-restante
Milênios, milênios
No arE quem sabe, então
O Rio será
Alguma cidade submersa
Os escafandristas virão
Explorar sua casa
Seu quarto, suas coisas
Sua alma, desvãosSábios em vão
Tentarão decifrar
O eco de antigas palavras
Fragmentos de cartas, poemas
Mentiras, retratos
Vestígios de estranha civilizaçãoNão se afobe, não
Que nada é pra já
Amores serão sempre amáveis
Futuros amantes, quiçá
Se amarão sem saber
Com o amor que eu um dia
Deixei pra você
Chico Buarque imagina um amor guardado no tempo, que atravessa décadas, séculos ou até milênios para ser encontrado por outros. Mesmo quando tudo mudar, até o Rio virar uma cidade submersa, o sentimento estará lá, esperando. Aqui o amor pode ser um legado, algo que não morre com a gente, que fica na memória e pode florescer em outros, mesmo sem saberem de onde veio.
3. “Amar você é coisa de minutos…” – Paulo Leminski
Amar você é coisa de minutos
A morte é menos que teu beijo
Tão bom ser teu que sou
Eu a teus pés derramado
Pouco resta do que fui
De ti depende ser bom ou ruim
Serei o que achares conveniente
Serei para ti mais que um cão
Uma sombra que te aquece
Um deus que não esquece
Um servo que não diz não
Morto teu pai serei teu irmão
Direi os versos que quiseres
Esquecerei todas as mulheres
Serei tanto e tudo e todos
Vais ter nojo de eu ser isso
E estarei a teu serviço
Enquanto durar meu corpo
Enquanto me correr nas veias
O rio vermelho que se inflama
Ao ver teu rosto feito tocha
Serei teu rei teu pão tua coisa tua rocha
Sim, eu estarei aqui
O eu lírico se coloca à disposição total do outro, disposto a ser tudo e todos, até que isso se torne demais. É amor que queima rápido, mas intenso o suficiente para deixar marca. Leminski enxerga o amor como uma paixão que consome e redefine quem somos. Um sentimento que não mede limites, mas que também carrega certa ironia sobre se entregar tanto.
4. “Amor” – Álvares de Azevedo
Amemos! Quero de amor
Viver no teu coração!
Sofrer e amar essa dor
Que desmaia de paixão!
Na tu’alma, em teus encantos
E na tua palidez
E nos teus ardentes prantos
Suspirar de languidez!
Quero em teus lábio beber
Os teus amores do céu,
Quero em teu seio morrer
No enlevo do seio teu!
Quero viver d’esperança,
Quero tremer e sentir!
Na tua cheirosa trança
Quero sonhar e dormir!
Vem, anjo, minha donzela,
Minha’alma, meu coração!
Que noite, que noite bela!
Como é doce a viração!
E entre os suspiros do vento
Da noite ao mole frescor,
Quero viver um momento,
Morrer contigo de amor!
O romantismo de Azevedo é puro drama e devoção. É o amor idealizado, que suspira, sonha, quer viver e morrer nos braços da pessoa amada. Aqui, o amor é quase um destino inevitável, cheio de lirismo e exagero. Sendo uma experiência total, onde dor e prazer se confundem, e cada gesto é eternizado na memória.
5. “Beijo Eterno” – Castro Alves
Quero um beijo sem fim,
Que dure a vida inteira e aplaque o meu desejo!
Ferve-me o sangue. Acalma-o com teu beijo,
Beija-me assim!
O ouvido fecha ao rumor
Do mundo, e beija-me, querida!
Vive só para mim, só para a minha vida,
Só para o meu amor!Fora, repouse em paz
Dormindo em calmo sono a calma natureza,
Ou se debata, das tormentas presa,
Beija inda mais!
E, enquanto o brando calor
Sinto em meu peito de teu seio,
Nossas bocas febris se unam com o mesmo anseio,
Com o mesmo ardente amor!Diz tua boca: “Vem!”
Inda mais! diz a minha, a soluçar… Exclama
Todo o meu corpo que o teu corpo chama:
“Morde também!”
Ai! morde! que doce é a dor
Que me entra as carnes, e as tortura!
Beija mais! morde mais! que eu morra de ventura,
Morto por teu amor!Quero um beijo sem fim,
Que dure a vida inteira e aplaque o meu desejo!
Ferve-me o sangue: acalma-o com teu beijo!
Beija-me assim!
O ouvido fecha ao rumor
Do mundo, e beija-me, querida!
Vive só para mim, só para a minha vida,
Só para o meu amor!
Por fim, Castro Alves transforma o desejo em poema. Um amor que não tem medo do físico, que une beijos, mordidas, calor e urgência. Aqui, a intensidade é tanta que beira o insuportável, e é justamente isso que o torna irresistível. Alves vê o amor como uma paixão carnal que mistura prazer e dor, onde o corpo é tão protagonista quanto o sentimento.
