5 Poemas de Fernando Pessoa Sobre a Vida

Falar de vida nos poemas de Fernando Pessoa é como mergulhar num oceano profundo, onde cada camada revela uma nova dúvida, uma nova sensação, um novo vazio. Em suas muitas vozes, seja como ele mesmo, seja por meio de seus heterônimos (seus outros nomes de publicação), Pessoa olhava para a vida com olhos que sabiam sentir, mas também sabiam pensar demais.

Destacamos aqui cinco poemas em que a vida aparece como tema central. Mas não espere respostas prontas. O que você vai encontrar são reflexões, angústias, saudades e questionamentos que continuam atuais, porque tocam em algo que ainda nos inquieta: o que, afinal, é viver?

1 – Aqui está-se sossegado, de Fernando Pessoa

Aqui está-se sossegado,
Longe do mundo e da vida,
Cheio de não ter passado,
Até o futuro se olvida.

Aqui está-se sossegado.
Tinha os gestos inocentes,
Seus olhos riam no fundo.
Mas invisíveis serpentes
Faziam-na ser do mundo.

Tinha os gestos inocentes.
Aqui tudo é paz e mar.
Que longe a vista se perde
Na solidão a tornar
Em sombra o azul que é verde!

Aqui tudo é paz e mar.
Sim, poderia ter sido…
Mas vontade nem razão
O mundo têm conduzido
A prazer ou conclusão.

Sim, poderia ter sido…
Agora não esqueço e sonho.
Fecho os olhos, ouço o mar
E de ouvi-lo bem, suponho
Que veio azul a esverdear.

Agora não esqueço e sonho.
Não foi propósito, não.
Os seus gestos inocentes
Tocavam no coração
Como invisíveis serpentes.

Não foi propósito, não.
Durmo, desperto e sozinho.
Que tem sido a minha vida?
Velas de inútil moinho —
Um movimento sem lida…

Durmo, desperto e sozinho.
Nada explica nem consola.
Tudo está certo depois.
Mas a dor que nos desola,
A mágoa de um não ser dois
Nada explica nem consola.

Neste poema, o eu lírico parece buscar paz, mas o que encontra é lembrança. A repetição de versos, como uma onda que vai e volta, nos coloca num estado quase hipnótico e doloroso. O mar, que aparece como símbolo de tranquilidade, contrasta com o movimento interno de quem lembra o que poderia ter sido.

Os “gestos inocentes” e as “invisíveis serpentes” indicam que mesmo a pureza está contaminada por algo maior, inevitável. O passado pesa. O presente parece uma sombra. E o futuro… quase se apaga.

2 – A morte chega cedo, de Fernando Pessoa

A morte chega cedo,
Pois breve é toda vida
O instante é o arremedo
De uma coisa perdida.

O amor foi começado,
O ideal não acabou,
E quem tenha alcançado
Não sabe o que alcançou.

E tudo isto a morte
Risca por não estar certo
No caderno da sorte
Que Deus deixou aberto.

Com poucos versos, Fernando Pessoa vai direto ao ponto: a vida é breve, falha e, no fim, não garante nada. O poema desmonta a ideia de que o tempo resolve, de que o esforço compensa ou de que há um plano definido para tudo.

Frases como “quem tenha alcançado / não sabe o que alcançou” mostram que mesmo quando parece que vencemos, há sempre um vazio que segue ali. A morte, com sua pontualidade silenciosa, apaga tudo que parecia importante.

3 – Tenho tanto sentimento, de Fernando Pessoa

Tenho tanto sentimento
Que é frequente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal.

Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.

Qual porém é a verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar.

Pessoa começa o poema quase confessando algo: ele sente tanto que às vezes acha que é sentimental. Mas, ao se observar melhor, percebe que sente com a cabeça, e não tanto com o coração.

Essa é a tensão central do poema. Existe a vida que a gente vive, e existe a vida que a gente pensa. E raramente as duas caminham juntas. A dúvida que surge é: qual dessas vidas é a verdadeira?

5 – Dorme, que a vida é nada!, de Fernando Pessoa

Dorme, que a vida é nada!
Dorme, que tudo é vão!
Se alguém achou a estrada,
Achou-a em confusão,
Com a alma enganada.

Não há lugar nem dia
Para quem quer achar,
Nem paz nem alegria
Para quem, por amar,
Em quem ama confia.

Melhor entre onde os ramos
Tecem docéis sem ser
Ficar como ficamos,
Sem pensar nem querer,
Dando o que nunca damos.

Aqui, Pessoa propõe um tipo de fuga. Uma rendição. Um desligamento. Em vez de buscar sentido na vida, que segundo ele “é nada”, o eu lírico sugere o contrário: parar de buscar, parar de querer, parar de esperar.

É um poema niilista, mas também protetor. Dormir, aqui, não é apenas repousar. É evitar o sofrimento de um mundo que engana, confunde e não entrega o que promete. A recusa ao amor, à fé, à busca por respostas não é necessariamente desesperança. É, talvez, uma tentativa de autopreservação. Uma maneira de continuar existindo sem quebrar por dentro.

5 – A perda do pai (Aniversário), de Fernando Pessoa

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Este é um dos poemas mais tocantes e pessoais de Pessoa. Escrito muitos anos após a morte do pai, ele resgata uma memória que atravessa o tempo: o dia de seu aniversário, quando completou cinco anos, e o pai ,já doente, não estava lá.

No poema, a infância aparece como um lugar quase sagrado, onde tudo fazia sentido. A felicidade era simples, natural, sem grandes expectativas. Mas com o tempo, e com a perda, essa clareza se desfaz.

A ausência do pai se transforma na ausência de sentido. O eu lírico diz: “quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida”. O que era festa vira silêncio. O que era esperança vira desilusão. E o que era vida vira apenas tempo passando.

Leia também: Todas as cartas de amor são ridículas, de Fernando Pessoa – Análise

You may also like...

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

O que se aprende no curso de Letras? 5 livros de Cozy Fantasy para escapar da realidade Os 7 Melhores Livros do Kindle Unlimited Teoria liga Anne Hathaway a William Shakespeare 5 obras da Literatura Gótica que você precisa conhecer